JORNAL
NACIONAL: MANIPULAÇÕES, MENTIRAS, APOIO A GUERRAS E GOLPES
Não é
novidade para a pessoa minimamente informada que Jornal Nacional, da TV Globo,
de propriedade da família Marinho, é parte integrante de um conglomerado que
sempre esteve presente na articulação dos golpes contra governos progressistas
no Brasil.
Quando
havia apenas o jornal O Globo, fundado em 1925, no Rio de Janeiro então capital
da República, era a partir de suas páginas que se dava boa parte da mobilização
da opinião pública.
Depois
que Roberto Marinho obteve a concessão de uma emissora de rádio, em 1944, e da
expansão com uma filial em São Paulo, em 1952, ampliou-se bastante o alcance
dessas ações.
O
jornal e as rádios de Marinho estavam longe de ser as mais relevantes e de
contar com a maior audiência na época.
Perdiam
feio para a Rádio Nacional, de propriedade do governo federal, e para os
jornais de Assis Chateaubriand (1892-1968), o primeiro magnata da mídia
brasileira.
Mas
contribuíam para lançar, junto à opinião pública, temas e suspeitas que serviam
para desacreditar políticos e políticas comprometidas com os interesses
populares.
Roberto
Marinho, através de seu diário, deu expressiva contribuição para derrubar o
governo de Getúlio Vargas em 1945, mesmo já havendo eleição marcada para aquele
final do ano.
Quando
do retorno de Vargas ao poder em 1951, pelo voto popular, Marinho além de
coalhar as páginas do seu jornal com denúncias contra Vargas, cedeu os
microfones da rádio Globo para que Carlos Lacerda fizesse, toda noite,
verdadeiros comícios contra o presidente.
É de
Lacerda a expressão “mar de lama” com a qual designava o governo Vargas,
acusando-o e aos seus familiares de corrupção.
O que
Lacerda não dizia era que tamanha fúria tinha outro objetivo: impedir que
Getúlio decretasse o monopólio da União sobre o petróleo brasileiro e criasse
uma empresa estatal para explorá-lo, a Petrobras.
O
desfecho desta história é conhecido. Vargas suicidou-se com um tiro no peito e
a corrupção denunciada por Lacerda, O Globo e maior parte da mídia de então,
jamais foi comprovada.
A
tragédia fez com que a população entendesse o que havia acontecido.
No Rio
e nas principais capitais brasileiras, multidões saíram às ruas, atacaram a
sede de jornais que faziam oposição a Vargas, quebraram veículos de reportagem
e Lacerda, para fugir do forte clamor popular, exilou-se temporariamente.
Foi a
partir da concessão de um canal de televisão, que veio a ser a TV Globo, que o
poder de Roberto Marinho ampliou-se muito e acabou consolidando-o não só como o
maior grupo de mídia, mas um verdadeiro monopólio no Brasil, reunindo empresas
de TV aberta, canais por assinatura, emissoras de rádio, jornais, produção de
conteúdo, streaming e plataformas digitais.
Marinho
não tinha recursos para montar a sua TV. A solução encontrada foi pedir auxílio
ao então gigante de mídia dos Estados Unidos, a empresa Time-Life.
O
pedido caiu como sopa no mel.
Em
plena Guerra Fria, interessava à Casa Branca e às empresas de mídia do Tio Sam
estarem presentes no maior número de países da América Latina, divulgando o
“american way of life” e garantindo o controle do que consideravam “seu
quintal”.
O
problema é que a legislação brasileira de então proibia a presença de capital
estrangeiro e de estrangeiros na gestão da nossa mídia. A parceria que
viabilizou a criação da TV Globo era ilegal e se a legislação da época tivesse
sido respeitada, a concessão teria sido cassada.
Como
estamos falando de uma conjuntura muito difícil, marcada pelo golpe
civil-militar de 1964, que derrubou o presidente legalmente eleito, João
Goulart, e implantou uma ditadura que durou 21 anos (1964-1985), nada disso foi
levado em conta.
