Como
os EUA podem tornar-se potência obsoleta
Ao
começar a quarta semana da guerra, Donald Trump piscou – ou por insegurança, ou
por ardil. Na madrugada de 23/3, os mercados financeiros estavam em pânico, com
quedas que poderiam ter efeitos devastadores. O presidente precisava agir.
Pouco depois das 7 da manhã, ele “anunciou” em rede social que os EUA haviam
aberto negociações com o Irã; que desejava um acordo; e que, por isso,
resolvera suspender os ataques à infraestrutura do país. As autoridades
iranianas negaram, em poucas horas, a existência de negociações. Mas os
cassinos globais estavam sedentos de boas notícias – verdadeiras ou falsas. O
barril de petróleo recuou um pouco, para a faixa dos 100 dólares (com alta 40%
desde o inicio da guerra) e as bolsas, que despencavam, amenizaram as perdas.
Um
conjunto de sobressaltas alarma a economia do Ocidente, desde que Trump
interrompeu negociações e agrediu com selvageria o Irã em 28/2, esperando uma
vitória rápida. A interrupção do tráfego de navios pelo Estreito de Ormuz afetou 33% do comércio
mundial de petróleo, 20% do de gás natural liquefeito, 40% do de fertilizantes
e quase metade do de hélio e enxofre, indispensáveis para a produção de
microchips. A revista “Economist” prevê que, ainda que a guerra terminasse
hoje, o abastecimento de petróleo tardaria meses para se normalizar e o cenário
seria catastrófico. As grandes empresas
de aviação, cuja receita ampara-se em boa medida nas receitas dos ricos e
movimentadíssimos aeroportos dos Emirados Árabes, temem uma crise semelhante à da
pandemia.
Outro
terremoto, ainda pouco visível, alastra-se nas entranhas do sistema financeiro.
Devido às pressões inflacionárias e à ortodoxia dos bancos centrais, ninguém
mais crê num corte rápido de juros no Norte Global. A quebra destas
expectativas expôs o endividamento colossal de grandes corporações, em especial
as big techs. Elas recorrem preferencialmente, para se financiar, ao chamado
empréstimos não-bancários, fornecidos por mega-fundos como o Black Rock. A
perspectiva de quebras está levando parte dos aplicadores que alimentam estes
fundos a tentar retirar seu dinheiro antecipadamente.
Analistass como Richard Bookstaber sugerem, no “New York
Times”, que “os sinais de estresse sistêmico [das finanças globais] estão
emergindo.
Por
que Donald Trump enganou-se tão flagrantemente acerca de seu suposto “passeio”
na campanha contra o Irã – e colocou tanto em risco? O
norte-americano James Galbraith é um estudioso tanto da economia
global quanto da geopolítica. Filho do economista John Kenneth Gralbrait (que
participou ativamente da implantação de políticas keynesianas sob Franklin
Roosevelt), professor na Universidade de Austin e de seu Projeto de estudo da
Desigualdade, James é, há décadas, um crítico atuante e arguto do neoliberalismo,
do “Consenso de Washington” e das políticas de “livre mercado”. Mas soma a esta
condição a de crítico a postura imperial dos Estados Unidos.
Na
entrevista a seguir, concedida com exclusividade a nosso
colaborador Thiago Gama, James Galbraith explora dois aspectos da
vulnerabilidade dos EUA diante do Irã, aparentemente muito mais fraco do ponto
de vista militar. Nos campos de batalha, a tecnologia está criando uma nova
geração de armamentos, capaz de anular a vantagem antes oferecida às grandes
potências por porta-aviões e bases aéreas. São, por exemplo, os mísseis e
drones produzidos por Teerã – que foram capazes de fechar o Estreito de Ormuz e
afugentar a “escolta” da marinha dos EUA, prometida por Trump e em seguida
abandonada.
Mas
o impasse de Trump é ainda maior no campo da geopolítica. De um lado, afirma
Galbraith, “todo o projeto que estabeleceu o direito internacional – as
Convenções de genebra a Nuremberg, a Carta das Nações Unidas e a Convenção do
Genocídio – tudo isso está em crise” sob o ataque de Trump. Ainda assim, o
império não pode tudo. “Permanece real o fato de que a guerra agressiva tem
custos severos, que levam ao final à derrota da potência agressora. Não há
contraexemplo duradouro – se houvesse, o mundo ainda estaria dividido entre
impérios”.
