A
gramática para impedir e diversidade alimentar
Em
plena madrugada de uma terça-feira recente, enquanto a maior parte da população
dormia, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 10556/18. O projeto, de
autoria da ex-deputada e atual senadora Tereza Cristina (PP-MS), conhecida como
“musa do veneno” desde os tempos em que integrava o governo Bolsonaro, pretende
proibir que produtos de origem vegetal utilizem denominações associadas a
carnes ou laticínios. Segundo a proposta, expressões como “leite de soja”,
“leite de aveia”, “hambúrguer vegetal” ou “linguiça vegana” poderiam induzir
consumidores ao erro. O texto aprovado afirma que tais produtos deverão
apresentar informação clara e ostensiva sobre sua natureza vegetal e não
poderão utilizar termos que remetam a carnes ou produtos lácteos.
À
primeira vista, pode parecer uma questão menor. Há quem trate o tema como mera
disputa semântica. Há quem veja nele apenas uma tentativa de proteger o
consumidor contra informação enganosa. Há também quem reaja com ironia, dizendo
que veganos deveriam simplesmente parar de “imitar carne”. Afinal, não faltam
comentários desse tipo nas redes sociais: “se é vegano, por que quer imitar
carne, leite e ovos?” ou “se não é leite, então não chame de leite”.
Mas a
questão não é tão simples. O que está em jogo não é apenas o nome de um
produto. O que está em disputa é algo muito mais profundo: a gramática, ou
conjunto de regras, que organiza o que entendemos por comida, por tradição
culinária e por relação com os animais. A disputa não é semântica. A disputa é
gramatical. Ela incide sobre as regras que articulam e fixam o significado dos
conceitos mais básicos de nossos jogos de linguagem cotidianos.
A
primeira coisa a observar é que ninguém compra leite vegetal por engano. Essa
hipótese, repetida à exaustão pelos defensores do projeto, não resiste a um
minuto de observação do cotidiano. Produtos vegetais são quase sempre mais
caros que os produtos de origem animal. O leite vegetal custa muitas vezes duas
ou três vezes mais que o leite comum. A ideia de que uma pessoa da classe
trabalhadora brasileira, que ganha até dois salários mínimos, vai ao mercado,
pega por engano uma caixa de bebida vegetal e descobre apenas em casa que
aquilo não é leite de vaca é simplesmente absurda.
Se há
algo enganoso nas prateleiras dos supermercados brasileiros não é o leite
vegetal. É a vaca feliz estampada na caixa de leite. É a imagem pastoral de uma
pecuária supostamente harmônica que esconde um sistema industrial de exploração
animal. Enganoso é chamar de alimento cotidiano o produto da secreção mamária
das fêmeas mamíferas exploradas em larga escala. Enganoso é vender frango
ultraprocessado como se fosse comida caseira. Enganoso é chamar de natural uma
indústria responsável por devastação ambiental, sofrimento animal em escala
massiva e impactos climáticos gigantescos.
Mas o
ponto central não é esse. O problema fundamental não é a veracidade da
informação. Ou quantidade de dados e gráficos. O problema é a gramática.
A
palavra “leite” nunca foi usada apenas para designar o produto da vaca. Há
décadas usamos expressões como leite de coco, leite de amêndoas, leite de
castanha, leite de arroz. Nenhuma dessas expressões confundiu gerações inteiras
de consumidores. Ninguém acha que leite de coco vem de um coco mamífero.
Ninguém pensa que leite de amêndoas é produzido por amendoeiras lactantes.
A
linguagem culinária sempre funcionou por analogias. A própria culinária
brasileira está cheia delas. Carne de panela não é feita de panela. Casquinha
de siri não é o exoesqueleto do animal. Fraldinha não é fralda. Pé de moleque
não é pé de ninguém. Olho de sogra não envolve parentes. Brigadeiro não é mais
um cargo militar. Cachorro-quente não é feito de carne de cachorro. Pão de
queijo não é pão e muitas vezes nem tem queijo. Coxinha não é frango inteiro.
A
linguagem culinária é profundamente metafórica, histórica e afetiva. Ela não é
um sistema técnico de classificação zoológica. Ela é memória, tradição,
adaptação e invenção.
É por
isso que a tentativa de proibir termos como “leite vegetal” não pode ser
entendida apenas como uma questão legal. Trata-se de uma intervenção na
gramática da alimentação.
O
objetivo não é proteger o consumidor. O objetivo é limitar a expansão de
alternativas vegetais e tornar o veganismo menos familiar.
Isso
ocorre num contexto em que a indústria de alternativas vegetais cresce no
Brasil e no mundo. Marcas como Vida Veg, Goshen, Naveia, Not Milk, Fazenda do
Futuro, Incrível e tantas outras vêm ampliando a oferta de produtos vegetais
que reproduzem sabores e texturas de alimentos tradicionalmente associados a
animais.
Essas
empresas não surgiram porque veganos querem “imitar carne”. Elas surgiram
porque a maior parte das pessoas que se torna vegana nasceu comendo carne,
leite e ovos. A culinária é memória afetiva. É história. É cultura.
Quem
cresce comendo feijoada, churrasco, brigadeiro, acarajé e pizza não abandona
essas referências ao mudar de posição ética em relação aos animais. O que muda
não é a relação com a comida, mas a relação com a exploração animal.
A
pergunta que muitos veganos se fazem não é “como reinventar toda a culinária
humana”, mas algo muito mais simples. Como continuar comendo o que amamos sem
explorar animais.
A
resposta para isso passa inevitavelmente por aproximações culinárias. Feijoada
vegana. Brigadeiro vegano. Churrasco vegetal. Pizza vegana. Acarajé vegano.
Bolo vegano.
