Henrique
Morrone: Crônica de uma Selic no cume da montanha
Na
economia brasileira, a taxa Selic decidiu escalar uma montanha.
Não foi
impulso aventureiro. Foi decisão técnica, cuidadosamente planejada, aprovada em
reuniões formais e acompanhada por relatórios meticulosos. Cada passo da subida
era apresentado como necessário. Cada metro conquistado prometia um horizonte
mais seguro.
No
início, a trilha parecia razoável. A inflação, disseram, exigia esforço. A
economia brasileira, acostumada a terrenos irregulares, aceitou acompanhar a
expedição.
A Selic
avançou.
Primeiro
devagar, depois com mais confiança. A cada parada surgia um novo
acampamento-base. Os comunicados explicavam a estratégia. O objetivo permanecia
o mesmo: alcançar o ponto exato em que a inflação perderia o fôlego.
Vista
da trilha, a paisagem parecia controlável.
Mas
subir tem consequências.
Quanto
mais a Selic avançava, mais rarefeito ficava o ar. O investimento começou a
respirar com dificuldade. Projetos foram sendo deixados pelo caminho, como
equipamentos descartados mesmo por alpinistas experientes quando a subida se
torna íngreme demais. Empresas olharam para o céu da montanha e decidiram
esperar o clima se acalmar.
Lá
embaixo, a economia brasileira também começou a perder o ritmo.
O
consumo ainda caminhava, sustentado por alguma energia residual. Mas a
indústria subia devagar. O crédito encurtava o passo. E o investimento, esse
parecia cada vez menos disposto a continuar a escalada.
A
Selic, porém, seguiu.
Quando
finalmente alcançou o cume, instalou-se no topo com a serenidade de quem
cumpriu o plano. Dali de cima, a vista era ampla. As curvas da inflação
pareciam mais suaves. As projeções indicavam estabilidade.
O
problema era o ar.
No topo
da montanha, o ar é rarefeito. O corpo humano precisa de tempo para se adaptar.
Nem todos conseguem.
A
economia brasileira, olhando para cima, tentava acompanhar a expedição. Mas
faltava fôlego. O investimento parava para respirar. O crédito diminuía o
passo. A indústria permanecia mais abaixo, onde ainda havia oxigênio suficiente
para continuar trabalhando.
Talvez
seja essa a peculiaridade das grandes escaladas da política monetária: quem
chega ao topo costuma acreditar que o problema foi resolvido.
Lá de
cima, a inflação parece menor.
O
investimento, porém, parece cada vez mais distante.
No
cume, tudo parece sob controle.
Mas
quando o ar fica rarefeito demais, a economia deixa de subir.
Passa
apenas a tentar continuar respirando.
• As finanças são parasitárias? Por
Eleutério F. S. Prado é
Desafiado
com essa pergunta, é bem provável que o leitor deste artigo responda
rapidamente com um “sim, as finanças são atividades parasitárias”; em linguagem
mais rigorosa, ele está assim afirmando, sem pensar muito, que o capital de
finanças parasita o capital industrial. Contudo, aqui vai se argumentar que
essa questão é bem mais intrincada do que parece de início.
E que
se pode – e até se deve – contestar esse difundido preconceito de uma
perspectiva de esquerda. Para tanto se examina em sequência dois fundamentos
possíveis dessa metáfora; ao apresentá-la na discussão pública – eis a questão
crucial – o que se está criticando precisamente? Que princípio moral sustenta o
uso extensivo dessa metáfora? Seguem-se duas respostas, uma depois da outra.
Encaminha-se logo a primeira, ainda que de um modo inusitado.
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O ethos do trabalhador?
O
beneficiário do programa social “bolsa-família” é parasita? A pergunta se põe
porque é bem difundida na sociedade brasileira a opinião de que os recebedores
do “bolsa-família” são “vagabundos”. Nessa perspectiva, o contingente dos
beneficiários estaria formado por gente quer obter renda sem trabalhar, que
quer viver do trabalho alheio e não do próprio trabalho. Ora, se esse
despropósito circula mesmo entre os mais pobres e desassistidos é porque ele
encontra abrigo num etos social bem arraigado.
