Maria
Luiza Falcão: Cuba no escuro - o fim de um ciclo histórico?
Há
momentos em que a história deixa de se mover lentamente e passa a se deslocar
em blocos, como placas tectônicas em choque. Cuba vive um desses momentos.
A
imagem é brutal em sua simplicidade: apagões prolongados, falta de água,
alimentos escassos e uma população exausta. Não se trata apenas de dificuldades
econômicas. Trata-se de algo mais profundo — quando um sistema começa a falhar
naquilo que sustenta a vida cotidiana.
Quando
falta luz, falta tudo. A energia elétrica não é apenas um insumo. É o eixo
invisível que mantém a sociedade funcionando. Sem ela, a água não chega, os
alimentos se perdem, os hospitais operam sob pressão extrema e o cotidiano se
desorganiza. A crise energética, portanto, não é mais um problema entre outros.
É o epicentro de uma crise sistêmica.
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O esgotamento da narrativa
E, ao
contrário do que ocorreu nos anos 1990, durante o chamado Período Especial, há
hoje um elemento novo: a erosão da narrativa.
Naquele
momento, sob a liderança de Fidel Castro, a escassez foi convertida em
resistência política. O sacrifício tinha sentido histórico. Havia um horizonte
— ainda que duro — de soberania e dignidade frente ao cerco externo.
Hoje,
esse elemento simbólico não existe com a mesma força.
A
geração atual vive a crise sem o mesmo referencial mobilizador. O Estado
continua presente, mas já não consegue oferecer a mesma contrapartida material
nem sustentar a mesma narrativa de coesão. E isso altera profundamente o
equilíbrio interno.
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O bloqueio como estrutura permanente
Mas há
um elemento externo que precisa ser compreendido em toda a sua dimensão — e que
frequentemente aparece de forma simplificada no debate público.
O
embargo dos Estados Unidos não é apenas uma política de restrição comercial.
Ele foi institucionalizado e rigidamente estruturado a partir da Lei
Helms-Burton, aprovada em 1996, em um momento em que Cuba já se encontrava
fragilizada após o colapso soviético.
Essa
lei alterou qualitativamente o cenário. Ao transformar o embargo em legislação,
retirou do Executivo americano a capacidade de flexibilizá-lo de forma ampla e
transferiu ao Congresso o poder de sua revogação. Mais do que isso, introduziu
um elemento particularmente controverso: seu caráter extraterritorial.
Empresas
de outros países passaram a ser passíveis de sanções caso realizem
investimentos em Cuba que envolvam propriedades nacionalizadas após a
Revolução. Na prática, isso criou um efeito de dissuasão global. Não se trata
apenas de impedir relações entre Estados Unidos e Cuba, mas de dificultar a
inserção da ilha na economia internacional como um todo.
O
impacto é profundo. O acesso a crédito se torna limitado, o investimento
estrangeiro é desencorajado, e as transações financeiras se tornam mais
custosas e incertas. Em um país que já enfrenta restrições estruturais
internas, esse bloqueio ampliado contribui decisivamente para a recorrência de
crises como a atual.
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A política do endurecimento
Esse
quadro não é apenas produto de inércia institucional. Ele é ativamente
sustentado por forças políticas dentro dos Estados Unidos. Entre elas,
destaca-se a atuação de Marco Rubio, figura central na defesa de uma linha dura
em relação a Cuba.
Representando
setores do exílio cubano na Flórida, Rubio tem sido um dos principais
defensores da manutenção — e, em certos momentos, do endurecimento — das
sanções. Sua influência foi particularmente visível durante o governo de Donald
Trump, quando dispositivos mais severos da Helms-Burton foram efetivamente
ativados, e a breve tentativa de reaproximação iniciada anos antes foi
revertida.
A
lógica subjacente a essa estratégia é clara: a intensificação da pressão
econômica como instrumento para forçar mudanças políticas internas em Cuba.
Mas essa lógica carrega um paradoxo difícil de ignorar.
Se o
objetivo declarado é pressionar o Estado, os efeitos concretos recaem, de forma
imediata e cotidiana, sobre a população. São os cidadãos que enfrentam a
escassez de energia, a falta de água, a deterioração dos serviços e o
encarecimento dos bens básicos.
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Entre limites internos e cerco externo
É nesse
ponto que a análise precisa ir além das narrativas simplificadoras. A crise
cubana contemporânea é, ao mesmo tempo, resultado de limitações internas e de
um cerco externo que restringe drasticamente suas possibilidades de adaptação.
E,
ainda assim, o mundo mudou — e Cuba mudou menos do que o mundo.
O
modelo altamente centralizado, que em determinado momento garantiu coesão
social e avanços notáveis em saúde e educação, hoje encontra limites claros
diante de uma economia global complexa, financeirizada e tecnologicamente
dinâmica. A ilha perdeu o suporte da União Soviética, viu reduzir-se o apoio da
Venezuela e precisa agora se reposicionar em um ambiente internacional mais
competitivo e menos tolerante a rigidezes estruturais.
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A abertura pela sobrevivência
É nesse
contexto que surge um movimento silencioso, mas profundamente revelador: a
tentativa de atrair investimentos de cubanos no exterior.
