Brasil,
Colômbia e México em alerta: riscos e lacunas do “Escudo das Américas” de Trump
Uma
semana após a intervenção militar conjunta de Estados Unidos e Israel contra o
Irã, realizada em pleno processo de negociações, o presidente Donald Trump
reuniu, no último sábado (7), no Trump National Doral Miami (hotel e campo de
golfe), chefes de Estado de seu “quintal” ideologicamente alinhados a ele. Sob
o lema “Escudo das Américas”, participaram do encontro os presidentes da
Argentina, Bolívia, El Salvador, Equador, Guiana, Honduras, Paraguai, Costa
Rica, Panamá, República Dominicana e Trinidad e Tobago, além do
recém-presidente eleito do Chile.
A
reunião insere-se na Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, que
busca fundamentalmente reorganizar o hemisfério sob um comando unificado para
enfrentar a competição com a China e militarizar o combate ao narcotráfico —
como ocorreu recentemente no Equador, em uma operação conjunta, mas
inconstitucional, das Forças Armadas equatorianas com o Comando Sul. A
Constituição do país andino não permite a participação de forças militares
estrangeiras nem a instalação de bases militares de outro país. Em novembro, o
presidente Daniel Noboa tentou modificar a Carta Magna por meio de um
plebiscito que não foi aprovado. Por isso, seguindo os passos de seu mentor,
Donald Trump, optou por ignorar a legalidade.
Em seu
discurso diante dos doze mandatários de direita da região — aos quais afirmou
precisar de ajuda —, Trump concentrou-se na luta contra o crime organizado,
declarando: “O coração do nosso acordo é o compromisso de usar força militar
letal para destruir de uma vez por todas os sinistros cartéis e redes
terroristas”.
Talvez
pela proximidade de sua visita a Pequim, programada para o fim do mês, Trump
preferiu usar no púlpito expressões como “interferência estrangeira” e “forças
externas”, evitando mencionar diretamente a China. Ainda assim, em clara
referência a esse país, afirmou: “Não permitiremos, sob esta nova doutrina, que
nenhuma força hostil estrangeira ponha os pés em nosso hemisfério — o que
inclui o Canal do Panamá. Juntos protegeremos nossa soberania e nossa
segurança, assim como nossa preciosa liberdade e independência”. A cúpula,
portanto, serviu para coordenar ações regionais destinadas a limitar a
crescente presença da nação asiática no hemisfério ocidental, vista como um
risco para a segurança e a prosperidade dos Estados Unidos.
Continua
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Esses
temas foram tratados com menos espetáculo durante a reunião de ministros da
Defesa, da qual participaram representantes de 18 países da região. A tarefa de
levar adiante o projeto foi confiada a Kristi Noem, que foi demitida na última
quinta-feira (5) do cargo de secretária de Segurança Nacional e passou à função
de Enviada Especial para o “Escudo das Américas”.
Vale
mencionar que a cúpula presidencial foi precedida por uma reunião, nos dias 4 e
5 de março, entre os ministros da Defesa dos 18 países, o secretário de Defesa,
Pete Hegseth, e o chefe adjunto de gabinete da Casa Branca e assessor de
Segurança Nacional, Stephen Miller. Em seu discurso, Miller afirmou que os
Estados Unidos “não cederão nem uma polegada de território do hemisfério” a
seus “inimigos ou adversários”, e admitiu que o governo Trump está recorrendo a
“poder duro, poder militar e força letal para defender a pátria americana.”
Ambos
apresentaram, no Comando Sul, em Miami, o que o Pentágono denominou como
primeira “Conferência das Américas contra os Cartéis”. Na declaração final, as
autoridades classificaram os cartéis da droga como organizações terroristas, o
que permite o uso de força letal e inclusive a realização de operações
unilaterais em seus territórios. Também acordaram proteger infraestruturas
críticas e integrar uma coalizão para combater o narcoterrorismo e outras
ameaças compartilhadas que o hemisfério ocidental enfrenta.
O
problema é que recorrer às forças armadas para substituir o papel
tradicionalmente desempenhado pelas forças civis de segurança envolve riscos em
uma região onde as instituições militares e os mecanismos de supervisão são
frágeis e onde as forças armadas frequentemente carregam o legado de abusos de
direitos humanos. Rebecca Bill Chavez, presidente do Diálogo Interamericano e
ex-subsecretária adjunta de Defesa para assuntos do hemisfério ocidental,
considera que, sem instituições sólidas de Estado de direito e supervisão
civil, militarizar a luta contra os cartéis pode enfraquecer justamente as
instituições necessárias para derrotá-los.
