“É
imprescindível superar os preconceitos racistas”, diz professores italianos
Elodie
Edwards-Grossi e Delphine Peiretti-Courtis enfatizam desde o início que o
racismo científico e médico está “longe de ter desaparecido”. Herdado da
história colonial e escravista, ele “permeou os tempos e ainda tem um impacto
significativo” hoje em pacientes racializados, que são expostos a preconceitos
raciais prejudiciais. Embora esse fenômeno permaneça em grande parte oculto, a
socióloga e a historiadora, em seu livro mais recente, Le Racisme scientifique
et médical, du XIXe siècle à nos jours (O racismo científico e médico: do
século XIX aos dias atuais), editado em fevereiro pela PUF, buscam lançar luz
sobre seus mecanismos de produção, circulação e ressurgimento, a fim de mudar o
status quo no mundo da medicina.
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Eis a entrevista.
• Na introdução do livro, vocês constatam
um “ressurgimento de estereótipos biológicos direcionados a pessoas
racializadas, que remetem às principais teorias do racismo científico do século
XIX”. Como isso se manifesta?
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Élodie Edwards-Grossi: O que observamos foi, em primeiro lugar, a circulação
nas redes sociais de estereótipos relacionados ao corpo. Por exemplo, um mapa
que mostra supostas diferenças de QI com base em áreas geográficas
(originalmente produzido por um psicólogo britânico altamente controverso,
Richard Lynn) circulou em inúmeras contas, principalmente nas da
extrema-direita.
Mas o
que aparece nas redes sociais é apenas um reflexo dos discursos presentes na
sociedade. Esses mesmos discursos também são encontrados – embora formulados de
maneira diferente – entre alguns profissionais da saúde que continuam
acreditando que existe uma base biológica para as categorias raciais. Na
medicina, essa ideia gira em torno da “síndrome mediterrânea”, uma crença
errônea que sugere que pessoas do Norte da África e da África Subsaariana
exageram sua dor.
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Delphine Peiretti-Courtis: Outro exemplo marcante vem de Donald Trump, que
emprega uma retórica herdada do século XIX, especialmente a ideia de que o
sangue dos imigrantes contamina a população estadunidense. Esse tipo de
discurso também é encontrado entre supremacistas brancos que buscam reativar o
conceito de raça na ciência.
Sem
generalizar a persistência ou o ressurgimento de estereótipos raciais a todos
os cientistas, algumas pesquisas atuais – especialmente na genética ou em torno
de testes de QI – reativam a teoria da existência de raças biológicas. Esse
fenômeno é especialmente pronunciado nos Estados Unidos, mas também existe na
Europa. Alguns cientistas são colocados no ostracismo quando endossam esse tipo
de ideia herdada da era colonial, mas, mesmo assim, alcançam certo grau de
sucesso. Eles afirmam produzir ciência “de verdade”, em oposição a uma ciência
considerada ideológica e politicamente correta – o tipo que desconstruiu a
ideia de raças humanas biológicas.
• Esses preconceitos raciais têm
repercussões dramáticas no atendimento aos pacientes. Uma pesquisa realizada em
2024 com 1.500 profissionais da saúde de salas de emergência na França,
Bélgica, Suíça e Mônaco revelou que, com sintomas idênticos, 63% dos homens
brancos foram internados em unidades de terapia intensiva, em comparação com
apenas 42% das mulheres negras…
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Delphine Peiretti-Courtis: Este estudo demonstra claramente que, em situações
de emergência, os estereótipos raciais – às vezes agravados por estereótipos de
gênero – podem ser mobilizados, muitas vezes sem que os profissionais da saúde
estejam totalmente cientes de seus próprios preconceitos.
#
Élodie Edwards-Grossi: O problema é que essa negligência com a dor leva algumas
pessoas a se autoexcluírem das instituições de saúde. Esse mecanismo é
especialmente visível nos Estados Unidos, onde medicamentos como o BiDil (um
tratamento para insuficiência cardíaca) foram desenvolvidos pela indústria
farmacêutica estadunidense com uma estratégia de marketing voltada
principalmente para afro-americanos. Alguns pacientes antecipam esse tipo de
tratamento diferenciado ou prescrições específicas e, por essa razão, preferem
se afastar do sistema de saúde, correndo o risco de perder cuidados vitais.
• Para que os estereótipos raciais
existam, eles precisam de um “vazio epistemológico” que, como vocês explicam,
perpetua a “produção da ignorância”. Por que esse vazio persiste ainda hoje?
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Élodie Edwards-Grossi: Porque o conhecimento médico ainda é predominantemente
produzido por pessoas brancas. A maioria, senão todos, dos autores estudados em
nosso livro são homens brancos que ocuparam posições de autoridade em
instituições médicas e científicas reconhecidas antes de serem, em alguns
casos, colocados no ostracismo por causa de suas ideias.
