Novo
estudo contesta a noção de que envelhecer significa declínio
Na
última fase de uma longa carreira, o artista plástico britânico William Turner
criou suas pinturas mais inovadoras. A nadadora Diana Nyad estabeleceu um
recorde mundial de 110 milhas (177 quilômetros) de Cuba à Flórida aos 64 anos,
após várias tentativas frustradas quando era jovem. Foi com esses exemplos que
a pesquisadora Becca Levy, uma das maiores referências mundiais em
determinantes psicossociais da saúde no envelhecimento, apresentou, no início
de março, seu mais recente estudo.
Embora
o envelhecimento seja frequentemente retratado como um declínio físico e
cognitivo constante, a doutora Levy, professora de ciências sociais e
comportamentais da faculdade de saúde pública da Universidade Yale, descobriu
que quase metade dos adultos com 65 anos ou mais mostrou melhora na função
cognitiva, na função física, ou em ambas, ao longo do tempo. Ao analisar os
dados de um amplo estudo nacionalmente representativo de idosos americanos (o
Health and Retirement Study, ou HRS), foi possível avaliar se os participantes
tinham progredido em um período de até 12 anos. Os resultados demonstraram de
que forma a percepção em relação ao envelhecimento desempenha um papel
fundamental nesse processo.
A
pesquisa partiu da premissa de que os indivíduos internalizam tanto crenças
positivas quanto negativas sobre a idade. Essa é a base da Teoria da
Personificação de Estereótipos (Stereotype Embodiment Theory), desenvolvida por
Levy, que estabelece como os preconceitos da sociedade não são apenas
ofensivos, mas se tornam biologicamente reais, afetando a saúde física e mental
à medida que as pessoas envelhecem. Por outro lado, uma intervenção para a
adoção de concepções positivas sobre a idade tem efeito oposto, resultando em
um funcionamento físico melhor.
Há anos
ela bate nessa tecla, indo na contramão da crença dominante compartilhada por
cientistas, profissionais de saúde e pelo público leigo: de que a velhice é
sinônimo de declínio inevitável. Para se ter uma ideia de quão prevalente é a
ideia, um levantamento global com quase 40 mil pessoas revelou que 65% dos
profissionais de saúde e 80% dos leigos acreditavam, erroneamente, que todos os
idosos desenvolvem demência.
Para o
estudo, os pesquisadores acompanharam mais de 11 mil cadastrados no HRS. A
equipe monitorou mudanças na cognição, por meio de uma avaliação de desempenho
global, e na função física através da velocidade de caminhada – parâmetro
descrito por geriatras como um “sinal vital” devido às suas fortes correlações
com deficiência, hospitalização e mortalidade.
Ao
final do acompanhamento, 45% dos participantes haviam melhorado em pelo menos
um dos dois domínios. Cerca de 32% progrediram cognitivamente; 28%,
fisicamente; e uma parcela relevante experimentou ganhos que excederam os
limites considerados clinicamente significativos. Quando foram incluídos os
indivíduos cujas pontuações cognitivas permaneceram estáveis (em vez de cair),
mais da metade desafiou o estereótipo de deterioração incontornável na
cognição.
“Muitas
pessoas equiparam o envelhecimento a uma perda inevitável e contínua de
habilidades físicas e cognitivas”, afirmou. “O que descobrimos é que a melhora
na vida tardia não é rara, é até comum, e deve ser integrada em nossa
compreensão do processo de envelhecimento.”
Os
autores (além de Levy, Martin Slade) também investigaram as razões pelas quais
alguns melhoraram e, outros, não. A hipótese das crenças dos participantes
sobre a idade se confirmou: aqueles com uma visão mais positiva eram
significativamente mais propensos a alcançar um incremento tanto na cognição
quanto na velocidade de caminhada, mesmo após os ajustes por fatores como sexo,
educação e doenças crônicas, entre outros.
“Nossas
descobertas sugerem que existe uma capacidade de reserva para melhora na vida
tardia. Como as crenças sobre a idade são modificáveis, isso abre portas para
intervenções tanto em nível individual quanto social”, resumiu.
Fonte:
g1

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