Venezuelanos
reconheceram militar torturador que os prendeu vivendo livremente nos EUA
María Elena Uzcátegui teve uma sucessão de
sentimentos, da incredulidade à indignação, quando soube que o militar venezuelano Rafael Quero Silva, acusado de tortura por ela e
por mais quatro venezuelanos, trabalhava como figurante de telenovelas em
Miami, nos Estados Unidos.
Nos anos de 2013 e 2014, o tenente-coronel
Quero Silva foi comandante do Destacamento 47 da Guarda Nacional Bolivariana no
Estado de Lara, no centro-oeste da Venezuela.
Naquele cargo, ele liderou a repressão aos
protestos contra o governo de Nicolás Maduro. E, segundo Uzcátegui, Quero Silva se encarregou
pessoalmente de invadir sua casa e detê-la.
Ela foi enviada para a prisão de segurança
máxima de Uribana e se tornou a primeira mulher presa por
motivos políticos a ser mantida naquele local.
"Quando fiquei sabendo, perguntei: 'O
que é isso?'", relembra ela, sobre a participação do tenente-coronel em
telenovelas. "Como é possível que alguém que foi torturador, que mandou matar e fez sofrer tantas pessoas, viva
agora livremente nos EUA, feliz da vida?"
"E, agora, também é artista! Eu não
conseguia acreditar que aquilo era verdade. Depois de tudo o que ele fez na
Venezuela, que enorme injustiça!", declarou Uzcátegui à BBC News Mundo, o
serviço em espanhol da BBC.
A notícia de que Quero Silva se encontrava em
Miami se espalhou rapidamente em 2018, quando membros da diáspora venezuelana o
reconheceram ao interpretar, entre outros, o papel de policial na
telenovela Mi Familia Perfecta, da rede de TV Telemundo.
Na época, Uzcátegui morava na Colômbia. A
notícia chegou a ela pouco depois, quando agentes do FBI entraram em contato
com ela como parte de uma investigação sobre o ex-militar venezuelano.
Sete anos se passaram para que aquela
indignação desse lugar à surpresa e uma certa esperança.
<><> Perto de ser deportado
No final de fevereiro de 2025, agentes do
Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, na sigla em inglês) detiveram
Quero Silva em Miami. Ele foi considerado "estrangeiro ilegal e criminoso
da Venezuela".
Segundo informado pela imprensa americana, as
autoridades migratórias descobriram que o ex-militar venezuelano havia entrado
nos EUA em 2016 e permanecido no país além do período permitido pelo seu visto.
A notícia da detenção causou forte impacto a
Uzcátegui, que novamente não acreditava no que estava vendo. Mas, desta vez, de
forma mais positiva.
"Quando fiquei sabendo que ele havia
sido preso, aí, sim, é verdade... fiquei como que em choque, porque o
impensável aconteceu", relembra ela.
"Eu não conseguia acreditar no que
estava se passando. Até chorei. Eu tinha tantos sentimentos desencontrados que
não sabia como me sentia."
Após a detenção, Quero Silva foi submetido a
um processo migratório concluído em novembro passado, quando um juiz determinou
que ele "havia participado de violações aos direitos humanos na
Venezuela" e ordenou sua saída do país.
Quero Silva está detido no centro para
migrantes Krome, em Miami. Ele recorreu da decisão para evitar ser deportado.
Paradoxalmente, Uzcátegui não quer a
deportação, para que ele possa responder à ação civil apresentada por ela, ao
lado de outros quatro venezuelanos, perante a Justiça americana.
<><> Primeiro militar venezuelano
acusado por suas vítimas
A ação legal contra Quero Silva se baseia na
Lei de Proteção às Vítimas de Tortura dos EUA (TVPA, na sigla em inglês).
Ele é acusado de ter ordenado, autorizado e
supervisionado a tortura de manifestantes e pessoas detidas, incluindo os cinco
autores do processo.
A ação foi apresentada no final de 2025, com
apoio jurídico do Centro Guernica 37, uma ONG internacional dedicada à defesa
dos direitos humanos e responsabilização.
Uma das diretoras dessa organização, Almudena
Bernabéu, explica por que se optou por uma ação civil e não penal.
Nos EUA, pessoas físicas não podem apresentar
ações penais, pois elas dependem exclusivamente do Departamento de Justiça.
Mas, nem por isso, elas deixam de ser importantes.
"Este é um processo civil que se
desenvolve em um tribunal, com um juiz com experiência penal e um júri de 12
pessoas que decide sobre a culpabilidade", explica a advogada.
