sexta-feira, 27 de março de 2026

EUA perdem controle da inteligência artificial global e China avança soberana

A corrida global pela inteligência artificial abriu um cenário que os Estados Unidos já não conseguem controlar sozinhos. Pela primeira vez, Washington não dita as regras do jogo nem consegue conter um competidor tecnológico de ponta. A China avança com velocidade própria e consolida um ecossistema soberano, paralelo e cada vez menos dependente do Ocidente.

A avaliação é de John Whaley, fundador de três empresas de cibersegurança no Vale do Silício e palestrante da Universidade de Stanford. Segundo ele, os ecossistemas de inteligência artificial dos Estados Unidos e da China estão “largamente desconectados”. Whaley fez a declaração em Hong Kong, durante o evento Jumpstarter, organizado pelo Alibaba Entrepreneurs Fund. O retrato que ele descreve é o de duas esferas tecnológicas separadas por barreiras geopolíticas cada vez mais rígidas. “Não há uma forma real pela qual, por exemplo, empresas dos EUA gastem bilhões de dólares diretamente em algo de empresas chinesas, ou vice-versa”, afirmou Whaley, segundo reportagem do South China Morning Post. A frase resume uma ruptura que já não é pontual, mas estrutural. Essa fragmentação não surgiu por acaso. Ela resulta de uma escolha estratégica de Estados que passaram a tratar dados, algoritmos e infraestrutura digital como ativos de segurança nacional.

Na era da inteligência artificial, proteger capacidades soberanas e bases de dados deixou de ser uma opção periférica. Tornou-se parte central da disputa por poder, autonomia e influência global. O efeito é a formação de um setor tecnológico mundial que continua interligado em aparência, mas profundamente dividido em sua lógica estratégica. A colaboração como foi conhecida nas últimas décadas praticamente desaparece quando o assunto envolve aplicações sensíveis, investimento pesado e domínio de mercado. No plano comercial, as barreiras são explícitas. Washington trava uma guerra fria tecnológica com sanções, restrições à exportação de chips e pressão sobre aliados para frear o avanço chinês.

A resposta de Pequim tem sido o investimento maciço em autossuficiência. O país desenvolve seus próprios modelos de linguagem, seus próprios chips e seu próprio arcabouço regulatório para reduzir ao máximo qualquer dependência externa. Whaley, que hoje comanda o Inception Studio, iniciativa que reúne fundadores de inteligência artificial para amadurecer ideias e projetos, vê pouca competição direta entre os dois lados. Na prática, cada sistema opera dentro de seu próprio domínio, com regras, capital, talentos e prioridades distintas. O fluxo de pesquisadores e ideias, antes tratado como parte natural da globalização tecnológica, agora esbarra em obstáculos políticos cada vez mais visíveis. A retórica do “roubo de propriedade intelectual” ajuda a justificar o fechamento e alimenta uma dinâmica de suspeita permanente. Esse processo desmonta a velha ilusão de uma internet unificada e universal. Em seu lugar, ganham forma redes fragmentadas, esferas de influência digital e o que já se descreve como splinternets, com o Ocidente de um lado e a China à frente de outro polo.

Para o Sul Global, essa divisão não representa apenas risco. Ela também abre uma oportunidade histórica ao criar, pela primeira vez em escala real, uma alternativa tecnológica ao monopólio ocidental. Países como o Brasil deixam de estar condenados a aceitar, sem margem de manobra, as regras definidas pelo Vale do Silício. A existência de um polo chinês robusto amplia o espaço de negociação e permite pensar em estratégias mais autônomas de desenvolvimento digital. A China oferece parcerias em áreas como quinta geração de internet móvel, computação em nuvem e inteligência artificial. E faz isso, segundo a leitura presente no debate geopolítico, sem exigir o mesmo tipo de alinhamento político incondicional que costuma acompanhar a pressão de Washington. Isso muda o cálculo estratégico de países em desenvolvimento. A infraestrutura digital deixa de ser apenas uma questão técnica e passa a ser um tema de soberania, política industrial e inserção internacional.