Ao
fim, sustenta Galbraith, “se o cenário nuclear for evitado, esta guerra terá
repercussões muito importantes”. Ao contrário do que imaginou Trump, ela
“fortalecerá a posição dos Estados que enfatizam capacidades defensivas usando
novas tecnologias”.
O
diálogo com Thiago Gama abordou ainda temas como o risco de os EUA e ou Israel,
em desespero, apelarem para armas nucleares; a resistência crescente de parte
da base de Trump a sua aventura insana; a tibieza do Partido Democrata; o papel
dos BRICS e a crise cubana. Fique com a entrevista, a seguir
·
À medida que as tensões envolvendo o Irã o Oriente Médio
atingem um ponto de inflexão, o senhor percebe o risco de “Terceira Guerra
Mundial”?
Vou
tentar oferecer um comentário sobre o significado da guerra agora em curso.
Ainda não sabemos como o confronto militar se desenrolará. No entanto, os
seguintes pontos podem ser feitos:
(a) O
Irã é um país muito grande, com um território montanhoso que não pode ser
conquistado (e não o é há milênios), e que é ideal para esconder grandes
estoques de mísseis e drones avançados, que são produzidos lá em quantidade há
pelo menos dezesseis anos.
(b) O
território do Irã margeia o Golfo Pérsico de uma ponta à outra, e o coloca no
controle firme do Estreito de Ormuz.
(c)
todas as bases dos EUA no Golfo estão bem ao alcance dos mísseis e drones
iranianos.
(d)
Israel, sendo pequeno e dependente da ajuda dos EUA, é igualmente vulnerável a
graves perturbações, enquanto (e) o Estado iraniano e sua grande população
parecem resilientes, até agora, sob as bombas. A guerra, em suma, expôs a
obsolescência das principais ferramentas do poder dos EUA – bases e navios de
superfície – ao mesmo tempo que confirma uma lição muito antiga de que uma
nação-Estado unificada não pode ser subjugada por bombardeio aéreo.
Portanto,
em minha opinião, a presença dos EUA no Golfo já foi efetivamente neutralizada,
e os EUA não podem retornar enquanto o Irã mantiver as capacidades que
atualmente possui e a intenção de negar essas bases aos Estados Unidos. Há um
risco considerável de eventual escalada para uma guerra nuclear, o que discuti
recentemente aqui: https://www.defenddemocracy.press/87373-2/
No
entanto, se o cenário nuclear for evitado, esta guerra terá repercussões muito
importantes: fortalecerá a posição dos Estados que enfatizam capacidades
defensivas usando novas tecnologias. O poder dos EUA fora deste hemisfério terá
então de depender em grande parte de ferramentas informacionais e financeiras,
à medida que a obsolescência de suas estruturas militares é finalmente
compreendida, por mais tardio que seja.
·
A devastação prolongada em Gaza significa uma erosão
permanente do direito internacional, estabelecendo um precedente em que a
guerra assimétrica e o castigo coletivo se tornam as ferramentas padrão para
manter hegemonia?
Todo o
projeto de estabelecimento do direito internacional, desde as Convenções de
Genebra até Nuremberg, a Carta das Nações Unidas e a Convenção do Genocídio,
está obviamente em crise. Só se pode esperar que a maioria das nações continue
a observar essas leis em seus relacionamentos mútuos, e que aqueles que agora
violam massivamente os princípios básicos aprendam que isso não é vantajoso a
longo prazo. O fato permanece que a guerra agressiva tem custos severos, que
levam eventualmente à derrota da potência agressora. Não há contraexemplo
histórico duradouro – se houvesse, o mundo ainda estaria dividido entre
impérios.
Portanto,
acredito que, no final, o mundo terá que restaurar as funções do direito
internacional e as instituições de gestão pacífica de conflitos.
Não
tenho certeza do que significa guerra assimétrica neste contexto, pois quase
toda guerra é assimétrica. A natureza da guerra assimétrica é que ela pode
permitir que a parte ostensivamente menor e mais fraca contrarie o poder da
parte maior e mais forte. Especificamente, novas tecnologias (atualmente
drones e mísseis) permitem que países mais fracos minem os paradigmas militares
rígidos (como bases e porta-aviões) aos quais países grandes e poderosos,
por sua própria natureza, tendem a se comprometer. A história dessa dinâmica é
muito, muito longa; é a própria história da guerra.
