quinta-feira, 26 de março de 2026

Maria Luiza Falcão: Cuba no escuro - o fim de um ciclo histórico?

Há momentos em que a história deixa de se mover lentamente e passa a se deslocar em blocos, como placas tectônicas em choque. Cuba vive um desses momentos.

A imagem é brutal em sua simplicidade: apagões prolongados, falta de água, alimentos escassos e uma população exausta. Não se trata apenas de dificuldades econômicas. Trata-se de algo mais profundo — quando um sistema começa a falhar naquilo que sustenta a vida cotidiana.

Quando falta luz, falta tudo. A energia elétrica não é apenas um insumo. É o eixo invisível que mantém a sociedade funcionando. Sem ela, a água não chega, os alimentos se perdem, os hospitais operam sob pressão extrema e o cotidiano se desorganiza. A crise energética, portanto, não é mais um problema entre outros. É o epicentro de uma crise sistêmica.

<><> O esgotamento da narrativa

E, ao contrário do que ocorreu nos anos 1990, durante o chamado Período Especial, há hoje um elemento novo: a erosão da narrativa.

Naquele momento, sob a liderança de Fidel Castro, a escassez foi convertida em resistência política. O sacrifício tinha sentido histórico. Havia um horizonte — ainda que duro — de soberania e dignidade frente ao cerco externo.

Hoje, esse elemento simbólico não existe com a mesma força.

A geração atual vive a crise sem o mesmo referencial mobilizador. O Estado continua presente, mas já não consegue oferecer a mesma contrapartida material nem sustentar a mesma narrativa de coesão. E isso altera profundamente o equilíbrio interno.

<><> O bloqueio como estrutura permanente

Mas há um elemento externo que precisa ser compreendido em toda a sua dimensão — e que frequentemente aparece de forma simplificada no debate público.

O embargo dos Estados Unidos não é apenas uma política de restrição comercial. Ele foi institucionalizado e rigidamente estruturado a partir da Lei Helms-Burton, aprovada em 1996, em um momento em que Cuba já se encontrava fragilizada após o colapso soviético.

Essa lei alterou qualitativamente o cenário. Ao transformar o embargo em legislação, retirou do Executivo americano a capacidade de flexibilizá-lo de forma ampla e transferiu ao Congresso o poder de sua revogação. Mais do que isso, introduziu um elemento particularmente controverso: seu caráter extraterritorial.

Empresas de outros países passaram a ser passíveis de sanções caso realizem investimentos em Cuba que envolvam propriedades nacionalizadas após a Revolução. Na prática, isso criou um efeito de dissuasão global. Não se trata apenas de impedir relações entre Estados Unidos e Cuba, mas de dificultar a inserção da ilha na economia internacional como um todo.

O impacto é profundo. O acesso a crédito se torna limitado, o investimento estrangeiro é desencorajado, e as transações financeiras se tornam mais custosas e incertas. Em um país que já enfrenta restrições estruturais internas, esse bloqueio ampliado contribui decisivamente para a recorrência de crises como a atual.

<><> A política do endurecimento

Esse quadro não é apenas produto de inércia institucional. Ele é ativamente sustentado por forças políticas dentro dos Estados Unidos. Entre elas, destaca-se a atuação de Marco Rubio, figura central na defesa de uma linha dura em relação a Cuba.

Representando setores do exílio cubano na Flórida, Rubio tem sido um dos principais defensores da manutenção — e, em certos momentos, do endurecimento — das sanções. Sua influência foi particularmente visível durante o governo de Donald Trump, quando dispositivos mais severos da Helms-Burton foram efetivamente ativados, e a breve tentativa de reaproximação iniciada anos antes foi revertida.

A lógica subjacente a essa estratégia é clara: a intensificação da pressão econômica como instrumento para forçar mudanças políticas internas em Cuba.
Mas essa lógica carrega um paradoxo difícil de ignorar.

Se o objetivo declarado é pressionar o Estado, os efeitos concretos recaem, de forma imediata e cotidiana, sobre a população. São os cidadãos que enfrentam a escassez de energia, a falta de água, a deterioração dos serviços e o encarecimento dos bens básicos.

<><> Entre limites internos e cerco externo

É nesse ponto que a análise precisa ir além das narrativas simplificadoras. A crise cubana contemporânea é, ao mesmo tempo, resultado de limitações internas e de um cerco externo que restringe drasticamente suas possibilidades de adaptação.

E, ainda assim, o mundo mudou — e Cuba mudou menos do que o mundo.

O modelo altamente centralizado, que em determinado momento garantiu coesão social e avanços notáveis em saúde e educação, hoje encontra limites claros diante de uma economia global complexa, financeirizada e tecnologicamente dinâmica. A ilha perdeu o suporte da União Soviética, viu reduzir-se o apoio da Venezuela e precisa agora se reposicionar em um ambiente internacional mais competitivo e menos tolerante a rigidezes estruturais.

