terça-feira, 24 de março de 2026

A esquerda radical espanhola está em apuros, mas ainda não foi derrotada

a última semana de fevereiro, a ministra do Trabalho espanhola, Yolanda Díaz, anunciou que não se candidatará novamente a cargos públicos em 2027. Representante popular da esquerda radical há muito tempo, a decisão de Díaz de se retirar da disputa ilustra de forma marcante o clima turbulento nesse cenário político às vésperas das eleições gerais do ano que vem.

Díaz é a fundadora e líder da aliança de esquerda Sumar, parceira minoritária no governo nacional liderado pelo Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) de Pedro Sánchez. Sua presença no governo, ao lado de outros quatro ministros do Sumar, tem sido fundamental para impulsionar a administração de Sánchez a posições mais vantajosas do que seus homólogos europeus, tanto na política interna quanto externa.

Para muitos na esquerda radical europeia, Díaz — e até mesmo o governo como um todo — possui um histórico invejável. Afinal, desde 2020, este governo fortaleceu os direitos dos trabalhadores, aumentou o salário mínimo, impulsionou a agenda ambiental, impôs um embargo parcial de armas a Israel e fez muito mais do que outros países da OTAN para resistir ao aumento dos gastos militares imposto por Donald Trump.

No entanto, uma análise mais atenta revela um quadro menos favorável. A esquerda radical está dividida entre o Podemos, que tenta, sem sucesso, articular uma oposição de esquerda ao governo, e o Sumar, que hoje se mostra incapaz de impor políticas ambiciosas ao PSOE para conter a alta dos preços dos imóveis e dos bens básicos. Tanto o Podemos quanto o Sumar estão em baixa nas pesquisas de opinião, com a coligação de Díaz com algo em torno de 6% das intenções de voto e o partido de Irene Montero com 4%. Isso se soma à fragilidade do PSOE, que hoje registra cerca de 26% das intenções de voto. Em resumo, apesar de algumas boas notícias, o eleitorado já não está satisfeito com este governo.

<><> Ofensiva de direita

Todas as sondagens indicam que, se houvesse eleições gerais (previstas para o verão de 2027), o Partido Popular (PSOE), de centro-direita, e o Vox, de extrema-direita, conquistariam a maioria, somando cerca de 50% dos votos. Ninguém duvida que governariam juntos, como já acontece em diversas regiões. E não são apenas as sondagens: o PSOE obteve os piores resultados da sua história nas recentes eleições regionais na Extremadura e em Aragão, onde o Vox teve um crescimento expressivo. A Extremadura é um tradicional reduto do PSOE, enquanto Aragão é considerada o “Ohio” de Espanha — um estado que serve de termômetro para as eleições, cujos resultados refletem de perto os resultados nacionais. Em ambas as regiões, o Partido Popular governa com o apoio do Vox, um padrão que provavelmente se repetirá.

O Partido Popular e o Vox têm organizado uma forte oposição a Sánchez e ao seu governo desde as eleições de 2023, quando o líder do Partido Popular, Alberto Núñez Feijoo, já se considerava prestes a se tornar primeiro-ministro. O Partido Popular foi o partido com maior número de votos em 2023, mas não conseguiu garantir a maioria parlamentar, mesmo com o apoio dos deputados do Vox. Contrariando as expectativas, Sánchez conseguiu formar uma complexa aliança parlamentar com o partido de esquerda Sumar, bem como com partidos nacionalistas catalães e bascos.

Apesar dos bons dados macroeconômicos e de um balanço relativamente positivo em políticas públicas, as perspectivas eleitorais do PSOE despencaram devido à sua incapacidade de resolver a crise habitacional — a principal preocupação dos espanhóis — e a inflação. Soma-se a isso escândalos de corrupção envolvendo líderes do PSOE e casos de assédio sexual dentro da organização partidária. Além disso, as concessões do PSOE a partidos nacionalistas catalães — nem sempre aliados — em questões como o financiamento regional estão sendo exploradas implacavelmente pela direita. Essas concessões começam a ser criticadas por setores do próprio PSOE, que acreditam que Sánchez está sacrificando o futuro eleitoral do partido para manter o apoio dos nacionalistas e se manter no poder no curto prazo.

Para piorar a situação, a mídia conservadora e o judiciário lançaram uma campanha em larga escala para deslegitimar Sánchez e seu governo. O procurador-geral, nomeado por Sánchez, foi destituído do cargo em novembro de 2025 por revelar segredos, em uma decisão altamente controversa do Supremo Tribunal, que tem maioria conservadora e fortes laços com o Partido Popular. A esposa e o irmão de Sánchez também foram alvo de acusações duvidosas de corrupção, claramente com o objetivo de enfraquecer o premiê e seu governo. A guerra jurídica se mistura com fortes indícios de corrupção envolvendo dois ex-secretários-gerais do PSOE, o ex-ministro José Luis Ábalos e o ex-deputado Santos Cerdán, ambos próximos a Sánchez.

