sexta-feira, 27 de março de 2026

Kassab salta do barco bolsonarista

O centro político começou a se afastar do bolsonarismo de forma mais visível.

O movimento mais eloquente da semana veio de Gilberto Kassab e do Partido Social Democrático.

Ao mesmo tempo, Lula avança na montagem de alianças estaduais enquanto a direita se divide entre disputas locais, impasses familiares e falta de rumo nacional.

Segundo informações apuradas pela Folha de S.Paulo, Kassab sinalizou que o partido caminha para uma definição própria sobre a disputa presidencial de 2026. A legenda deve escolher entre os governadores Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, e Ronaldo Caiado, de Goiás.

A movimentação ganhou força logo após a desistência de Ratinho Junior, do Paraná, de entrar agora na corrida pelo Palácio do Planalto. O recuo expôs, de forma crua, as fissuras do campo conservador e a ausência de coesão entre seus principais nomes regionais.

No caso de Ratinho Junior, o fator decisivo foi a decisão do Partido Liberal de apoiar a candidatura de Sergio Moro ao governo do Paraná. Ao ameaçar a sucessão local, o partido mostrou que prefere conveniências imediatas a uma construção mais estável e duradoura.

Esse episódio ajuda a explicar por que antigos aliados começam a recalcular a rota.

Ao rifar parceiros históricos em nome de arranjos eleitorais de curto prazo, o bolsonarismo empurra o centro para fora de sua órbita. O resultado é um isolamento crescente de um campo político que já enfrenta dificuldades para produzir liderança institucional e programa minimamente consistente.

Kassab percebe esse vazio e tenta ocupar o espaço com uma alternativa de direita menos associada ao radicalismo dos últimos anos. Não se trata de adesão ao governo, mas de um reposicionamento que reconhece o desgaste do bolsonarismo como eixo organizador da oposição.

No meio desse rearranjo, a situação jurídica de Jair Bolsonaro também alterou o ambiente político. O Supremo Tribunal Federal autorizou prisão domiciliar, e o ministro Alexandre de Moraes permitiu que o ex-presidente cumpra a medida em casa para tratar uma broncopneumonia.

A mudança no regime de detenção já provoca efeitos dentro do Partido Liberal e na pré-campanha de Flávio Bolsonaro. Interlocutores do grupo avaliam que a presença física do ex-presidente em casa tende a ampliar o poder de decisão de Michelle Bolsonaro.

Esse novo protagonismo da ex-primeira-dama surge em meio à inelegibilidade e às restrições impostas ao patriarca do clã. Em vez de reorganizar a direita, o quadro pode aprofundar tensões internas e acirrar a disputa por influência dentro da própria família e do partido.

A oposição, portanto, enfrenta ao mesmo tempo um problema de liderança, um problema de estratégia e um problema de coordenação territorial. Falta um nome consensual, falta unidade entre os governadores e sobra conflito entre interesses regionais e ambições nacionais.

Enquanto isso, Lula trabalha em outra frequência.

O Palácio do Planalto concentra esforços na costura de palanques em estados estratégicos, com o objetivo de ampliar a base de sustentação do projeto de reconstrução nacional. A lógica é simples: sem articulação regional sólida, a governabilidade fica mais vulnerável e a disputa de 2026 se torna mais imprevisível.

Lula sabe que a estabilidade institucional depende de negociação fina com lideranças locais e com partidos que integram a frente ampla. Por isso, a construção política nos estados deixou de ser apenas um movimento eleitoral e passou a ser parte central da estratégia de governo.

Esse cálculo também responde ao cenário mais amplo da política brasileira. Com a direita fragmentada, abre-se uma janela para consolidar alianças que antes pareciam improváveis e para reduzir a influência de um discurso extremista em regiões onde ele se enraizou com força.

Mesmo sob pressão de setores da mídia tradicional, o governo tenta manter o foco na entrega de políticas públicas e na defesa da soberania nacional. A aposta do Planalto é que resultados concretos pesem mais do que o ruído político permanente produzido pela oposição.

Nesse contexto, episódios recentes envolvendo fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social e questões no setor bancário são tratados pelo governo como heranças de desmandos anteriores. A gestão atual sustenta que, ao acionar órgãos de controle para investigar e punir irregularidades, transforma passivos herdados em ações de transparência institucional.

A oposição tenta vincular esses problemas diretamente ao atual governo. Mas esse discurso esbarra no fato de que as investigações avançam justamente porque as instituições têm autonomia para agir.

Esse ponto é politicamente relevante porque ajuda o Planalto a sustentar uma narrativa de responsabilidade administrativa. Em vez de paralisar diante de crises, o governo procura enquadrá-las como prova de que os mecanismos de controle estão funcionando.

A estabilidade buscada por Lula não se limita ao plano doméstico. Ela é apresentada como condição para que o Brasil recupere protagonismo no Sul Global e dentro do bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

A mesma lógica vale para a agenda econômica e social. Um país que pretende avançar em reindustrialização, infraestrutura, tecnologia e transição energética precisa de ambiente político menos contaminado por golpismo, sabotagem institucional e guerras de facção.

