Cory
Doctorow: A possível internet pós-corporações
Cory
Doctorow é autor de ficção científica, ativista e jornalista. Conhecido por sua
atuação em defesa do software livre e do Creative Commons, publica na Espanha
Mierdificação: O que fazer diante da apropriação da internet pelas grandes
empresas de tecnologia [ainda sem tradução no Brasil]. Trata-se de um ensaio
sobre a enshittification, conceito criado pelo próprio Doctorow em um artigo de
2023 em seu blog Pluralistic, com o qual descreve a decadência das plataformas
de internet — ou, ao menos, a deterioração progressiva de seus serviços para
usuários comuns e pequenas empresas, com o objetivo de extrair o máximo de
renda possível, seja na forma de dados, publicidade ou outros serviços.
O autor
concede entrevista ao El Salto por videoconferência alguns dias antes de sua
viagem ao nosso país, onde irá apresentar sua nova obra. Antes de começar,
Doctorow, que arranha um pouco de espanhol, comenta a perda de ambiguidade na
tradução do conceito de enshittification para o nosso idioma: “Shit, em inglês,
é tanto um substantivo quanto um verbo; portanto, enshittification é algo que
acontece — tudo se transforma em merda —, mas também algo que alguém faz. Em
espanhol, seria ‘cagar’, e essa conotação se perde em ‘mierdificación’”,
explica. Para o autor, “a ambiguidade funciona. Pode ser uma característica
(feature), e não um erro (bug)”.
• Você diria que a ideia da “merdificação”
da internet e das redes está mais atual agora do que há quatro anos, quando
criou o termo?
Sim,
acho que sim. Quando pensei no conceito, estava tentando encontrar uma palavra
que desse conta de descrever tudo isso. Durante 25 anos trabalhei na Electronic
Frontier Foundation, uma ONG cujo objetivo é fazer com que as pessoas reflitam
sobre as políticas tecnológicas. E o problema de tentar levar as pessoas a
pensar sobre política tecnológica é que se trata de questões muito abstratas,
muito técnicas e quase sempre voltadas para o futuro. O mais comum é nos
preocuparmos com problemas que são concretos e imediatos.
E os
temas tecnológicos só se tornam concretos e imediatos quando já é tarde demais
para corrigi-los. Um pouco como acontece com as mudanças climáticas. Em 1980,
era algo muito distante, muito abstrato; hoje é algo bastante concreto — mas
porque tudo está pegando fogo. Então você tenta todo tipo de estratégia para
fazer com que as pessoas se preocupem com essas políticas tecnológicas.
Já usei
parábolas, analogias… Escrevo contos e romances de ficção científica. E, no fim
das contas, é uma palavra “suja” que realmente funciona. Foi como dar às
pessoas permissão para reclamar de algo que as estava enlouquecendo, sem que
soubessem exatamente por quê. E, voltando à pergunta, sim: acho que as pessoas
têm todo o direito de estar mais irritadas hoje do que estavam há três ou
quatro anos, sem dúvida.
• Em seu ensaio, você aborda possíveis
soluções. Na Europa, neste momento, temos governos como o da França, que
abandonaram todos os programas vindos dos Estados Unidos para suas
comunicações, além do debate sobre como obter tanto uma infraestrutura física
própria quanto plataformas sob controle europeu — algo que parece um arranjo
muito distante no tempo.
A
Europa passou 20 anos apegada a duas crenças bastante negativas. A primeira:
que a tecnologia estadunidense era uma plataforma neutra e que seu governo
poderia utilizá-la sem consequências. A segunda: que, se as plataformas se
comportassem “mal”, a resposta seria regulá-las, em vez de reduzir seu poder. E
assim se perderam duas décadas com mandatos para moderação de conteúdo ou
infrações de direitos autorais. Algo que não funcionou, não é mesmo?
O
problema é que, quanto mais poderosas são as plataformas, menos se importam com
as suas exigências. Olhe para o GDPR [Regulamento Geral sobre a Proteção de
Dados]. Eu mesmo fiz lobby em Bruxelas a favor dele. E as empresas de
tecnologia não o cumprem. Elas fingem que sim, bombardeiam as pessoas com
solicitações de consentimento e dizem que podem vigiá-las porque é um
“propósito legítimo”. E se você tenta discipliná-las, elas se refugiam na
Irlanda, que é onde toda a regulação tecnológica vai morrer.
O DMA
[Lei dos Mercados Digitais] foi a primeira tentativa de reduzir o poder delas,
exigindo que a Apple ou a Google abrissem suas lojas de aplicativos, por
exemplo. Mas chegou tarde. Elas já eram tão poderosas que nem se importavam em
cumprir as regras.