Essa teia de escândalos não afeta diretamente o Sumar, mas a permanência de Díaz e de outros quatro ministros no governo contribui para que o público associe os dois campos de esquerda. Além disso, a ineficácia das medidas governamentais para conter o aumento dos aluguéis penaliza particularmente o Sumar, que possui um eleitorado mais jovem e com uma proporção maior de inquilinos. Em um momento de grande descontentamento político na sociedade espanhola, o Vox capitaliza o descontentamento com a corrupção e a classe política, enquanto o Sumar é percebido como apenas mais um partido do sistema, apesar de sua recente criação, em 2022.

A divisão na esquerda também alimenta o descontentamento. Sumar e Podemos chegaram a um acordo de última hora em 2023 para concorrerem juntos nas eleições gerais, mas foi apenas uma breve pausa nos confrontos entre os dois grupos. O ex-líder do Podemos, Pablo Iglesias, indicou Díaz como seu sucessor em 2021, mas logo se distanciaram, e o fundador do Podemos passou anos usando seu canal de televisão online, o Canal RED, para atacar o Sumar. O Podemos, liderado pela ex-ministra da Igualdade, Irene Montero, rompeu com o Sumar logo após as eleições de 2023 e adotou uma linha de oposição radical ao governo de coalizão, com pouco sucesso eleitoral.

<><> Alianças em formação

Opânico se espalha na esquerda espanhola com a perspectiva de um futuro governo nacional que inclua a extrema-direita pela primeira vez desde a transição democrática da década de 1970. Díaz tem sido uma ministra eficaz — aprovou uma reforma trabalhista que fortalece os direitos dos trabalhadores e aumentou consideravelmente o salário mínimo, entre outras melhorias —, mas não conseguiu obter benefícios eleitorais com a participação no governo nem manter boas relações entre os diversos grupos da esquerda.

A sensação geral é que seja necessário mais do que uma nova versão do Sumar para evitar um desastre eleitoral que poderia resultar na ascensão do líder neofascista do Vox, Santiago Abascal, ao cargo de vice-primeiro-ministro. A isso se soma a pressão do sistema eleitoral espanhol, que penaliza a divisão. Se houver mais de uma opção à esquerda do PSOE nas próximas eleições, o número de cadeiras para o bloco de esquerda será consideravelmente reduzido, tornando impossível a formação de um novo governo Sánchez.

Os principais partidos que atualmente compõem a aliança condensada no partido Sumar — Izquierda Unida, o Movimento Sumar, Comuns in Catalunia e Más Madrid — anunciaram no sábado que reformularão a coligação para as próximas eleições gerais, mas ainda não decidiram quem será o seu candidato. Alguns nomes que têm sido cotados para suceder Díaz são o do ministro dos Direitos Sociais e do Consumo, Pablo Bustinduy; o da ex-vice-presidente do governo da Comunidade Valenciana, Mónica Oltra; e o da ex-prefeita de Barcelona, Ada Colau. A decisão será tomada mais tarde, uma vez que os quatro partidos estão agora focados em atrair mais grupos para a sua coligação, especialmente o Podemos.

O embrião de um Sumar 2.0 coexiste com uma iniciativa mais surpreendente tomada por Gabriel Rufián, deputado do Congresso espanhol pelo partido pró-independência catalão Esquerra Republicana de Catalunya (ERC). Num momento em que o discurso da extrema-direita ocupa um espaço cada vez maior no debate público espanhol — especialmente em matéria de imigração — Rufián conseguiu criar um nicho para si nos meios de comunicação e nas redes sociais, onde a extrema-direita é mais forte do que a esquerda. As sondagens mostram a sua popularidade em ascensão. O deputado catalão relegou a independência a um segundo plano para adotar uma retórica de classe combativa, centrada em temas como o custo de vida e a habitação, que atraem eleitores de esquerda em toda a Espanha.

Rufián defendeu a criação de uma ampla aliança das forças de esquerda, incluindo partidos nacionais e regionais — algo sem precedentes. Seu primeiro evento público, ao lado do político madrilenho Emilio Delgado, recebeu muita atenção, mas seu próprio partido se mostra cauteloso em relação à iniciativa, que também foi rejeitada pelo Bildu — o partido basco de esquerda pró-independência — e pelo Podemos. Rufián recebeu elogios de Sumar, mas não está claro se será possível conciliar as duas propostas e unir a esquerda para enfrentar a extrema-direita nas urnas.

Essa é a complexa situação da esquerda radical espanhola atualmente. Em meio à falta de uma liderança clara e a um declínio generalizado nas pesquisas de opinião, vemos novamente fortes apelos à unidade e uma diversidade de possíveis soluções para a construção de uma aliança mais eficaz. No entanto, permanece a dúvida sobre o cronograma. As eleições gerais estão marcadas para meados de 2027, mas a pressão sobre um Sánchez enfraquecido aumenta para que convoque eleições antecipadas. Só ele sabe se fará uma convocação surpresa de eleições antecipadas, como em 2023, ou se cumprirá o mandato até o fim, apesar de sua grande fragilidade parlamentar e política. É mais um motivo para a esquerda radical estar incerta quanto ao seu futuro.

 

Fonte: Por Pablo Castaño - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

 

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