No caso brasileiro, a busca por soberania digital ganha peso ainda maior nesse novo contexto. Projetos como a nuvem de soberania nacional deixam de parecer apenas iniciativas administrativas e passam a ter dimensão geopolítica concreta. Não se trata somente de proteger privacidade ou armazenar dados em território nacional. Trata-se de garantir autonomia para inovar, desenvolver capacidades próprias e evitar que a economia digital do país fique subordinada a interesses externos.

A fragmentação também expõe os limites da estratégia americana. O containment tecnológico não produziu o bloqueio esperado, porque a China continua avançando, publicando pesquisas de ponta e lançando produtos competitivos. Ao tentar estrangular o rival, Washington ajudou a acelerar a consolidação de um polo alternativo. Esse polo se conecta cada vez mais à Ásia, à África e à América Latina, reduzindo a capacidade dos Estados Unidos de monopolizar a narrativa do progresso tecnológico. A colaboração entre os dois lados, quando ainda existe, tornou-se seletiva e assimétrica. Ela sobrevive mais facilmente em áreas de pesquisa acadêmica aberta, mas encontra veto governamental assim que se aproxima da fronteira comercial, industrial ou militar. O futuro da inteligência artificial será moldado por essa disputa entre modelos distintos de organização tecnológica. De um lado, um sistema concentrado, privatizado e fortemente atravessado pela vigilância corporativa e estatal; de outro, um modelo com direção estatal mais explícita e orientado por objetivos nacionais.

O restante do mundo será pressionado a se posicionar. Alguns países tentarão escolher um lado, enquanto outros buscarão navegar entre os dois polos e construir pontes onde ainda houver espaço. A União Europeia tenta formular essa terceira via regulatória, mas com resultados limitados até aqui. Sem escala comparável e sem liderança tecnológica equivalente, sua margem de influência continua menor do que sua ambição. Para os países em desenvolvimento, a lição é dura e direta. Dependência tecnológica é a forma contemporânea de colonialismo, porque transfere para fora o controle sobre dados, infraestrutura, inovação e capacidade de decisão.

A fragmentação observada por Whaley, portanto, não é um desvio passageiro. Ela expressa a nova realidade geopolítica de um mundo em que a disputa por microchips, algoritmos e plataformas definirá quem terá poder nas próximas décadas. Nesse cenário, o Brasil não pode se limitar ao papel de consumidor passivo. Precisa buscar conhecimento, formar quadros, desenvolver tecnologia própria e construir parcerias estratégicas com quem respeite sua autonomia.

A inteligência artificial é importante demais para ficar sob o comando de um único centro de poder. Por isso, a emergência de um polo chinês forte e independente representa, para a multipolaridade, uma mudança concreta e relevante. Ela rompe o monopólio cognitivo do Ocidente e mostra que a inovação não precisa nascer apenas no eixo Califórnia-Londres-Berlim. Também abre caminhos para que o Sul Global participe da próxima revolução tecnológica com mais margem de escolha. O mundo desconectado da inteligência artificial não é apenas um mundo mais dividido. É também um mundo com mais opções para quem souber transformar a disputa entre potências em espaço de soberania, desenvolvimento e futuro próprio.

¨      O império digital começa a falhar

O cenário tecnológico global entrou numa fase de correção brusca, com promessas bilionárias desmoronando ao mesmo tempo em que projetos de soberania ganham força. O recuo da OpenAI e a reação de países como Irã e China mostram que a disputa tecnológica deixou de ser vitrine de mercado e voltou a ser questão de poder.

No centro dessa virada está uma pergunta incômoda para o Vale do Silício: quem controla a tecnologia quando o lucro imediato já não sustenta a fantasia?

A OpenAI, empresa transformada em símbolo da corrida contemporânea da inteligência artificial, decidiu encerrar abruptamente o desenvolvimento do Sora. O gerador de vídeos por inteligência artificial havia sido apresentado como uma ferramenta capaz de remodelar a indústria audiovisual. A retirada de cena ocorreu após uma sequência de controvérsias e críticas técnicas. Segundo informações divulgadas originalmente pela MIT Technology Review e pela CNBC, o cancelamento representa uma perda potencial de um bilhão de dólares em contratos com gigantes como a Disney.

