Pode
o plano IBGE 2030 resistir à corrosão da esfera pública?
A
passagem para a era digital alterou profundamente o espaço público. Em A Nova
Mudança Estrutural da Esfera Pública e a Política Deliberativa (2023), Jürgen
Habermas argumenta que a digitalização enfraqueceu a função democrática da
esfera pública. Em vez de um ambiente orientado pelo debate racional,
consolidou-se um espaço cada vez mais mediado por algoritmos, plataformas
privadas e interesses de mercado.
Com
isso, a deliberação pública perdeu qualidade. A formação da opinião coletiva
tornou-se mais fragmentada, emocional e dispersa, reduzindo sua capacidade de
influenciar legitimamente o poder político. O antigo espaço público mais
integrado, típico da era industrial, foi substituído por múltiplas esferas de
nicho, organizadas por plataformas digitais que selecionam o que será visto,
discutido e amplificado.
Nesse
ambiente, o cidadão deixa de atuar como participante ativo do debate público e
passa, muitas vezes, à condição de consumidor de conteúdo. A velocidade, o
apelo emocional e a lógica do engajamento tendem a substituir a argumentação
racional. Ao mesmo tempo, o jornalismo profissional perde força como mediador
do debate democrático, pois o modelo de negócios das plataformas favorece
conteúdos mais lucrativos e mais atraentes, nem sempre mais informativos ou
mais verdadeiros.
Esse
processo também afeta o próprio conceito de verdade no espaço público. Em vez
da verificação do real por métodos transparentes e compartilháveis, cresce a
produção técnica de plausibilidades. No ambiente digital, sistemas algorítmicos
e ferramentas de inteligência artificial passam a produzir conteúdos
verossímeis, com alta qualidade estética e forte apelo emocional, mesmo quando
desconectados dos fatos. Como sugere Baudrillard (1991), a simulação não apenas
distorce a realidade, mas pode passar a funcionar no lugar dela.
Esse
quadro se agrava porque as grandes plataformas não operam com base em critérios
de verdade, mas de probabilidade, segmentação e engajamento. A retroalimentação
algorítmica reproduz padrões anteriores, reduz a novidade ao que pode ser
recombinado e transforma indivíduos em perfis estatísticos, avaliados por
classificações, scores e previsões. Como aponta Deleuze (1968), a diferença
tende a ser absorvida por sistemas de repetição e controle.
O
resultado é a substituição da esfera pública por microesferas fragmentadas,
organizadas por algoritmos de recomendação e sem compromisso necessário com
coerência ética, interesse público ou debate racional. Nesse contexto, a
disputa sobre a realidade deixa de ser apenas política ou simbólica, pois se
torna também uma disputa sobre quem mede o mundo, com quais métodos, sob quais
princípios e com qual grau de transparência.
Por
isso, a integridade dos sistemas públicos de mensuração tornou-se uma questão
estratégica. Quando a soberania dos dados públicos se enfraquece, também se
enfraquecem a capacidade estatal de interpretar o território, a comparabilidade
das informações, a interoperabilidade entre bases de dados e a qualidade das
políticas públicas, inclusive aquelas apoiadas em previsão e inteligência
analítica. Esse problema decorre tanto da erosão da confiança em fatos
compartilháveis quanto do crescente poder privado sobre as infraestruturas
informacionais.
Diante
disso, organismos internacionais têm reforçado princípios como independência
profissional, transparência metodológica, acesso público à informação e
atualização contínua dos padrões técnicos de mensuração. Sem esses fundamentos,
perde-se a capacidade institucional de produzir informação confiável,
comparável e territorialmente precisa, comprometendo decisões sobre
desenvolvimento, bem-estar e segurança.
Na era
digital, portanto, as estatísticas públicas e a geoinformação deixam de ser
apenas instrumentos técnicos e passam a compor uma infraestrutura cognitiva
estratégica do Estado. São elas que sustentam a capacidade coletiva de
distinguir o que de fato ocorre do que apenas parece ocorrer. Quando a produção
e a circulação da informação pública dependem excessivamente de infraestruturas
privadas e transnacionais, aumenta o risco de perda de soberania informacional.
É nesse
cenário que a agenda IBGE 2030 ganha centralidade. Ela representa uma
estratégia de reposicionamento da estatística e da geoinformação como bases do
planejamento público, da soberania de dados e da inserção internacional do
país. Iniciativas como o Plano Geral de Informações Estatísticas e Geográficas
(PGIEG), o Sistema Nacional de Geociências, Estatísticas e Dados (SINGED) e o
Programa Nacional de Inteligência e Governança Estatística e Geocientífica para
Políticas Públicas Preditivas (PNIGEG) apontam para um novo modelo de
governança da informação pública no Brasil.
Pelo
domínio da simulação algorítmica, quanto maior a capacidade de fabricar
plausibilidades, maior a necessidade de instituições capazes de produzir fatos
públicos verificáveis. O papel do IBGE não é o de competir com as plataformas
digitais em visibilidade ou engajamento, mas o de reconstruir a base
transparente e comum da evidência por meio de dados territoriais robustos,
séries históricas consistentes, metodologias auditáveis e indicadores
comparáveis internacionalmente.
Como
guardião do princípio de que a informação pública deve ser produzida com
integridade, transparência e independência, e não como subproduto de interesses
privados, o IBGE se alinha aos Princípios Fundamentais das Estatísticas
Oficiais das Nações Unidas. Esses princípios reafirmam valores como relevância
pública, imparcialidade, rigor científico, clareza sobre fontes e métodos e
autonomia profissional.
Assim,
o projeto IBGE 2030 pode ser compreendido a partir de três eixos centrais: a
defesa dos princípios normativos internacionais das estatísticas oficiais, a
modernização tecnológica e metodológica do sistema estatístico nacional e a
integração interoperável de múltiplas fontes de dados com governança pública.
Liderar, nesse contexto, significa garantir que a era do provável não elimine o
verdadeiro, que a eficiência do modelo não substitua o julgamento sobre a
realidade concreta e que a soberania dos dados seja tratada como bem público, e
não como privilégio privado.
Fonte:
Por Lucas Scatolini, em Outras Palavras

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