Vladimir
Safatle: ‘Flávio Bolsonaro não quer ser presidente, quer ser administrador de
colônia’
No seu
recém lançado livro A Ameaça Interna: Psicanálise dos novos fascismo
globais, o psicanalista e professor titular do departamento de Filosofia da
Universidade de São Paulo (USP), Vladimir Safatle, trata sobre o
conceito de fascismo restrito.
‘O que
é fascismo restrito? São sociedades que tratam setores da população, tratam
certos territórios, como o espaço de máxima espoliação, como espaço da ausência
de direito, como espaço da vulnerabilização da vida. E eu poderia dar esse
exemplo em todas as ditas democracias mais estabelecidas do capitalismo
global’, explicou o autor durante a entrevista que concedeu ao programa Conversa
Bem Viver.
Na
obra, publicada pela editora Ubu, o autor aponta que não se deve olhar
para o eleitorado de extrema direita como
se fosse uma parcela da população que não sabe o que está acontecendo de
fato.
“Não faz nenhum sentido imaginar que são pessoas que são incapazes, que elas
estão sendo enganadas, que elas não estão entendendo o que está acontecendo,
que elas acreditam em fake news, que elas acham que
a Terra é plana e todo esse tipo de coisa. Eu acho essa uma posição
politicamente absolutamente catastrófica. Elas sabem muito bem o que está
acontecendo. Elas sabem muito bem que, não existe mais sociedade para todo
mundo dentro desse horizonte de crise do capitalismo.”
É
preciso entender o contexto, segundo Safatle: “Tem que passar por entender o
sistema de precarização profunda que essas pessoas estão passando, entender que
a gente está perdendo a nossa capacidade de fornecer uma alternativa real, que
não seja simplesmente tentar gerir, de uma maneira mais humana as crises
terminais do capitalismo, e ter uma postura mais combativa.”
Na
visão do professor, existe um cálculo racional no fascismo e o eleitor da
direta entendeu que “é basicamente cada um por si”. “E se é cada um por si,
então, bem, que não me atrapalha com nenhuma demanda de solidariedade. Que me
deixem lutar pela minha sobrevivência”.
Nesse
sentido, um avanço e vitória eleitoral da extrema direita, esse cenário seria
ainda mais agressivo. “É nossa obrigação impedir que um projeto fascista
apareça no Brasil pela segunda vez. E, pela pela segunda vez, vai ser muito
mais forte. Vai ser muito diferente do primeiro. O seu grau de destruição vai
ser muito maior. Até porque eles já sabem como funciona a máquina do Estado, já
sabem de onde vem os pólos principais de resistência e a gente vê um horizonte
global articulado. E ele vai interferir brutalmente na política
brasileira.”
Nesse
sentido, o pré-candidato à presidência, Flávio Bolsonaro, não tem projeto
para a nação, focando apenas em fazer do Brasil uma colônia.
“Esse sujeito não quer ser presidente do Brasil, ele quer ser administrador de
colônia, é outra coisa. Não tem nenhuma ideia do que é ser presidente do
Brasil. Ele quer administrar, fazer com que a gente volte a uma situação
colonial e ele ser o administrador da colônia. Ninguém aqui quer voltar a uma
situação colonial, já começa por aí. Independente das nossas divergências.”
Para
Safatle, a ação do campo progressista no enfrentamento ao fascismo não tem sido
eficaz ao contrário da atuação dos partidos de esquerda na Colômbia, que atuam com
combatividade às estruturas do sistema capitalista,
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Confira a entrevista
- Eu quero começar
um conceito básico que você apresenta nas primeiras páginas, que é o
fascismo restrito, com o qual você desmascarar as democracias liberais que
o mundo vive depois do pós-guerra. No exemplo do Brasil, que pós-ditadura
militar, a população negra, mulheres, entre tantos outros grupos vivem um
tipo de fascismo mesmo estando em uma democracia liberal.
Vladimir
Safatle:
Exatamente, eu acho que nós temos um problema epistemológico grave, que é
trabalhar com teorias do Estado, que não leva em conta clivagens territoriais e
clivagens de classe, clivagens sociais. A gente vai tendo a impressão de que
nós temos um Estado que é um Estado democrático de direito, que é uma
dita democracia liberal.
