sexta-feira, 27 de março de 2026

Plano dos EUA exige rendição palestina para discutir paz em Gaza

Os Estados Unidos levaram ao Conselho de Segurança uma proposta para o futuro de Gaza centrada no desarmamento total da resistência palestina.

Segundo informações da Al Jazeera, o plano foi apresentado como parte de uma segunda fase de um cessar-fogo que ainda enfrenta enormes obstáculos para sair do papel.

Na prática, Washington tenta transformar a discussão sobre paz em uma exigência de capitulação unilateral dentro de um território devastado pela guerra e pelo cerco.

A proposta foi articulada pelo chamado Conselho da Paz, descrito no rascunho como um órgão consultivo de alto nível criado pela administração de Donald Trump para lidar com conflitos internacionais sob a ótica dos interesses norte-americanos. O enviado especial de Trump apresentou a iniciativa como uma solução definitiva para a estabilidade regional.

O problema é que o projeto exige o desarmamento completo dos grupos palestinos sem apresentar garantias concretas de soberania, fim da ocupação ou reconhecimento efetivo de um Estado palestino. Para analistas do Sul Global, trata-se menos de um plano de paz e mais de uma tentativa de neutralizar a resistência sem mexer na estrutura de dominação que sustenta o conflito.

O contraste entre o discurso diplomático e a realidade no terreno é brutal. Enquanto diplomatas negociam em Nova York, a população de Gaza continua submetida a restrições severas impostas por Israel sobre comida, remédios e combustível.

Israel mantém controle total sobre a entrada de bens essenciais no enclave, o que aprofunda uma crise humanitária já descrita como sem precedentes na história moderna da região. Organizações internacionais denunciam essa política como punição coletiva e como parte central de um sistema de apartheid.

Nesse contexto, a retórica de paz de Washington perde credibilidade diante do apoio militar e financeiro contínuo que os Estados Unidos oferecem ao Estado de Israel. Para muitos observadores, o desarmamento exigido agora serviria para consolidar uma situação em que Israel preserva domínio territorial e superioridade militar sem enfrentar resistência armada.

O ponto mais sensível é que a proposta ignora as causas profundas do conflito. Em vez de enfrentar a ocupação ilegal de terras, a negação de direitos nacionais e o direito de retorno dos refugiados, o plano trata a reação à opressão como se fosse a origem da instabilidade.

Essa inversão é politicamente conveniente para Washington, mas dificilmente produz paz duradoura. A história da região mostra que acordos construídos sem justiça, sem direitos e sem reconhecimento político tendem a fracassar ou a apenas adiar novas explosões de violência.

A iniciativa também amplia o desgaste dos Estados Unidos dentro das Nações Unidas. O Sul Global tem pressionado com cada vez mais força pelo fim imediato do que já classifica como um genocídio em curso contra o povo palestino.

Nesse ambiente, a posição norte-americana aparece cada vez mais isolada diante da maioria dos países que cobram cessar-fogo real, proteção aos civis e solução política baseada no direito internacional. A insistência em um desarmamento unilateral, sem desmontar o bloqueio e sem encerrar a ocupação, reforça a percepção de que Washington continua agindo como parte interessada, e não como mediador confiável.

China e Rússia têm defendido que qualquer saída duradoura passe pelo reconhecimento pleno da Palestina como Estado membro das Nações Unidas. Essa visão, associada a uma leitura multipolar da crise, sustenta que a paz não pode ser imposta por uma potência que financia e protege um dos lados do conflito.

O Irã também critica a interferência direta de Washington e sustenta que o destino da Palestina deve ser decidido pelos próprios palestinos. No tabuleiro regional, essa posição reforça a ideia de que a legitimidade de qualquer acordo depende menos da pressão externa e mais da autodeterminação do povo palestino.

Para o Brasil, a movimentação tem peso direto na política externa conduzida pelo presidente Lula. O governo brasileiro vem se afirmando como uma voz firme em defesa do direito internacional e na condenação das atrocidades cometidas contra civis em Gaza.

A diplomacia brasileira também associa a crise palestina à necessidade de reforma urgente do Conselho de Segurança. Para Brasília, o impasse expõe o quanto o órgão ainda funciona sob a lógica das grandes potências do Norte, o que compromete sua credibilidade diante de tragédias humanitárias e bloqueia respostas mais equilibradas.

A proposta ligada a Trump tende, por isso, a aprofundar divisões dentro da própria ONU. Países que defendem soberania, autodeterminação e solução negociada dificilmente aceitarão uma fórmula que exige a rendição de um lado sem impor ao outro o fim do bloqueio, da ocupação e da violência estrutural.

