O
encontro que ajudou sem-teto a se tornar escritor best-seller após 27 anos nas
ruas
Jean-Marie
Roughol viveu nas ruas de Paris por 27 anos, até que um encontro casual mudou
sua vida. De sem-teto, ele se tornou escritor de um best-seller.
Ele
pedia esmola na avenida Champs-Élysées, próximo ao Arco do Triunfo, quando
Jean-Louis Debré, ex-ministro do Interior e ex-presidente da Assembleia
Nacional da França, chegou de bicicleta.
"Eu
estava tomando conta da bicicleta dele", contou Roughol ao programa
Outlook da BBC. "A gente estava conversando, quando ouvimos algumas
pessoas dizendo: 'olha, é aquele político, o Jean-Louis Debré, e ele está
conversando com um mendigo'".
O tom
do comentário não agradou o político, que reagiu com uma proposta que abriria
um novo capítulo na vida de Roughol.
"Naquele
momento, a expressão de Jean-Louis mudou. Ele não gostou da forma que se
referiam a mim. Foi nessa hora que ele falou: Jean-Marie, por que você não
escreve um livro sobre sua experiência? Aí as pessoas vão ver como é a vida sob
sua perspectiva. Vamos publicá-lo", relembra.
O
livro, intitulado Je tape la manche : Une vie dans la rue ("Eu peço
esmola: uma vida na rua", em tradução livre para o português), lançado em
2015, vendeu dezenas de milhares de cópias.
"Eu
jamais poderia imaginar que o livro seria um sucesso. Achava que se conseguisse
vender 50 cópias, seria um milagre. E, de repente, eu estava concedendo um
monte de entrevistas", conta.
Era a
primeira vez que Roughol se aventurava no mundo da escrita.
"Não
comecei imediatamente. Se passaram 6 meses até eu pegar papel e caneta.
Jean-Louis me encorajou a escrever quando eu pudesse, aos poucos. Eu sempre
carregava um caderninho comigo e ia preenchendo com a minha história",
relata.
Jean-Louis
Debré, que foi um político de perfil conservador e ministro durante a
Presidência de Jacques Chirac, fez questão de se envolver pessoalmente na
revisão da obra. Debré morreu em março de 2025.
"Ele
(Debré) achou uma editora para mim e fazia as correções", relata Roughol.
"Eu cometia muitos erros, já que não terminei a escola. Mas ele dizia:
'não se preocupe, escreva o que você quiser e eu dou uma olhada", diz.
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Infância conturbada
O livro
relata a trajetória de Roughol, que tem origem em uma infância conturbada.
"Eu
era maltratado. Não tínhamos o suficiente para comer. Natal simplesmente não
exisita. Aniversários nunca eram comemorados. Eu chorava no meu quarto. E uma
vez, pensei em me matar", conta.
Aos 12
anos, ele foi morar com o pai. Mas o ambiente tampouco era acolhedor.
"Meu
pai era alcoólatra. Quando estava bêbado, me batia muito. Foi quando comecei a
fugir de casa e matar aula. Minha infância foi um inferno. Foi uma época
terrível. E isso eventualmente me levou a viver nas ruas."
"Se
eu tivesse pais normais e cuidadosos, minha vida seria bem diferente. Meu sonho
na infância era ser arqueólogo. Eu era apaixonado por história", relata.
Ele
tinha 19 anos quando dormiu na rua pela primeira vez.
"Foi
no dia seguinte que terminei de servir o Exército. Só tinha 200 francos comigo.
Passei a noite no metrô. Esperei o último trem partir e passei a noite na
estação", recorda-se.
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'Um dia de cada vez'
Sem
endereço fixo, Roughol não conseguia arrumar emprego. E, para completar, teve
os documentos roubados.
"Eu
pedia esmola então. Há alguns anos, as pessoas eram bem generosas. Eu passava
de três a quatro horas por dia pedindo esmola e era suficiente para o dia.
Recentemente, ficou mais difícil. Eu tinha que passar 15 horas por dia pedindo
dinheiro. Quando se mora na rua, você vive um dia de cada vez", afirma.
Além de
lutar pela sobrevivência, ele convivia constantemente com o medo de ser
roubado.
"É
muito difícil encontrar lugares seguros para dormir. Você não quer ficar
sozinho para não ser um alvo fácil para assaltantes. Já roubaram meus sapatos
enquanto eu dormia. Na primeira noite, você dorme com um olho aberto. Na
segunda noite, também. Na terceira, você está tão cansado que nada é capaz de
te acordar. É nesse momento que os ladrões te atacam e roubam seus
pertences", afirma.
Apesar
da fama repentina, Roughol continuou dormindo na rua por um período, até
receber o primeiro pagamento pelo livro.
"Eu
continuei pedindo esmola por um tempo. As pessoas eram mais generosas. Me viam
na TV e vinham me dar dinheiro. Isso foi antes de eu receber os royalties pelo
livro. Quando recebi o dinheiro, consegui meu próprio apartamento."
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Lar, doce lar
Da
solidão das ruas para o conforto do lar, houve um processo de adaptação. A
primeira noite em casa foi comemorada com uma bela refeição.
"No
início, eu andava pelo apartamento, sem saber o que fazer. Na primeira noite,
decidi fazer um bife. Nas ruas, você só come comida barata - sanduíche, kebab,
pizza... Então na minha primeira noite no apartamento, eu queria comer algo bem
bacana. Foi um momento incrível para mim", diz.
"O
importante é não julgar as pessoas que vivem nas ruas. Todo mundo pode acabar
na rua. Até mesmo CEOs de grandes empresas. Eu só espero que as pessoas se
esforcem mais para falar com moradores de rua. Mesmo que você não dê dinheiro,
converse com eles", sugere.
Fonte:
BBC News

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