Essas
aproximações não são fraude linguística. São estratégias culturais de
transformação.
Se
aceitarmos a lógica do projeto de lei, o resultado será uma espécie de
apartheid culinário. Veganos não poderão falar em feijoada, churrasco,
hambúrguer ou leite. Tudo precisará ser reinventado linguisticamente. O que já
é minoritário se tornará ainda mais distante do cotidiano.
Não é
difícil perceber quem ganha com isso. O agronegócio brasileiro, a indústria da
carne e dos laticínios e os setores políticos ligados a essas cadeias
produtivas.
A
política alimentar nunca foi neutra. O Brasil é um dos maiores produtores de
carne do planeta. A pecuária ocupa vastas extensões de terra, impulsiona
desmatamento e está profundamente ligada à estrutura histórica do agronegócio
nacional.
A
proibição de termos como “leite vegetal” não é uma questão semântica. É uma
política de proteção de mercado.
Mas há
também um aspecto simbólico mais profundo. A tentativa de controlar os nomes
dos alimentos é uma tentativa de influir e controlar a gramática da
alimentação.
A
gramática dominante da sociedade brasileira é profundamente carnista. A
socióloga Melanie Joy usa o termo carnismo para descrever o sistema de crenças
que define certos animais como comida e outros como companheiros.
Dentro
dessa gramática algumas crenças funcionam como certezas silenciosas, tácitas,
fulcrais, como por exemplo: Refeição envolve carne. Leite é essencial para a
saúde. Bolo leva ovos. Churrasco é sinônimo de confraternização.
Essas
proposições raramente são discutidas explicitamente. Elas funcionam como eixos
normativos que organizam as regras do significado no cotidiano.
O
veganismo desafia essa gramática. Ele introduz outros eixos. Leite é alimento
de bezerro. Ovo é embrião de galinha. Carne é cadáver. Animais são sujeitos
sencientes.
Essas
afirmações reorganizam normativamente o modo como certas palavras funcionam.
Quando
um vegano diz que carne é cadáver ele não está fazendo apenas uma provocação
retórica. Ele está tentando deslocar a gramática dominante que naturaliza o
consumo de animais.
É por
isso que a disputa sobre nomes importa.
Não
porque os nomes sejam essenciais em si mesmos, mas porque eles fazem parte de
um campo de disputa sobre o que se torna pensável.
Proibir
o termo leite vegetal não vai fazer as pessoas deixarem de beber bebidas
vegetais. Mas torna essas alternativas conceitualmente estranhas.
A
mensagem implícita é clara. Veganismo não é normal. Veganismo é exceção.
Veganismo é desvio.
Isso
reforça um estigma que já existe.
Há anos
circula nas redes sociais um tipo específico de zombaria contra veganos. A
caricatura do vegano chato, moralista ou elitista. A piada do “isso é coisa de
vegano”. O meme do sujeito que pergunta por que veganos querem imitar carne.
Mas
essa caricatura ignora algo fundamental.
Culinária
não é apenas nutrição. É afeto. É memória. É história. É resistência.
A
pergunta correta não é por que veganos querem comer hambúrguer ou feijoada. A
pergunta correta é por que alguém deveria abrir mão dessas referências
culturais ao decidir não explorar animais.
Pizza,
hambúrguer e coxinha são invenções culinárias brilhantes. Espetinho, pão de
alho e caldinho de feijão fazem parte da vida social brasileira. Não há nenhuma
razão ética para que essas ideias alimentares dependam da morte de animais.
O
veganismo não propõe abolir a culinária. Propõe abolir a exploração animal.
E aqui
entra outro ponto frequentemente ignorado. O veganismo que aparece nas redes
sociais muitas vezes é associado a um estilo de vida de classe média alta.
Produtos caros, restaurantes sofisticados, estética gourmet.
Mas
existe também um veganismo popular, periférico e interseccional.
Um
veganismo que dialoga com questões de saúde pública, de justiça ambiental e de
acesso à alimentação.
A carne
consumida pela classe trabalhadora brasileira raramente é picanha. É salsicha,
nuggets, hambúrguer ultraprocessado. Produtos que a própria Organização Mundial
da Saúde classifica como carcinogênicos.
O leite
consumido pela população mais pobre raramente é o leite idealizado nas
propagandas. Muitas vezes é um produto de baixa qualidade nutricional ou
ultraprocessado.
Ao
mesmo tempo são as populações periféricas que mais sofrem com os efeitos
climáticos da pecuária e do desmatamento.
A
expansão de alternativas vegetais acessíveis poderia contribuir para melhorar a
alimentação e reduzir impactos ambientais.
Mas a
política brasileira frequentemente caminha na direção oposta.
A
tentativa de restringir nomes como leite vegetal é um exemplo disso.
Ela não
protege consumidores. Protege mercados. Ou melhor, protege a gramática do
capital.
Ela não
esclarece a população. Reforça uma gramática que invisibiliza alternativas.
Talvez
por isso a frase mais honesta sobre essa disputa seja a que circula entre
ativistas veganos como uma espécie de ironia amarga.
Tomara
que alguém compre por engano um produto vegano.
Tomara
que alguém descubra que é possível comer bem sem explorar animais.
Tomara
que alguém perceba que feijoada não precisa de cadáver.
Tomara
que alguém descubra que leite não precisa vir de uma vaca explorada.
Porque
no fundo é isso que essa disputa revela.
Não
estamos discutindo palavras.
Estamos
discutindo as regras do futuro da nossa relação com os animais, com o planeta e
com a comida.
E nesse
debate o que menos importa é o nome. O que importa é a gramática.
Fonte:
Por Marcos Silva e Bruno Luize, em Outras Palavras

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