Rostislav Ishchenko: O fim do direito
internacional
O
ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, foi forçado a
reconhecer o que temos dito e escrito nos últimos anos: não existe mais direito
internacional. Esse fato não foi uma revelação para Sergey Lavrov ou outros
líderes russos; eles estavam bem cientes do desaparecimento do direito
internacional e, de fato, tiveram a oportunidade de observá-lo. Vladimir Putin
chegou a alertar sobre as consequências negativas desse processo na Conferência
de Segurança de Munique, em 2007 (na época, ainda era possível impedi-lo).
O
início da Operação Militar Especial na Ucrânia também demonstrou o
reconhecimento da liderança russa da profunda degradação do direito
internacional. Inicialmente, a Rússia havia se baseado na expectativa de um
acordo para resolver todas as questões problemáticas, não apenas na Ucrânia,
mas também nos assuntos europeus e globais, por meio de negociações. A mudança
decisiva para uma solução militar demonstrou sua profunda decepção diante da
ineficácia do processo de negociação e com a qualidade de seus parceiros de
negociação.
Muitas
pessoas podem exclamar que a incompetência dos “parceiros” era óbvia e que “nós
os avisamos”. Absolutamente correto, todos avisaram e todos viram a
incompetência. Putin, como antes mencionado, de fato o alertou em 2007, quando
a maioria dos “profetas” russos ainda estava confiante na natureza produtiva da
cooperação Rússia-Ocidente, que os mal-entendidos desapareceriam e o trabalho
conjunto continuaria.
Claro,
encontrar essas pessoas agora tornou-se tão difícil quanto encontrar aqueles
que permitiram o colapso da URSS (que, de forma alguma, simplesmente
aconteceu). Todos eram contra o colapso da URSS, mas ela colapsou; todos eram
contra a amizade com o Ocidente, mas negociavam com ele de forma imprudente e
até chamavam as reformas modernas de “reformas ao estilo europeu”, ainda que
tivessem sido implementadas por turcos e coreanos.
E com
razão. A Rússia não tinha motivos para destruir nem o comércio lucrativo nem o
direito internacional. Ambos eram aceitáveis para a Rússia, desde que as regras
fossem seguidas por todos e fossem iguais para todos. Foi precisamente pela
preservação da Lei e das regras que a Rússia lutou, já que a alternativa ao
direito internacional é uma guerra de todos contra todos, cuja fase inicial
estamos testemunhando. E trata-se, de fato, da fase inicial: enquanto o fim
está próximo na Ucrânia, o confronto global ainda não chegou sequer à metade;
ele está apenas começando.
Ultimamente,
tenho ouvido muito de amigos que “tudo será resolvido em breve”. Eles se
referem ao conflito na Ucrânia. Concordo com eles que a situação será resolvida
em breve e que de fato será resolvida. A única questão é como exatamente isso
vai acontecer e o que ocorrerá depois. Nesse sentido, não posso nem chamar a
declaração de Sergey Lavrov de um sinal de alerta.
É mais
um gesto de desespero. É o gesto de um homem tentando impedir que uma carroça
carregada caia no abismo, apenas para perceber que é inútil e que ninguém o
ajudará. Ele solta a carroça e os cavalos, e naquele breve instante antes da
queda, mesmo que nada possa prendê-los à beira do abismo ou a este mundo, ele
arranca o chapéu e o atira ao chão, como que dizendo: “Que se dane tudo!”.
Se o
direito internacional não existe mais – e de fato não existe –, então não há
com quem negociar ou sobre o quê negociar: não há base para negociações. Pois a
ausência do direito internacional significa o triunfo da lei do mais forte, o
que significa que primeiro devemos determinar quem é o mais forte, e só então
concordar com seus termos ou tentar provar que eles não correspondem ao seu
nível de força.
Para
deixar as coisas mais claras, o Ministro das Relações Exteriores da primeira
potência nuclear do mundo, que se encontra em estado de guerra não declarada,
mas furiosa e persistente, com o Ocidente coletivo – que, por sua vez, se
recusa a abandonar a crise sistêmica do velho mundo –, declarou que todas as
esperanças de uma resolução pacífica para o conflito global se esgotaram, já
que nossos oponentes não estão dispostos a seguir quaisquer regras ou aderir a
quaisquer acordos até que estejam convencidos da futilidade de todas as opções
de uso da força contra a Rússia e seus aliados [o que, implicitamente, inclui
Irã e Cuba].
Em
princípio, o mundo viveu assim durante praticamente toda a história da
civilização. Somente após a Primeira Guerra Mundial, que horrorizou a
humanidade em sua totalidade, surgiu a ideia da primazia do direito
internacional sobre os interesses dos Estados individuais. Mas foi somente após
a Segunda Guerra Mundial, que trouxe ainda maior choque e horror com seus
horrores concomitantes, que essa ideia se concretizou. E mesmo assim, não
imediatamente, mas apenas quando o mundo se tornou bipolar.