Embora
a produção da ignorância seja certamente obra de pessoas brancas, indiferentes
aos sofrimentos de pessoas de cor, ela também decorre da forma como o aparato
estatal se recusa a produzir uma análise rigorosa das relações sociais de raça.
Na França, as estatísticas étnicas são proibidas, criando efetivamente um vazio
epistemológico. Sem as ferramentas necessárias, é estruturalmente difícil
analisar a discriminação, na saúde como em outros campos, deixando amplo espaço
para a persistência e a disseminação de crenças. Ora, é precisamente essa
ignorância que contribui para a contínua disseminação de estereótipos e teorias
nocivas na medicina e nas ciências naturais.
#
Delphine Peiretti-Courtis: Hoje, temos principalmente relatos de violências
médicas e ginecológicas ligadas à discriminação racial. Essas pesquisas e
narrativas, embora valiosas, ainda são insuficientes. Isso é especialmente
verdadeiro, visto que os afetados se sentem ignorados. A falta de pesquisas e
estatísticas étnico-raciais perpetua, portanto, o atendimento inadequado e uma
luta ineficaz contra a discriminação baseada na raça, na cultura ou na origem.
Isso é
especialmente visível na dermatologia, uma área em que a sub-representação de
pessoas negras dificulta o tratamento de doenças como eczema ou psoríase, cujas
manifestações são diferentes na pele negra. Um estudante de medicina nigeriano,
Chiedebere Ibe, relata nunca ter visto pele negra em seus livros didáticos de
medicina sobre doenças dermatológicas. Ele agora se dedica a criar ilustrações
para livros de medicina de modo a preencher essa lacuna.
#
Delphine Peiretti-Courtis: Mas houve alguns avanços: dentro da Sociedade
Francesa de Dermatologia, foi criado um grupo “Pele Negra” para abordar essas
deficiências e levar melhor em consideração essas especificidades. Hoje,
iniciativas desse tipo estão surgindo na comunidade médica para mudar essas
práticas e integrar melhor essas questões.
#
Élodie Edwards-Grossi: Nos últimos vinte anos, também temos visto vários
profissionais da saúde dialogando com pesquisadores de história e ciências
sociais para entender melhor como os determinantes sociais da saúde, como
classe e raça, influenciam a prestação de cuidados.
• Essas iniciativas ainda são marginais?
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Delphine Peiretti-Courtis: Embora algumas organizações, como a Migration Santé
Alsace, ofereçam formação sobre a história dos preconceitos raciais, a medicina
colonial e seus legados, e algumas faculdades de medicina também estejam
começando a integrar essas questões, esses tipos de iniciativas ainda são, em
grande parte, impulsionados pelos próprios profissionais da saúde.
Por
exemplo, a pneumologista Patricia Lemarchand entrou em contato comigo para
trabalhar no espirômetro, um instrumento para medir o volume de ar exalado
pelos pulmões que, ainda hoje, é calibrado de acordo com diferentes categorias
raciais (“caucasiano”, “africano”, “asiático” ou “outro”), usando
classificações herdadas do século XIX. Essas ferramentas atribuem uma
capacidade respiratória 15% menor a pessoas identificadas como negras. Esses
são legados diretos da escravidão, quando os corpos e as capacidades
respiratórias de indivíduos escravizados, que eram debilitados, eram medidos.
Esses
padrões, transmitidos dos Estados Unidos para a Europa, permanecem em uso até
hoje, muitas vezes sem que os profissionais da saúde tenham conhecimento de sua
origem. Eles podem levar à subestimação de certas patologias respiratórias nos
pacientes em questão, ao subestimar imediatamente sua capacidade vital.
#
Élodie Edwards-Grossi: Embora novas dinâmicas estejam surgindo, ligadas à maior
diversidade entre os profissionais da saúde, não existe, neste momento, uma
posição majoritária entre os principais órgãos médicos que reconheça plenamente
essas questões, seja na França ou nos Estados Unidos. Muitos estereótipos e
teorias persistem, sutilmente presentes em manuais, cursos e currículos.
• Que medidas concretas poderiam ser
tomadas para reduzir o racismo na área médica? Deveríamos começar reformando o
ensino médico?
#
Élodie Edwards-Grossi: Acredito que isso envolva, em particular, a quebra de
barreiras disciplinares para aprofundar o diálogo entre pesquisadores das
ciências biológicas e médicas, profissionais da saúde e pesquisadores das
ciências sociais que trabalham com relações raciais. O objetivo é permitir que
os profissionais da saúde compreendam tanto as origens como o ressurgimento
dessas práticas.
