Entidades
“sem fins lucrativos”: parasitas no SUS?
Brasil
e Portugal fazem parte de um conjunto bastante seleto de países que possuem
sistemas universais de saúde. Se particularizarmos o caso do Brasil,
posicionado na periferia do capitalismo, a situação torna-se ainda mais
especial. Tanto o Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro quanto o Serviço
Nacional de Saúde (SNS) português resultaram de processos de luta social
potentes e contemporâneos. O primeiro é produto do combate à ditadura
empresarial-militar (1964-1985), que terminou por tomar o rumo de uma transição
pactuada, pelo alto, e assumir a forma de uma redemocratização da vida política
sem tocar nas estruturas de classes. O segundo originou-se de um processo
revolucionário (1974-75), que pôs fim também a uma ditadura (neste caso, ainda,
fascista e colonialista) e promoveu a ruptura da ordem então vigente, alterando
significativamente as bases materiais da sociedade portuguesa – e, embora na
sequência o processo tenha refluído, foi a Revolução que fundou e ‘temperou’ a
democracia portuguesa (Loff, 2022; Secco, 2005).
Em
outro trabalho (Dantas, 2025) – que se dedicou a explorar, comparativamente,
justamente a relação entre os processos políticos experimentados em ambos os
países, com as suas resultantes em termos de políticas sociais de grande
envergadura na saúde, além de investigar os componentes históricos e
conjunturais que ajudam a entender os processos de desmonte atuais que
vivenciam –, aventamos, como problemáticas de estudo (ainda carentes de
aprofundamento), dois fatores de naturezas distintas. O primeiro diz respeito
ao resultado prático, no tempo histórico de média duração, do desenrolar dos
dois processos políticos que, embora flagrantemente distintos em sua forma e
conteúdo, atualmente parecem guardar mais aproximações relativas do que suas
origens e desenvolvimentos tão diferentes poderiam nos fazer supor. O outro
fator, inserido no registro da longa duração, que pode se constituir na base
para o entendimento do primeiro, diz respeito à condição estruturalmente
‘dependente’ de ambos os países no cenário internacional capitalista, que pode
nos permitir iluminar suas realidades nacionais, mutuamente, a partir da
análise de base econômica e das formas políticas consequentes a esta base –
ainda que não de modo mecânico.
Tais
indicações não servirão aqui para nós como hipóteses a serem testadas, mas nos
parece válido apresentá-las para que as tenhamos em mente quando nos
debruçarmos sobre as formas atuais que tem assumido a ação privatizante de
desmonte das políticas públicas e universais de acesso à saúde no Brasil e em
Portugal. A nós interessam duas ordens de questões: em uma ponta, o senso comum
reinante que associa a atuação do setor privado à eficiência, economia de
recursos e transparência, ao cabo em que à gestão pública cola a imagem da
lentidão, do desperdício e da corrupção; na outra, nos chamam a atenção os
meios e o feitio através dos quais este senso comum tem sido ‘educado’.
É neste
terreno que pretendemos contribuir com o debate, mas para tanto é preciso que
digamos, já de antemão, de onde partimos. Para nós, a relação entre público e
privado é inevitavelmente conflituosa sob relações sociais pautadas, não
superficial ou lateralmente, mas essencialmente, pela apropriação privada da
riqueza socialmente produzida (Marx, 2017). Logo, não se pode (sem conflito)
configurar esta relação como ‘complementar’ ou passível de equilíbrio
administrável por um Estado supostamente zeloso do ‘interesse geral’, secundado
por um empresariado ‘socialmente responsável’ e ambientado em uma sociedade
civil ‘solidária’. Se nenhum dos elementos que em tese garantiriam essa
harmonia existe na realidade dos fatos – tal como pelas lentes liberais são caracterizados
–, debitar o resultado do conflito de classes à sua pior ou melhor
administração por canais institucionais antes mistifica o problema no lugar de
desvelá-lo.
Processos
privatizantes, portanto, em velocidade mais ou menos acelerada e sob formas
mais ou menos sofisticadas, têm a sua ‘economia política’. Dizem respeito,
grosso modo, a ciclos, situações e conjunturas políticas, todas sob
determinadas configurações de luta social. Se é assim, não podemos reduzi-los
aos momentos em que se efetiva a venda direta do patrimônio público ou em que
vigoram as parcerias público-privadas, as concessões e a entrega da gestão
pública para particulares. E se, ademais, os chamados conflitos distributivos
são a face mais nítida da vida social nas sociedades capitalistas – do centro
ou da periferia –, às classes dominantes se exige um preparo para atuar sobre
esta desarmonia permanente. Si vis pacem, para bellum!