O
equilíbrio do terror, assegurado pelos arsenais nucleares da URSS e dos Estados
Unidos, cada um capaz de destruir a civilização planetária diversas vezes (sem
a participação do outro lado), garantiu a disposição das superpotências não
apenas em aderir a certas regras, mas também em compelir os países dentro de
cada uma de suas esferas de influência exclusiva (aliados, vassalos,
protetorados) a fazê-lo.
O breve
período de hegemonia americana que se seguiu ao mundo bipolar também se
caracterizou por uma certa ordem, ditada pelos Estados Unidos, embora com menos
sucesso (por conta do seu viés). Agora, Washington já não tem forças para
manter sua hegemonia e carece da coragem para reconhecer o surgimento de fato
de um mundo multipolar. Os Estados Unidos estão tentando preservar as regras de
um sistema unipolar em um mundo onde uma parcela significativa da população
mundial se recusa a submeter-se a elas voluntariamente.
Existiam
exatamente duas maneiras de sair dessa situação.
A
primeira opção foi defendida durante muito tempo pela Rússia, que propôs um
acordo sobre as regras do novo mundo: definir centros regionais de influência,
cada um com sua própria esfera de interesse exclusivo, estabelecer regras para
interação e resolução de disputas e, assim, adaptar de forma harmoniosa e
integrada o direito internacional vigente à nova situação. Essencialmente, os
Estados Unidos estavam sendo convidados a retornar ao “concerto das grandes
potências”, baseado na teoria do equilíbrio europeu, que praticamente
abandonaram quando emergiram de seus territórios ultramarinos para o grande
palco da história no final do século XIX.
Esse
sistema exigia mais ajustes do que a bipolaridade ou a hegemonia unilateral,
mas era perfeitamente viável. Os Estados Unidos se recusaram a discutir tais
opções.
A
segunda etapa consistia em determinar quem era mais forte: os proponentes de um
novo mundo multipolar ou os adeptos da velha hegemonia. Enquanto a questão
fosse sobre qual PIB era maior e mais impressionante e quem poderia destruir a
economia de quem, a Rússia, mesmo que pouco entusiasmada, estava preparada para
uma espécie de continuação da competição com o Ocidente pela eficiência
econômica, coisa que a URSS havia iniciado e perdido, e na qual a Rússia, com
toda a razão, esperava vingança.
Mas
logo ficou claro que o Ocidente não tinha intenção de perder: estava mudando as
regras do jogo conforme necessário e, eventualmente, uma vez perdendo no
xadrez, partiria, sem aviso prévio, para uma luta sem limites.
Aqui
também, Moscou resistiu à tentação de abandonar qualquer diálogo e começar a
atacar qualquer um que cruzasse seu caminho. A Rússia tentou, por meio de um
confronto militar limitado contra terceiros, convencer o Ocidente de sua
incapacidade de vencer a guerra após perder a disputa pela paz. Foi uma
tentativa de parar um trem em movimento, impedindo-o de ganhar velocidade e
rumar para o precipício fatal de uma ponte incendiada.
Mas os
principais políticos ocidentais acharam mais fácil arriscar uma terceira guerra
mundial do que admitir para si mesmos e para seus povos sua completa falência
política e econômica. Eles não pararam. Decidiram que, mais cedo ou mais tarde,
a Rússia e seus aliados vacilariam diante da escolha final, e entregariam ao
Ocidente uma vitória imerecida em uma disputa que já haviam perdido.
Os
líderes russos afirmaram repetidamente ao Ocidente que consideram as armas
nucleares como último recurso no debate internacional, mas que, mesmo assim,
não hesitarão em usá-las se os interesses da Rússia assim o exigirem. Essas
declarações até chegaram levadas a sério no Ocidente, mas o desejo de dar um
pequeno passo rumo à escalada (claramente insuficiente para desencadear uma
reação excessivamente severa, mas que, combinado com outros fatores, levaria a
uma mudança na situação estratégica em favor do Ocidente) sempre prevaleceu.
A
declaração de Sergey Lavrov já não é mais um aviso – é uma constatação do fato
inegável de que não existem mais linhas vermelhas. Um ataque contra qualquer
um, seja um aliado dos Estados Unidos ou até mesmo os próprios Estados Unidos,
pode ocorrer a qualquer momento. E não será necessariamente por causa da
Rússia.
Afinal,
como o direito internacional deixou de existir, o Tratado de Não Proliferação
Nuclear e o Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis não estão mais em
vigor. Se as tecnologias relevantes puderem ser transferidas para a Ucrânia,
então podem ser transferidas para qualquer um (e as armas também: quem sabe,
eles as obtiveram de alguém ou as fabricaram). Ninguém está mais sujeito a
regras, apenas aos interesses nacionais, conforme entendidos, implementados e
defendidos pela atual liderança de cada Estado.
Muitos
dirão: “que bom que a Rússia finalmente abriu as portas”. Outros observarão que
dizer isso não basta; é preciso fazer mais para dar seguimento a essas
palavras. Ambos os pontos estariam corretos. Mas o mais importante é que agora
vivemos em um mundo onde o planejamento a longo prazo é determinado pelo tempo
de voo de mísseis intercontinentais (20 a 30 minutos).