<><> A abertura pela sobrevivência

É nesse contexto que surge um movimento silencioso, mas profundamente revelador: a tentativa de atrair investimentos de cubanos no exterior.

Trata-se de uma inflexão histórica.

Ao abrir espaço — ainda que de forma controlada — para o capital da diáspora, o Estado cubano reconhece implicitamente que já não consegue sustentar sozinho a economia. Busca divisas, dinamismo e sobrevivência.

Mas esse caminho não é neutro.

Ele introduz, inevitavelmente, uma nova lógica social. A entrada de dólares, a formação de pequenos negócios privados e a conexão com redes externas tendem a gerar diferenciações internas. Surge, pouco a pouco, uma economia dual: de um lado, setores vinculados ao mercado e às remessas; de outro, um setor estatal cada vez mais pressionado.

A igualdade — um dos pilares simbólicos da Revolução — começa a se fragmentar.

<><> Uma transição sob pressão

O que está em jogo, portanto, não é apenas uma crise econômica, mas uma transição histórica.

Cuba parece caminhar para um modelo híbrido, no qual o Estado buscará preservar o controle político enquanto amplia, de forma gradual e seletiva, os espaços de mercado e investimento. Algo que remete, com todas as diferenças, às experiências da China e do Vietnã.

Mas há um problema central: tempo.

Esses países realizaram suas transições em contextos de crescimento e relativa estabilidade. Cuba tenta fazê-lo sob pressão extrema — com escassez energética, crise fiscal e deterioração social.

<><> O limite da vida cotidiana

A grande incógnita é até que ponto essa transição será conduzida — ou imposta pela própria realidade.

Porque há um limite que nenhum sistema consegue contornar indefinidamente: o da vida cotidiana.

Quando falta água, quando falta luz, quando falta comida, a política deixa de ser abstração e se torna experiência concreta. É nesse ponto que os regimes são testados de forma mais dura.

Sem o carisma de Fidel Castro, sem o amparo externo de outras épocas e diante de uma sociedade mais exposta ao mundo, Cuba enfrenta o desafio de construir uma nova forma de legitimidade — menos baseada na história e mais nos resultados.

Fim de ciclo, início incerto

Não é um desafio pequeno.

O que se desenha no horizonte não é necessariamente o colapso, mas algo talvez mais complexo: o fim de um ciclo.

E o início, ainda incerto, de outro.

¨      Terra e territórios na América do Sul. Por Raúl Zibechi

“A terra e os territórios não são um pano de fundo da reconfiguração geopolítica”, escreve Oscar Bazoberry, coordenador do Instituto para o Desenvolvimento Rural na América do Sul - IPDRS, na introdução do Décimo Informe Anual. Acceso a la tierra y territorio en Sudamérica. Acrescenta que terras e territórios “continuam sendo o espaço onde os ciclos políticos, as estratégias extrativas e as novas agendas ambientais se materializam”.

Bazoberry argumenta que é necessário colocar o acesso à terra e aos territórios no centro das análises e da atenção global para compreender como o poder está sendo reordenado, tanto em escala local quanto global. O relatório, que vem sendo publicado há uma década, abrange nove países da região, já que neste ano, por razões óbvias, não pôde contar com as contribuições da Venezuela.

Segundo o IPDRS, trata-se de uma “pesquisa colaborativa situada”, que recorre à informação fornecida pelos movimentos e organizações sociais, os meios de comunicação alternativos e alguns relatórios institucionais para sistematizar os dados disponíveis, de modo que sejam de utilidade para os sujeitos coletivos que os relatórios buscam visibilizar.

Elaborados por pesquisadores próximos aos movimentos, os relatórios anuais permitem conhecer a fundo as principais tendências registradas na luta por terra e território no subcontinente e, ao mesmo tempo, aproximarmo-nos dos sujeitos que defendem a terra e a vida. Em cada parte, destaca-se alguma resistência, acompanhada de fotos daqueles que a protagonizam.

É importante destacar as mudanças registradas em apenas uma década e que modificaram os conflitos de forma radical. “Durante anos, a terra foi tratada como um assunto rural e setorial relacionado à agricultura e residual em termos de emprego e residência”, aponta a introdução. Afirma que agora o território se tornou o centro da formação de valor, “onde a economia global se materializou”, e das resistências dos povos. Em suma, a terra é central como recurso global, como acesso às fontes de energia, à extração mineral e florestal, bem como fonte de especulação do capital por meio dos créditos de carbono, entre outros.

Uma das mudanças destacadas diz respeito aos modos adotados pela acumulação de capital. As cadeias globais de valor exercem hoje muito mais peso sobre a propriedade da terra das velhas oligarquias latifundiárias, com tudo o que isso implica para as lutas sociais. Na medida em que o capitalismo impacta nos territórios dos povos, buscando deslocá-los para privatizar os bens comuns transformados em meras mercadorias, surgem novas formas de resistência e novos sujeitos coletivos: povos indígenas, negros e camponeses.

