Juan
Laborda: Medidas pós-keynesianas contra os efeitos da guerra no Irã e o fim da
liderança ocidental
A guerra iniciada
pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, lançada sob a administração
de Donald Trump com o apoio de Benjamin Netanyahu, representa
uma flagrante violação do direito internacional e um ponto de virada
na ordem mundial. Este conflito ilegal (desprovido de legítima defesa e de
autorização do Conselho de Segurança) constitui um “crime de agressão”,
descrito nos julgamentos de Nuremberg como “o supremo crime
internacional”, que incorpora todos os males da guerra. A própria justificativa
de Trump, alegando uma suposta ameaça
iminente do programa nuclear iraniano (evocando os falsos pretextos da
invasão do Iraque em 2003), demonstra um desrespeito cínico pelo direito
internacional. As consequências geopolíticas são profundas: autores como Emmanuel Todd apontam que esta
guerra revela a dissolução da liderança ocidental e a perda da hegemonia
dos EUA no sistema global.
Todd alerta
que estamos testemunhando o início de uma “Terceira Guerra Mundial”, com
o Ocidente atacando potências emergentes, e compara o desastre
americano à queda da URSS. De fato, Todd afirma que, neste novo
conflito, “os ataques vêm dos EUA”, atribuindo a Washington o papel agressivo
outrora desempenhado por regimes fascistas. Em sua análise, a derrota
estratégica do Ocidente leva ao colapso da
civilização ocidental,
com sintomas como o distanciamento das elites em relação à realidade. Este
ponto de virada histórico marca o fim da pretensão moral do Ocidente à
liderança mundial, uma vez que viola as próprias normas que alega defender. Não
é coincidência que figuras como Sheldon S. Wolin tenham descrito a
deriva interna dos Estados Unidos como um “totalitarismo invertido”,
no qual as instituições democráticas são esvaziadas enquanto o Estado,
controlado por algumas elites e corporações, busca poder ilimitado e guerras perpétuas.
Durante a ocupação do Iraque, Wolin observou que os EUA
projetavam uma imagem de império e superpotência que, longe de exportar
democracia, estava corroendo sua própria democracia interna em busca de um
estado autoritário.
Nesse
contexto, a guerra contra o Irã simboliza a ruptura definitiva:
um Ocidente abandonando o direito internacional, cujos líderes
— Trump, Netanyahu e seus
associados — podem até mesmo enfrentar a condenação da história (e, em teoria,
da justiça internacional) por crimes de guerra e agressão. Embora
o Tribunal Penal Internacional enfrente limitações jurisdicionais
(os EUA e Israel não são Estados Partes do Estatuto de
Roma), a mera possibilidade de um julgamento por crimes de
guerra ressalta a gravidade da transgressão. Em suma, essa guerra ilegal
não apenas desestabiliza o Oriente Médio, como também sela a perda de
legitimidade do Ocidente, abrindo caminho para uma ordem internacional
pós-ocidental mais multipolar e desafiadora.
Impacto
econômico e soluções pós-keynesianas: inflação, tributação e controle de preços
As
consequências econômicas da guerra — particularmente a forte alta nos
preços da energia (petróleo,
gás) e das commodities agrícolas básicas — abalaram a economia
global. Choques de oferta em tempos de guerra desencadeiam inflação de
custos e ameaçam recessões. Diante desse cenário, economistas
pós-keynesianos propõem uma série de soluções não convencionais focadas
na intervenção ativa do Estado para estabilizar os preços e apoiar a
demanda, em oposição a políticas neoliberais passivas.
Em primeiro
lugar, enfatiza-se o uso de uma política fiscal ativa e
de estabilizadores automáticos. Seguindo a tradição de Hyman Minsky,
um “Governo Grande” deve permitir déficits massivos em crises para criar um
piso sob a recessão econômica. Minsky argumentava que gastos e
transferências governamentais elevados (como o seguro-desemprego) atuam como
amortecedores automáticos que previnem depressões profundas. Na crise atual,
isso significa aumentar os gastos com subsídios temporários de energia, auxílio
alimentar e programas de emprego, financiados por déficits, se necessário, para
proteger o poder de compra das famílias e evitar um colapso na demanda
agregada. Os estabilizadores automáticos (seguro-desemprego, tributação
progressiva) já estão projetados para aumentar os gastos governamentais em
recessões sem a necessidade de novas leis, proporcionando estímulo imediato.
Em segundo
lugar, os pós-keynesianos propõem controles estratégicos de
preços e políticas de renda para conter a inflação, abordando os custos.