Certos
temas podem servir como pontes, especialmente as questões ambientais. No caso
de doenças como a asma, a exposição e o diagnóstico estão intimamente ligados
aos determinantes sociais da saúde: local de residência, proximidade de uma
fábrica ou rodovia, exposição a emissões tóxicas, etc. Essas questões convidam
os profissionais da saúde a prestarem mais atenção aos determinantes sociais e
abrem caminho para uma reavaliação da abordagem “puramente biológica”, ou seja,
a busca sistemática por causas genéticas para explicar as diferenças entre
populações.
#
Delphine Peiretti-Courtis: Na minha opinião, a formação é um ponto central. Ela
deve começar na faculdade de medicina, mas também continuar ao longo da
carreira profissional, a fim de destacar estereótipos que podem persistir, às
vezes inconscientemente. Todos fazemos parte de uma sociedade permeada por
preconceitos e discriminação racial; portanto, é essencial reconhecer que
podemos ser portadores desses preconceitos. Na área da saúde, onde vidas estão
em jogo, é imprescindível nos livrarmos desses preconceitos racistas. Isso
também requer uma conscientização mais ampla, tanto nas escolas quanto na
sociedade em geral, para desmantelar esses estereótipos.
É
também necessário desenvolver inquéritos estatísticos sobre as discriminações
raciais na medicina, a fim de avaliar a extensão do fenômeno e poder agir
eficazmente. Podem ser consideradas várias abordagens: questionários enviados
aos pacientes após as consultas para recolher informações sobre eventuais
experiências de discriminação, ou a criação de comissões de vigilância nas
unidades de saúde, com a missão de garantir a igualdade de tratamento. Tais
mecanismos já existem na Grã-Bretanha e no Canadá, sobretudo após dramas como o
vivido pela Joyce Echaquan (da tribo dos Atikamekw) em 2020, relacionado com a
subestimação da sua dor.
• Após séculos de preconceitos raciais,
será que a medicina pode realmente se reinventar no futuro?
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Delphine Peiretti-Courtis: Tudo depende da direção que a França tomar.
Atualmente, o que preocupa é um racismo descarado, um discurso liberal presente
na mídia, entre políticos, na sociedade, nas redes sociais, etc. O contexto,
portanto, é desfavorável a uma desconstrução efetiva de estereótipos e
discriminações, já que esses discursos são expressos com muita liberdade. Dito
isso, diante desse racismo descarado, grupos de resistência se organizam,
disponibilizando cada vez mais recursos para aprender sobre o assunto.
Em Pele
Negra, Máscaras Brancas (1952), o psiquiatra e ensaísta Frantz Fanon já
denunciava os estereótipos raciais na medicina e defendia a superação dessas
lógicas de categorização. Hoje, essas reflexões continuam em novas esferas.
Penso na conta do Instagram @tantquejeserainoire, apoiada especialmente pela
Tsipora Sidibé, que aborda o preconceito na saúde, oferecendo soluções
concretas, de uma perspectiva que considero esperançosa. O L'Observatoire
féministe des violences médicales (Observatório Feminista das Violências
Médicas) também é um recurso importante, oferecendo soluções para pessoas
racializadas que enfrentam violências em ambientes de saúde, especialmente em
relação a como agir e se proteger. Por fim, o livro curto e acessível de
Camille Aumont Carnel, Être raciste, c’est quoi? (O que é ser racista?),
aborda, entre outros temas, a violência ginecológica.
#
Élodie Edwards-Grossi: Um ponto positivo é a existência de canais para
disseminar essas análises, que começam a permear a ciência médica. Essas
questões estão agora mais visíveis e, à sua maneira, contribuem para a evolução
dos debates e das práticas. Penso de modo especial no podcast Kiffe ta race,
que não trata apenas da saúde ou da medicina, mas oferece uma reflexão
acessível sobre a construção de estereótipos racistas, suas origens e as formas
de racismo estrutural na França e no exterior.
Gostaria
também de mencionar um livro, ainda não traduzido para o francês: Medical
Bondage (University of Georgia Press, 2018), de Deirdre Cooper Owens. Este
livro revisita a história da ginecologia no século XIX, mostrando como certas
teorias e experimentos foram desenvolvidos nos corpos de mulheres escravizadas.
Ele lança luz, a partir de uma perspectiva histórica, sobre a violência
ginecológica contemporânea e os estereótipos que continuam a pesar sobre os
corpos negros, frequentemente marginalizados e tratados de forma diferente nas
práticas médicas.
Fonte:
Entrevista com Elodie Edwards-Grossi e Delphine Peiretti-Courtis por Emilie
Echaroux, no Usbek & Rica - tradução do Cepat, em IHU

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