quinta-feira, 26 de março de 2026

Heba Ayyad: No Oriente Médio, a estratégia desmoronou antes mesmo de começar

A guerra atual não visa apenas derrubar o regime no Irã, mas também transformar o Oriente Médio como o conhecemos. Washington busca controlar as principais vias de comunicação do mundo, talvez até mesmo alcançando o Bósforo e Gibraltar. A guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã continua, mas com objetivos pouco claros, especialmente porque a lista de alvos já se esgotou, segundo declarações de ambos os lados.

Os objetivos da guerra eram claros e específicos: mudança de regime no Irã, destruição de sua capacidade de mísseis, desmantelamento da Guarda Revolucionária Iraniana, obtenção de urânio enriquecido, desarticulação da milícia Basij e sua substituição por mercenários, além da imposição de um regime subserviente a Israel dentro do Irã.

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Os ataques contínuos do Irã contra o território israelense e bases estadunidenses na região confirmam sua capacidade de sustentar o confronto, visto que aqueles que atacam Teerã pretendiam transformar o conflito em um jogo de soma zero.

Teerã passou de uma tática de “bombardeio de mísseis” para o uso de “ataques de precisão”, uma vez que um único míssil agora pode causar destruição em larga escala. Além disso, aeronaves furtivas já não são tão eficazes, pois Teerã conseguiu atingi-las com um sistema de defesa aérea desenvolvido após a Guerra dos Doze Dias.

A sobrevivência do regime representa o fracasso do objetivo político final da agressão. A continuidade dos ataques com mísseis iranianos indica o fracasso da suposta superioridade militar e tecnológica dos Estados Unidos e de Israel. O colapso da rede de mercenários dentro e fora do Irã evidencia o fracasso da guerra híbrida, cujo objetivo era fomentar conflitos internos.

Trata-se de uma guerra sem limites ou expectativas, cujo desfecho é imprevisível. No entanto, é certo que a região, após este conflito, não será a mesma, e esta não será a última guerra na região.

Consequentemente, o teatro de operações regional transformou-se em uma ameaça global ao trânsito e à segurança energética. Nesse contexto, destaca-se uma regra de ouro: quando os Estados Unidos não conseguem atingir seus objetivos estratégicos, não apenas perdem a batalha, mas também redefinem sua posição no conflito e no sistema internacional.

A discrepância entre a realidade no terreno e a narrativa oficial israelense tornou-se significativa, especialmente desde que o governo sionista impôs uma rígida censura militar, limitando a divulgação de detalhes sobre as perdas israelenses. Trump e suas declarações contraditórias refletem o caos e a turbulência que ele enfrenta internamente nos Estados Unidos. O homem que alegou ter destruído o programa nuclear iraniano há oito meses agora retorna para travar uma nova guerra contra o Irã.

Está claro para todos que Netanyahu é capaz de arrastar Trump para essa guerra, e parece que alguns países da região também serão envolvidos nesse confronto, para o qual não possuem recursos.

Os ataques iranianos a esses países os colocaram em uma posição nada invejável. O silêncio já não é mais aceitável diante da agressão iraniana e da clara pressão estadunidense sobre esses países para que participem da defesa de sua “segurança e soberania”.

A guerra de julho de 2006, que Condoleezza Rice descreveu como “as dores do parto de um novo Oriente Médio”, não alcançou seus objetivos. Portanto, a guerra que testemunhamos hoje pretende representar essas mesmas “dores do parto”.

A região encontra-se em uma encruzilhada histórica, e a ideia da “queda do Irã” é, para os Estados árabes que analisam a situação estrategicamente, pior do que a sua continuidade, especialmente quando deixam de lado antigas queixas e reservas em relação às políticas iranianas na região.

A rivalidade entre os Estados árabes e o Irã é uma realidade, mas decorre da fragilidade árabe, que criou um vácuo preenchido por Teerã, assim como a Turquia fez em outros contextos. Trata-se de uma consequência natural: a vida abomina o vácuo, e todo espaço deixado será ocupado por alguém.

A não participação dos Estados do Golfo na guerra é, no momento, a conduta mais sensata. O debate sobre se o Golfo é árabe ou persa já não se mostra relevante. Uma derrota de Teerã tornaria, sem dúvida, o futuro do Golfo um futuro dominado pelos Estados Unidos e por interesses sionistas.

As forças estadunidenses concentradas na região representam mais da metade das forças mobilizadas pelos Estados Unidos em todo o mundo. Os Estados Unidos já utilizaram praticamente todas as armas imagináveis, com exceção das armas nucleares, cujo uso, à luz da história, não pode ser descartado.