"Ou seja, o trâmite, de fato, é
equivalente ao de um processo penal, mas o resultado não é uma sentença de
absolvição ou condenação, mas sim ações punitivas e um montante a pagar como
compensação pelo que foi sofrido."
O processo também tem valor simbólico, pelo
que isso pode representar no contexto das denúncias de violações aos direitos
humanos ocorridas na Venezuela, desde a chegada do chavismo ao poder.
"Esta é a primeira ação legal contra
membros das forças de segurança venezuelanas em tribunais nacionais",
segundo Bernabéu. "Houve tentativas na Argentina contra Maduro, mas elas
não prosperaram por questões de imunidade e outras."
"Na Espanha, houve outras tentativas que
também fracassaram. Mas esta ação civil já prosperou e segue adiante. É a
primeira deste tipo e acredito que seja muito importante para a comunidade
venezuelana."
Andrés Colmenarez é outro dos cinco autores
da ação. Ele destaca mais um elemento que faz com que este processo seja único.
"É o primeiro caso em que um militar
venezuelano é levado à Justiça pelas próprias vítimas", destaca ele à BBC.
<><> Perseguidor perseguido?
A ação civil contra Quero Silva foi
apresentada por cinco venezuelanos detidos em Barquisimeto, a capital do Estado
de Lara, por membros da Guarda Nacional Bolivariana, durante os protestos
contra o governo da Venezuela ocorridos entre 2013 e 2014.
"Quero Silva não só ordenou e autorizou,
como também participou diretamente da violenta repressão aos protestos",
destaca o documento apresentado no distrito sul do Estado americano da Flórida.
"Ele trabalhou lado a lado com a unidade
da GNB sob sua autoridade. Ele participou diretamente da violência contra os
manifestantes, incluindo sua tortura enquanto estavam sob custódia."
A BBC News Mundo pediu entrevista ao
escritório de advocacia que representa o ex-militar venezuelano, mas o pedido
não foi atendido até a publicação desta reportagem.
Os autores da ação denunciam ter sofrido
torturas, maus tratos, golpes, humilhações, privação de água, alimentos, sono,
serviços sanitários, acesso a chamadas telefônicas e contato com a família.
Além disso, um dos autores recebeu um disparo
no abdômen e outro sofreu tiros de pressão a curta distância nas costas e no
rosto, por parte dos membros da GNB.
O documento também destaca que Quero Silva
"ordenou diretamente e supervisionou a tortura de indivíduos detidos no
Destacamento 47, incluindo três dos autores". Um deles é María Elena
Uzcátegui.
<><> 'Rainha das barricadas'
Mais de uma década depois, Uzcátegui garante
que ainda não sabe por que Quero Silva pareceu se interessar tanto por ela. Ela
conta que participou dos protestos iniciados em fevereiro de 2014, mas nunca
teve papel de destaque.
"Eu entrei nos protestos como milhões de
venezuelanos e ajudava em muitas coisas", relembra ela. "Curava
feridas, levava materiais, resguardava vários estudantes na minha casa, dava de
comer, coisas assim. Mais ou menos o que muito mais gente fazia."
Por isso, ela afirma ter ficado muito
surpresa com o grande destacamento de oficiais da GNB no seu edifício, no dia
em que foi detida, em setembro de 2014. E o fato de que o próprio Quero Silva
chefiou a invasão da sua casa.
"Eles fizeram um destacamento como se
fossem deter [o terrorista venezuelano] Carlos, o Chacal", comenta ela.
Ela conta que a GNB fechou todos os acessos
ao complexo residencial onde ela morava e tentou entrar na sua casa golpeando a
grade. Eles aproveitaram para entrar quando ela abriu a porta para sua irmã
advogada, que vinha ajudá-la diante da situação.
Uzcátegui estava na residência ao lado de uma
dezena de manifestantes a quem havia oferecido refúgio, devido ao
recrudescimento da repressão nas ruas.
Ela não sabe ao certo quantos agentes da GNB
entraram na sua casa e calcula que tenham sido entre 20 e 30. Com eles, estava
Quero Silva, que logo deixou claro seu interesse por ela.
"Uma das mulheres guardas me disse:
'Senhora, sabe por que estamos aqui? Porque viemos buscá-la'", relembra
ela. "E ali começou tudo. Quero Silva começou a me dizer coisas, que eu
precisava me manter calada e não tinha direito a nada."
O comandante a chamou de rainha das guarimbas ("barricadas"),
o termo usado na Venezuela para designar o tipo de protesto realizado nas ruas
contra o governo.