Por isso, o enfraquecimento do núcleo duro bolsonarista tem efeitos que vão além da disputa entre partidos. Ele pode abrir espaço para uma reorganização do sistema político em bases mais pragmáticas, ainda que marcadas por contradições e disputas intensas.

O caso do Partido Social Democrático é emblemático nesse sentido. Ao perceber o desgaste do extremismo e o vazio programático da direita, Kassab tenta posicionar sua legenda como polo próprio, menos dependente da família Bolsonaro e mais atento ao humor do eleitorado moderado.

Para o campo progressista, esse cenário oferece oportunidade, mas não garantia. Fragmentação do adversário ajuda, porém não substitui articulação, entrega de resultados e capacidade de manter unida uma coalizão ampla e heterogênea.

As próximas semanas devem mostrar até onde vai o afastamento do centro em relação ao bolsonarismo. Se a tendência se confirmar, Lula chegará mais forte na disputa pelos estados, e a direita terá de decidir se continua presa ao passado ou se tenta, tardiamente, inventar outro caminho.

•        Candidatura de Caiado ganha força no PSD e pode tirar votos de Flávio Bolsonaro

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, desponta como principal nome do PSD para a disputa presidencial de 2026, após a desistência do governador do Paraná, Ratinho Junior. A movimentação interna da legenda indica o início de uma pré-campanha com desafios significativos, especialmente diante do baixo desempenho inicial nas pesquisas e da necessidade de ampliar seu alcance eleitoral.Segundo informações publicadas pelo jornal O Globo, a definição por Caiado já teria sido consolidada dentro do partido, embora ainda não oficializada publicamente. A escolha foi confirmada por integrantes da cúpula da sigla, como o ex-governador de Santa Catarina Jorge Bornhausen, que afirmou: “A comissão por unanimidade escolheu Caiado”.

<><> Discurso de segurança e força no agronegócio

Aliados do governador goiano avaliam que ele reúne atributos capazes de atrair eleitores, sobretudo pelo discurso centrado na segurança pública. Caiado pretende destacar sua gestão em Goiás, onde afirma ter reduzido a criminalidade, defendendo a possibilidade de replicar esse modelo em âmbito nacional.

Outro ponto forte de sua candidatura está no agronegócio, setor no qual possui histórico de atuação e influência. A estratégia busca consolidar apoio entre produtores rurais, especialmente em um cenário onde há resistência a outros nomes da direita nesse segmento.

<><> Desafio: disputar votos com Flávio Bolsonaro

Apesar dos trunfos, o principal obstáculo para Caiado será conquistar eleitores que hoje se identificam com o bolsonarismo, especialmente os que tendem a apoiar Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

O cientista político Marco Antonio Teixeira, da FGV EAESP, avalia que Caiado deve adotar uma linha mais ideológica: “Tende a se apresentar com narrativa até mais radical do que Flávio Bolsonaro, que está tentando se apresentar como moderado”. Isto pode reduzir os votos de Flávio Bolsonaro no eleitorado da extrema-direita.

<><> Cenário local favorece Caiado

No plano regional, Caiado conta com maior estabilidade política. Seu aliado e vice-governador, Daniel Vilela (MDB), lidera as pesquisas para a sucessão em Goiás, o que garante ao governador um ambiente favorável.

Além disso, Caiado apresenta altos índices de aprovação — 88% segundo levantamento da Quaest em agosto do ano passado —, fator que pode impulsionar seu desempenho no estado durante a eleição presidencial.

<><> Próximos passos do PSD

Enquanto o partido avança na definição de sua estratégia, o presidente da sigla, Gilberto Kassab, mantém diálogo com outras lideranças, incluindo Eduardo Leite, que ainda figura como alternativa interna.

A decisão final deve consolidar a entrada do PSD na disputa presidencial com candidatura própria, algo inédito na história recente da legenda, mas que exigirá forte articulação para superar a concorrência dentro do campo da direita e ampliar sua presença nacional.

•        Estratégia de Caiado contraria aliados de Flávio e mira disputa entre a direita

Aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) avaliam que a possível entrada do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), na disputa presidencial de 2026 pode favorecer o campo bolsonarista, sobretudo por seu perfil considerado mais combativo em relação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A leitura, no entanto, é contestada por análises recentes que apontam uma estratégia distinta por parte do governador, segundo informações publicadas pelo jornal O Globo.

A movimentação de Caiado não estaria centrada prioritariamente no enfrentamento a Lula, como defendem interlocutores de Flávio, mas sim em uma disputa direta com o próprio senador. A estratégia do governador goiano seria ampliar sua presença eleitoral a partir do confronto com o nome ligado ao bolsonarismo, buscando ocupar espaço dentro do campo da direita.

Levantamentos realizados pela consultoria GPP indicam que Caiado, embora posicionado à direita, apresenta maior capacidade de diálogo com o eleitorado de centro em comparação com outros possíveis candidatos do espectro político. Esse fator é considerado central para sua estratégia, que inclui a possibilidade de atrair votos atualmente associados a Flávio Bolsonaro, ampliando sua competitividade no cenário eleitoral.