Com
Biden na Casa Branca, podia parecer que os EUA ajudariam a Europa, mas agora
Trump está no poder e já vemos o uso que ele faz da “internet americana”. Se o
Tribunal Penal Internacional processar Netanyahu, os EUA de Trump deixam os
magistrados sem e-mails, sem arquivos, sem documentos… Se o Supremo Tribunal
Federal do Brasil processar Jair Bolsonaro, a mesma coisa. Ninguém pode
permitir que suas instituições-chave dependam da tecnologia dos EUA.
Assim,
chegamos ao Eurostack, que é uma tentativa de corrigir os erros dos últimos 20
anos. São as duas respostas à sua pergunta: obter o hardware, a parte física, e
plataformas 100% europeias. Não quero dizer que sejam objetivos fáceis, mas
ambos têm grandes grupos de interesse por trás. Os investidores querem
construir data centers porque querem ser proprietários, adoram a ideia de renda
passiva. E algo semelhante acontece com as plataformas. O mundo está cheio de
geeks que odeiam o Facebook e gostariam de criar o seu próprio. Você não
consegue dar um passo sem esbarrar em alguém que está criando um substituto
para o Facebook, Twitter, YouTube ou o que quer que seja.
O que
falta é que seja possível extrair os dados das plataformas estadunidenses e
transferi-los para essas novas plataformas europeias, hospedadas em centros de
dados europeus. Nenhum ministério vai copiar um a um milhões de documentos da
Microsoft para um aplicativo do Eurostack. Você precisa de ferramentas, e a
Microsoft não vai fornecê-las.
A
questão é como construímos essas ferramentas que funcionem como uma ponte entre
a velha internet, na qual estamos presos, e a internet pós-americana de que
precisamos para sobreviver. São soluções distantes no tempo, mas a solução para
a ponte está em legalizar o desbloqueio [“jailbreak”] dessa tecnologia. A
diretiva europeia de direitos autorais torna ilegal qualquer modificação sem
permissão do criador — não do governo, mas da empresa proprietária — desde
2001.
Isso
está, sim, ao alcance da União Europeia. Ela não pode obrigar a Apple a fazer
coisa alguma, mas pode impedir que a Apple leve a tribunal europeu uma empresa
espanhola que crie uma loja de aplicativos para o iPhone. Pode mudar essa lei
amanhã. Isso não só aceleraria a saída dos europeus das plataformas americanas,
como também criaria oportunidades de mercado. As empresas americanas faturam
milhões de dólares que poderiam ser ganhos por empresas europeias.
• E como facilitamos a saída para todas
aquelas pessoas comuns que não são especialistas, nem trabalham para grandes
empresas ou para o Estado?
É a
mesma solução, envolvendo engenharia reversa e jailbreaking. No livro, conto
como Mark Zuckerberg fez com que os usuários deixassem o MySpace para migrarem
para o Facebook. Ele enfrentava o mesmo problema: as pessoas não saíam do
MySpace porque lá estavam todos os seus amigos. Os economistas chamam isso de
problema da ação coletiva. E o que Zuckerberg fez foi oferecer um botão ao qual
bastava fornecer a senha da outra plataforma, e ele transferia para o Facebook
tudo o que você tinha lá.
O
problema é que, sob o Artigo 6 da Diretiva de Direitos Autorais, se alguém
fizesse isso com o Facebook, Mark Zuckerberg poderia reduzir essa pessoa a
escombros radioativos. Quando ele fez isso, foi progresso. Se nós fizermos o
mesmo com ele, é pirataria. E eles jogam com isso: se sabem que mantêm seus
usuários presos, podem abusar deles sem correr riscos. Isso também é a
“enshittification”.
Mark
Zuckerberg quer que você o odeie, mas apenas um pouco menos do que quer seus
amigos, de modo que você acabe ficando no Facebook. Qual é a importância de ter
um lugar onde você possa se organizar com outros pais para levar seus filhos ao
futebol, encontrar clientes para o seu negócio, conversar com parentes que
estão longe? Enquanto o valor que os usuários da plataforma oferecem uns aos
outros superar o valor que Mark Zuckerberg extrai deles, a maioria vai
permanecer.
Mas e
se você reduzir o custo de sair? Acontece o mesmo com as operadoras de
telefonia: se você está na Vodafone e não gosta, muda para a Orange — pode ser
tão fácil quanto colocar seu número em um site. Antes era muito mais caro, mas
a UE interveio para criar a portabilidade. Hoje, ninguém se importa em qual
rede você está, você não precisa fazer com que seus contatos migrem para a
mesma operadora que a sua. É possível reproduzir essa dinâmica em nossos
sistemas digitais. É até estranho que ainda não o tenhamos feito. É como se
estivéssemos nos anos 90, e o que falta é trazer isso para o século XXI.