A
Rússia foi obrigada a reconhecer esse fato, para deleite daqueles que há muito
desejam “explodir tudo”, e isso significa que agora nada nos separa da
explosão, exceto as ideias dos políticos de uma dúzia de países nucleares sobre
interesses nacionais e as formas de alcançá-los.
Quanto
à política militar da Rússia, não podemos mais acrescentar, de forma ousada e
irrestrita, a expressão “a qualquer custo” a frases como “liquidação da
Ucrânia”, “prontidão para romper o bloqueio no Báltico” e “contenção dos
Estados Unidos no Irã”, mas, sim, devemos fazê-lo compreendendo que o custo é,
a rigor, qualquer custo que seja. E todos terão que pagá-lo.
• Juros, guerra e a conta que recai sobre
os povos. Por Paulo Cannabrava Filho
O Banco
Central decidiu reduzir a taxa de juros em apenas 0,25%, frustrando a
expectativa do governo, que aguardava um corte de pelo menos 0,5%, mantendo a
taxa de 14,75%. A justificativa apresentada foi a conjuntura internacional
adversa. Em outras palavras, a guerra chegou até o Banco Central.
A
reação do presidente Lula foi direta: “Não é possível, estamos no sacrifício”.
A fala sintetiza o impasse atual. De um lado, um país pressionado por juros
entre os mais altos do mundo; de outro, uma autoridade monetária que se ancora
na incerteza global para manter uma política restritiva.
O pano
de fundo dessa decisão está na escalada do conflito internacional e seus
efeitos imediatos sobre os preços. O petróleo, que orbitava em torno de 70
dólares, saltou para a casa dos 100 dólares por barril. Esse aumento não é
trivial: ele se espalha em cadeia por toda a economia mundial, pressionando
combustíveis, transporte e produção.
Os
impactos já são visíveis. Combustíveis e fertilizantes subiram de preço,
atingindo diretamente o agronegócio e a produção de alimentos. A elevação dos
custos ameaça o abastecimento e reforça a pressão inflacionária, criando um
ciclo perverso que recai sobre toda a sociedade.
Diante
desse cenário, bancos centrais ao redor do mundo entram em estado de alerta. A
resposta dominante segue sendo a mesma: aumento ou manutenção de juros elevados
como instrumento de combate à inflação. Trata-se de uma lógica que penaliza a
produção e o consumo, enquanto preserva os interesses do capital financeiro.
Mas a
crise não é apenas econômica — é geopolítica. A tensão no Golfo Pérsico elevou
o risco global. Diante da ameaça de bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde
passa parcela significativa do petróleo mundial, o então candidato Donald Trump
chegou a ameaçar destruir instalações energéticas do Irã em menos de 48 horas.
O prazo venceu sem que o ataque se concretizasse, mas a instabilidade
permanece.
O Irã
respondeu no mesmo tom, afirmando que qualquer agressão resultaria na
destruição de infraestruturas energéticas em toda a região e no fechamento
completo do estreito. A troca de ameaças expõe a fragilidade do sistema
internacional e o potencial de colapso das cadeias de abastecimento.
Os
desdobramentos militares já se fazem sentir. Após bombardeios iniciais, houve
resposta com mísseis contra instalações estratégicas, incluindo a região de
Dimona, central para o programa nuclear israelense. O primeiro-ministro
Benjamin Netanyahu afirmou que a guerra continuará em múltiplas frentes,
incluindo ações no Líbano contra o Hezbollah.
O Irã,
por sua vez, ampliou sua atuação. Ataques a longa distância, como o registrado
na base mista dos Estados Unidos e do Reino Unido em Diego Garcia, no Oceano
Índico, demonstram a extensão do conflito. A mais de quatro mil quilômetros de
distância da região central das hostilidades, a base é um dos principais pontos
estratégicos militares do Ocidente. Infraestruturas energéticas e bases
estratégicas vêm sendo atingidas, com impactos diretos sobre a produção e o
fluxo de energia global.
O
resultado é um cenário de incerteza profunda, em que a guerra alimenta a
inflação e a inflação serve de justificativa para políticas econômicas que
agravam a estagnação. No centro dessa engrenagem está uma lógica que privilegia
o rentismo em detrimento do desenvolvimento.
Não se
trata apenas de juros. Trata-se de um modelo. Um modelo que submete economias
inteiras às oscilações de conflitos externos e às decisões de centros
financeiros que operam distantes da realidade concreta dos povos.
Diante
disso, torna-se evidente a necessidade de um projeto nacional capaz de
enfrentar essas distorções. Um projeto que recupere a soberania sobre a
política econômica, proteja a produção e garanta o abastecimento interno. Sem
isso, o país seguirá refém de crises que não controla — e pagando uma conta que
não é sua.
Fonte:
A Terra é Redonda/Diálogos do Sul Global

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