Os dados também revelam diferenças relevantes na percepção pública entre os dois políticos. Caiado é visto como um nome com atributos de honestidade, experiência administrativa e liderança no agronegócio. Já Flávio Bolsonaro enfrenta avaliações negativas nesses mesmos quesitos, o que, segundo a análise, pode favorecer o governador de Goiás na tentativa de expandir sua base eleitoral.

Apesar das vantagens apontadas, a estratégia de Caiado envolve riscos políticos. Para se consolidar como uma alternativa competitiva, o governador teria que adotar uma postura de enfrentamento direto a Flávio Bolsonaro, o que pode gerar tensões dentro do próprio campo da direita. Isso ocorre porque Caiado mantém histórico de alinhamento com o bolsonarismo, e um eventual embate pode ser interpretado como uma contradição por parte do eleitorado.

Nesse contexto, o cenário para 2026 se desenha mais complexo do que a avaliação inicial de aliados de Flávio sugere, com disputas internas no campo conservador ganhando peso e potencial para redefinir alianças e estratégias eleitorais nos próximos meses.

<><> Kassab entrega cargo no governo Tarcísio para se dedicar à campanha eleitoral deste ano

O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, anunciou nesta quarta-feira (25) sua saída do secretariado do governo de São Paulo. Em postagem publicada em seu perfil no Instagram, Kassab comunicou que deixou o cargo de secretário de Governo e Relações Institucionais do Estado de São Paulo em razão das demandas crescentes da agenda eleitoral que se aproxima. A decisão marca o encerramento de uma passagem que durou desde o primeiro dia do mandato do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Conforme o próprio Kassab explicou em sua publicação no Instagram, a acumulação das funções de secretário estadual com as obrigações partidárias e eleitorais de 2026 tornou-se insustentável. "Diante das intensas atividades nos campos partidário e eleitoral que se apresentam no calendário político de 2026, com eleições para presidente, governadores, senadores e deputados em outubro, a minha atuação como secretário de Governo e Relações Institucionais do Estado de São Paulo torna-se incompatível com minha atividade política e eleitoral neste período", justificou o dirigente partidário.

<><> Apoio a Tarcísio

Ao se despedir do cargo, Kassab aproveitou o espaço para fazer um balanço elogioso da gestão Tarcísio de Freitas à frente do governo paulista. O presidente do PSD relembrou que a sigla foi uma das forças políticas que apostaram na candidatura do então candidato em 2022. "Em 2022 o PSD tomou a acertada decisão de apoiar a candidatura do Tarcísio, pois ficava claro que ele era o mais preparado para adotar as medidas, implementar os projetos e ações que o Estado de São Paulo demandava para seguir e intensificar seu desenvolvimento", afirmou.

Na avaliação de Kassab, o governo encerra o ciclo de quatro anos com um saldo amplamente positivo. "Seu governo chega, quatro anos depois, repleto de realizações e notáveis avanços em todos os setores, como Saúde, Educação, Saneamento, Infraestrutura, Mobilidade, Segurança, Habitação, entre outros", destacou o político.

A saída de Kassab do secretariado não significa um afastamento político do governador — muito pelo contrário. Em sua mensagem, o presidente do PSD deixou claro que a legenda estará ao lado de Tarcísio de Freitas na disputa pela reeleição ao Palácio dos Bandeirantes. "O êxito alcançado em todos os setores ao longo desses quatro anos credencia o governador e seu governo a postular uma recondução, que tem o apoio do PSD, como ocorreu quando da sua eleição", declarou Kassab, agradecendo ainda pelo que chamou de "privilégio" de ter integrado o secretariado e contribuído com a gestão estadual.

<><> Agradecimentos

No texto publicado nas redes sociais, Kassab também reservou palavras de reconhecimento aos colegas que dividiram o secretariado ao longo dos últimos quatro anos. "Deixo o meu abraço e gratidão aos meus colegas de secretariado pelas parcerias e solidariedade permanente, desejando a todos muito êxito em suas missões", escreveu.

O dirigente do PSD ainda cumprimentou lideranças do partido em São Paulo, citando nominalmente Alda Marco Antonio, Alfredo Cotait e Guilherme Afif Domingos pela "confiança contínua" a ele dispensada ao longo de sua trajetória.

Por fim, Kassab prestou uma homenagem póstuma ao ex-deputado e ex-ministro Antonio Delfim Netto, descrito como um amigo de longa data e figura influente em sua carreira política. "Registro um agradecimento póstumo ao sempre deputado e ministro Antonio Delfim Netto, um amigo da minha família, meu eleitor em diversas oportunidades e conselheiro em muitas decisões ao longo da minha carreira. Delfim foi o primeiro que me sinalizou da importância de eleger Tarcísio governador de São Paulo", concluiu Kassab.

 

Fonte: O Cafezinho/Brasil 247

 

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