O movimento expõe mais do que um tropeço empresarial isolado. Ele sugere que a bolha de entusiasmo em torno de certos produtos de inteligência artificial começa a encontrar o limite imposto pela realidade econômica, técnica e política. A empresa liderada por Sam Altman agora parece redirecionar seus esforços para a criação de pesquisadores totalmente automatizados. A mudança de foco amplia o alerta sobre a concentração de poder intelectual em mãos privadas, sobretudo quando plataformas já dominantes passam a disputar também a produção automatizada de conhecimento. Em contraste com a volatilidade das grandes empresas americanas, o Irã apresentou um avanço concreto no uso da tecnologia para proteger sua população. Voluntários iranianos desenvolveram um mapa digital de alerta de mísseis para suprir a ausência de ferramentas públicas de emergência em meio às tensões geopolíticas na região. A iniciativa é relevante não apenas pelo aspecto técnico, mas pelo sentido político. Ela mostra a tecnologia sendo apropriada de baixo para cima, como instrumento de segurança coletiva e resiliência nacional diante de pressões externas.

A mesma lógica de soberania apareceu na China, onde o governo de Pequim barrou a saída dos fundadores da startup de inteligência artificial Manus. A medida ocorreu após uma tentativa de aquisição pela Meta, empresa de Mark Zuckerberg, por um valor estimado em dois bilhões de dólares. A intervenção estatal chinesa reforça uma diretriz cada vez mais explícita em países que tratam tecnologia como ativo estratégico. Em vez de permitir que talentos e plataformas decisivas sejam absorvidos pelo capital americano, Pequim sinaliza que há limites claros para a desnacionalização de setores sensíveis. Esse contraste entre recuo privado nos Estados Unidos e proteção pública em outras regiões ajuda a desmontar uma narrativa muito difundida nos últimos anos. A ideia de que a inovação floresce melhor quando o Estado apenas observa começa a perder força diante dos fatos.

No campo da ciência fundamental, a imprensa especializada internacional também relatou avanços em pesquisas sobre criopreservação. O estudo de cérebros congelados há décadas busca não apenas a possibilidade teórica de reanimação, mas também aplicações práticas no transplante de órgãos humanos. Se a ciência conseguir dominar o reaquecimento de tecidos complexos sem provocar danos celulares, o impacto poderá ser direto sobre a medicina pública. A possibilidade de ampliar a preservação segura de órgãos significaria salvar milhares de vidas hoje presas a longas filas de espera.

A exploração espacial oferece outro exemplo de como projetos decisivos exigem escala estatal, investimento pesado e horizonte de longo prazo. A NASA anunciou planos para enviar uma espaçonave movida a energia nuclear para Marte em 2028, num projeto que depende de capacidade técnica acumulada e financiamento robusto.

Diferentemente da lógica imediatista do mercado financeiro, esse tipo de iniciativa não se mede apenas por retorno trimestral. Trata-se de infraestrutura científica de ponta, capaz de consolidar conhecimento estratégico para décadas e de reposicionar o papel do Estado como indutor do desenvolvimento. Ao mesmo tempo, o uso de dados em massa ganha novas camadas de complexidade com a Niantic, empresa responsável pelo fenômeno Pokémon Go. A companhia está utilizando o enorme volume de dados coletados por usuários para construir modelos de mundo que ajudem robôs a navegar com precisão milimétrica.

O caso é emblemático porque revela a conversão silenciosa do entretenimento digital em base para automação logística e infraestrutura urbana. O que parecia apenas jogo e mobilização lúdica de usuários passa a alimentar sistemas com valor industrial e operacional muito maior. Mas o avanço tecnológico sem regulação soberana continua produzindo conflitos éticos e jurídicos graves no Ocidente. A Meta foi condenada a pagar 375 milhões de dólares por colocar crianças em risco online, evidenciando a face predatória de plataformas que transformam atenção e vulnerabilidade em modelo de negócios. Além disso, a prefeitura de Baltimore processou a xAI, de Elon Musk, devido à criação de imagens falsas e pornográficas pelo chatbot Grok. O episódio reforça como a corrida por escala e influência tem sido acompanhada por danos concretos, muitas vezes tratados pelas empresas como simples efeito colateral.