Ao contrário da economia ortodoxa, que rejeita a intervenção ou propõe apenas
cortes de impostos que beneficiam poucos, aumentando assim a busca por
privilégios, economistas como John Kenneth
Galbraith e David
Minsky defendem controles direcionados quando grandes oligopólios já fixam
preços arbitrariamente. Um exemplo atual seriam os tetos de preços para
energia e alimentos essenciais durante a emergência: como esses setores são
dominados por poucos agentes, o Estado pode limitar aumentos abusivos de preços
sem correr o risco de escassez. De fato, “as empresas já controlam os preços,
então não é difícil para o governo controlar o que já é controlado”,
referindo-se a mercados concentrados. Durante 2022-2023, vários países
implementaram tetos de preços para eletricidade e gasolina com resultados muito
positivos, apontando o caminho para a intervenção. Minsky, por sua vez,
não descartou o congelamento temporário negociado de salários e preços — políticas
clássicas de renda — para conter espirais inflacionárias em salários e margens
de lucro. A chave é combinar essas medidas com outras políticas para evitar
efeitos adversos (por exemplo, subsídios para os produtores se o
preço final for controlado, para que mantenham a produção).
Em terceiro
lugar, os pós-keynesianos enfatizam o investimento público e
o planejamento da produção em setores críticos. Diante da alta dos preços dos
hidrocarbonetos,
um Estado empreendedor pode investir rapidamente em energias
alternativas (renováveis,
nuclear) para reduzir a dependência e estabilizar os custos de energia no médio
prazo. Da mesma forma, pode financiar diretamente o aumento da produção
agrícola (ou liberar reservas estratégicas de alimentos e energia) para compensar
a escassez causada por guerras. Na década de 1960, Nicolas
Kaldor propôs uma abordagem visionária: a criação de reservas
internacionais de matérias-primas e até mesmo de uma moeda de reserva lastreada
em commodities, para que os preços de produtos essenciais permanecessem
estáveis. Essa ideia — revitalizada por Kaldor em 1964, durante a
primeira UNCTAD — buscava estabilizar a renda dos países exportadores e conter
a inflação importada nos países consumidores, controlando o aumento de preços
com reservas públicas globais de alimentos e energia. Na situação atual, uma
versão atualizada poderia ser a de acordos internacionais para aumentar
a produção de petróleo (por meio dos países da OPEP+) ou a produção
de grãos (por meio de corredores seguros), combinados com compras e vendas
coordenadas de reservas para suavizar os preços.
Em quarto
lugar, os economistas pós-keynesianos propõem medidas
distributivas para
lidar com a inflação em tempos de guerra. Dado que grande parte
da inflação recente decorre de lucros extraordinários em setores
oligopolistas favorecidos pela escassez, uma solução é tributar esses lucros
extraordinários e redistribuí-los. Um estudo pós-keynesiano recente
(Wildauer et al., 2023) analisou diversas respostas a
um choque nos preços da energia e concluiu que a política mais eficaz
para conter a inflação sem destruir empregos era redistribuir os
lucros extraordinários aos trabalhadores por meio de impostos sobre
lucros extraordinários. Em outras palavras, um imposto sobre lucros
extraordinários de exportadores de petróleo, eletricidade ou produtos
agrícolas — cujos preços dispararam devido à guerra — e a utilização da receita
para aliviar o fardo dos consumidores (por meio de subsídios, vouchers de
energia ou cortes em outros impostos) ajuda a conter a espiral inflacionária,
reduzindo as margens de lucro excessivas das empresas, sem recorrer à abordagem
ortodoxa de desencadear uma recessão.
Essa
estratégia pós-keynesiana aborda a inflação como um “conflito distributivo” —
uma disputa entre benefícios e salários — e, portanto, busca ajustar esse
equilíbrio (por meio de impostos e transferências) em vez de simplesmente
aumentar as taxas de juros e arrefecer a economia. Autores como Steve
Keen defendem abordagens não convencionais em que o controle da inflação
não recai apenas sobre o banco central, mas também sobre políticas fiscais e
regulatórias direcionadas, argumentando que a inflação atual não decorre de uma
demanda superaquecida, mas de choques de custos e de uma arquitetura financeira
que amplifica esses choques.
Por
fim, é essencial mencionar que todas essas medidas
pós-keynesianas rompem com o laissez-faire: elas implicam
um Estado intervencionista que coordena esforços com o setor privado
(acordos de preços e salários), investe diretamente e regula mercados-chave.
Longe de causar "exclusão", essa abordagem sustenta que uma forte
presença estatal é necessária para estabilizar um capitalismo propenso a
crises, como Minsky teorizou em sua hipótese de instabilidade
financeira. Jan Kregel, um seguidor
de Minsky, enfatiza que, sem controles públicos, os mercados financeiros
tendem a exacerbar as flutuações em vez de atenuá-las, e isso fica evidente na
volatilidade das commodities não regulamentadas.