Há ainda um componente geopolítico mais amplo nessa disputa. Enquanto os Estados Unidos insistem em uma arquitetura de segurança baseada em coerção, superioridade militar e tutela política, a China tenta ampliar espaço com uma diplomacia de mediação que busca incluir diferentes atores regionais.

Pequim aposta na ideia de que estabilidade no Oriente Médio depende de desenvolvimento econômico, respeito mútuo e negociação política, e não apenas de força. Para o Sul Global, essa diferença de método ajuda a explicar por que cresce a resistência à lógica unipolar que Washington tenta preservar em fóruns internacionais.

Nas próximas semanas, a proposta para Gaza deve enfrentar debates intensos. Tudo indica que encontrará forte oposição de países que já não aceitam soluções desenhadas para administrar a ocupação em vez de superá-la.

A reconstrução de Gaza exigirá bilhões de dólares, compromisso internacional e, sobretudo, justiça histórica. Sem interromper o genocídio, desmontar o apartheid e reconhecer plenamente os direitos nacionais palestinos, qualquer plano apresentado como paz corre o risco de ser apenas propaganda diplomática a serviço da velha ordem.

¨      Paz sob bombas não convence Teerã

A proposta de cessar-fogo enviada por emissários de Donald Trump ao Irã, segundo a Al Jazeera, expõe menos uma saída diplomática do que uma tentativa de impor rendição estratégica em meio à guerra. Transmitido ao governo iraniano por meio do Paquistão, o plano de 15 pontos combina promessas de alívio com exigências profundas sobre soberania, defesa e programa nuclear.

O resultado é um impasse previsível, porque Washington pede concessões máximas de um país sob ataque e oferece garantias que Teerã tem razões concretas para considerar frágeis.

A guerra já produz um custo humano devastador para o Irã e para toda a região. Segundo números oficiais do Ministério da Saúde do Irã citados pela Al Jazeera, ao menos 1.500 pessoas morreram no país e mais de 18 mil ficaram feridas até esta semana.

O impacto econômico também ultrapassou rapidamente as fronteiras do conflito. O fechamento parcial do Estreito de Ormuz, com passagem restrita a embarcações autorizadas, ajudou a empurrar o petróleo para acima de 100 dólares por barril, bem acima do patamar anterior à escalada.

Isso ajuda a explicar por que o tema interessa diretamente ao Brasil. Um choque prolongado no Golfo pressiona combustíveis, inflação, cadeias logísticas, fretes marítimos e o ambiente financeiro internacional, atingindo tanto importadores quanto exportadores de energia.

Pelo desenho atribuído aos Estados Unidos, haveria um cessar-fogo de 30 dias enquanto as partes negociariam um arranjo mais duradouro. Mas a pausa viria acompanhada de exigências que tocam o coração da capacidade estratégica iraniana.

Entre elas estariam a desmontagem das instalações nucleares de Natanz, Isfahan e Fordow. O plano também prevê a entrega do estoque de urânio enriquecido à Agência Internacional de Energia Atômica e o fim do enriquecimento dentro do território iraniano.

As condições não param no dossiê nuclear. A proposta incluiria limites ao alcance e à quantidade de mísseis iranianos, o encerramento do apoio de Teerã a forças aliadas na região, a reabertura plena do Estreito de Ormuz e o fim de ataques a ativos energéticos do Golfo.

Em troca, Washington acenaria com a retirada de sanções e com apoio à geração elétrica na usina civil de Bushehr. Na superfície, parece uma troca diplomática; na prática, soa como uma barganha assimétrica entre um poder militar agressor e um Estado pressionado a abrir mão de instrumentos centrais de dissuasão.

É esse desequilíbrio que corrói a credibilidade da proposta antes mesmo de qualquer mesa formal de negociação. O país atacado é chamado a desmontar capacidades estratégicas de longo prazo para receber, em troca, promessas futuras de um adversário que já abandonou compromissos anteriores.

Esse ponto é decisivo e não pode ser tratado como detalhe. Foi o próprio Trump quem retirou unilateralmente os Estados Unidos do acordo nuclear de 2015, que já estabelecia limites ao programa iraniano e mecanismos de inspeção internacional.

Agora, a Casa Branca exige de Teerã compromissos ainda mais duros do que os previstos naquele pacto. Do ponto de vista iraniano, a mensagem é simples: Washington quer mais do que antes, oferecendo menos confiança do que antes.

A Al Jazeera informa que Paquistão, Egito e Turquia estariam pressionando por uma reunião de paz em Islamabad. Ao mesmo tempo, o governo dos Estados Unidos prepara o envio de milhares de soldados adicionais ao Oriente Médio.