·
Além do caos institucional percebido, existe uma lógica
estrutural coerente nas ações de Trump que os analistas políticos
tradicionais não estão conseguindo identificar?
A base
política de Trump tem um elemento de eleitores antiguerra e anti-imperialistas,
com voz dada por figuras como Marjorie Taylor Greene e Thomas Massie, com uma
base popular especialmente entre veteranos e vítimas das “guerras eternas” da
era Bush-Obama-Trump-Biden.
Os
representantes dessa base – no mais alto nível, J.D. Vance – desempenharam um
papel ao pressionar pelo desengajamento da Ucrânia, e foram a única força
política dentro dos Estados Unidos a assumir essa posição. Alguns deles também
foram movidos pelo genocídio em Gaza. Em relação ao Irã, eles foram superados
na jogada, por enquanto, pelos doadores de Trump, por fanáticos religiosos,
pelos lobbies bem conhecidos e pelo Governo de Israel.
As
estruturas de política externa e militar – superficialmente neutras e talvez
céticas em particular – desempenharam o mesmo papel que a Grã-Bretanha, a
França e os EUA na Guerra Civil Espanhola.
Quando
Trump desaparecer de cena, a luta sucessória revelará a força relativa dessas
facções. Até agora, no entanto, a guerra do Irã expôs a incompetência da facção
agora dominante e sua incoerência diante do fracasso de sua estratégia de curto
prazo baseada no engano e na decapitação. Pode terminar com o colapso deles,
bem como o do próprio Trump, que em declarações públicas recentes parece ter
perdido qualquer vestígio de autocontrole.
·
Por que as salvaguardas institucionais tradicionais e as
vanguardas morais nos EUA, como a ala progressista liderada por Bernie Sanders,
não conseguiram montar uma resistência coordenada contra a ascensão de uma
Presidência Imperial?
A ala
de Sanders do Partido Democrata endossou a posição de Biden sobre a Ucrânia e a
Venezuela, em troca de várias nomeações e iniciativas de política doméstica
durante esse governo. Isso incapacitou qualquer capacidade dos chamados
“progressistas” de assumir uma posição baseada em princípios contra a marcha
para a guerra no Irã.
O apoio
tradicional do Partido Democrata a Israel também desempenhou um papel óbvio.
Até agora, as queixas sobre a guerra de Trump são amplamente dirigidas a
questões de procedimento, custo e ausência de estratégia; não há, ainda, uma
articulação de uma posição anti-imperialista, como a que foi articulada no
final dos anos 1960 e início dos anos 1970 pelos senadores Wayne Morse, Ernest
Gruening, William Fulbright, e por Eugene McCarthy e George McGovern.
Mais
geralmente, a noção de um dever internacional de apoiar os direitos humanos tem
sido instrumentalizada pelos Estados Unidos desde o início dos anos 1980.
Provavelmente, a última autoridade do governo a buscar os direitos humanos com
alguma honestidade foi a primeira designada para essa função, Patricia Derian,
no governo Carter, que pressionou contra os regimes de tortura daquela era na
Argentina, Brasil e Chile.
O
governo Reagan converteu a defesa dos direitos humanos na cruzada anticomunista
na América Central, Europa Central e URSS. Clinton a usou contra a China, e
assim tem sido desde então. Portanto, a noção de uma “vanguarda moral” foi
profundamente desvalorizada.
·
Estamos testemunhando o declínio terminal das aspirações
multipolares (BRICS+/ G20) em favor de uma nova Pax Americana imposta
pelo terror absoluto, ou esta é meramente a soleira violenta de uma ordem
mundial nascente?
Seria
tolo oferecer uma resposta confiante. A unidade e o propósito do conjunto do
BRICS parecem ter perdido parte de seu ímpeto inicial e estar aquém das
aspirações que alguns lhe atribuíram. Por exemplo, até agora, o dólar permanece
no centro do sistema financeiro global, não obstante a emergência de uma zona
não-dólar e não-euro diante das sanções.
No
entanto, a mudança subjacente de poder afastando-se dos Estados Unidos parece,
aos meus olhos, profunda e irreversível. Exemplos-chave são China, Rússia e
Irã. A China demonstrou tanto poder econômico quanto vontade política, usando
várias alavancas – notadamente a cadeia de suprimentos de minerais estratégicos
– para desarmar as facções mais hostis e agressivas dentro do Estado americano,
para grande frustração delas.