Em
suma, a prescrição pós-keynesiana para o caos econômico desencadeado pela guerra envolve
tributação expansionista, controles estratégicos de preços, investimento
estatal e compartilhamento equitativo de encargos, em vez de confiar cegamente
na contração monetária ou na "mão invisível", ou em meros cortes de
impostos que beneficiam apenas alguns. O objetivo é restaurar o papel da
política econômica democrática na proteção da maioria contra a inflação e a
escassez, evitando assim que os trabalhadores e consumidores mais vulneráveis suportem o custo da
guerra.
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Desfinanciamento e reforma energética: combate à especulação e reformulação do
mercado de eletricidade
Um
fator crítico que agrava a atual crise de preços é a financeirização
das commodities e a desregulamentação dos mercados de
energia nas últimas décadas. Já discutimos isso extensivamente nestas
páginas, mas ninguém está fazendo nada a respeito. Petróleo, gás, trigo e
outras commodities essenciais não são apenas comprados para
consumo, mas também negociados em larga escala nos mercados futuros e de
derivativos por investidores puramente financeiros.
Essa especulação intensa amplificou os picos de preços durante a
guerra: fundos de investimento e bancos adicionam demanda e volatilidade artificiais.
Os pós-keynesianos vêm
alertando sobre esses perigos há algum tempo. Jan Kregel, por exemplo,
argumenta que a entrada de agentes financeiros “não tradicionais” (fundos de
índice, ETFs (fundos negociados em bolsa), grandes bancos) nos mercados de
alimentos e energia durante a década de 2000 foi um fator-chave por trás da
alta de preços de 2006-2008 e novamente durante a guerra na
Ucrânia e
a crise atual. A análise deles mostra como a especulação pode desvincular os
preços da oferta e da demanda reais: os preços futuros sobem devido à
"bolha" financeira e arrastam os preços à vista para cima,
prejudicando tanto os consumidores quanto os países importadores pobres.
Para
combater essa financeirização desestabilizadora,
os pós-keynesianos propõem profundas reformas regulatórias: a
separação das atividades bancárias comerciais das atividades
especulativas (restaurando elementos da Lei Glass-Steagall), a
imposição de limites rígidos de posição para fundos em mercados futuros
(impedindo que uma única entidade monopolize contratos de trigo ou petróleo
bruto), a exigência de margens mais elevadas para conter a alavancagem em
derivativos e a proibição de instrumentos puramente especulativos, como fundos
de índice de commodities, que compram sem a intenção de uso físico.
Além
disso, defendemos maior transparência e regulação internacional: por exemplo,
um banco de dados público de estoques e fluxos globais de commodities,
coordenado pela ONU, para dissipar rumores e evitar compras por pânico. Alguns
economistas sugerem reviver o espírito de acordos do passado (como a extinta
Corporação de Estabilização de Commodities, proposta por Keynes e Kaldor),
adaptados ao século XXI, criando consórcios internacionais para intervir em
mercados-chave: comprando contratos futuros quando os preços caem abaixo dos
custos (apoiando os produtores) e vendendo reservas durante picos especulativos
(protegendo os consumidores). Isso envolveria o financiamento de instituições
globais para operarem como "criadores de mercado" de último recurso
para produtos essenciais, de forma análoga a um banco central, mas para bens
físicos.
No setor
energético, a guerra expôs falhas evidentes no modelo liberalizado,
especialmente no sistema de preços marginalistas da eletricidade vigente em
muitas regiões (por exemplo, na União Europeia). Nesse sistema, o preço da
eletricidade no mercado atacadista é definido pela última usina necessária para
atender à demanda (geralmente usinas a gás de alto custo), de modo que, quando
os preços do gás sobem, toda a eletricidade é comprada a um preço mais alto. Em
2022, com a disparada dos preços
do gás após
a escalada da guerra, os países europeus viram os preços da
eletricidade multiplicarem-se várias vezes, concedendo lucros
extraordinários a geradores inframarginais (renováveis, nucleares,
hidrelétricas, com baixos custos) que cobraram preços inflacionados muito acima
de seus custos. Essa é a grande "fraude" do mercado marginalista, já
que as empresas de eletricidade obtiveram milhões em lucros inesperados às
custas dos consumidores e pequenos varejistas. Nós, pós-keynesianos,
unimo-nos às vozes que denunciam esse modelo de mercado, argumentando que
uma commodity essencial como a energia não deve ser deixada à
mercê de um leilão volátil que recompensa a especulação e o poder de mercado.