Trata-se
de uma inflexão histórica.
Ao
abrir espaço — ainda que de forma controlada — para o capital da diáspora, o
Estado cubano reconhece implicitamente que já não consegue sustentar sozinho a
economia. Busca divisas, dinamismo e sobrevivência.
Mas
esse caminho não é neutro.
Ele
introduz, inevitavelmente, uma nova lógica social. A entrada de dólares, a
formação de pequenos negócios privados e a conexão com redes externas tendem a
gerar diferenciações internas. Surge, pouco a pouco, uma economia dual: de um
lado, setores vinculados ao mercado e às remessas; de outro, um setor estatal
cada vez mais pressionado.
A
igualdade — um dos pilares simbólicos da Revolução — começa a se fragmentar.
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Uma transição sob pressão
O que
está em jogo, portanto, não é apenas uma crise econômica, mas uma transição
histórica.
Cuba
parece caminhar para um modelo híbrido, no qual o Estado buscará preservar o
controle político enquanto amplia, de forma gradual e seletiva, os espaços de
mercado e investimento. Algo que remete, com todas as diferenças, às
experiências da China e do Vietnã.
Mas há
um problema central: tempo.
Esses
países realizaram suas transições em contextos de crescimento e relativa
estabilidade. Cuba tenta fazê-lo sob pressão extrema — com escassez energética,
crise fiscal e deterioração social.
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O limite da vida cotidiana
A
grande incógnita é até que ponto essa transição será conduzida — ou imposta
pela própria realidade.
Porque
há um limite que nenhum sistema consegue contornar indefinidamente: o da vida
cotidiana.
Quando
falta água, quando falta luz, quando falta comida, a política deixa de ser
abstração e se torna experiência concreta. É nesse ponto que os regimes são
testados de forma mais dura.
Sem o
carisma de Fidel Castro, sem o amparo externo de outras épocas e diante de uma
sociedade mais exposta ao mundo, Cuba enfrenta o desafio de construir uma nova
forma de legitimidade — menos baseada na história e mais nos resultados.
Fim de
ciclo, início incerto
Não é
um desafio pequeno.
O que
se desenha no horizonte não é necessariamente o colapso, mas algo talvez mais
complexo: o fim de um ciclo.
E o
início, ainda incerto, de outro.
¨
Terra e territórios na América do Sul. Por Raúl Zibechi
“A
terra e os territórios não são um pano de fundo da reconfiguração geopolítica”,
escreve Oscar Bazoberry, coordenador do Instituto para o
Desenvolvimento Rural na América do Sul - IPDRS, na introdução
do Décimo Informe Anual. Acceso a la tierra y territorio en
Sudamérica. Acrescenta que terras e territórios “continuam sendo o espaço
onde os ciclos políticos, as estratégias extrativas e as novas agendas
ambientais se materializam”.
Bazoberry argumenta
que é necessário colocar o acesso à terra e aos territórios no centro das
análises e da atenção global para compreender como o poder está sendo
reordenado, tanto em escala local quanto global. O relatório, que vem sendo
publicado há uma década, abrange nove países da região, já que neste ano, por
razões óbvias, não pôde contar com as contribuições da Venezuela.
Segundo
o IPDRS, trata-se de uma “pesquisa colaborativa situada”, que recorre à
informação fornecida pelos movimentos e organizações sociais, os meios de
comunicação alternativos e alguns relatórios institucionais para sistematizar
os dados disponíveis, de modo que sejam de utilidade para os sujeitos coletivos
que os relatórios buscam visibilizar.
Elaborados
por pesquisadores próximos aos movimentos, os relatórios anuais permitem
conhecer a fundo as principais tendências registradas na luta por terra e
território no subcontinente e, ao mesmo tempo, aproximarmo-nos dos sujeitos que
defendem a terra e a vida. Em cada parte, destaca-se alguma resistência,
acompanhada de fotos daqueles que a protagonizam.
É
importante destacar as mudanças registradas em apenas uma década e que
modificaram os conflitos de forma radical. “Durante anos, a terra foi tratada
como um assunto rural e setorial relacionado à agricultura e residual em termos
de emprego e residência”, aponta a introdução. Afirma que agora o território se
tornou o centro da formação de valor, “onde a economia global se materializou”,
e das resistências dos povos. Em suma, a terra é central como recurso global,
como acesso às fontes de energia, à extração mineral e florestal, bem como
fonte de especulação do capital por meio dos créditos de carbono, entre outros.
Uma das
mudanças destacadas diz respeito aos modos adotados pela acumulação de
capital.
As cadeias globais de valor exercem hoje muito mais peso sobre a propriedade da
terra das velhas oligarquias latifundiárias, com tudo o que isso implica para
as lutas sociais. Na medida em que o capitalismo impacta nos
territórios dos povos, buscando deslocá-los para privatizar os bens comuns
transformados em meras mercadorias, surgem novas formas de resistência
e novos sujeitos coletivos: povos indígenas, negros e
camponeses.
