quarta-feira, 25 de março de 2026

Como um país em guerra pode ser sede de uma Copa do Mundo?

Uma dos países-sede da Copa deste ano, os EUA estão em conflito com o Irã, um das nações classificadas para o torneio. A cada semana aumentam questionamentos éticos sobre o torneio e o papel da Fifa.

O presidente dos EUA, Donald Trump, disse que o Irã ainda é bem-vindo para participar da Copa do Mundo 2026, mas que talvez não devesse fazê-lo, por segurança. O Irã afirmou que os EUA deveriam ser expulsos do torneio, não eles. E o presidente da Federação Internacional de Futebol (Fifa), Gianni Infantino, diz que a Copa pode unir as pessoas.

Não há nada nos estatutos da Fifa que proíba que países-sede estejam em guerra. No entanto, o Artigo 3 dos estatutos da entidade promete defender padrões internacionais de direitos humanos. Mesmo assim, Infantino concedeu a Trump o primeiro Prêmio de Paz da Fifa e também esteve presente no lançamento do Conselho da Paz de Trump. Isso apesar de o Artigo 4 dos estatutos "determinar neutralidade em relação à política".

"Ambos fazem o que querem, sem compromisso sério com os princípios democráticos das organizações que representam", afirma Alan Tomlinson, professor da Universidade de Brighton, no Reino Unido, especializado na Fifa e em história social do esporte.

<><> Guerra com o Irã é ponto de virada?

A decisão dos EUA de entrar em conflito com o Irã, juntamente com Israel, não é o primeiro motivo que fez torcedores se perguntarem se deveriam viajar para o torneio ou se os jogos deveriam mesmo acontecer.

Nos meses anteriores, ações de agentes do ICE, proibições de viagem, dificuldades com vistos e preços de ingressos geraram inúmeros debates e preocupações sobre o torneio que se aproxima. De fato, conversas sobre um boicote europeu ficaram muito fortes no final de janeiro, em meio à ameaça de Trump de invadir a Groenlândia. A questão é: a guerra no Irã será o momento decisivo para a Copa do Mundo de 2026?

"Não acho que o Irã será o ponto de virada, mas talvez devesse ser", disse Jake Wojtowicz, pesquisador e autor na área de filosofia do esporte, com foco na ética da torcida esportiva. Ele acredita que boa parte da discussão envolve uma questão de percepção. "No Ocidente, os EUA têm um impacto cultural enorme, enquanto o Catar [sede da Copa de 2022] não tem importância cultural. Então, quando chega uma nação que vai sediar a Copa e você descobre que ela faz coisas ruins às quais não estamos acostumados, é mais fácil criticá-la. Os Estados Unidos fazem coisas ruins, e estamos acostumados com isso."

O esporte global é frequentemente confrontado com questões éticas – como provaram as últimas duas Copas do Mundo, na Rússia e no Catar –, mas a guerra dos EUA com o Irã cria uma nova dimensão de reflexão para todos os envolvidos? "Um país-sede em guerra, liderado por um político orgulhoso de aceitar um prêmio de paz falso, e agora a poucos meses de um espetáculo esportivo global de cinco semanas, é sem dúvida uma linha moral que não deveria ser cruzada", pondera Tomlinson. "Mas linhas morais não são considerações econômicas ou comerciais."

"Penso que o problema surge quando você acredita que a guerra no Irã é algo ruim e, mesmo assim, vai à Copa do Mundo ou a assiste e acaba pensando: 'Os EUA até que são legais'", afirma Wojtowicz. "Você passa a pensar nos EUA como o país onde Harry Kane [capitão e atacante da Inglaterra] marcou dois gols para afundar o Brasil na final, em vez de pensar no ICE ou no fato de que cidadãos estão sendo deportados. E essa é a preocupação: que a Copa do Mundo atrapalhe o pensamento moral normal."

<><> O papel da Fifa

A DW entrou em contato com a Human Rights Watch (HRW) e com a Anistia Internacional para este artigo, mas nenhuma respondeu. As preocupações dessas organizações sobre decisões da Fifa foram tornadas públicas no final de 2025, com ambas as ONGs pedindo que a entidade do futebol agisse em questões de direitos humanos.

"As ações de Infantino são, em muitos aspectos, politicamente e eticamente sem precedentes", acrescentou Tomlinson. Isso não era o caso quando o dirigente chegou ao cargo, sucedendo o ex-presidente da Fifa Sepp Blatter, que não deixou exatamente um histórico limpo. Porém, desde então, Infantino, de muitas maneiras, empurrou ainda mais os limites do que muitos antes dele.

