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coisas 'grátis' na internet que pagamos sem saber
Vivemos
na era da gratuidade. Redes sociais grátis, correio eletrônico grátis,
buscadores grátis, mapas grátis, notícias grátis, inteligência artificial
grátis.
Parece
que o capitalismo, esse sistema que acusamos de cobiça com tanta frequência,
passou a ser mais generoso.
Mas há
um pequeno detalhe incômodo: nada neste mundo se produz por si próprio. Como
recordava Karl Marx (1818-1883), todo valor requer investimento social de
trabalho, energia e tempo.
Nenhum
servidor funciona por altruísmo. Nenhum algoritmo trabalha por vocação social.
Nenhum pacote é transportado por inspiração poética.
Se não
pagamos por algo com dinheiro, estamos pagando de outra forma. A pergunta não é
se pagamos, mas com o quê.
Aqui
estão oito coisas que acreditamos serem gratuitas, mas que, na realidade, não
são.
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1. Redes sociais: o preço da atenção
Publicar
fotos, comentar, compartilhar memes, acompanhar debates políticos. Tudo parece
gratuito.
Mas
plataformas como a Meta Platforms não vivem do entusiasmo juvenil, mas sim da
publicidade segmentada.
A
socióloga Shoshana Zuboff explicou como o capitalismo de vigilância transforma
nossos comportamentos em matéria-prima econômica. Nós não pagamos com cartão.
Pagamos com tempo, dados, comportamento e padrões emocionais.
Cada
"curtida" é uma informação. Cada pausa em frente a um vídeo é um
sinal comercial. Nosso divertimento é um recurso, que pode ser explorado.
O mais
interessante é que não sentimos que estamos pagando. Sentimos que as redes
sociais nos entretêm, que nos dão um "prazer" gratuito.
Qualquer
semelhança com o romance Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (1894-1963), é
mera coincidência.
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2. O buscador que sabe tudo
A
empresa Alphabet Inc., dona do Google, não nos cobra por fazer buscas na
internet.
Pelo
contrário, ela facilita a nossa vida, encontrando restaurantes, médicos, voos e
respostas a questões existenciais.
Mas
cada busca revela uma intenção. E a intenção é ouro.
O
sociólogo Pierre Bourdieu (1930-2002) nos ensinou que até as nossas eleições
aparentemente livres são estruturadas por campos e capitais. E, aqui, as nossas
buscas alimentam um campo econômico no qual a informação sobre desejos e
necessidades tem valor monetário.
Nós não
pagamos pela resposta, mas pagamos ao formular a pergunta.
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3. Frete grátis (porque alguém está pagando)
O
comércio eletrônico aperfeiçoou a arte do "frete grátis". Mas o
transporte envolve combustível, salários, infraestrutura e logística.
Como
destacou o acadêmico David Harvey, o capitalismo reorganiza constantemente os
custos para manter o acúmulo.
O custo
não desaparece. Ele é integrado ao preço, compensado com volume ou se mantém
sob condições trabalhistas milimetricamente ajustadas.
A
gratuidade é uma redistribuição estratégica do custo, não a sua evaporação.
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4. Aplicativos de entretenimento
Séries
ilimitadas, vídeos infinitos, música a todo instante.
Às
vezes, pagamos uma assinatura; em outras, nem isso. O modelo freemium
("free premium", ou premium de graça) nos oferece um ingresso sem
barreiras.
O
filósofo Byung-Chul Han descreveu como a sociedade contemporânea transforma a
sedução em forma de controle.
Quanto
mais tempo passamos nesses aplicativos, mais dados geramos, mais afinado se
torna o nosso perfil e mais rentável é a nossa presença. Nós nos integramos
pela comodidade.
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5. Notícias digitais
Muitos
meios de comunicação oferecem acesso gratuito aos seus conteúdos. Seria uma
forma de filantropia informativa? Não exatamente.
O
financiamento provém da publicidade, dos cliques e do tráfego.
O
sociólogo Jürgen Habermas (1929-2026) alertou que a esfera pública depende das
condições materiais de comunicação. Quando a atenção se transforma em moeda, a
informação também entra na lógica de mercado.
O
leitor não paga com dinheiro, paga com atenção. E a atenção é monetizável.
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6. WiFi público
Aeroportos,
cafeterias e hotéis oferecem conexão gratuita. Basta aceitar certas condições
que raramente lemos.
O
filósofo Michel Foucault (1926-1984) demonstrou como o poder moderno opera por
meio de dispositivos aparentemente neutros que organizam os comportamentos.
O
acesso "grátis" também é um dispositivo. Em troca, fornecemos dados
de navegação, localização e comportamento. O pagamento é a cessão silenciosa.
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7. Chatbots de inteligência artificial
As
plataformas de inteligência artificial (IA) permitem consultas de todo tipo.
Resolver
dúvidas, redigir textos, gerar ideias. O usuário sente que tem acesso a uma
ferramenta avançada sem pagar por ela.
O
sociólogo Antonio Gramsci (1898-1937) falou da hegemonia como forma de direção
cultural que passa a ser normalizada.
A IA
gratuita pode ser entendida desta forma. Ela parece um serviço, mas cada
interação fortalece infraestruturas corporativas, modelos de negócios e acúmulo
de capital cognitivo.
Aqui, a
gratuidade corresponde a um investimento de longo prazo.
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8. O presente mais sofisticado: a sensação de que não devemos nada
Talvez
o ponto mais interessante seja que a gratuidade não redistribui apenas os
custos. Ela transforma a experiência do intercâmbio.
O
filósofo Louis Althusser (1918-1990) explicou que a ideologia não funciona
apenas por discurso, mas por práticas cotidianas, que estruturam nossa
percepção.
Quando
não desembolsamos dinheiro, não sentimos perda. Quando não sentimos perda, não
percebemos conflito. E, quando não percebemos conflito, o sistema parece
neutro.
A
gratuidade não elimina o intercâmbio, que continua acontecendo sem a nossa
consciência. E isso traz consequências sociais profundas.
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O paradoxo da generosidade
O
capitalismo digital não funciona ocultando informações de forma grosseira, mas
reformulando a percepção.
Se não
observarmos o custo, parece que ele não existe. Se não o experimentarmos como
sacrifício, parece que a relação não é desigual.
Nada
disso implica uma conspiração, mas sim um modelo de negócio. O sistema não
precisa que acreditemos na sua bondade, basta nos sentirmos cômodos.
Mas
precisamos ter em mente que, na economia, não existem milagres. Quando algo
parece grátis é porque o pagamento, simplesmente, mudou de lugar.
O mais
interessante não é pagarmos com dados, tempo ou atenção. Mas sim que, como não
pagamos com dinheiro, deixamos de sentir que estamos pagando.
Aqui
reside o presente mais perfeito de todos: a ilusão, cuidadosamente projetada,
de que alguém nos está dando algo, sem pedir nada em troca.
Fonte:
Por Victor Hugo Pérez Gallo, para The Conversation

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