Em todo
seu território, ele vai funcionar como uma uma democracia liberal e uma
instituição garantidora de direitos, instituição de direitos, e isso está longe
de ser a verdade. O processo é completamente diferente.
O que
acontece é que essas instituições, elas clivam o seu território, elas dividem o
território. Tem territórios que de fato vão ter uma uma circulação da
experiência democrática. Tem outros territórios que vão estar submetidos
a regimes de violência e recessão contínuos, normalizados. A gente conhece isso
muito bem num país como o Brasil.
A
democracia brasileira, quando ela existiu? Ela é uma democracia que existe aqui
onde eu estou, aí onde você está, e mais uns sete a oito quilômetros, mas lá na
já na periferia de São Paulo, ela acabou.
Porque
você não tem nenhuma garantia de integridade pessoal, você não tem nenhuma
garantia que vão bater na porta na sua porta às cinco da manhã, não vai ser o
leiteiro, vai ser polícia sem mandado e te colocando numa situação de profunda
precariedade e vulnerabilidade.
É
completamente abstrato imaginar que um tipo de exercício da lei é dado em um
certo território, é dado em outro também. Por isso que eu insisti na
ideia de que nunca vivemos uma democracia liberal, isso nunca existiu, isso é
uma uma completa abstração. O que nós vimos foi fascismos restritos, que em
situações de crise generalismo.
O que é
fascismo restrito? São sociedades que tratam setores da população, tratam
certos territórios, como o espaço de máxima espoliação, como espaço da ausência
de direito, como espaço da vulnerabilização da vida. E eu poderia dar esse
exemplo em todas as ditas democracias mais estabelecidas do capitalismo global.
O que
era a o regime político dos Estados Unidos do ponto de vista de um negro que
vivia no sul dos Estados Unidos na década de 60 e na década de 70. Pergunta para eles
o que eles achavam da democracia norte-americana.
A
França e a Inglaterra até há bem pouco tempo
eram estados coloniais. Isso significa que suas possessões coloniais faziam
parte do seu território. Então, em certos territórios vigoravam uma lei
completamente distinta. Pergunta para os argelinos o que eles
achavam da democracia francesa. Pergunta para os indianos o que eles
achavam da democracia inglesa. Isso mostra que a gente tem uma deficiência
enorme de conseguir entender processos concretos de organização política entre
nós.
E uma
das teses centrais do livro é falar que o colonialismo é o espaço de
desenvolvimento do fascismo, o fascismo nada mais é, do que a extensão da
lógica da violência colonial para os países metropolitanos. E a permanência do
colonialismo indica um elemento fascista muito interno às nossas sociedades. E
mesmo depois dessas sociedades deixarem de ser sociedades coloniais, elas
reverberam o problema na sua relação com os imigrantes. Então, eu insistiria
muito nesse aspecto, para que a gente pudesse qualificar melhor o problema, que
é o que falta muito hoje.
- Inclusive, sobre
qualificar o problema, me permita avançar um pouquinho mais, porque
vivemos num fascismo restrito, mas, a gente não vai dizer que o presidente
Lula é fascista ou que o presidente Obama era fascista, mas a gente pode
dizer que o presidente Trump e o presidente Bolsonaro sim são fascistas. E
isso muda o conceito, nestes casos, é quando vivemos um fascismo
generalizado. Porque a sociedade, no geral, tem tanta dificuldade de dizer
que Donald Trump é um presidente fascista ou que Jair Bolsonaro é um
presidente fascista. De onde vem esse medo, esse receio, essa restrição?
Teriam
várias respostas possíveis. Primeiro é muito importante a gente entender que na
passagem de um fascismo restrito, ou seja, um fascismo para certos territórios
e populações para um fascismo generalizado, um
fascismo que se generaliza para todo o território de um país e para todas as
suas populações,
você tem mudanças qualitativas significativas. Inclusive, para essas populações
que já estão sob regime fascista, elas têm uma vulnerabilidade ainda maior.
Por
isso, não faz nenhum sentido uma coisa do tipo: “Ah, mas agora vocês estão
reclamando porque agora que vocês estão sentindo a violência que a gente sempre
sentiu”. Esse tipo de colocação, que por vezes se ouve, é uma colocação falsa,
porque o que acontece é outra coisa. O nível de violência que esses setores já
violentados vão estar exposto é muito maior.