Claro,
essa opinião costuma ser espalhada por gente reacionária, ou seja, pastores,
influenciadores, empresários etc. que militam na direita ou mesmo na
extrema-direita. E que o fazem porque defendem o próprio interesse como
empregadores e/ou aproveitadores ou porque desejam rebaixar na opinião pública
o Partido dos Trabalhadores (PT), criador histórico dessa instituição (junto
com o velho PSDB) de proteção social.
É
preciso ver que essa crítica prospera e fere politicamente porque se vale de um
princípio moral arraigado na própria consciência dos trabalhadores. Eis que a
resilência do preconceito está fundada na ideia de que o bom trabalhador, ao
contrário do malandro, não foge do trabalho e vive do próprio trabalho.
Diante
dele, parece de início insuficiente argumentar que esse programa social é
apenas um remendo para um defeito estrutural do modo de produção capitalista.
Aqueles que o criaram e que o mantém, buscaram apenas compensar a falta
constante de empregos suficientes e de boa qualidade para aqueles que precisam
e querem trabalhar. Procuram, ademais, minimizar as consequências da pobreza
extrema numa sociedade em que a forte concentração de riqueza e renda está
posta como normalidade.
Como os
trabalhadores não criaram as condições adversas de trabalho que enfrentam
cotidianamente e que se afiguram como dadas ou irrevogáveis para eles, é justo
– pode-se argumentar – que o Estado assuma a responsabilidade por seus piores
efeitos, procurando minorá-los. Mais do que isso, essa consideração sugere que
a fonte dessa metáfora, difundida por poderosos agentes, possa ser outra – e
não o ethos do trabalhador, em particular do produtor de mercadorias.
O ethos
do trabalhador como fonte de crítica está presente, por exemplo, num trecho de
O capital em que Marx fala do processo de socialização do capital, o qual já se
manifestava ao seu tempo como consequência da expansão do sistema de crédito.
Eis que essa expansão implicava já – e, como se pode ver hoje de modo melhor,
implica sempre – na propagação das sociedades por ações, na expansão das
dívidas públicas e dos fundos de investimento.
Aquilo
que veio se chamar depois financeirização se mostrava para ele, ainda que de
forma incipiente, como uma tendência imanente ao desenvolvimento histórico da
relação de capital. Eis que a propriedade do capital e o comando dos retornos a
ela associados tende crescentemente a assumir a forma de capital fictício, ou
seja, direitos de saque sobre o mais-valor produzido socialmente. Eis a
financeirização se descortinava para ele, muito claramente, como processo de
socialização do capital.
Referindo-se
especialmente ao desenvolvimento das sociedades por ações, Marx diz que ela
“produz uma nova aristocracia financeira, uma nova Karl classe de parasitas (…)
todo um sistema de especulação e de fraude”. E isso ocorre porque a propriedade
do capital destaca-se do capital efetivo que atua na esfera produtiva. Por meio dessa reestruturação, diz ele, “a
remuneração à propriedade do capital (…) passa a estar inteiramente separada da
função que desempenha no processo real da reprodução”. Do mesmo modo, continua,
a função de direção do processo produtivo, “na pessoa do dirigente, se encontra
agora separada da propriedade do capital”.
Note-se,
no entanto, que o aparecimento de uma classe de parasitas não implica que o
capital de finanças tenha se tornado parasita do capital industrial já que a
prosperidade desse último depende crescentemente da expansão do primeiro. Isso
sugere, mais uma vez, que a acusação de parasitismo aqui visada pode estar
sendo sustentada de outra forma.