Quando se observam esses episódios em conjunto, o quadro fica mais nítido. De um lado, corporações americanas vendem futuro, concentram dados, capturam mercados e frequentemente recuam quando a conta técnica, jurídica ou financeira chega; de outro, países e sociedades pressionados por riscos reais buscam construir instrumentos de proteção, retenção de talentos e controle estratégico. É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas tecnológica e se torna abertamente geopolítica. Quem domina infraestrutura digital, inteligência artificial, dados, ciência aplicada e capacidade industrial não controla apenas mercados, mas também segurança, informação, trabalho e soberania.

Para o Brasil e para o Sul Global, a lição é direta. Não basta consumir plataformas, importar soluções e celebrar anúncios de inovação feitos fora; é preciso investir em ciência própria, infraestrutura digital, formação de quadros e capacidade pública de coordenação. A tecnologia não é neutra e nunca foi. Ela organiza poder, distribui dependência, redefine hierarquias internacionais e decide quem terá autonomia para enfrentar crises sem pedir licença aos donos das redes, dos chips, dos modelos e dos satélites. O momento atual, portanto, não é de deslumbramento, mas de leitura estratégica. O brilho publicitário do Vale do Silício já não consegue esconder que, por trás da promessa de eficiência universal, há uma disputa dura entre monopólio privado e soberania nacional.

É justamente por isso que o cancelamento de um produto como o Sora importa mais do que parece à primeira vista. Ele não marca apenas o fracasso de uma aposta específica, mas ajuda a iluminar uma transição maior, em que a tecnologia volta a ser tratada como campo de decisão política, e não como espetáculo inevitável do mercado.

¨      Com IA própria, Japão move peça geopolítica e rompe domínio tecnológico

O Japão acaba de dar um passo que vai muito além do lançamento de mais um chatbot. A startup Sakana AI, de Tóquio, apresentou seu primeiro modelo de inteligência artificial voltado ao consumidor comum, desenhado para compreender e responder dentro do contexto cultural japonês. A notícia, reportada pelo Nikkei Asia, sinaliza uma mudança estratégica com peso geopolítico. Até aqui, a Sakana AI era mais associada a serviços corporativos e pesquisa aplicada. Ao entrar no mercado de uso geral, a empresa passa a disputar um terreno dominado por plataformas estrangeiras e faz isso com uma aposta clara na especificidade nacional.

Não se trata apenas de competir com produtos já conhecidos do público. O movimento indica que, para uma potência tecnológica como o Japão, depender de modelos treinados majoritariamente fora de seu universo linguístico e cultural já não parece suficiente. Essa é a parte mais importante da história. A corrida global da inteligência artificial deixou de ser apenas uma disputa por capacidade computacional e virou também uma disputa por contexto, linguagem, valores e interpretação do mundo. A Sakana AI parte de uma premissa simples, mas decisiva: traduzir um modelo estrangeiro não resolve o problema. Entender nuances do idioma, hierarquias sociais, humor, história e referências culturais do Japão exige treinamento orientado desde a base.

Isso muda o eixo do debate. O que está em jogo não é só desempenho técnico, mas a capacidade de uma sociedade se reconhecer nas respostas produzidas por máquinas que cada vez mais mediam informação, trabalho, educação e consumo.

Um modelo treinado sobretudo em inglês, com predominância de repertórios e padrões culturais anglo-saxões, não é neutro. Ele carrega vieses, prioridades e enquadramentos que podem parecer universais, mas refletem experiências históricas e sociais específicas. Por isso, o avanço japonês tem um sentido político evidente. Ao desenvolver um sistema próprio para o público local, o país tenta preservar margem de autonomia num setor que tende a concentrar poder econômico, influência cultural e capacidade de moldar narrativas.

A China percebeu isso há anos. Seus modelos, como o Ernie, da Baidu, são treinados em dados locais, operam dentro de um ecossistema digital próprio e respondem a diretrizes nacionais, funcionando ao mesmo tempo como instrumento tecnológico, narrativo e estratégico.

A Rússia também investe em alternativas domésticas. A União Europeia, ainda que mais lenta no desenvolvimento de plataformas equivalentes, discute regulações como o AI Act para tentar impor parâmetros éticos e legais a uma tecnologia que, em grande medida, ainda importa.