"Ele me batizou assim, como a rainha das
barricadas. Não sei se é um capricho. Na verdade, nunca consegui
entender."
"Acho que ele ficou obstinado comigo,
mas não sei por quê", prossegue Uzcátegui. "Talvez ele quisesse me
transformar em exemplo, para que ninguém mais fizesse o mesmo. Ele me tomou
como exemplo para apaziguar os protestos."
No momento em que ela foi detida, Quero Silva
expressou sua satisfação.
"Ele agarrou me agarrou pelo colete e me
disse: 'Procurei você por tanto tempo e, por fim, encontrei. Vou embora feliz
porque levo meu troféu.'"
A partir dali, Uzcátegui começou um calvário
que duraria cerca de quatro meses. Imediatamente após a detenção, ela foi
transferida, junto com os outros presos, para o destacamento 47.
"Ali, eles nos meteram em um quarto onde
estava Quero Silva", ela conta. "Ele começou a nos dizer de tudo, que
não éramos filhos de Deus, que todos nós iríamos para a prisão de Uribana, onde
seríamos violentados."
"Ele nos insultou e disse tudo o que
poderia ocorrer para fazer com que nos sentíssemos mal."
Depois, eles os levaram para um quarto onde,
segundo ela, foi aplicada a chamada "tortura da luz branca".
"Eles colocam uma luz branca de um dia
até o outro e você não pode fechar os olhos porque, se fechar, eles batem em
você", relata ela. "Em mim, não bateram porque mantive os olhos
abertos. Mas, nos meninos, sim. Batiam neles na cabeça."
Uzcátegui afirma ter ouvido Quero Silva dar
todas as instruções sobre como os detidos seriam tratados. Ela o considera não
só o seu torturador, mas também responsável por tudo o que passou a viver desde
então.
Foi apenas depois de 24 horas após a detenção
que Uzcátegui conseguiu comer ou beber algo. Mas, na verdade, as condições do
destacamento 47 eram mais suportáveis do que as que ela viria a enfrentar por
cerca de três meses na prisão de Uribana.
Ali, ela ficou presa ao lado de criminosos
comuns e foi recebida pela diretora com uma ameaça: "Bem-vinda ao
inferno."
Uzcátegui passou sua primeira semana na
prisão de Uribana encerrada no "tigrinho", uma cela de castigo sem
janelas, nem ventilação.
A partir daí, passou a viver em condições
terríveis de insalubridade, com pouco ou nenhum acesso à água potável, passando
fome, com um único uniforme que ela precisava usar praticamente sem roupa de
baixo.
Uzcátegui teve sarna, ficou privada dos seus
medicamentos para asma e tireoide por várias ocasiões, desenvolveu uma doença
cardíaca e chegou a perder 13 kg. A tudo isso, somem-se as ameaças constantes,
vexames, humilhações e mesmo abusos sexuais.
"Certa vez, disse à minha irmã que, para
viver assim, eu preferia me suicidar porque não queria continuar vivendo",
relata ela.
Nos três meses em que Uzcátegui esteve em
Uribana, seus familiares e amigos tomaram diversas medidas para conseguir sua
libertação, o que finalmente ocorreu em dezembro de 2014, por motivos de saúde.
Não foi uma liberdade total. Ela ficou em
prisão domiciliar até 2017. Naquele ano, Uzcátegui fugiu por terra para a
Colômbia, onde morou por cinco anos, graças a diversas pessoas que a acolheram
e a ajudaram até que ela pudesse migrar para os EUA, onde moram outros de seus
familiares.
Uzcátegui atribui toda esta penúria a Quero
Silva.
Por isso, quando surgiu a proposta (que
acabou não se concretizando) de que ela testemunhasse contra ele no julgamento
migratório, ela pensou em aproveitar a ocasião, se chegasse a encontrá-lo, para
dizer: "Você está aí onde, certa vez, eu estive por sua culpa, pelo seu
abuso de poder."
"Eu gostaria de ter dito isso a ele, não
sei se talvez poderei ter a chance de dizer algum dia", comenta ela.
Em relação à ação civil, Uzcátegui esclarece
que se trata de buscar justiça, não vingança.
"Queremos justiça para todas essas
famílias que perderam tudo, que perderam seus filhos", afirma ela.
"Entendo que ele é uma só pessoa e que há muitíssimas outras na Venezuela
e muitos nos EUA que merecem enfrentar o que ele está passando."
"Que seja justiça para muitos, embora
seja para uma delas, por todos aqueles que não conseguiram e por todos os que
estão mortos", conclui María Elena Uzcátegui.
Fonte:
BBC News Mundo

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