Essa duplicidade ajuda a explicar por que a retórica diplomática não produz efeito político real. Washington fala em negociação enquanto amplia a presença militar regional e sustenta uma posição de força construída em conjunto com Israel.

Do lado iraniano, a resposta pública tem sido de rejeição. Lideranças de Teerã afirmam que não há negociação real em curso e ironizam as declarações de Trump, sustentando que os Estados Unidos estariam “negociando consigo mesmos”.

A frase resume uma desconfiança acumulada ao longo de anos. Para o Irã, não se trata apenas de discordar dos termos atuais, mas de lembrar que canais diplomáticos anteriores coexistiram com pressão, sabotagem e ataques.

Há ainda uma mudança importante na natureza do conflito. Se em outros momentos o foco ocidental se concentrava nas instalações atômicas, a guerra recente passou a incorporar pressões mais amplas sobre a própria estrutura política do Estado iraniano.

Segundo o material da Al Jazeera, o plano de 15 pontos não traz formalmente uma cláusula de mudança de regime. Ainda assim, o ambiente político criado por Washington e Tel Aviv alimentou esse horizonte ao longo da escalada, o que torna qualquer oferta de negociação ainda menos confiável aos olhos de Teerã.

Nenhum Estado soberano discute serenamente sua segurança nacional com um interlocutor que, até ontem, flertava abertamente com a desestabilização de sua ordem interna. É justamente nesse ponto que a proposta perde densidade diplomática e ganha aparência de imposição.

A distância entre as partes, portanto, não é apenas técnica. Ela é política, estratégica e também civilizacional, porque envolve visões opostas sobre soberania, equilíbrio regional e direito de autodefesa.

Os Estados Unidos querem restringir o programa nuclear, os mísseis, a capacidade regional e o controle iraniano sobre uma rota marítima decisiva. O Irã, por sua vez, quer garantias reais de cessação dos ataques, respeito à sua soberania e o fim de uma lógica de cerco permanente.

Sem esse mínimo de reciprocidade, qualquer cessar-fogo corre o risco de funcionar apenas como pausa tática. E pausas táticas no Oriente Médio, como a história recente mostra, muitas vezes servem menos para encerrar guerras do que para reorganizar a próxima escalada.

Para o Sul Global, o episódio tem valor emblemático. O que está em jogo não é somente um conflito regional, mas o direito de países fora do eixo Washington-Tel Aviv preservarem autonomia estratégica sem serem submetidos a guerras punitivas ou a negociações sob bombardeio.

Para o Brasil, a lição é direta e concreta. Em um mundo cada vez mais multipolar, defender o direito internacional, a solução negociada de controvérsias e a soberania dos Estados não é gesto abstrato, mas interesse material de estabilidade, desenvolvimento e proteção contra choques externos.

Se houver acordo, ele só terá chance de durar com garantias recíprocas e reconhecimento da realidade geopolítica. Se prevalecer a fórmula de rendição disfarçada de paz, a trégua continuará distante e o mundo seguirá pagando a conta.

¨      Irã fortalece posição estratégica no Golfo após confrontos recentes

O Oriente Médio entrou numa fase de redefinição em que o Irã, longe de ser dobrado, aparece mais forte no tabuleiro regional.

Ao contrário da narrativa difundida por agências alinhadas a Washington, Teerã saiu dos confrontos recentes com mais poder de barganha.

Segundo informações apuradas pela Al Jazeera, o governo iraniano passou a buscar concessões que antes eram tratadas como impensáveis pelos Estados Unidos e por Israel.

Esse movimento altera o centro de gravidade das negociações e enfraquece a tese de que superioridade tecnológica basta para impor rendição. Também reforça a leitura de que a resistência estatal, quando sustentada por capacidade militar e cálculo político, pode mudar o equilíbrio de poder.

Mesmo com declarações de Donald Trump sobre supostos avanços produtivos nas conversas, a liderança iraniana mantém uma postura de cautela. Para diplomatas de Teerã, a retórica da Casa Branca também serve para tentar conter a pressão provocada pela alta do petróleo.

Nos bastidores, Egito, Turquia e Paquistão atuam como canais diplomáticos para evitar uma escalada ainda maior. O interesse desses países não é abstrato, porque uma crise prolongada teria efeitos diretos sobre energia, comércio e estabilidade em boa parte do Sul Global.

A resistência iraniana se consolidou mesmo após ataques severos que, segundo a própria leitura do conflito, buscavam decapitar o comando político e militar do país.

O Pentágono chegou a afirmar que noventa por cento da capacidade de mísseis do Irã teria sido eliminada em ofensivas recentes. Mas a realidade posterior, segundo a avaliação apresentada no rascunho, indica que Teerã preservou meios para atingir alvos estratégicos com precisão quando considera necessário.