As
propostas de reformulação do mercado de eletricidade incluem diversas
medidas inter-relacionadas. Em primeiro lugar, a separação do preço da
eletricidade do preço do gás. Por exemplo, pagar aos geradores inframarginais
(energias renováveis, nuclear) um preço fixo ou baseado nos custos médios de
longo prazo, em vez de pagar-lhes o preço marginal instantâneo. Isso impediria
que um aumento repentino nos preços do gás elevasse o custo de toda a cadeia de
valor da eletricidade. Durante a crise na Ucrânia, a Espanha e Portugal obtiveram
uma exceção temporária (um teto para o preço do gás) para limitar o preço do
gás considerado no mercado de eletricidade, reduzindo artificialmente o preço
final. Uma reforma permanente poderia estabelecer mercados separados ou
mecanismos de compensação para separar as tecnologias de baixo custo da espiral
especulativa dos preços do gás.
Em segundo
lugar, tarifas regulamentadas e contratos de longo prazo: promover contratos
bilaterais de longo prazo a preços estáveis entre produtores e consumidores, inclusive
com participação pública. Embora a UE tenha
proposto incentivar esses contratos, fazê-lo sem regulamentação adicional
simplesmente transfere o problema para o mercado futuro, onde também existem
especulação e barreiras à entrada. Em vez disso, sugere-se que o Estado atue
como intermediário. Por exemplo, uma empresa pública poderia comprar energia
renovável com contratos de 10 a 15 anos a um preço fixo razoável e revendê-la a
consumidores regulamentados, garantindo a estabilidade de preços e financiando
novos investimentos verdes.
Em terceiro
lugar, limites à negociação especulativa de energia: restringir a participação
de agentes puramente financeiros nos mercados grossistas de eletricidade e gás.
Os pós-keynesianos defendem que apenas produtores, distribuidores e consumidores
qualificados (grandes indústrias) possam operar nesses mercados, para reduzir a
liquidez especulativa que amplifica a volatilidade. Da mesma forma, implementar
cortes temporários de preços quando os preços diários subirem excessivamente
sem causa fundamental, prevenindo picos aberrantes.
Por
fim, a regulação da propriedade e da concorrência: combate
ao oligopólio da eletricidade. A proposta pós-keynesiana inclui o
fortalecimento das empresas públicas de energia ou a criação de novas onde elas
não existam, para introduzir concorrentes sem fins lucrativos que moderem os
preços. Também prevê a realização de auditorias de custos das empresas
dominantes, a detecção de práticas de manipulação de preços (por exemplo, a
redução da capacidade para forçar aumentos de preços) e a imposição de penalidades
severas. A proposta considera ainda a reestatização parcial de redes ou ativos
estratégicos, visto que a energia é um bem público. Essas medidas estruturais
enfrentam a oposição das corporações, mas visam restaurar o controle
democrático sobre um setor vital.
Em
resumo, a filosofia pós-keynesiana para os mercados de commodities e
energia consiste em reverter a excessiva financeirização e mercantilização
de bens essenciais. Em contraste com a doutrina neoliberal que, desde a
década de 1990, liberalizou esses mercados sob a premissa da eficiência
(premissa refutada pelos acontecimentos, visto que os preços se tornaram mais
instáveis e propensos a
bolhas), propõe-se um retorno a mecanismos mistos público-privados.
Isso significa mercados mais regulamentados, com intervenção
pública direta para estabilizar preços
e garantir o abastecimento, e com menos intermediários financeiros em
busca de privilégios. Afinal, como aponta Jan Kregel,
a especulação desenfreada não só causa injustiça
social imediata (fome, pobreza energética), como também distorce a
estrutura produtiva de países inteiros, gerando ciclos de expansão artificial
seguidos de colapsos que impedem o desenvolvimento sustentável. Conter essa
dinâmica exige coragem política para confrontar os interesses de Wall
Street e das grandes empresas de energia, mas os pós-keynesianos
argumentam que é essencial impedir que as leis do mercado desregulado
comprometam o bem-estar das nações.
A guerra
ilegal contra o Irã, com suas repercussões econômicas, acabou por expor as
fragilidades do atual sistema global — tanto geopolítico quanto econômico — e
deu novo ímpeto a essas ideias reformistas. Uma nova ordem internacional,
mais equilibrada, também exigirá uma nova abordagem econômica, que priorize a
estabilidade, a equidade e o controle democrático sobre os mercados. Mas os
aproveitadores não precisam se preocupar; o Ocidente decadente não fará nada
disso.
Fonte:
El Salto/IHU

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