A
Rússia, embora progrida lentamente, está se movendo inexoravelmente em direção
à conquista de seus objetivos na Ucrânia. O Irã, até agora, está demonstrando a
força de seu poder militar assimétrico no Oriente Médio. A Índia, por sua vez,
opera em seu próprio interesse. Não tenho comentários a fazer sobre o Brasil. A
Europa, tendo-se comprometido com a dependência dos Estados Unidos, está em
apuros profundos, desindustrializando-se devido às suas políticas energéticas
enquanto se prepara para uma guerra contra a Rússia que não pode lançar e nunca
poderia vencer. Mais cedo ou mais tarde, a Europa terá que confrontar o fato de
que sua posição é insustentável, e suas políticas terão que mudar. Esse
reconhecimento já é visível na Hungria, Eslováquia e República Tcheca.
Os
Estados Unidos, com uma base energética forte, separação hemisférica,
estabilidade demográfica (relativa) e outras vantagens, poderiam prosperar
dentro de um quadro multipolar. Não podem fazê-lo enquanto tentam dominar o
mundo militarmente ou por intimidação financeira.
Infelizmente, as
elites dos EUA estão teimosamente comprometidas com o projeto de dominação
mundial, um projeto no qual acreditam pelo menos desde o colapso da URSS no
início dos anos 1990. Assim, a crise para o povo americano consiste na
incompatibilidade entre seus interesses de longo prazo e os das elites que
passaram a controlar a vida política dos EUA e a direcionar a política
nacional. Não prevejo uma resolução fácil para esse problema – pode levar mais
uma geração. Mas, com o tempo, mais americanos podem perceber que é aí que
reside o problema e que ele não pode ser resolvido com protestos vazios,
combinados com a entrega do país a oligarcas e demagogos.
·
Dado o colapso energético em Cuba e os relatos de uma
intervenção externa iminente, a resistência da ilha hoje espelha a Guerra Civil
Espanhola (1936-1939) como uma fronteira existencial definidora para a esquerda
global?
A
Guerra Civil Espanhola foi, de muitas maneiras, uma guerra por procuração,
colocando as forças da Alemanha Nazista e da Itália Fascista ao lado dos
insurgentes e, do lado da República, as da União Soviética, além de voluntários
internacionais. As grandes democracias da Europa, notadamente França e
Grã-Bretanha, assim como os Estados Unidos, fingiram neutralidade, de uma forma
que favoreceu Franco: entre outras coisas, a força aérea rebelde era abastecida
com combustível do Texas e o ouro da República foi sequestrado pelo Banco da
França.
Nenhuma
potência externa parece capaz, ou disposta, a fornecer apoio ao governo cubano
diante de um bloqueio naval, interrupção de energia, escassez de combustível e
alimentos e as consequências maiores de sete décadas de guerra econômica.
Estive em Cuba em várias ocasiões, mais recentemente na primavera de 2024. O
espírito do povo é impressionante, mas o panorama geral é deprimente.
O
fracasso da administração Biden em dar continuidade ao processo de normalização
iniciado sob Obama (e revertido no primeiro governo Trump) permitiu que as
condições se deteriorassem, e isso deu à administração Trump a abertura que
agora busca explorar.
Não
posso falar sobre o humor em Cuba ou as capacidades do governo e da população,
mas não vejo de onde poderia vir uma coalizão capaz de defender Cuba. Angola,
Namíbia e África do Sul, cuja libertação nos anos 1980 dependeu do exército
cubano, parecem estar muito distantes. E, embora o povo americano em geral não
tenha hostilidade em relação a Cuba, não há aqui resistência política
organizada à política de Trump, nem defesa baseada em princípios das normas de
conduta internacional e do direito.
·
Considerando as vastas reservas brasileiras de nióbio,
terras raras e petróleo do pré-sal, como o Estado deve calibrar sua defesa
diplomática contra um Washington cada vez mais inclinado a intervenções
motivadas por recursos?
O
Brasil é um país grande e pode cuidar de sua própria segurança sem conselhos
meus.
Fonte:
Por James Galbraith, entrevistado por Thiago Gama, para Outras Palavras

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