quinta-feira, 26 de março de 2026

Luís Nassif: Do PowerPoint à Lava Jato 2 - como se constrói uma narrativa de poder

O poder da grande mídia nunca esteve apenas no que publicava.

Esteve, sobretudo, no que decidia não publicar — e em como decidia.

As redações brasileiras, especialmente nos grandes conglomerados, sempre cultivaram uma imagem pública de pluralismo interno, debate editorial e compromisso com a informação. Mas, nos momentos decisivos, o funcionamento real era muito mais simples — e muito mais concentrado.

A linha não era construída na base.

Era definida no topo.

>>> 1. A sala invisível

Não existe uma sala formal onde se decide “a linha do jornal”. Não há ata, votação ou registro. Mas existe, sim, um núcleo decisório.

Historicamente, ele se organizou em torno de três polos:

•        a direção empresarial

•        o comando editorial

•        e os interesses econômicos associados (publicidade, mercado, relações institucionais)

Nos momentos críticos, esses polos convergem rapidamente.

A pauta do dia pode nascer na reunião de editores.

Mas o enquadramento nasce acima deles.

Não se trata, na maioria das vezes, de ordens explícitas. O mecanismo é mais sofisticado: um sistema de incentivos e limites implícitos, conhecido por qualquer jornalista experiente.

Todo mundo sabe até onde pode ir.

E, mais importante, até onde não deve ir.

>>> 2. O processo de filtragem

A construção de uma narrativa passa por etapas invisíveis:

>>> 1. Seleção

•        O que vira notícia

•        O que é ignorado

=> Aqui já ocorre a primeira distorção estrutural.

>>> 2. Hierarquização

•        Manchete ou nota de rodapé

•        Página principal ou coluna lateral

=> A importância do fato é construída editorialmente.

>>> 3. Enquadramento

•        Qual o ângulo da matéria

•        Quais fontes são ouvidas

•        Qual linguagem é utilizada

=> Um mesmo fato pode gerar narrativas opostas.

>>> 4. Repetição

•        O tema é martelado até se tornar “realidade pública”

=> É aqui que nasce o senso comum.

Esse processo não exige conspiração. Exige consistência.

>>> 3. As campanhas silenciosas

Os momentos mais reveladores não são os escândalos. São as campanhas.

Campanhas não declaradas, mas facilmente identificáveis para quem acompanha o fluxo contínuo da cobertura.

Elas têm características claras:

•        repetição diária de um mesmo tema

•        uniformidade entre veículos diferentes

•        aumento progressivo do tom crítico

•        personalização do problema em figuras específicas

Foi assim em diferentes momentos da história recente.

Na década de 2010, por exemplo, a cobertura da Operação Lava Jato ultrapassou o registro factual e se transformou em narrativa estruturante da política brasileira.

O noticiário deixou de ser episódico. Tornou-se permanente.

E, nesse ambiente, a distinção entre informar e conduzir começou a desaparecer.

>>> 4. O circuito fechado de legitimação

Um dos mecanismos mais poderosos da grande mídia sempre foi o que se poderia chamar de “circuito fechado de validação”.

Funciona assim:

1.       Um tema é lançado por um grande veículo

2.       Outros veículos repercutem

3.       Analistas e colunistas reforçam

4.       O tema chega ao sistema político e judicial

5.       Decisões institucionais retroalimentam a cobertura

Resultado: o que começou como narrativa torna-se “fato institucional”.

Esse circuito foi fundamental, por exemplo, na construção do ambiente que levou ao impeachment de Dilma Rousseff.

A legalidade foi sustentada.

Mas a legitimidade foi construída.

>>> 5. O papel das fontes — quem fala e quem não fala

Outro bastidor crucial está na escolha das fontes.

A pluralidade formal muitas vezes esconde uma homogeneidade real.

Economistas ouvidos? Frequentemente do mesmo campo.

Juristas? Os mesmos nomes recorrentes.

Analistas políticos? Inseridos no mesmo universo ideológico.

Isso cria um efeito poderoso:

=> a aparência de consenso

Quando diferentes vozes dizem essencialmente a mesma coisa, o debate deixa de ser debate — e passa a ser reafirmação.

>>> 6. Publicidade: o filtro invisível

Nenhum grande grupo de mídia opera desconectado de sua base econômica.