Há
muitas formas de privatização que se criam, desaparecem ou se reinventam. Este
trabalho se debruçará sobre uma delas, que vem se ampliando enormemente nos
últimos 30 anos sem a atenção devida, muito bem protegida que está sob o véu da
filantropia. Referimo-nos à ação de entidades ditas ‘sem fins lucrativos’, que
costumam representar, em bloco e de modo associado, os interesses de segmentos
e frações do capital em todos os setores econômicos – entre os quais nos
interessa o da saúde. Trata-se, então, como veremos, de investigar os
“mecanismos do poder de classe que se baseiam na ampliação da sociedade civil”
(Louçã, Lopes e Costa, 2014, p. 16).
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Entidades sem fins lucrativos: panorama internacional e os casos de Brasil e
Portugal
Institutos,
associações, fundações e organizações não governamentais (ONGs) declaradamente
filantrópicas ou não – que prestam serviços dos mais variados, oferecem cursos,
formam quadros no empresariado e na política, empregam trabalhadores e/ou
utilizam força de trabalho voluntária, financiam-se com doações de pessoas
físicas e/ou do poder público, de empresas, fundações e de outras entidades sem
fins lucrativos – têm se multiplicado aceleradamente nas últimas três décadas
como fenômeno internacional. Embora variem as nomenclaturas, as formas de
financiamento, funcionamento e atuação, os setores e a abrangência que alcançam
(regional, nacional ou internacional), bem como o enquadramento jurídico que
recebem em cada país – a ação efetiva como empresas lucrativas ou como
defensoras e formuladoras dos interesses empresariais no médio e no longo prazo
– são, na média, o traço que lhes confere unidade (Fontes, 2020).
O seu
modus operandi costuma cobrir dois grandes roteiros, isolados ou combinados: o
primeiro diz respeito às entidades que prestam serviços de natureza pública.
Atuam, como sociedade civil, onde deveria atuar o mesmo Estado (stricto sensu)
que, diuturnamente, as financia. Na outra ponta, aparecem as entidades que não
se caracterizam exatamente pela prestação de serviços (ou pelo menos de forma
direta nem tampouco substancial do ponto de vista do público que alcançam) mas
que combinam a forma dos think tanks com o conteúdo dos lobbies: captam
recursos quase sempre volumosos (em parte ou na totalidade agraciadas com
generosas isenções fiscais), reúnem políticos profissionais, especialistas e
instituições renomadas de cada setor em que decidem atuar, produzem análises e
diagnósticos para abastecer os governos de ‘boas ideias’, realizam seminários,
conferências e encontros que costumam contar com grande apelo midiático e dessa
forma conquistam paulatinamente a legitimidade de uma ‘voz coletiva’, como
‘sociedade civil’, de modo a propor e induzir políticas públicas setoriais que
atendam aos interesses empresariais ali presentes. Neste segundo universo,
principalmente, é que se encontram as entidades que atuam no campo da saúde, em
ambos os países, e que aqui serão objeto de nossa análise.
Se
quisermos, um rápido panorama internacional desse tipo de atuação empresarial
pode nos oferecer balizas para as situações particulares de Brasil e Portugal.
O Global NGO Technology Report (2018), que se remete aos dados colhidos e
compilados até 2017, traz números bastante significativos que, neste espaço,
reduziremos aos pontos que nos pareceram mais importantes, quais sejam: 1) Em
todos os continentes, no centro e na periferia do capitalismo, estima-se algo
em torno de 10 milhões o número de ONGs existentes; 2) O impacto econômico
dessa atividade é tão significativo que, juntas, as ONGs de todo o mundo seriam
a quinta maior economia do planeta; 3) Até 2030, estima-se que algo em torno de
¼ da população mundial será doadora de recursos para essas entidades, o que
revela o grande apelo social que exercem, como expressão de uma ‘sociedade
civil do bem’; 4) Em diversos países, a participação dessas entidades nos
números relativos à geração de trabalho voluntário e empregos é significativa:
a título de exemplo, nos EUA, 11,4 milhões de empregados; na Inglaterra e no
País de Gales, além dos quase dois milhões de empregados, há 3,2 milhões de
voluntários; na Austrália, as mais de 600 mil ONGs são responsáveis por 8% da
força de trabalho daquele país.
No que
diz respeito ao Brasil, o Mapa das Organizações da Sociedade Civil (OSC), do
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), indica, em 2023, a existência
ativa de 879.326 OSCs – das quais 80,9% constituem-se juridicamente como
associações sem fins lucrativos –, o que representa um aumento de 7,8% em
comparação com os dados referentes a 2021 (Ipea, 2024). Se quisermos notar a
curva de crescimento desse tipo de entidade, vale dizer que até 2005 existiam
algo em torno de 200 mil – à época denominadas Fundações e Associações sem Fins
Lucrativos (Fasfil) (Fontes, 2020).