<><>
A ideologia do capital industrial
A tese
condenatória de que a finança é parasita – e de que os financistas são
rentistas – pode ser fundada de outro modo, à primeira vista semelhante àquele
acima explanado porque também faz referência ao trabalho. Este outro diz que a
renda e a riqueza provêm da competência e do esforço individual na produção de
bens e serviços necessários à vida social numa sociedade que se sustenta e
alevanta sobre mercados, os quais funcionam obedecendo a lógica supostamente
virtuosa da concorrência. Uma suposta meritocracia inerente ao capitalismo fica
assim justificada por um suposto bom funcionamento econômico.
Como se
sabe, essa lógica sistêmica, que seria inerente ao funcionamento do capital
industrial, foi apresentada de modo marcante pela metáfora da mão invisível.
Adam Smith, em A riqueza das nações, afirmou que, na “sociedade comercial”, a
produção é guiada por uma teleologia implícita que põe uma contra-finalidade. A
partir das ações dos capitalistas como indivíduos, os quais se guiam em
exclusivo pela busca do lucro, o sistema econômico como um todo geraria sempre
e em escala crescente um benefício social que se difundiria por todas as
classes dessa sociedade.
André
Lara Rezende, em artigo recente, explica que esse mito – ele apresenta a
ideologia por excelência do capital industrial como um mito – teria sido
acreditado e desacreditado, respectivamente, nas eras do capitalismo industrial
e do capitalismo notadamente financeirizado. O capitalismo até os anos 1970,
segundo ele, teria sido propriamente industrial, mas a partir dos anos 1980
teria se tornado pós-industrial, ou seja, financeiro, em razão do surgimento de
uma “hipertrofia financeira”.
“O
processo de financeirização” – diz ele – “é, em princípio positivo, pois
facilita o financiamento do investimento, ou seja, o aumento da capacidade
produtiva. A partir de certo ponto, contudo, passa a criar distorções
perigosas. Inverte-se a ordem das coisas: o mercado financeiro deixa de ser um
instrumento para o bom funcionamento da produção de bens e serviços e se torna
o protagonista da economia”.
Com o
advento da supremacia financeira, segundo André Lara Rezende, o capitalismo
perdeu a sua moral. “A explosão da riqueza financeira depois de 2008 (…)
desmistificou a meritocracia capitalista. Diante de fortunas antes
inconcebíveis, agora acumuladas literalmente da noite para o dia, e da
promiscuidade entre os ocupantes do Estado e as elites financeiras, o mito da
riqueza como resultado do trabalho e da competência não tem mais como se
sustentar”. Antes, segundo ele, parecia – apenas parecia – ter!
O que
muda, afinal, como esse advento? “Quando isso [isto é, a financeirização
excessiva] ocorre, a combinação do enriquecimento das elites financeiras com a
generalização dos privilégios dos governantes – políticos eleitos e
funcionalismo – cria uma classe à parte. A elite, anestesiada pelos ganhos
financeiros fáceis, prefere ignorar a erosão da boa governança do Estado, e a
corrupção se generaliza. No Brasil de hoje, o caso do Banco Master, com a sua
espantosa rede de conexões, é exemplar da associação espúria entre as elites e
a política corrompida”.
A
crítica até que faz sentido, mas tudo isso seria realmente novo? Marx, como bem
se mostrou acima, já apontara para a corrupção de tais elites em meados do
século XIX. Portanto, põem-se agora a necessidade de criticar a tese de que as
finanças (supostamente excessiva) são parasitárias.
<><>
As finanças não são parasitárias
A
semelhança acima apontada, no entanto, é apenas aparente: se o primeiro
princípio acima referido é sustentado pelo etos do trabalho, esse outro é
mantido por uma ideologia que associa o capitalismo apenas – ou principalmente
– ao capital industrial, sujeito que domina na esfera econômica ampla em que se
produzem as mercadorias.
Note-se
que o “orgulho do trabalhador” por viver do próprio trabalho e a “confiança
burguesa” na justeza dos resultados do sistema econômico, tal como foram aqui
sumariamente descritos, estão ambos assentados nas condições estruturais
providas pelo próprio modo de produção capitalista. Mas diferem entre si porque
um desses fundamentos provém da função social do trabalho em geral, mas o outro
advém da vanglória competitiva.