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Adeus à Cúpula das Américas
A
cúpula “Escudo das Américas” marca uma ruptura com a Cúpula das Américas,
realizada a cada três anos desde 1994, quando o presidente Bill Clinton lançou
a iniciativa em Miami — ocasião em que também foi apresentada oficialmente a
proposta de criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).
Naquele
período, as reuniões eram menos imperativas: as diretrizes eram mais
dissimuladas e ainda se buscavam consensos. Na Cúpula das Américas de 2015, o
número de participantes chegou a 35 com a admissão de Cuba. Hoje, porém, a
população cubana enfrenta um castigo que Trump impõe por meio do embargo ao
petróleo, cuja crueldade provoca cortes massivos de eletricidade em todo o
país. A agressão é multifacetada.
Em 4 de
março, o presidente equatoriano expulsou todo o pessoal diplomático da
embaixada de Cuba em Quito. No final de fevereiro, o recém-eleito presidente de
Honduras, Nasry Asfura, com forte apoio de Trump, rescindiu um acordo de
cooperação médica com Cuba, o que levou à saída de mais de 170 médicos cubanos
que atendiam comunidades de baixa renda.
As
Cúpulas eram organizadas pela Organização dos Estados Americanos (OEA) e
procuravam ser inclusivas (apesar das tensões), enquanto a mais recente se
configura como um bloco de correligionários do atual presidente dos Estados
Unidos. A OEA, que atuava como Secretaria dessas Cúpulas, foi deslocada pelo
Comando Sul, razão pela qual a agenda passou a ter um caráter mais militar e
pouco diplomático. Além disso, a ausência de três importantes economias da
região reflete a diferença entre um bloco que busca uma política externa mais
autônoma e outro alinhado de forma incondicional aos Estados Unidos.
Os
presidentes do México, Brasil e Colômbia foram excluídos por manterem posições
críticas ou divergentes em relação às políticas de intervenção e segurança da
atual administração estadunidense. Cuba, Nicarágua e Venezuela também ficaram
de fora. Apesar de a vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, manter
canais abertos em temas energéticos, no campo da segurança esses países são
considerados o “alvo” a ser neutralizado, motivo pelo qual tampouco foram
convidados.
Assim,
a reunião dos 12 países alinhados a Trump busca consolidar-se como um bloco
regional de aliados estratégicos sob uma nova agenda de segurança e
geopolítica, cujos pontos centrais incluem: o combate ao terrorismo; conter a
crescente influência econômica e política da China no hemisfério ocidental,
assegurando o acesso a recursos estratégicos para os Estados Unidos e seus
aliados; reduzir os fluxos de migração irregular em direção à fronteira
estadunidense; restabelecer o predomínio dos Estados Unidos na região por meio
do chamado “Corolário Trump da Doutrina Monroe”; e promover mercados livres e
um comércio “justo” entre as nações participantes que compartilham afinidade
ideológica com a atual administração.
Aos
países que assinaram esse acordo, os Estados Unidos prometem recompensas na
forma de assistência militar letal por meio de créditos militares, com taxas de
juros quase nulas, para que os aliados renovem seus equipamentos — desde que
sejam de origem estadunidense. Também estão previstos incentivos fiscais para
que empresas dos Estados Unidos que deixem a China se instalem nos países
signatários, além da criação de um Fundo de Infraestrutura Crítica, composto
por recursos novos destinados à modernização de portos e aeroportos, com o
objetivo de evitar que esses países dependam de empréstimos chineses que
Washington considera “armadilhas da dívida.”
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Sombras da China
A
Declaração de Doral, assinada no sábado (7), permitiu a Trump obter a
fotografia com seus 12 convidados e pronunciar o discurso que define sua
estratégia. Apesar do compromisso assumido pelos participantes de afastar a
China da região, é provável que eles próprios não estejam totalmente
convencidos dessa orientação. Na prática, os governos nem sempre conseguem
cumprir as diretrizes de Washington de impedir que suas elites empresariais
realizem investimentos conjuntos com parceiros chineses.