Assis
Chateaubriand, já bastante doente, e seu auxiliar direto, João Calmon,
dirigentes dos Diários e Emissoras Associados, não cansaram de denunciar a
ilegalidade do acordo Globo-Time-Life.
Uma
CPMI foi criada no Congresso Nacional para apurar os fatos e o relatório final,
assinado pelo deputado Saturnino Braga, confirmou as denúncias.
Castelo
Branco, o primeiro general-ditador daquele ciclo autoritário, recebeu o
relatório e o guardou em alguma gaveta.
O crime
foi abafado e não se falou mais no assunto.
Quem
quiser conhecer toda esta trama em detalhes, basta ler o livro de Daniel Herz,
A História Secreta da Rede Globo (Editora Dom Quixote, 2009).
A
partir de então, Roberto Marinho tinha mais do que afinidade política com os
golpistas: dependia deles para a continuidade de seus negócios.
É o que
explica a relação de mão dupla entre eles. Marinho colocou todas as suas
empresas a serviço dos interesses da ditadura e os militares tudo fizeram para
consolidar e ampliar seu grupo de mídia.
Sem os
militares interligarem o país por intermédio de micro-ondas, a TV Globo jamais
teria condição de lançar o Jornal Nacional, cujo nome já diz tudo.
Enquanto
os telejornais da época eram produzidos e difundidos apenas regionalmente, a
Globo colocava no ar, em 1º de setembro de 1969, um noticiário transmitido em
rede nacional.
Não por
acaso o Jornal Nacional acabou se consolidando como o principal veículo de
informação para a população brasileira, marcada historicamente por baixo índice
de alfabetização e pela alfabetização funcional.
Nos
áureos tempos, o JN chegou a estar presente em 95% dos lares brasileiros, algo
inédito no mundo.
Nos
dias atuais, quando a sua audiência encosta nos 70% é motivo de comemoração por
seus editores, âncoras e repórteres.
As
novas tecnologias e as redes sociais alteraram substancialmente a forma das
pessoas se informarem.
A
atuação do JN em defesa da ditadura militar – escondendo a campanha das
Diretas-Já, suas ações contra os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e o
protagonismo que assumiu quando do golpe que derrubou a presidente Dilma
Rousseff -, contribuíram para que dele se dele afastasse uma audiência mais
informada e qualificada.
Mesmo
assim, sua audiência ainda é grande o suficiente para justificar que se
acompanhe o que o JN faz.
No
momento em que Lula se prepara para disputar o quarto mandato e que seu
adversário deve ser Flávio, o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro,
preso, cumprindo pena por tentativa de golpe de Estado, vale a pena analisar
como o JN tem coberto os principais fatos tanto nacionais quanto
internacionais.
Mesmo
poderosa, a mídia não pode tudo. Mas pode, por exemplo, contribuir
decisivamente para derrubar presidentes, para apoiar candidatos desvinculados
dos interesses populares e para percepções equivocadas sobre agressores e
agredidos em guerras.
A
cobertura que o JN tem feito está longe de ser “isenta” como apregoa a família
Marinho e seus funcionários.
Uma
análise cuidadosa indica que fatos veem sendo manipulados e mentiras
apresentadas como verdades.
No
momento, o objetivo principal permanece o de sempre: alinhar-se aos interesses
imperialistas dos Estados Unidos e de Israel, desgastar governos progressistas
como o de Lula e abrir espaço para que setores de direita e extrema-direita se
mantenham ou retornem ao poder.
Como em
outras eleições no Brasil, o Grupo Globo sonha com um candidato da “terceira
via”, mas na hora H acaba fechando com a extrema-direita para tentar derrotar
os nomes progressistas.
Foi
assim em 2018, quando, após apoiar a prisão sem provas de Lula, terminou ao
lado do extremista de direita, Jair Bolsonaro.
Havia
opção? Sim.