Relacionado ao anterior, aparece uma mutação que será de longa duração: a luta pela reforma agrária, entendida como a distribuição individual de terras, foi substituída pelo surgimento dos territórios dos povos. As resistências realmente existentes supõem se apegar a seus espaços e povoá-los de espiritualidade, transformando a terra em território integral, protagonizada por comunidades forjadas em meio a esses processos. A mudança dos sujeitos históricos da luta anticapitalista mexeu com todo o tabuleiro institucional e político.

O protagonismo desses povos (indígenas, negros e camponeses, que no Brasil são chamados de “povos do campo, das águas e das florestas”) implica não apenas uma mudança de sujeitos, mas mudanças de fundo nas formas de fazer política, que passa a se concentrar nos autogovernos e nas autonomias territoriais. Vemos como as resistências ao capitalismo estão sendo protagonizadas por autonomias indígenas, negras e camponesas em todo o continente, por mais que alguns “analistas” acreditem que os operários das indústrias continuem sendo a classe que resiste ao sistema.

No Brasil, os povos indígenas não chegam a 1% da população total, mas são os únicos que estão conseguindo frear os empreendimentos das grandes multinacionais, como demonstra a recente vitória de 14 povos amazônicos contra os planos da Cargill. Resistência que nesses dias é revivida por mulheres indígenas do Rio Xingu, que exigem a revogação da licença ambiental da mineradora canadense de ouro Belo Sun. Há três semanas ocupam a sede do instituto indigenista e bloquearam a via de acesso ao aeroporto de Altamira.

As resistências se estendem por todo o continente e a cada dia conhecemos novas experiências. Perguntei a Silvia Adoue, que acompanha algumas dessas lutas, por que os indígenas são os que mais resistem. Após refletir, respondeu: “Estão mais preparados do que os urbanos para enfrentar a guerra do capital, já que nunca estiveram fora da guerra. E estão menos contaminados pelo capitalismo”.

¨      Trump, o extraterrestre. Por Ronaldo Lima Lins

No primeiro mandato, ele enganou direitinho. Não parecia tão excêntrico, bizarro, fora do comum, com seus cabelos de Fanta laranja e suas decisões abruptas, inesperadas, desproporcionais. É verdade que arrumou uma confusão na hora de deixar a Casa Branca, premido pela derrota eleitoral. Habituara-se ao conforto, às reverências... E pensou que contaria com apoio das massas afrontando a legislação. Quase se ferrou por causa disso. Mas, nas eleições seguintes, ressurgiu com a corda toda, à vontade, seguro de si, como se dominasse o planeta.

 Um dedo mínimo levantado (para não falar no do meio), bastava para dobrar os renitentes, intra ou fora muros. Quem diria que se isolaria? Chegava com a ideia de ganhar o Prêmio Nobel da Paz. Infelizmente, deram para outro, uma injustiça. Bem arrumado em seus costumes de Presidente da República, não notavam as diferenças entre cidadãos comuns e ele, com a pinta de bilionário para ninguém botar defeito. Amava as entrevistas dentro de aeronaves, com jornalistas pululando de inquietação, enquanto se sentia como se viajasse entre galáxias. A assessoria extremista, cuidadosamente nomeada e testada, cumpria com o papel de orientá-lo nos dilemas cabeludos. Tudo bom e maravilhoso até o diabo da guerra contra o Irã. Não avisaram que deveria enfrentar um povo danado de inteligente, dotado de cultura milenar e inigualável persistência. Tirava armas do fundo da terra, de onde menos se esperava. 

Os israelenses também se equivocaram, crendo num passeio à beira mar. O resultado foi uma contenta acima do imaginado, com drones e mísseis atingindo bases americanas e aliados em toda parte, sem poupar Tel Aviv. A Europa, quem diria? – recolheu-se, como se aquilo não lhe dissesse respeito, embora instada a comparecer. E Donald Trump, o extraordinário, diferente, agora, arrancava os cabelos para se livrar das dificuldades. É demais para um extraterrestre. Dá vontade de fugir e retornar para a sua galáxia! Como tudo na vida traz consequências, o fechamento do Estreito de Ormuz enlouqueceu o preço dos barris de combustível. A inflação bate às portas, com as sequelas de sempre e o aumento da impopularidade... Trata-se de uma situação que não dá para contornar com os tarifaços, a mágica que lhe agradara usar com gregos e troianos.

 Para agravar os problemas, a crise afeta favoravelmente a Rússia, importante exportadora de petróleo, a qual, entre as grandes potências, além da China, cabe enfrentar, apoiando discretamente o Irã. Tudo isso e mais alguma coisa basta para pintar um quadro de desespero e, quiçá, de derrota, apesar da ainda pequena oposição interna, inclusive entre os democratas. As decepções recentes, para além de um gosto amargo de desprestígio, oferecem prenúncios de contrapartidas desafiantes. Vizinhos pequenos (como Cuba) ou grandes (como a União Europeia) já não se acautelam. E a América vai caindo no buraco.

 

Fonte: Brasil 247

 

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