Relacionado
ao anterior, aparece uma mutação que será de longa duração: a luta pela
reforma agrária, entendida como a distribuição individual de terras, foi
substituída pelo surgimento dos territórios dos povos. As resistências
realmente existentes supõem se apegar a seus espaços e povoá-los de espiritualidade, transformando a
terra em território integral, protagonizada por comunidades forjadas em
meio a esses processos. A mudança dos sujeitos históricos da luta anticapitalista mexeu com todo
o tabuleiro institucional e político.
O
protagonismo desses povos (indígenas, negros e camponeses, que no Brasil são
chamados de “povos do campo, das águas e das florestas”) implica não apenas uma
mudança de sujeitos, mas mudanças de fundo nas formas de fazer política, que
passa a se concentrar nos autogovernos e nas autonomias territoriais. Vemos
como as resistências ao capitalismo estão sendo protagonizadas
por autonomias indígenas, negras e camponesas em todo
o continente, por mais que alguns “analistas” acreditem que os operários das
indústrias continuem sendo a classe que resiste ao sistema.
No Brasil,
os povos indígenas não chegam a 1%
da população total, mas são os únicos que estão conseguindo frear os
empreendimentos das grandes multinacionais, como demonstra a recente vitória de 14 povos
amazônicos contra os planos da Cargill. Resistência que nesses dias é
revivida por mulheres indígenas
do Rio Xingu,
que exigem a revogação da licença ambiental da mineradora canadense de
ouro Belo Sun. Há três semanas ocupam a sede do instituto indigenista e
bloquearam a via de acesso ao aeroporto de Altamira.
As
resistências se estendem por todo o continente e a cada dia conhecemos novas
experiências. Perguntei a Silvia Adoue, que acompanha
algumas dessas lutas, por que os indígenas são os que mais resistem. Após
refletir, respondeu: “Estão mais preparados do que os urbanos para enfrentar
a guerra do capital, já que nunca estiveram fora da guerra. E estão menos
contaminados pelo capitalismo”.
¨ Trump, o
extraterrestre. Por Ronaldo Lima Lins
No
primeiro mandato, ele enganou direitinho. Não parecia tão excêntrico, bizarro,
fora do comum, com seus cabelos de Fanta laranja e suas decisões abruptas,
inesperadas, desproporcionais. É verdade que arrumou uma confusão na hora de
deixar a Casa Branca, premido pela derrota eleitoral. Habituara-se ao conforto,
às reverências... E pensou que contaria com apoio das massas afrontando a
legislação. Quase se ferrou por causa disso. Mas, nas eleições seguintes,
ressurgiu com a corda toda, à vontade, seguro de si, como se dominasse o
planeta.
Um
dedo mínimo levantado (para não falar no do meio), bastava para dobrar os
renitentes, intra ou fora muros. Quem diria que se isolaria? Chegava com a
ideia de ganhar o Prêmio Nobel da Paz. Infelizmente, deram para outro, uma
injustiça. Bem arrumado em seus costumes de Presidente da República, não
notavam as diferenças entre cidadãos comuns e ele, com a pinta de bilionário
para ninguém botar defeito. Amava as entrevistas dentro de aeronaves, com
jornalistas pululando de inquietação, enquanto se sentia como se viajasse entre
galáxias. A assessoria extremista, cuidadosamente nomeada e testada, cumpria
com o papel de orientá-lo nos dilemas cabeludos. Tudo bom e maravilhoso até o
diabo da guerra contra o Irã. Não avisaram que deveria enfrentar um povo danado
de inteligente, dotado de cultura milenar e inigualável persistência. Tirava
armas do fundo da terra, de onde menos se esperava.
Os
israelenses também se equivocaram, crendo num passeio à beira mar. O resultado
foi uma contenta acima do imaginado, com drones e mísseis atingindo bases
americanas e aliados em toda parte, sem poupar Tel Aviv. A Europa, quem diria?
– recolheu-se, como se aquilo não lhe dissesse respeito, embora instada a
comparecer. E Donald Trump, o extraordinário, diferente, agora, arrancava os
cabelos para se livrar das dificuldades. É demais para um extraterrestre. Dá
vontade de fugir e retornar para a sua galáxia! Como tudo na vida traz
consequências, o fechamento do Estreito de Ormuz enlouqueceu o preço dos barris
de combustível. A inflação bate às portas, com as sequelas de sempre e o
aumento da impopularidade... Trata-se de uma situação que não dá para contornar
com os tarifaços, a mágica que lhe agradara usar com gregos e troianos.
Para
agravar os problemas, a crise afeta favoravelmente a Rússia, importante
exportadora de petróleo, a qual, entre as grandes potências, além da China,
cabe enfrentar, apoiando discretamente o Irã. Tudo isso e mais alguma coisa
basta para pintar um quadro de desespero e, quiçá, de derrota, apesar da ainda
pequena oposição interna, inclusive entre os democratas. As decepções recentes,
para além de um gosto amargo de desprestígio, oferecem prenúncios de
contrapartidas desafiantes. Vizinhos pequenos (como Cuba) ou grandes (como a
União Europeia) já não se acautelam. E a América vai caindo no buraco.
Fonte:
Brasil 247

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