A dependência de grandes anunciantes — bancos, montadoras, varejo, telecom — nunca precisou se traduzir em censura direta. Ela opera de forma mais sutil:

•        temas sensíveis são evitados

•        críticas são moduladas

•        certos assuntos simplesmente não entram na pauta

É um tipo de autocontenção estrutural.

Não é preciso mandar calar.

Basta criar um ambiente onde falar custa caro.

>>> 7. A relação com o poder institucional

Os bastidores da mídia também passam pelos corredores do poder.

Relações com:

•        ministros de tribunais superiores

•        dirigentes de órgãos reguladores

•        lideranças do Congresso

•        operadores do mercado financeiro

Essas relações não são necessariamente ilegítimas. Em muitos casos, são parte do jogo institucional.

Mas tornam-se problemáticas quando passam a influenciar:

•        o timing das matérias

•        o vazamento seletivo de informações

•        a proteção ou exposição de determinados atores

Na fase mais intensa da Lava Jato, o fluxo de vazamentos foi um exemplo claro dessa engrenagem.

>>> 8. Quando o controle escapa

O modelo funcionou por décadas porque era centralizado.

Mas ele começou a ruir quando a informação deixou de depender exclusivamente da mídia tradicional.

Redes sociais, plataformas digitais e comunicação direta quebraram o monopólio.

E, com isso, expuseram os bastidores.

A ascensão de Jair Bolsonaro foi, em grande medida, produto dessa ruptura.

Pela primeira vez, um projeto político relevante se construiu contra a mediação tradicional — e venceu.

Foi um choque estrutural.

>>> 9. O novo bastidor: o algoritmo

Com o declínio da mídia tradicional, os bastidores não desapareceram.

Eles mudaram de lugar.

Hoje, o poder de filtragem está cada vez mais nas mãos de plataformas como Google e Meta.

Mas com uma diferença crucial:

=> antes, era possível identificar quem decidia

=> agora, a decisão está embutida em sistemas opacos

O editor virou código.

E o critério virou engajamento.

>>> 10. Epílogo — o poder que não se vê

Os bastidores da grande mídia nunca foram uma conspiração clássica.

Foram algo mais eficiente:

- um sistema de poder internalizado, reproduzido diariamente por rotinas, incentivos e limites.

Um sistema que:

•        moldava o debate

•        restringia o possível

•        e influenciava o rumo do país

Sem precisar aparecer.

Agora, esse sistema perde força.

Mas o aprendizado que ele deixa é essencial:

=> o poder mais eficaz não é o que grita.

=> é o que define, silenciosamente, o que pode ser dito.

•        O Power Point da Andréa Sadi e as relações de Vorcaro com a Globo

A desonestidade jornalística exige um mínimo de arte para não esbarrar no ridículo. Até pode sensibilizar a parte mais desinformada da opinião pública. Mas para o público que pensa, vale uma adadptação do refrão de Gonzaguinha: “é ridículo, é ridículo e é ridículo”.

Se o mote do Power Point foram apenas os contatos, porque não entrou o logotipo da Globo?

O foco deveria ter sido os governadores que autorizaram aplicações dos fundos de pensão dos funcionários no Master; políticos que tentaram aumentar os limites do FGC; a estrutura de alianças que ele consolidou junto ao Centrão. Mas o jornalismo da Globo decidiu optar por um apanhado geral dos encontros dele com autoridades, sem se dar ao trabalho, jornalisticamente honesto, de identificar quem cometeu atos ilícitos em favor de Vorcaro.

No Summit Valor Econômico Brazil-USA (Nova York, maio de 2024), organizado pelo jornal Valor Econômico (Grupo Globo), teve Daniel Vorcaro como patrocinador e palestrante de abertura.

O evento foi aberto por Frederic Kachar, diretor da Editora Globo. Em sua fala, agradeceu ao Banco Master, “na figura de Daniel Vorcaro” e mencionou uma “relação pessoal” com ele.

“A gente tem alegria de ter patrocinadores de empresas que a gente admira e que eu tenho privilégio de ser amigo. Muito obrigado ao Banco Master [sorri e aponta para a plateia, onde estava o então banqueiro] na figura de seu presidente Daniel Vorcaro, que apresenta o seminário de hoje”.

“Relação pessoal” é mais do que um contato fortuito ou agendado.

Houve o pedido de uma reunião com Lula, intermediado por Guido Mantega. Para a reunião, Lula convocou uma série de autoridades para não dar espaço a nenhuma insinuação da parte de Vorcaro.

