quarta-feira, 18 de março de 2026

Pode o plano IBGE 2030 resistir à corrosão da esfera pública?

A passagem para a era digital alterou profundamente o espaço público. Em A Nova Mudança Estrutural da Esfera Pública e a Política Deliberativa (2023), Jürgen Habermas argumenta que a digitalização enfraqueceu a função democrática da esfera pública. Em vez de um ambiente orientado pelo debate racional, consolidou-se um espaço cada vez mais mediado por algoritmos, plataformas privadas e interesses de mercado.

Com isso, a deliberação pública perdeu qualidade. A formação da opinião coletiva tornou-se mais fragmentada, emocional e dispersa, reduzindo sua capacidade de influenciar legitimamente o poder político. O antigo espaço público mais integrado, típico da era industrial, foi substituído por múltiplas esferas de nicho, organizadas por plataformas digitais que selecionam o que será visto, discutido e amplificado.

Nesse ambiente, o cidadão deixa de atuar como participante ativo do debate público e passa, muitas vezes, à condição de consumidor de conteúdo. A velocidade, o apelo emocional e a lógica do engajamento tendem a substituir a argumentação racional. Ao mesmo tempo, o jornalismo profissional perde força como mediador do debate democrático, pois o modelo de negócios das plataformas favorece conteúdos mais lucrativos e mais atraentes, nem sempre mais informativos ou mais verdadeiros.

Esse processo também afeta o próprio conceito de verdade no espaço público. Em vez da verificação do real por métodos transparentes e compartilháveis, cresce a produção técnica de plausibilidades. No ambiente digital, sistemas algorítmicos e ferramentas de inteligência artificial passam a produzir conteúdos verossímeis, com alta qualidade estética e forte apelo emocional, mesmo quando desconectados dos fatos. Como sugere Baudrillard (1991), a simulação não apenas distorce a realidade, mas pode passar a funcionar no lugar dela.

Esse quadro se agrava porque as grandes plataformas não operam com base em critérios de verdade, mas de probabilidade, segmentação e engajamento. A retroalimentação algorítmica reproduz padrões anteriores, reduz a novidade ao que pode ser recombinado e transforma indivíduos em perfis estatísticos, avaliados por classificações, scores e previsões. Como aponta Deleuze (1968), a diferença tende a ser absorvida por sistemas de repetição e controle.

O resultado é a substituição da esfera pública por microesferas fragmentadas, organizadas por algoritmos de recomendação e sem compromisso necessário com coerência ética, interesse público ou debate racional. Nesse contexto, a disputa sobre a realidade deixa de ser apenas política ou simbólica, pois se torna também uma disputa sobre quem mede o mundo, com quais métodos, sob quais princípios e com qual grau de transparência.

Por isso, a integridade dos sistemas públicos de mensuração tornou-se uma questão estratégica. Quando a soberania dos dados públicos se enfraquece, também se enfraquecem a capacidade estatal de interpretar o território, a comparabilidade das informações, a interoperabilidade entre bases de dados e a qualidade das políticas públicas, inclusive aquelas apoiadas em previsão e inteligência analítica. Esse problema decorre tanto da erosão da confiança em fatos compartilháveis quanto do crescente poder privado sobre as infraestruturas informacionais.

Diante disso, organismos internacionais têm reforçado princípios como independência profissional, transparência metodológica, acesso público à informação e atualização contínua dos padrões técnicos de mensuração. Sem esses fundamentos, perde-se a capacidade institucional de produzir informação confiável, comparável e territorialmente precisa, comprometendo decisões sobre desenvolvimento, bem-estar e segurança.

Na era digital, portanto, as estatísticas públicas e a geoinformação deixam de ser apenas instrumentos técnicos e passam a compor uma infraestrutura cognitiva estratégica do Estado. São elas que sustentam a capacidade coletiva de distinguir o que de fato ocorre do que apenas parece ocorrer. Quando a produção e a circulação da informação pública dependem excessivamente de infraestruturas privadas e transnacionais, aumenta o risco de perda de soberania informacional.

É nesse cenário que a agenda IBGE 2030 ganha centralidade. Ela representa uma estratégia de reposicionamento da estatística e da geoinformação como bases do planejamento público, da soberania de dados e da inserção internacional do país. Iniciativas como o Plano Geral de Informações Estatísticas e Geográficas (PGIEG), o Sistema Nacional de Geociências, Estatísticas e Dados (SINGED) e o Programa Nacional de Inteligência e Governança Estatística e Geocientífica para Políticas Públicas Preditivas (PNIGEG) apontam para um novo modelo de governança da informação pública no Brasil.

Pelo domínio da simulação algorítmica, quanto maior a capacidade de fabricar plausibilidades, maior a necessidade de instituições capazes de produzir fatos públicos verificáveis. O papel do IBGE não é o de competir com as plataformas digitais em visibilidade ou engajamento, mas o de reconstruir a base transparente e comum da evidência por meio de dados territoriais robustos, séries históricas consistentes, metodologias auditáveis e indicadores comparáveis internacionalmente.

Como guardião do princípio de que a informação pública deve ser produzida com integridade, transparência e independência, e não como subproduto de interesses privados, o IBGE se alinha aos Princípios Fundamentais das Estatísticas Oficiais das Nações Unidas. Esses princípios reafirmam valores como relevância pública, imparcialidade, rigor científico, clareza sobre fontes e métodos e autonomia profissional.

Assim, o projeto IBGE 2030 pode ser compreendido a partir de três eixos centrais: a defesa dos princípios normativos internacionais das estatísticas oficiais, a modernização tecnológica e metodológica do sistema estatístico nacional e a integração interoperável de múltiplas fontes de dados com governança pública. Liderar, nesse contexto, significa garantir que a era do provável não elimine o verdadeiro, que a eficiência do modelo não substitua o julgamento sobre a realidade concreta e que a soberania dos dados seja tratada como bem público, e não como privilégio privado.

 

Fonte: Por Lucas Scatolini, em Outras Palavras

 

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