As declarações feitas pelo embaixador estadunidense em Israel, dias antes do início da guerra, a respeito do que chamou de “direito bíblico” de Israel ao controle total do Oriente Médio, não excluíam os Estados árabes como possíveis alvos. O discurso de Netanyahu sobre uma aliança de seis partes na região, voltada para o que ele chama de eixos “xiita em declínio” e “sunita em ascensão”, torna ingênuo e insensato continuar discutindo um suposto “conflito sunita-xiita” na região.

O objetivo é que Israel se torne a potência dominante na região, e Netanyahu vê o Irã como a maior ameaça existencial à sobrevivência da entidade israelense; portanto, ele deve ser enfraquecido.

O discurso de alguns árabes sobre o que chamam de “tríade Irã-EUA-Israel” não passa de ingenuidade e de uma tentativa de desviar a atenção de sua inação e de seu silêncio diante das repetidas violações israelenses. O Irã permaneceu em confronto com Israel enquanto os árabes o abandonaram; assim, tentam justificar sua inação.

A Turquia começou a perceber o perigo e entendeu que a derrota do Irã significaria que Israel avançaria para um novo confronto. Esse confronto pode não ser direto e aberto, mas já se manifesta, por exemplo, na Síria.

O Oriente Médio encontra-se em uma encruzilhada: todos os caminhos levam ao desastre. A região caminha para uma fase extremamente perigosa e potencialmente irreversível, e, ainda assim, continuamos a reagir a esses eventos como uma torcida fanática em um jogo de futebol.

O ataque ao campo de gás compartilhado entre o Irã e o Catar não foi um movimento tático, mas uma complexa catástrofe geoeconômica. O campo de South Pars é o maior campo de gás do mundo e um pilar da economia de diversos países. A Alemanha importa cerca de 40% de suas necessidades de gás desse campo, e o Japão e a Coreia do Sul também são grandes importadores. A Índia, por sua vez, depende significativamente desse fornecimento, entre outros países.

Trata-se do que pode ser chamado de um paradoxo estratégico fatal: o ataque contra o Irã atingiu a espinha dorsal do fornecimento de energia de aliados dos Estados Unidos, elevando os preços para esses países em quase 80%. Em outras palavras, Washington comprometeu a principal fonte de energia da Europa com suas próprias ações. O ataque ao campo de South Pars transformou aliados em vítimas, o que evidencia profunda incoerência estratégica.

O bombardeio israelense ao campo de gás de South Pars, no Irã, levou Teerã a retaliar com ataques às instalações de Ras Laffan, no Catar, elevando os preços do petróleo e do gás e inaugurando uma nova dinâmica de escalada, à medida que ambos os lados buscam estabelecer novas regras de engajamento.

A guerra, em seus objetivos centrais, evidencia que os Estados Unidos e Israel priorizam a mudança de regime no Irã — uma meta que ainda não foi alcançada. O envio de fuzileiros navais estadunidenses, provenientes das proximidades do Japão, para ocupar a ilha iraniana de Kharg coincidiu com relatos dos Estados Unidos afirmando que a China não invadiria Taiwan em 2026. Isso contradiz avaliações anteriores dos próprios Estados Unidos, que previam uma inevitável invasão chinesa de Taiwan.

A discrepância entre os objetivos declarados e os resultados alcançados é o principal critério para medir o resultado das guerras — isto é, “vitória” ou “derrota”. Vale ressaltar que os conceitos tradicionais de vitória e derrota não se aplicam a esse tipo de guerra assimétrica, na qual as capacidades militares convencionais e calculadas (estadunidenses e israelenses) se confrontam com estratégias de longo prazo baseadas na paciência e com as políticas iranianas, altamente complexas.

O Estreito de Ormuz não apenas foi fechado, como também foi redefinido. O Irã reestruturou as regras de navegação no estreito de acordo com seus próprios parâmetros. Os navios agora são registrados sob um sistema iraniano que impõe uma taxa de trânsito de US$ 2 milhões para cada embarcação que o atravessa. As rotas estão sendo desviadas de águas internacionais para águas territoriais iranianas, e apenas embarcações autorizadas têm permissão para passar — medida que, na prática, transfere a soberania do direito internacional para o controle iraniano.

O controle do estreito já não pertence àqueles que possuem frotas navais, mas àqueles que estabelecem e aplicam as regras de passagem. Assim, o Estreito de Ormuz foi transformado de uma via navegável internacional em uma plataforma de soberania iraniana, o que sugere o início de uma “derrota estratégica” para os Estados Unidos, partindo da premissa de que a guerra se voltou contra eles.

Embora esses desdobramentos indiquem uma escalada difícil de conter, as avaliações sobre o “ponto de não retorno” permanecem essencialmente ligadas à capacidade dos atores internacionais de intervir e impor um acordo político ou militar, semelhante aos alcançados em conflitos anteriores, como o cessar-fogo de junho de 2015, negociado internacionalmente e monitorado por diversos mecanismos. Contudo, a alta intensidade das operações atuais, a multiplicidade de zonas de conflito e a sobreposição de atores locais e regionais tornam a retomada do processo diplomático mais complexa do que nunca.