Há uma
mudança qualitativa mesmo, por mais que os Estados Unidos tenham uma dinâmica
fascista com certos setores da população, ninguém está falando que Obama
e Trump são a mesma
coisa ou que Lula e Bolsonaro são a mesma
coisa. Muito pelo contrário, evitar essa generalização é nossa primeira tarefa
política. A segunda é desmontar as estruturas fascistas em geral.
E
porque não se usa o termo? Essa é uma questão muito interessante. Eu diria que
o mundo acadêmico contribuiu de maneira absolutamente detestável para que fosse
difícil a sociedade nomear o problema. A gente fez uma espécie de espaço de
produção de uma miríade de conceitos: populismo de direita, democracia e
liberal, ultranacionalismo, identitarismo de direita, Tem vários conceitos que
parecem que têm duas funções, na verdade. A primeira delas é que não nomeamos o
tipo de problema que temos à nossa frente. E o segundo é criando uma série
de equivalências entre posições, entre aspas extremas, para tentar
desqualificar todas essas posições extremas. Como se a nossa posição normal já
não fosse extrema, como se a nossa situação de normal já não fosse, na verdade,
o pior dos extremismos, porque ele parece naturalizar um processo insustentável
para setores enormes da população dos nossos países e de populações mundiais.
A
tentativa de evitar chamar de gato um gato, tem como única função desmobilizar
as forças políticas que devem ser mobilizadas diante do tipo de desafio que nós
temos à nossa frente. É uma escolha política, escolha política de não nomear. A
primeira função do pensamento crítico é dar o nome correto para as coisas. Não
ter medo de nomear corretamente os problemas. E não por acaso, em um país como
o Brasil, isso é ainda mais evidente, como tipo de estratégia.
A gente
está falando de um país cujo o fascismo nacional é um eixo constituinte da
nossa história. E a universidade brasileira, durante décadas, apagou a sua
história. Se a gente falasse em fascismo dentro da universidade, a gente era
zombado. Até hoje a gente tem problemas. É que agora começou a ficar mais
evidente o processo.
Você
vai vendo o supremacismo racial, o expansionismo militar, o fim das estruturas
do direito internacional, a indiferença e dessensibilização em relação aos
piores níveis de violência que a gente pode imaginar, níveis genocidários de
violência. Aí, claro, basta você juntar os pontos que você vê exatamente o que
está na nossa frente.
Nomear
o problema, não é só uma descrição, ele produz um ato. Quando você assume isso,
algo muda. Você fala: “Não, espera aí, se eu estou diante de uma ameaça
fascista, então qual é a minha ação dentro desse horizonte?” Não posso mais
imaginar que estou numa situação política normal. Também não vou organizar
minha recusa de uma forma normal, é uma forma excepcional. É um convite a uma
modificação estrutural da nossa forma de ação política.
- Professor, deixa
eu aproveitar que no final da sua resposta você trouxe bastante sobre o
que devemos fazer a partir do momento que a gente consegue denominar
devidamente cada coisa, mas trazendo outro elemento do seu livro. Como é
preciso olhar os eleitores de extrema direita? Você faz uma
provocação de que a gente não tem que olhar para eles como se estivessem
sendo enganados, pelo contrário, eles sabem muito bem o que estão fazendo. Então como é
possível entender de onde vem essa disseminação, crescimento e
consolidação do fascismo dentro do país, tornando a extrema direita como
um dos blocos políticos mais fortes para essa eleição de 2026?
O
Brasil é o país que teve o maior partido fascista fora da Europa. A gente tinha
um milhão e duzentos mil membros da eleição integralista nacional dos anos 30.
Essas pessoas não desapareceram Essas pessoas fazem parte da nossa história.
Elas estão por todos os lados. Basta ver que essa reconfiguração do fascismo
nacional, volta agora com força, e volta porque nunca foi embora. Porque sempre
teve aqui. Claro que não podia ter representações políticas à altura, mas ele
estava à espreita do da primeira crise estrutural da nova república. Quando a
Nova República começa a entrar em crise, quando o sistema de pacto da Nova República entra em crise,
então eles se fortalecem. Hoje, vendo de frente para trás, fica muito evidente
como esse processo estava nos assombrando a todo momento.