Foi o
caso de Chancay, no Peru, onde um grupo de empresários buscava capital para
investir em um porto de águas profundas identificado em 2007 por ex-oficiais da
Marinha que posteriormente se incorporaram à empresa peruana Volcán. Nesse
contexto, surgiu a estatal chinesa Cosco Shipping e, em 2019, ambas passaram a
desenvolver conjuntamente o projeto, que transformou o porto em um hub
logístico da América do Sul com a cidade de Xangai, por meio de uma empresa
mista na qual a companhia peruana detém 40% de participação e a chinesa o
restante.
A China
consolidou-se como o principal parceiro comercial da maioria dos países da
América do Sul, e Trump não dispõe de meios para substituí-la. Por isso, passou
a aplicar tarifas inclusive a países que possuem Tratados de Livre Comércio
(TLC) em vigor com os Estados Unidos. Nesses acordos, aprovados pelos
respectivos Congressos, os países se comprometem a liberalizar reciprocamente
suas tarifas, com algumas exceções previstas. No entanto, Trump utiliza as
tarifas como arma de coerção em larga escala, ignorando a segurança jurídica
garantida por esses tratados.
Essa
violação dos acordos não tem sido respondida com firmeza pelos governos, apesar
dos danos causados aos exportadores. Parece haver um esquecimento de que, para
obter previsibilidade no acesso ao mercado estadunidense, esses países tiveram
de aceitar exigências duras de Washington em áreas como propriedade intelectual
— o que resultou em medicamentos e agroquímicos mais caros —, eliminação de
requisitos de desempenho para investimentos, abertura das compras públicas,
entre outras concessões. O governo dos Estados Unidos passa, assim, a praticar
uma diplomacia de extorsão tarifária, promovendo um retrocesso nas relações
internacionais, nas quais prevalece a vontade do mais forte.
Para o
empresariado latino-americano e caribenho, negociar e manter relações com ambas
as potências hegemônicas — Estados Unidos e China — é uma questão de
sobrevivência lógica e pragmática. Já para os governos estadunidenses, em
particular para a atual administração, essa liberdade de escolha é interpretada
como uma traição ao “hemisfério ocidental”, acompanhada das mais diversas e
extravagantes narrativas que grande parte dos meios de comunicação acaba
difundindo como se fossem verdadeiras.
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O presente te condena
O
projeto do Escudo das Américas não tem futuro. Os Estados Unidos atravessam uma
crise econômica, social e moral que, no curto prazo, pode impor ao governo uma
derrota esmagadora nas eleições de meio de mandato. Apenas 27% dos cidadãos do
país aprovam a incursão militar no Irã. Trump pediu um aumento de 50% no
orçamento do Pentágono, em um contexto em que a dívida — com crescimento em
espiral e aparentemente incontrolável — se aproxima dos 40 trilhões de dólares,
o déficit fiscal crônico gira em torno de 6% ao ano, os títulos do Tesouro
perdem valor e o dólar perde hegemonia. Esses fatores, em particular o peso da
dívida, são os grandes limitadores da Doutrina Monroe.
Suas
promessas de investimento soam frequentemente vazias diante de projetos
tangíveis, como: o cabo submarino de fibra óptica entre Valparaíso e Hong Kong,
que seria instalado por uma empresa chinesa e que o Chile teve de suspender sob
pressão do governo estadunidense, acompanhado da ameaça de retirar o programa
Visa Waiver do qual os cidadãos chilenos se beneficiam; a suspensão da
concessão de dois portos operados por uma empresa chinesa sediada em Hong Kong
nas extremidades do Canal do Panamá, sob ameaça dos Estados Unidos de retomar o
controle do canal; ou ainda a pressão para impedir que empresas chinesas
participem, na Costa Rica, de licitações para a instalação de tecnologia 5G.
A
maioria dos presidentes convocados conhece perfeitamente a situação econômica
dos Estados Unidos. Ainda assim, validarão a narrativa oficial estadunidense
sobre o narcoterrorismo e a “herança cristã” que uniria o hemisfério, como
afirma Pete Hegseth, porque esse discurso lhes serve para legitimar o uso de
suas forças armadas em seus próprios países. Ironicamente, ao não exigir uma
contrapartida econômica real, acabam aceitando que o vínculo com os Estados
Unidos seja puramente extrativo e militar. Washington define as regras (e vende
as armas), enquanto eles oferecem território e obediência.