Quem se
lembra do jornal Estado de S. Paulo que, em editorial, afirmou que era opção
muito difícil escolher entre Bolsonaro e o então candidato do PT, Fernando
Haddad?
O Grupo
Globo estava de acordo e segue na mesma toada.
Mesmo
achincalhado por Bolsonaro durante o seu governo, o grupo Globo passou longe de
qualquer simpatia para com a candidatura de Lula em 2022 e já nos primeiros
meses de seu terceiro mandato dava início a uma ferrenha oposição, que só vem
se ampliando.
Agora,
o grupo Globo dá mostras de que já embarcou na candidatura do filho de
Bolsonaro, o senador Flávio.
Flávio
Bolsonaro é aquele das rachadinhas, de ligação com as milícias cariocas, da
compra de uma mansão de quase R$ 7 milhões em Brasília, sem ter renda para
tanto, e de estar metido até o último fio de cabelo na corrupção do banco
Master, via Banco de Brasília (BRB).
Em
especial, o JN está colocando em prática uma operação para “lavar” Flávio
Bolsonaro, ao mesmo tempo em que procura enlamear Fábio Luiz, a quem denomina
de “Lulinha”, o filho mais velho do presidente Lula.
A
família Marinho não está sozinha nesta empreitada.
Conta
com a parceria dos demais grupos de mídia corporativa brasileira e, claro, com
o apoio da turma do Trump e do chamado deep state, o “estado profundo”
estadunidense, composto por burocratas, militares e redes de inteligência.
O
Brasil tem agora um relevante papel na cena internacional. Integra e é um dos
fundadores do BRICS.
Lula é
o principal líder do Sul Global, num momento em que o mundo passa por guerras e
os Estados Unidos, por um lado, fazem de tudo para conter o próprio declínio,
e, por outro, tentam impedir que o mundo multipolar se consolide.
Não
podemos nos esquecer que figuras como Steve Bannon e Elon Musk já anunciaram
que tudo farão para derrotar Lula nas eleições de outubro.
Bannon,
o ex-assessor estratégico de Trump, anda meio em baixa, enfrentado condenações
por desacato ao Congresso dos Estados Unidos, mas nem por isso deve ser
subestimado.
Já o
trilionário Musk, tem colocado suas empresas, em especial a rede social X e os
satélites da Starlink, a serviço dos interesses econômicos, financeiros e
bélicos dos Estados Unidos.
Evidências
nesse sentido podem ser observadas a partir do que a mídia divulga ou deixa de
divulgar.
Neste
sentido, o JN se configura como um espaço privilegiado para tal observação.
Todo
texto midiático, entendido como uma unidade de sentido produzida com a
finalidade de comunicação social – podendo ser escrito, verbal, não verbal
(imagens) ou híbrido – possui voz própria. É possível “escutá-la” para além do
que seus responsáveis pretendiam mostrar.
Para
tanto, selecionei cinco dos principais assuntos presentes nas edições do JN no
período de 11 a 18 de março para mostrar, na prática, como se dá esta
manipulação.
São
estes:
• Guerra dos EUA e Israel contra o Irã
• Escândalo do Banco Master
• Aumento dos combustíveis no Brasil
• Denúncias de corrupção contra “Lulinha”
• Atuação do Comando Vermelho no Rio de
Janeiro.
O que
farei não tem nada de novo, mas é pouco conhecido. Trata-se de um exercício de
letramento para a mídia.
Da
mesma forma que precisamos ser alfabetizados para ler e escrever, assistir à
mídia demanda conhecimento sobre o seu funcionamento. Afinal, notícias e
reportagens estão longe de serem a mera cobertura dos fatos.
Engana-se
quem acredita que tais assuntos, ao serem cobertos e levados ao ar, não estão
interligados ou que não guardam relação entre si.
A forma
como são abordados e apresentados fazem parte de uma teia bem articulada para
capturar os incautos.
É isso
que pretendo mostrar nesta série de cinco artigos, cujo primeiro aborda a
Guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.
Fonte:
Por Ângela Carrato, em Viomundo

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