• Isso explica o paradoxo de que todo
mundo acredita que Google, Twitter e outras plataformas funcionam pior do que
nunca, mas não as abandonam?
Na
economia neoclássica, existe essa ideia chamada “preferência revelada”.
Significa que não importa o que você diga: se você age de forma diferente, é
porque secretamente prefere o que está fazendo. Assim, se você diz “odeio que
invadam minha privacidade”, mas usa o Facebook e eles invadem sua privacidade,
então, na verdade, você não valoriza tanto assim a privacidade. Eu acho que
isso está errado. Às vezes é como se estudar economia causasse uma lesão
neurológica muito específica, que torna a pessoa incapaz de raciocinar sobre
poder. As dinâmicas de poder fazem com que as pessoas façam coisas que não
querem fazer.
Olha,
entre os grupos que estão tentando com muita força se estabelecer fora do
Twitter estão os ativistas do que nos EUA se chama Black Twitter, que criaram
seu próprio servidor no Bluesky, o BlackSky, mas ainda não conseguiram sair de
vez do atual X. Eles querem deixar o Twitter porque são membros de uma minoria
racial que ali fica exposta ao abuso e ao assédio, mas não querem ficar
isolados, nem perder sua rede de apoio digital. As pessoas podem permanecer em
situações ruins porque valorizam aqueles que estão ao seu redor.
Olha,
minha família são refugiados soviéticos. Minha avó foi uma criança-soldado no
cerco de Leningrado, esteve lá dos 12 aos 15 anos arrastando cadáveres e
levando munição para as linhas de frente. De lá, foi para a Sibéria, onde
conheceu meu avô, que era um refugiado polonês; tiveram meu pai e foram para o
Canadá. Mas eles são os únicos. Todo o resto da família ficou na Rússia,
passando por muitas dificuldades, na era soviética e depois. As pessoas
permanecem em lugares onde não querem estar.
• No seu livro de ficção científica
Radicalizado, de certa forma, você antecipou Luigi Mangione no conto que dá
título à obra, e levou a “merdificação” ao extremo antes mesmo de nomeá-la em
“Pão Não Autorizado”. Como autor de distopias, por que você acha que não
escrevemos mais sobre como sair delas?
Bem,
cada uma das histórias desse livro tem algum tipo de final feliz. A utopia não
consiste em violar a segunda lei da termodinâmica. As coisas se desmoronam.
Supor que nada vai dar errado não é otimismo, é idiotice. As pessoas que não
colocaram botes salva-vidas suficientes no Titanic não eram otimistas, eram
idiotas perigosos. Eu acho que está certo — e não é pessimismo — imaginar que
as coisas podem se quebrar. O imperdoável é imaginar que não podemos
consertá-las. É por isso que todas as minhas histórias tratam de pessoas que
consertam coisas.
É
verdade que se vê um futuro com coisas bastante ruins no horizonte. Há muitos
efeitos das mudanças climáticas que já estão determinados. Não vão mudar. Mas o
que fizermos com as inundações que estão por vir depende de nós. Isso vai se
transformar em algo como Mad Max? Ou vamos nos salvar mutuamente? Isso depende
completamente de nós.
Para
mim, a esperança não é a crença otimista de que pode existir uma sociedade em
que tudo funcione sempre, mas a ideia de que podemos criar uma sociedade que
falhe com elegância. Onde, quando as coisas dão errado, elas são corrigidas. É
melhor ter um carro com freios excelentes do que um que vai de 0 a 200 km/h em
três segundos.
O lado
positivo do desastre em que nos encontramos é que as crises provocam mudanças,
e aquilo que parecia impensável torna-se inevitável. Quando Vladimir Putin
invadiu a Ucrânia e a Europa perdeu o acesso ao gás russo, o entrave às
energias renováveis chegou ao fim. O continente passou de um atraso de 15 anos
em suas metas climáticas para estar 10 anos à frente. Na Alemanha, com este
novo choque energético vindo do Irã, o impacto é pequeno, porque agora o país
dispõe de uma enorme quantidade de energia solar. Claro que há motivos para
preocupação. Toda essa energia solar está conectada à nuvem chinesa, e Xi
Jinping poderia desligá-la se quisesse. Esse é mais um bom motivo para revogar
o Artigo 6 da Diretiva de Direitos Autorais, eliminar o firmware desses
inversores e baterias e substituí-lo, o quanto antes, por software de código
aberto. Vou insistir nesta ideia: em tempos de grandes crises, aquilo que
parecia impensável pode se tornar inevitável. E Donald Trump é uma série
contínua de crises. Esta é a nossa oportunidade.
Fonte:
Entrevista a Jose A. Cano, no El Salto | Tradução: Rôney Rodrigues, em Outras
Palavras

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