E com a Globo, qual o teor das conversas? O segundo patrocinador do evento foi Eduardo Magro, o maior sonegador da história do país, sobejamente conhecido há décadas.

Naquela data, o Master já despertava suspeitas no mercado. Mas foi tratado pela Globo como ator relevante, legítimo e amigo. Entre outras coisas, porque o Will Bank era um forte patrocinador de programas da Globo.

A Lava Jato foi um desastre para a imprensa. A repetição da fraude jornalística será o fim.

•        BolsoMaster: metabolismo econômico - Campos Neto e Paulo Guedes. Por Oliveiros Marques

À luz do exercício canalha que as organizações Globo vêm praticando, ao tentar inverter o polo de responsabilidade pela existência do escândalo do Banco Master, faz-se necessário afirmar com clareza: o BolsoMaster não surgiu por geração espontânea, tampouco em período recente. Ele encontra seu terreno de incubação no ciclo político inaugurado pelo governo de Jair Bolsonaro. Foi ali que o carcinoma foi gestado e onde seu metabolismo passou a operar em ritmo acelerado, convertendo o discurso ideológico em uma arquitetura econômica concreta.

É justamente esse processo de progressão tumoral que buscarei demonstrar hoje e nos textos que publicarei nos próximos dias.

E aqui começa a biópsia do esquema BolsoMaster.

Toda estrutura precisa de metabolismo. Em termos políticos, trata-se dos agentes que transformam narrativa em norma, acordos em políticas públicas, desejos em caminhos de facilidades - que fazem o sistema funcionar a favor dos seus interesses.

Campos Neto aparece, nesse primeiro corte sobre a mesa fria da necrópsia, como uma figura discreta, porém persistente. Um operador de bastidores cuja função é garantir que decisões políticas encontrem possíveis sustentações técnicas e viabilidade institucional. Sua atuação, longe dos holofotes, não é acessória: ela pavimenta alianças, reduz resistências e cria as condições para que mudanças estruturais avancem.

Esse trabalho silencioso é o que dá fluidez ao sistema. Em um ambiente político fragmentado, Campos Neto exerce o papel de mediador, conectando interesses difusos e viabilizando consensos mínimos. É nesse ponto que o tecido se reorganiza, permitindo a aprovação de medidas que flexibilizam regras e abrem novas frentes de atuação no setor financeiro.

No plano mais visível da lâmina, Paulo Guedes surge como o principal formulador desse metabolismo. À frente da política econômica, operou uma agenda de liberalização que, sob o rótulo de modernização, promoveu uma reconfiguração profunda das estruturas de mercado. A ampliação da autonomia de instituições financeiras, a flexibilização de instrumentos de crédito e o estímulo à atuação de bancos médios não são medidas isoladas: compõem um ambiente funcional para agentes como Daniel Vorcaro.

Iniciativas como a expansão do mercado de capitais para além dos grandes bancos tradicionais, o incentivo a estruturas financeiras mais complexas e a defesa de menor intervenção estatal consolidam esse cenário. Na prática, essas medidas reduziram barreiras de entrada e ampliaram margens de operação - sem que houvesse, na mesma proporção, o fortalecimento dos mecanismos de controle e transparência.

O resultado é um metabolismo eficiente aos interesses dos moradores do poder, e patologicamente concentrador e nocivo ao restante do corpo. Recursos passam a circular com mais velocidade, porém, se acumulam em poucos pontos do organismo. O discurso da eficiência opera, aqui, como cobertura simbólica de uma dinâmica de privilégio, na qual poucos agentes capturam os maiores ganhos.

Uma primeira etapa da biópsia revela, portanto, que o BolsoMaster não é um desvio isolado, mas a consequência lógica de atuação de um agente infeccioso inoculado no governo brasileiro através de barreiras até então existentes e que foram dizimadas pelo governo Bolsonaro. Um sistema em que operadores políticos, como Campos Neto, garantem a sua viabilidade, enquanto formuladores, como Paulo Guedes, desenham as regras de funcionamento.

No fim, o organismo funciona - e funciona bem para quem ocupa o seu centro. A questão é que, como em toda patologia, o funcionamento desequilibrado de uma parte pode significar, inevitavelmente, o adoecimento do todo.

 

Fonte: Jornal GGN/Brasil 247

 

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