O caso japonês chama atenção por um motivo adicional. Trata-se de uma potência historicamente alinhada ao Ocidente e profundamente integrada à arquitetura tecnológica global liderada pelos Estados Unidos. Quando um país com esse perfil decide apostar em um modelo culturalmente enraizado, o sinal é forte. Ele sugere que o desconforto com a hegemonia das plataformas estrangeiras já ultrapassou rivais declarados de Washington e alcançou aliados tradicionais. Em outras palavras, a multipolaridade chegou de vez ao campo da inteligência artificial. E chegou não apenas na disputa por chips, data centers e investimento, mas na luta por quem define a lente pela qual a máquina interpreta a realidade.

A própria identidade da Sakana AI ajuda a entender sua proposta. O nome significa peixe, em referência à lógica de cardume e inteligência coletiva, e a empresa aposta justamente na ideia de que alinhamento cultural pode ser uma vantagem competitiva diante de gigantes globais. Esse ponto interessa diretamente ao Brasil. Nossa língua, nossas variações regionais, nossa história, nosso humor, nossa música, nossas contradições sociais e nossa experiência política não cabem de forma adequada em sistemas calibrados para outras realidades.

Basta imaginar um chatbot tentando explicar o jeitinho brasileiro, a Tropicália ou a densidade poética de Cartola a partir de bases predominantemente estrangeiras. O resultado tende a oscilar entre simplificação grosseira, exotização e erro factual.

Esse risco não é periférico. À medida que a inteligência artificial passa a organizar busca, atendimento, produção de texto, educação, publicidade e mediação de conhecimento, a ausência de modelos enraizados localmente se transforma em dependência estrutural. Hoje, o debate brasileiro ainda é estreito demais. Discutimos como regular o uso de ferramentas estrangeiras em escolas, como reduzir fraudes ou como enquadrar juridicamente plataformas já prontas, mas quase sempre de forma reativa. Essas discussões são necessárias, mas insuficientes. Um país do tamanho do Brasil precisa perguntar também onde está seu projeto ofensivo para inteligência artificial, com escala, financiamento e ambição estratégica.

Onde está o modelo treinado de forma robusta na literatura brasileira, nos acervos históricos digitalizados, na produção científica nacional, no repertório jurídico local, no português real falado nas ruas e até na diversidade de línguas indígenas? Sem isso, continuaremos dependentes de sistemas que nos leem de fora para dentro. Há iniciativas importantes, como o BERTuguês, desenvolvido por pesquisadores brasileiros. Mas são esforços acadêmicos valiosos que ainda não contam com a musculatura financeira, institucional e industrial necessária para se converter em plataforma nacional de grande impacto. É aí que entra o papel do Estado e das instituições de fomento. Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, Financiadora de Estudos e Projetos e Ministério da Ciência e Tecnologia deveriam tratar esse tema como infraestrutura crítica, não como nicho experimental.

Desenvolver inteligência artificial brasileira não é luxo nem fetiche tecnológico. É uma questão de soberania produtiva, cultural e informacional, comparável à construção de ferrovias, redes de energia ou capacidade própria em setores estratégicos. Sem esse salto, o país seguirá entregando dados, comportamento online, repertório cultural e criatividade para alimentar modelos estrangeiros. Depois, comprará de volta, em serviços e assinaturas, uma versão empobrecida e enviesada de si mesmo.

O movimento da Sakana AI funciona, portanto, como um alerta e também como um farol. Ele mostra que a disputa central da inteligência artificial não será vencida apenas por quem tiver mais dinheiro ou mais servidores, mas também por quem conseguir traduzir sua própria sociedade em linguagem de máquina.

O Brasil ainda tem tempo para entrar nessa corrida com ambição. Mas esse tempo não é infinito, e a janela para construir autonomia diminui à medida que os ecossistemas globais se consolidam. No século digital, ser apenas usuário de tecnologia alheia é aceitar que outros organizem nossa memória, filtrem nossa linguagem e enquadrem nossa realidade. O Japão entendeu isso e começou a agir. A pergunta agora é se o Brasil continuará assistindo ou finalmente decidirá falar com voz própria também no terreno da inteligência artificial.

 

Fonte: O Cafezinho

 

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