MPF
questiona na Justiça projetos de carbono no Amazonas por violação a direitos de
comunidades tradicionais
O
Ministério Público Federal (MPF) ajuizou três ações civis públicas contra
projetos de crédito de carbono no sul do Amazonas por violarem direitos de
comunidades indígenas e tradicionais. As medidas buscam a anulação dos créditos
gerados e o pagamento de indenizações por danos morais e materiais aos povos
indígenas e às comunidades tradicionais. Também pedem a restituição dos valores
obtidos com as vendas às comunidades que foram afetadas.
De
acordo com as ações, as empresas teriam obtido lucros indevidos a partir da
exploração de territórios de uso coletivo. A estimativa é que os
empreendimentos geraram mais de R$100 milhões em créditos de carbono. O MPF
sustenta ainda que a titularidade originária dos créditos de carbono pertence
às comunidades indígenas e tradicionais responsáveis pela ocupação e
preservação dessas áreas. Segundo o MPF, os projetos Unitor, Fortaleza Ituxi e
Evergreen foram implementados em áreas de uso tradicional, incluindo
territórios indígenas e outras áreas protegidas, sem a realização de consulta
livre, prévia e informada às comunidades afetadas, conforme exigido pela
Convenção n° 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Os
documentos também apontam que as consultas alegadas pelas empresas se limitaram
a reuniões pontuais, com repasse de informações, sem respeito aos modos de vida
e ao tempo de decisão das comunidades envolvidas. As ações têm como alvo
empresas responsáveis pela implementação, consultoria e certificação das
iniciativas, entre elas estão Ituxi Administração e Participação Ltda.,
Carbonext Consultoria, além da certificadora internacional Verra.
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Sobre os projetos – As ações detalham irregularidades em três empreendimentos
localizados no sul do Amazonas:
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Projeto Unitor REDD + :
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Localizado no município de Lábrea (AM), abrange cerca de 99 mil hectares e fica
ao lado da Terra Indígena Kaxarari e da Floresta Nacional (Flona) do Iquiri.
Perícias indicaram sobreposição a áreas de ocupação tradicional indígena em
estudo pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). Até maio de 2024, o
projeto faturou cerca de R$62 milhões com a venda de créditos de carbono. Nesse
projeto, o MPF pede especificamente que 87,3% dos valores obtidos sejam
restituídos aos indígenas Kaxarari e extrativistas da Flona do Iquiri.
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Projeto Fortaleza Ituxi REDD + :
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Também situado em Lábrea (AM), com cerca de 110 mil hectares, está localizado
na Fazenda Nossa Senhora das Cachoeiras do Ituxi, nas proximidades das Reservas
Extrativistas (Resex) Ituxi e Médio Purus. O Instituto Chico Mendes de
Conservação da Biodiversidade (ICMBio) apontou indícios de irregularidades
fundiárias, além de sobreposição parcial à Flona do Iquiri. O projeto faturou
cerca de R$26,5 milhões com a comercialização de créditos de carbono. O MPF
pede o pagamento de danos morais, de modo solidário, pela ausência de consulta
livre, prévia e informada às comunidades da Resex Ituxi, da Flona Iquiri e da
Resex Médio Purus, no valor total de R$96 mil.
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Projeto Evergreen REDD +:
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Localizado nos municípios de Apuí (AM) e Novo Aripuanã (AM), com
aproximadamente 130 mil hectares, está quase integralmente sobreposto ao
Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Aripuanã-Guariba e à zona de
amortecimento do Parque Nacional Campos Amazônicos. Embora as empresas informem
a existência de títulos privados antigos, o MPF afirma que a área pertence à
União desde 1982. O projeto faturou R$11,9 milhões.O MPF requer que o valor
total obtido seja integralmente revertido em benefício da comunidade do Projeto
de Assentamento Agroextrativista (PAE) Apurinã-Guariba.
De
acordo com o MPF, os valores a título de certificação e venda dos créditos de
carbono foram destinados de forma ilegal às empresas “retirando a possibilidade
de usufruto das comunidades indígenas e tradicionais dos créditos de sua
titularidade, pois originados de áreas tradicionalmente ocupadas. Nesse
sentido, negou-se aos povos indígenas e comunidades tradicionais afetados o
direito à informação e à autodeterminação, impedindo-os de escolher suas
próprias prioridades e controlar o seu próprio desenvolvimento econômico,
social e cultural”, afirmou.
Fonte:
Procuradoria da República no Amazonas

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