Note-se
também que, no primeiro caso, o trabalho é tomado como elemento central da
produção social, e que, no segundo, ele se apresenta como função – ou melhor,
como funcionalidade – do sistema econômico produtor de mercadorias, tal como
ele existe e prospera. Pois, está implícito na metáfora da mão invisível e na
crítica de André Lara Rezende à financeirização que os industriais são agentes
necessários que atuam para o bom funcionamento do sistema econômico.
E é
assim mesmo se Adam Smith, antes mesmo de Karl Marx, tenha feito a distinção
entre trabalho produtivo (que produz valor para o capital) e trabalho
improdutivo (que consome valor produzido por outros no sistema da relação de
capital), mesmo se o filósofo do iluminismo escocês parece incluir neste último
o trabalho do administrador capitalista. Pois, a questão mais ampla da função
social do trabalho – na duplicidade aqui considerada – não se confunde com a
questão de saber se ele produz mais capital ou não.
A
posição posta no título desta seção foi defendida recentemente por Stephen
Maher e Scott Aquanno em A queda e a ascensão da finança americana. Neste
livro, em primeiro lugar, eles afirmam que não há antagonismo entre as finanças
e a indústria (tomando enfaticamente este último termo no sentido amplo que lhe
deu Marx, ou seja, como lócus da produção de valor e mais-valia no
capitalismo).
Eis que
essas atividades não estão apenas intimamente interligadas, como dependem uma
da outra para subsistirem. Se as finanças consomem valor que a indústria
produz, ela facilita a inversão de capital, disciplina a extração de
mais-valor, alimenta a competição de mercado, facilita a circulação nacional e
internacional do capital. A tese de que elas se tornaram excessivas no
capitalismo contemporâneo parece desde logo mal fundamentada.
Esses
dois autores, ademais, afirmam corretamente que o processo de financeirização
explicito não começou nos anos 1980 e que ele não vem a ser, portanto, uma
característica do neoliberalismo. Apontam desde logo que Rudolph Hilferding
discutiu já no começo do século XX uma forma específica de financeirização pela
qual as corporações industriais na Alemanha foram subsumidas ao capital
monetário detido pelos bancos. Deu, então, o nome de capital financeiro à fusão
do capital industrial com o capital das finanças bancárias.
Mas vão
mais longe. Indicam, outrossim, que algo semelhante aconteceu nos Estados
Unidos entre 1880 e 1929, sob a liderança do banco J. P. Morgan. E que a
financeirização assumiu novas formas depois da Grande Crise do século XX. As
próprias corporações industriais incorporaram as funções financeiras daí em
diante até o fim da Segunda Guerra Mundial, quando então passaram a atuar como
tais explicitamente. Eles registram ainda que essas corporações, após 1980, se
internacionalizam simultaneamente como empresas industriais e como empresas
financeiras e que, após 2008, elas foram abraçadas pelas grandes gestoras de
ativos com a Black Rock.
A essas
duas teses centrais, eles acrescentam três outras que aqui serão apenas
mencionadas: (i) a financeirização por si só não implica no declínio do
capitalismo; (ii) ela não implica que um processo de monopolização se tornou
irreversível nesse modo de produção; e (iii) mesmo que a finança possa exercer
pressão sobre os governos, condicionando a política econômica, a sua expansão
não implica num recuo do Estado e da intervenção estatal no funcionamento do
sistema econômico.
Em
resumo, “os problemas que se apresentam agora” na história contemporânea –
dizem eles – “são problema do capitalismo; não se afiguram, portanto, como
problemas criados pelas finanças num capitalismo que seria saudável de outra
forma”. Portanto, a própria tese de que a atividade de finanças se tornou
excessiva a partir dos anos 1980 parece advir ainda da necessidade de
justificar o capitalismo, mesmo que seja mitologicamente.
Fonte:
Outras Palavras/A Terra é Redonda

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