Estamos
diante de um ano eleitoral. Eu sou alguém que passou todos esses anos
tendo críticas muito claras em relação ao governo do Lula. Mas eu acho que numa
situação como essa, é completamente diferente. A margem de manobra que um que
um governo não fascista nos fornece, ela é fundamental nesse momento. É nossa
obrigação impedir que um projeto fascista apareça no Brasil pela segunda vez.
E, pela pela segunda vez, vai ser muito mais forte. Vai ser muito diferente do
primeiro. O seu grau de destruição vai ser muito maior. Até porque eles já
sabem como funciona a máquina do Estado, já sabem de onde vem os pólos
principais de resistência e a gente vê um horizonte global articulado. E ele
vai interferir brutalmente na política brasileira.
O
problema de um senhor como Flávio Bolsonaro é que esse sujeito não quer ser
presidente do Brasil, ele quer ser administrador de colônia, é outra coisa. Não
tem nenhuma ideia do que é ser presidente do Brasil. Ele quer administrar,
fazer com que a gente volte a uma situação colonial e ele ser o administrador
da colônia. Ninguém aqui quer voltar a uma situação colonial, já começa por aí.
Independente das nossas divergências — às vezes as pessoas fazem uma crítica
dita de esquerda radical, que a gente não tem nenhum tipo de sensibilidade para
o problema, ao contrário, acho que a gente tem uma entrega muito honesta para
certas lutas, porque a gente sabe que a gente não vai ganhar nada no final
dessa luta, mas a gente sabe muito bem o que vai ser perdido. Então, eu acho
que esse é o primeiro ponto.
O
segundo ponto é o seguinte: eu insisti muito no livro, em recusar a
psicologizar comportamento político, principalmente dos setores precários e
vulneráveis que que fazem escolhas fascistas, extrema direita. Eu acho que é um
equívoco político brutal.
Existe
uma diferença entre os eleitores orgânicos, aqueles que tem uma configuração
ideológica muito clara, e com esses não tem muito o que fazer, são essas
pessoas com as quais nós vamos combater nos próximos 50 a 60 anos, e que a
gente combate a mais de 50 a 60 anos. Elas são basicamente as mesmas, as suas
histórias são as mesmas. Quem combateu na ditadura militar, sabe muito bem de
onde eles vieram, eles continuam no mesmo lugar, a gente continua no mesmo
lugar e vai ser assim a vida toda.
Se
fosse só isso, isso não seria um problema. Eles são cerca de 15% da população.
Só que o problema é quando eles viram 48%, 49%, 50%. Aí, sim, nós temos um
problema. E aí é importante entender como o fascismo é um discurso realista. E
qual é o tipo de resposta que ele está dando. Não faz nenhum sentido imaginar
que são pessoas que são incapazes, que elas estão sendo enganadas, que elas não
estão entendendo o que está acontecendo, que elas acreditam em fake news, que
elas acham que a Terra é plana e todo esse tipo de coisa. Eu acho essa uma
posição politicamente absolutamente catastrófica. Elas sabem muito bem o que
está acontecendo. Elas sabem muito bem que, não existe mais sociedade para todo
mundo dentro desse horizonte de crise do capitalismo.
E,
infelizmente, o campo progressista não conseguiu, até agora, se colocar como
uma alternativa politicamente crível. Uma alternativa que consegue garantir uma
ampliação real das macroestruturas de proteção social, que consegue quebrar
essa dinâmica do próprio sistema de produção, e fornecer uma alternativa de
sociedade. Então, dentro desse horizonte, eles fazem uma escolha.
A
escolha é: “Se não tem sociedade para todo mundo, então é basicamente cada um
por si. E se é cada um por si, então, bem, que não me atrapalha com nenhuma
demanda de solidariedade, mas que assim, que que me permite que me deixem lutar
pela minha sobrevivência”. Ora, isso é catastrófico, é claro, mas é
absolutamente racional, existe um cálculo racional no fascismo.