A preocupação de que o conflito esteja entrando em um ponto de não retorno decorre de dois fatores: primeiro, a escalada das operações em campo eleva o custo da negociação e aumenta a vulnerabilidade da infraestrutura civil; segundo, a divergência de interesses internacionais e regionais enfraquece a possibilidade de se alcançar, rapidamente, um cenário mutuamente aceitável para uma solução.

Portanto, os indicadores desse ponto de não retorno devem ser avaliados não apenas pelo ritmo e pela intensidade das operações militares, mas também pelo nível de confiança entre as partes, pelo esgotamento dos recursos humanitários e pela ausência de um canal de negociação eficaz que possa oferecer garantias concretas para a diminuição do confronto.

¨      Presidente alemão chama guerra no Irã de "erro desastroso"

A guerra no Irã é um "erro desastroso" que "viola o direito internacional", afirmou o presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, nesta terça-feira (24/03), dirigindo uma crítica direta à política externa do presidente dos EUA, Donald Trump.

Em suas falas dirigidas a uma plateia de diplomatas em Berlim, Frank-Walter Steinmeier, cujo papel essencialmente cerimonial lhe permite falar com mais liberdade do que outros políticos, adotou uma linha muito mais crítica do que o chanceler federal Friedrich Merz, que tem evitado responder a perguntas sobre a legalidade da guerra.

"Nossa política externa não se torna mais convincente só porque não chamamos uma violação do direito internacional de violação do direito internacional", disse Steinmeier, que no antigo governo de Angela Merkel ocupou duas vezes o cargo de ministro das Relações Exteriores da Alemanha.

"Devemos abordar isso no que diz respeito à guerra no Irã. Pois, na minha opinião, essa guerra é contrária ao direito internacional", disse ele, acrescentando que não tem dúvidas de que a justificativa dos EUA de que o Irã estava na iminência de lançar um ataque não é corroborada por fatos.

"Não há dúvidas de que, em qualquer caso, a justificativa de um ataque iminente aos EUA não se sustenta", disse.

<><> Distanciamento dos EUA

Chamando a guerra de "desnecessária" e de um "erro politicamente desastroso", Steinmeier disse que o segundo mandato de Trump tem marcado uma ruptura nas relações externas da Alemanha tão profunda quanto a invasão da Ucrânia pela Rússia.

"Assim como acredito que não haverá volta atrás nas relações com a Rússia em relação ao período anterior a 24 de fevereiro de 2022, também acredito que não haverá volta atrás nas relações transatlânticas em relação ao período anterior a 20 de janeiro de 2025", afirmou Steinmeier, em alusão à data do início do segundo mandato de Donald Trump.

Ainda segundo Steinmeier, a Alemanha tem que aplicar as lições que aprendeu ao se livrar de "dependências excessivas" da Rússia e aplicá-las também aos EUA, particularmente nas áreas de defesa e tecnologia.

"A ruptura é profunda demais e a confiança na política do poder americana foi perdida, não apenas entre nossos aliados, mas... em todo o mundo", disse Steinmeier, em um evento para marcar o 75º aniversário do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha. "Realismo significa que devemos ser pragmáticos em nossas relações com esta administração americana e focar em nossos interesses fundamentais", continuou.

"Mas realismo também significa que não devemos comprometer nossos próprios princípios. O governo americano tem uma visão de mundo diferente da nossa, uma que não demonstra consideração por regras estabelecidas, parcerias ou confiança arduamente conquistada. Não podemos mudar isso. Devemos lidar com isso. Mas esta é a minha convicção: não temos motivos para nos alinharmos a essa visão de mundo", finalizou o presidente alemão.

<><> Papel do presidente

Na Alemanha, o presidente possui atribuições executivas, mas seus poderes são mais simbólicos, embora seja chefe de Estado. A Lei Fundamental (Constituição alemã) lhe garante a competência de assinar acordos e tratados internacionais e nomear ministros, mas o comando da política cabe ao governo, chefiado pelo chanceler federal. Cargo atualmente ocupado por Friedrich Merz.

Nas últimas semanas, Merz adotou uma postura mais ambivalente em relação ao conflito no Irã. Por um lado, o chanceler federal criticou duramente a liderança do Irã e disse apoiar vários objetivos-chave da guerra lançada pelos EUA e Israel, mas também afirmou que, se Berlim tivesse sido consultada previamente, "teria se posicionado contra" o conflito.

Merz afirmou repetidamente que a Alemanha compartilha "o objetivo de que o Irã não represente mais uma ameaça no futuro", mas também deixou claro que a Alemanha não entraria no conflito.

 

Fonte: Brasil 247/DW Brasil/BBC News Persa

 

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