Esse ponto é central para entender o momento atual. Se a capacidade de resposta continua de pé, então a promessa de neutralização total feita por Washington perde credibilidade e a lógica da dissuasão volta a favorecer o lado iraniano.

Foi justamente essa lógica que ganhou força com a estratégia de retaliação proporcional, descrita como um olho por olho que restabeleceu custos concretos para qualquer agressão. Na prática, o Irã procurou demonstrar que ataques contra seu território ou sua infraestrutura não ficariam sem resposta.

Um dos episódios mais simbólicos foi a reação aos ataques contra instalações nucleares iranianas. A resposta com mísseis perfurando sistemas de defesa de Israel funcionou como mensagem política e militar ao mesmo tempo.

A mensagem era simples e dura. Qualquer ação contra a soberania iraniana pode impor ao agressor um preço alto demais para ser ignorado.

Nesse novo quadro, o Estreito de Ormuz reaparece como a principal carta estratégica de Teerã. Por esse corredor passa um quinto de todo o petróleo consumido no planeta, o que transforma geografia em poder de pressão econômica.

Analistas indicam que o Irã estuda inclusive um novo marco regulatório para a passagem de embarcações na região. Entre as possibilidades mencionadas está a cobrança de taxas de trânsito, convertendo posição territorial em instrumento de compensação econômica e de influência diplomática.

Se essa hipótese avançar, o impacto não será apenas regional. O mercado global de energia, já sensível a qualquer sinal de instabilidade no Golfo, passaria a operar sob uma nova camada de risco político.

É nesse ponto que o discurso maximalista de Washington encontra a realidade. O governo Trump, pressionado pela crise energética, já foi obrigado a suspender temporariamente sanções para permitir a compra de milhões de barris de óleo.

O recuo expõe uma contradição antiga da política externa dos Estados Unidos. Sanções unilaterais parecem absolutas no discurso, mas se mostram mais frágeis quando colidem com a dependência energética global e com o risco de desorganização dos preços.

No plano interno iraniano, a nomeação de Mohammad Bagher Zolghadr para o Conselho Supremo de Segurança Nacional também foi lida como sinal claro. A escolha indica endurecimento estratégico e reduz a expectativa de que Teerã aceite um acordo moldado em termos de submissão.

Zolghadr é descrito como um nome alinhado à visão de defesa estratégica do Estado iraniano. Isso sugere continuidade numa linha de negociação que combina abertura tática com firmeza em pontos considerados inegociáveis.

Esses pontos já aparecem com mais nitidez. O Irã exige garantias firmes de não agressão, o fim definitivo do bloqueio econômico e reparações financeiras pelos danos causados a infraestruturas civis durante os períodos de hostilidade.

Não se trata, portanto, apenas de voltar à mesa. Trata-se de redefinir o que a mesa pode entregar e de deslocar o debate de concessões unilaterais para garantias concretas de soberania e reconstrução.

Para o Brasil e para os países que compõem o BRICS, esse movimento tem peso político evidente. A capacidade de um país do Sul Global resistir a pressões coordenadas das maiores potências militares do Norte reforça a ideia de um mundo menos unipolar.

Essa leitura vai além do caso iraniano. Ela toca no debate mais amplo sobre quem define as regras internacionais e até que ponto decretos de Washington podem continuar funcionando como mecanismo automático de comando sobre nações soberanas.

O mercado de energia mundial também entra nessa conta. Hoje, mais do que antes, a estabilidade depende de uma solução diplomática que respeite os direitos e a dignidade do povo iraniano, porque a alternativa é prolongar uma crise com efeitos globais.

A tentativa de impor mudança de regime pela força volta a aparecer, nesse contexto, como erro de cálculo histórico. Em vez de produzir rendição, a pressão militar e econômica acabou fortalecendo a posição negociadora de Teerã.

O dado político mais importante é esse. O Irã não apenas sobreviveu ao cerco, como passou a influenciar os termos de uma possível paz, exigindo segurança, reparação e reconhecimento de sua soberania.

Se essa tendência se confirmar, o impacto será maior do que uma vitória tática numa crise regional. Será mais um sinal de que a era das intervenções coloniais e do arbítrio das grandes potências encontra limites cada vez mais visíveis.

No fim das contas, o fortalecimento do Irã interessa a todos os países que defendem caminhos independentes de desenvolvimento. E interessa também a qualquer ordem internacional que pretenda trocar coerção por equilíbrio, força bruta por negociação e hegemonia por multipolaridade.

 

Fonte: O Cafezinho

 

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