"Infantino aceitou um prêmio de Vladimir Putin após a Copa do Mundo masculina de 2018 na Rússia; apoiou o Catar, chegando a residir no país, em todas as etapas da preparação para a controversa Copa de 2022; e, com pouco debate, concedeu o evento de 2034 à Arábia Saudita. Na preparação para 2026, Infantino passou a residir em Miami, praticamente na porta de seu mentor, Trump", explica Tomlinson. "Essa não é a conduta de um representante de uma organização global e democrática. Infantino, sem dúvida, intensificou os conflitos éticos que caracterizam o futebol contemporâneo", conclui.

<><> O show tem que continuar?

Muitos eventos esportivos ao redor do mundo enfrentaram desafios éticos ou sombras políticas, mas, na maioria dos casos, o jogo acontece no campo.

Um artigo de 2025, de Paul Bertin e Pauline Grippa, publicado na revista Political Psychology, revelou que muitos torcedores que pretendiam boicotar a Copa de 2022 não o fizeram. Essa pesquisa é uma das razões pelas quais Wojtowicz acredita que o apelo do futebol torna boicotes éticos improváveis, embora torcedores devam se engajar proativamente.

"Se alguém vira e diz: 'Trump organizou uma ótima Copa, não foi?' A resposta correta deveria ser: 'Do que você está falando? Ele não tem nada a ver com isso – e está usando isso para ter uma melhor imagem'", afirma Wojtowicz. "Acho que o ponto é: você precisa se engajar. Precisa refletir e garantir que não deixe isso passar despercebido só porque a Copa está acontecendo", completa. "Acho que pequenos atos de resistência ética podem ser úteis."

•        Copa 2030: Marrocos é alvo de denúncia por suspeita de abate de 3 milhões de cães

Marrocos enfrenta crescente pressão internacional após denúncias de que estaria promovendo uma campanha de extermínio de cães de rua como parte dos preparativos para a Copa do Mundo de 2030. O país vai sediar o torneio ao lado da Espanha e de Portugal.

Segundo organizações de proteção animal, até três milhões de cães podem estar sob risco de abate com o objetivo de “limpar” áreas urbanas e turísticas antes da competição internacional. As acusações têm gerado reações de ativistas, celebridades e entidades de defesa dos direitos dos animais.

Relatórios da International Animal Welfare and Protection Coalition (IAWPC) apontam que cerca de 300 mil animais já eram mortos anualmente no país antes mesmo da confirmação do Mundial. Após o anúncio oficial de Marrocos como sede, em 2023, o número de casos teria aumentado significativamente, segundo a entidade.

<><> Denúncias detalham métodos e citam centro de abate

De acordo com a IAWPC, os métodos denunciados incluem envenenamento com estricnina e disparos de arma de fogo. A organização afirma ter reunido imagens e documentos que indicariam execuções sistemáticas em diferentes cidades marroquinas.

Uma investigação publicada pelo The Athletic relatou a existência de um suposto centro de abate nos arredores de Marrakech. Ativistas sustentam que as ações estariam ocorrendo inclusive à vista de moradores e turistas.

A repercussão nas redes sociais impulsionou pedidos de boicote ao torneio. O ator Mark Ruffalo classificou as denúncias como uma “falha moral” e declarou que eliminar milhões de cães para sediar um evento esportivo global “não é progresso”, defendendo alternativas humanitárias de controle populacional.

<><> Governo marroquino nega plano de extermínio

Em resposta às acusações, a embaixada de Marrocos em Londres negou qualquer plano de abate em massa. Em nota, o governo afirmou manter compromisso com políticas de gestão animal consideradas “humanas e sustentáveis”.

Um porta-voz declarou ser “totalmente falso” que haja preparação para eliminar cães de rua antes da Copa. Segundo as autoridades, o país já implementa programas de controle populacional baseados na captura, esterilização, vacinação e posterior soltura dos animais.

A Fifa informou que acompanha o caso e está em contato com as autoridades marroquinas e com a IAWPC para garantir que compromissos relacionados ao bem-estar animal sejam respeitados. A entidade destacou que, durante o processo de candidatura, Marrocos apresentou iniciativas iniciadas em 2019 voltadas ao manejo ético da população de rua.

<><> Pressão internacional deve continuar

Apesar das negativas oficiais, organizações de proteção animal afirmam que seguem documentando mortes e cobram transparência nas ações do governo. As entidades defendem políticas amplas de esterilização e vacinação em larga escala como alternativa ao extermínio.

O caso amplia o debate sobre os impactos sociais e ambientais da organização de megaeventos esportivos e coloca o país sob escrutínio internacional a quatro anos da Copa do Mundo de 2030.

 

Fonte: DW Brasil/Agenda do Poder

 

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