Sobre
Portugal, segundo a Conta Satélite da Economia Social (2023), do Instituto
Nacional de Estatística (INE), em 2020 foram identificadas 73.851 entidades de
natureza declaradamente não lucrativas – que, tal como no caso brasileiro,
alinham-se ao quadro geral que apresentamos. Se compararmos com os dados
referentes a 2010, quando se inicia a série histórica, podemos afirmar que o
número de entidades ativas cresceu 33% em dez anos. Ainda segundo o mesmo
documento, a atividade do conjunto dessas entidades foi responsável por 3,2% do
Valor Acrescentado Bruto (VAB) nacional, 5% das remunerações, 5,2% do emprego
total e 5,9% do emprego remunerado. Destaque: a saúde foi a atividade mais
relevante em termos de VAB e emprego, perfazendo 25,5% da cifra do primeiro e
33,2% do segundo (Cooperativa António Sérgio…, 2024).
Se
retomarmos a realidade brasileira no que se refere aos dados econômicos gerados
por essas entidades, veremos, por exemplo, que, considerando os números da
economia de 2023, a atividade dessas organizações foi responsável por 4,27% do
PIB (Produto Interno Bruto) do país (Brasil, 2024). No ano anterior, o repasse
de recursos federais para as OSCs atingiu a casa dos 24 bilhões de reais,
correspondendo a quase 10% das despesas obrigatórias e discricionárias dos
gastos públicos federais (Tribunal de Contas da União, 2024).
Em
Portugal, segundo dados referentes a 2010, analisados por Mendes (2016), embora
as Entidades do Setor Não-Lucrativo (ESNL) na saúde (e Bem-Estar)
apresentassem-se à época de modo residual, correspondendo apenas a 3,52% do
total de organizações existentes, já respondiam pelo terceiro maior setor em
termos de empregos gerados e o quarto no que diz respeito ao peso do VAB. Os
dados consolidados disponíveis mais recentes, presentes na Conta Satélite da
Economia Social 2019-2020, indicam a crescente importância do setor: “A saúde e
os serviços sociais foram as atividades mais relevantes em termos de VAB e
emprego, verificando-se que a Saúde foi responsável por 25,5% do VAB e 33,2% do
emprego remunerado da ES [Economia Social]” (Cooperativa António Sérgio…, 2024).
No
Brasil, segundo os dados mais recentes, o peso relativo das OSCs estritamente
da saúde também é pequeno, correspondendo a 2,51% do total (Ipea, 2024). Porém,
tal como em Portugal, trata-se do setor com maior volume de empregos gerados,
como informa a pesquisa “A importância do Terceiro Setor para o PIB no Brasil e
em suas regiões”, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas
(Fipe) e divulgada em 2023: 5,88% da ocupação no Brasil, ou cerca de 6 milhões
de postos de trabalho, estão no terceiro setor. Entre as atividades, a saúde é
a que mais gera postos, com 30,6%, seguida pela educação, 14,3% e atividades
artísticas 7,6%. Outras organizações associativas são responsáveis pelos outros
47,5% (Inovação em Cidadania Empresarial, 2023).
É
significativo que este mesmo setor saúde, no qual se multiplicam as ações
empresariais promovidas por entidades como as que descrevemos, venha sendo
recorrentemente apontado (ou denunciado) como espaço privilegiado de
‘reprodução da dinâmica capitalista’, de ‘criação de oportunidades’, ‘geração
de riquezas’, ‘criação de empregos’ etc., tanto no Brasil (Gadelha, 2022;
Mendes e Carnut, 2022; Costa e Bahia, 2024, entre outros) quanto em Portugal
(Maia, 2021; Campos, 2008, entre outros). No mínimo, há que se suspeitar da
existência de uma forte conexão entre a expansão geométrica de entidades ditas
‘sem fins lucrativos’ (ou não lucrativas) atuantes na saúde, em ambos os
países, e o crescimento exponencial dos investimentos privados empresariais
neste setor.
Ainda
que limitados pelo espaço, nos parecem suficientes as evidências (Fontes, 2020,
2018, 2017 e 2010, entre outros) de que estamos diante de uma ação deliberada
do capital e de seus agentes para ampliar incessantemente os meios e as formas
de apropriação privada da riqueza socialmente produzida – para além do âmbito
das relações de trabalho –, de ataque aos fundos públicos e de privatização, em
última análise. No entanto, no mais das vezes o que se observa é uma convicta
aprovação social dessas entidades – também em importantes segmentos das
esquerdas e entre ativistas sociais. Para nós, o nó da questão repousa sobre as
noções acerca do Estado e da sociedade civil que embasam o senso comum, com o
conceito de Terceiro Setor sendo a expressão máxima do ‘embuste’.
Fonte:
Por André Vianna Dantas, em Outra Saúde

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