Trump
não dispõe de recursos para financiar esse plano. Seu erro de avaliação ao
invadir o Irã — ao imaginar que a população do país se alinharia às “bombas
libertadoras” de um exército estrangeiro que assassinou seus líderes religiosos
e militares — tende a prolongar a guerra, com o consequente aumento dos preços
do petróleo, alta da inflação, contração econômica e perda de capital político.
Em um cenário de crise bélica e de derrota eleitoral iminente de Trump, os
países latino-americanos que participaram da reunião em Doral podem acabar
diante de um vazio econômico que a China teria mais facilidade para preencher.
¨
Cuba anuncia diálogo com os EUA em meio à maior crise de
sua história
Autoridades
de Cuba deram início
a conversas com os Estados Unidos para resolver
a atual crise na ilha, confirmou o
presidente cubano Miguel Díaz-Canel em um pronunciamento televisionado à nação.
Díaz-Canel
afirmou que essas conversas, conduzidas por autoridades de ambos os países,
"visam encontrar soluções, por meio do diálogo, para as diferenças
bilaterais entre nossas duas nações".
Ele
disse que fatores internacionais "facilitaram essas trocas".
O
presidente cubano declarou que liderou as conversas pelo lado cubano,
juntamente com o ex-presidente cubano Raúl Castro e outras autoridades de alto
escalão do Partido Comunista e do governo. Ele não especificou quem fazia parte
da delegação americana.
Os EUA
já haviam indicado nas semanas anteriores que haviam iniciado conversas com o
governo cubano, mas Cuba havia negado categoricamente. Na noite de quarta-feira
(11/3), o governo cubano anunciou a libertação de 51 presos políticos, embora
nenhum detalhe adicional tenha sido fornecido.
Nos
últimos meses, Cuba tem sofrido as consequências de graves apagões, que afetaram a indústria do turismo, uma
das principais fontes de renda da ilha.
Em 5 de
fevereiro, o próprio Díaz-Canel alertou que Cuba estava perto de necessitar de
"medidas extremas" devido à crise econômica, aos apagões cada vez
mais frequentes e à escassez de combustível causada pelo embargo imposto pelo
presidente dos EUA, Donald Trump.
Alguns
analistas dizem que Cuba atravessa a crise mais grave de sua história desde o
triunfo da Revolução Cubana em 1959.
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Crise se intensifica
Desde a
incursão dos EUA na Venezuela em janeiro passado, na operação que terminou com
a captura de Nicolás Maduro, o fornecimento de petróleo venezuelano para Cuba
diminuiu drasticamente.
O
presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que vai impor tarifas a qualquer
país que forneça petróleo à ilha.
Essa
escassez, aliada a uma rede elétrica obsoleta, causou graves apagões nas
últimas semanas, afetando milhares de famílias cubanas e impactando o setor
turístico cubano.
Além
disso, a falta de combustível levou muitas companhias aéreas a cancelarem seus
voos para Havana. O turismo é a principal fonte de divisas do governo cubano,
bem como um importante motor da economia local.
Especialistas
consultados pela BBC indicam que um dos objetivos de Trump é acabar com o
regime que governa a ilha desde 1959.
"As
antigas estratégias de Washington em relação a Cuba não se aplicam mais, e quem
ainda não entendeu isso terá uma surpresa", afirma o economista cubano
Ricardo Torres.
O
presidente americano declarou que "Cuba está prestes a cair",
intensificando a pressão sobre a ilha em seu momento de maior vulnerabilidade
desde a Guerra Fria.
Alguns
analistas acreditam que um dos objetivos por trás da destituição de Maduro por
Washington é justamente agravar indiretamente a crise econômica cubana.
Em seu
discurso, Díaz-Canel afirmou que a prioridade é resolver o problema energético
do país.
O
presidente reconheceu que, devido ao que chamou de bloqueio energético dos EUA,
nenhum carregamento de petróleo chegou a Cuba nos últimos três meses.
Ele
destacou que Cuba, que produz 40% do seu próprio petróleo, tem gerado sua
energia, mas isso não é suficiente para atender à demanda do país.
Díaz-Canel
explicou que a falta de eletricidade afetou as comunicações, a educação e o
transporte e que, como resultado, o governo teve que adiar cirurgias para
dezenas de milhares de pessoas.
"O
impacto foi muito significativo", disse o presidente cubano.
Nos
últimos dias, o governo Trump havia autorizado a entrada de uma quantidade
limitada de petróleo por "razões humanitárias".
Fonte:
Estrategia.la/BBC News Mundo

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