A gente
tem que parar de imaginar o fascismo com uma espécie de resposta emotiva, uma
resposta populista nesse sentido, Como se as emoções passassem por cima da
razão. É necessário entender a escolha racional por trás desse processo. E isso
nos coloca uma questão: a nossa resposta não pode ser essa que a gente está
dando até agora. Tem que passar por entender o sistema de precarização profunda
que essas pessoas estão passando, entender que a gente está perdendo a nossa
capacidade de fornecer uma alternativa real, que não seja simplesmente tentar
gerir, de uma maneira mais humana as crises terminais do capitalismo, e ter uma
postura mais combativa.
De todo
esse processo latino-americano que nós estamos vendo nos últimos anos, um dos
únicos dos países que se destaca como uma exceção a essa ascensão da do
fascismo, é a Colômbia, olha que interessante. Que é o país que
teve uma uma posição da sua esquerda muito mais clara do que todos os outros,
muito mais combativa do que todos os outros. Eles estão colhendo frutos. E isso
deveria servir como uma espécie de alerta e de reflexão para todos nós.
- O senhor
traz um exemplo no livro, que eu vou compartilhar aqui para todo
mundo entender, que é um caso que aconteceu na Pensilvânia. Uma empresa
ameaçada por ser extremamente poluente, foi fechada pelo governo que a
reabriu de uma maneira mais ecologicamente sustentável, o que na prática
significou precarização dos empregos. Então os trabalhadores de lá
começaram a pensar: “Por que quero me comprometer com a luta ambiental,
pensar no mundo sustentável, se isso significa piorar a minha qualidade de
vida? Prefiro votar no Trump que está saindo do acordo de Paris e está
apostando nos Estados Unidos forte, mesmo que isso signifique o fim do
mundo. Se é para acabar o mundo, eu quero que eu pelo menos viva bem até o
final”. Mas professor, numa perspectiva mais esperançosa, o
final do livro, eu acho muito elucidador, brilhante e espirituoso, porque
você cita a Revolução Haitiana, primeira revolução nas Américas contra o
colonialismo, erguida pelo movimento negro, pelos escravizados que
conseguiram dominar o país e fizeram um marco até hoje. E você cita ela
para trazer a frase : “Há momentos históricos que só o delírio é a única
saída consequente”. Queria que tu explicasse essa frase e como aplicá-la
na prática em 2026.
Utilizando
esse mesmo exemplo que você trouxe, do professor Rui Braga, ‘Angústia do
Precariado’. Muito interessante, que ele mostrou exatamente isso. Olha o
cálculo racional que existe por trás. É isso que ele estava querendo mostrar,
Então,
o fascismo, ele aparece com uma perspectiva realista. Só que o dado é que ser
realista hoje é o que há de mais irreal. Porque ser realista hoje é se adaptar
a uma realidade insuportável. Uma realidade que não consegue garantir sequer as
condições mais elementares de reprodução da nossa vida, dentro de um meio
ambiente que está em profunda degradação e degradação acelerada.
Dentro
desse horizonte, é importante a política emancipatória lembrar que nessas
situações, mais do que tentar ser realista, é apostar em algo que parece hoje
como um delírio. E em vários momentos da história, aqueles que apostaram no
delírio acabaram vencendo. Eu lembrei da Revolução Haitiana exatamente por
causa disso. Do ponto de vista concreto, pessoas escravizadas que se sublevaram
contra o exército mais potente da época, o exército Napoleônico, a grande
potência militar da época, era um completo delírio. No entanto, esse delírio venceu.
Ele
venceu uma vez, ele vence outras. O delírio também tem a capacidade de imaginar
um mundo possível, lá onde parece que não há mais imaginação, mais espaço para
imaginação. Ela força os limites da imaginação, e isso que muitas vezes é
necessário dentro de uma dinâmica política, principalmente agora, onde nós
temos um um tipo de combate, que é um combate estrutural, onde as forças de
reprodução material do capitalismo assumem o seu lado mais terrorista, mais
brutalizada e mais militarizada. Elas não têm mais espaço para simular acordos.
Nesse
momento, a gente tem que lembrar que quando a gente parecia diante de forças
desproporcionais, a capacidade que a gente teve de imaginar outros futuros e
acreditar na nossa força, foi um elemento decisivo para a vitória.
Fonte:
Brasil de Fato

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