Educação:
Em busca de uma governança democrática
A
governança democrática nas políticas educacionais constitui-se, hoje, como uma
das tarefas mais decisivas para a vitalidade do Estado e para a renovação dos
sentidos públicos da educação. Em contextos marcados por disputas eleitorais
intensas, polarizações e desconfianças generalizadas, a escola pública parece
emergir como um dos poucos espaços institucionais capazes de sustentar
experiências concretas de vida em comum. Um dos debates mais interessantes nas
teorias educacionais deste início de século encontra-se, justamente, na
possibilidade de construir um ‘comum’. Em razão disso, no decorrer deste breve
texto, gostaria de argumentar que pensar a governança democrática na educação
não é apenas discutir modelos administrativos, mas refletir sobre os modos
pelos quais o Estado pode organizar, legitimar e compartilhar sua
responsabilidade formativa com a sociedade.
Um bom
ponto de partida para esta conversa está em reconhecer que a governança
democrática implica compreender a política educacional como um campo de
relações, disputas e cooperações, no qual diferentes atores (gestores,
professores, estudantes, famílias, conselhos, movimentos sociais e instâncias
governamentais e não-governamentais) produzem sentidos sobre o que é educar e
para que educar. Em geral, os autores do campo afirmam que ela desloca o foco
de uma gestão vertical e centralizadora para arranjos institucionais mais
participativos, nos quais a decisão é mediada por processos de escuta,
deliberação e corresponsabilidade. Trata-se, então, de uma significativa
mudança de ênfase quando assumimos que a política pública não é mera execução
técnica de diretrizes, mas prática social situada, atravessada por valores,
interesses e compromissos éticos.
Nesse
horizonte, ingressamos em um ponto-chave de nosso argumento: a escola pública
deixa de ser vista apenas como local de implementação de programas e passa a
ser compreendida como espaço estratégico de produção do comum. Implementar
políticas ou monitorar o seu caminho de implementação não pode ser a mais
importante finalidade de uma ação organizativa na esfera pública. Em outras
palavras, certamente que governar democraticamente a educação significa
fortalecer instâncias colegiadas, ampliar canais de participação e garantir as
variadas modalidades de transparência e de prestação de contas. Mas significa,
sobretudo, em nossa perspectiva, reconhecer que a legitimidade das políticas
educacionais depende da qualidade dos vínculos que o Estado é capaz de tecer
com a comunidade escolar e com a sociedade mais ampla.
A noção
de novos agenciamentos nas políticas educacionais permite pensar a governança
como dinâmica e criativa. Agenciar, nesse sentido, é articular saberes,
instituições, sujeitos e práticas em torno de objetivos compartilhados. Paremos
para pensar como seria valioso um modelo de governança em que, ao invés de
modelos rígidos, tratássemos de promover composições flexíveis que respondessem
às demandas locais sem perder de vista o projeto público da educação. Conselhos
escolares atuantes, fóruns municipais de educação, pactuações
intergovernamentais e redes colaborativas entre escolas são exemplos de
dispositivos que poderiam produzir novos arranjos institucionais capazes de
fortalecer o Estado em sua tarefa pública.
Esses
agenciamentos não enfraquecem o Estado; ao contrário, ampliam sua potência. Por
que essa ressalva é importante? Os modelos de governança herdados da Nova
Gestão Pública, típica do modelo governamental predominante no capitalismo
neoliberal, apresentavam como tendência a responsabilização individual dos
atores públicos (premiando seu desempenho ou produzindo sanções em resposta ao
seu fracasso). Entendemos que o momento atual é favorável para um
reenquadramento do debate sobre a governança: apostando em um Estado que
escuta, que compartilha decisões e que constrói políticas com a sociedade. Um
Estado mais robusto porque sustenta sua autoridade na confiança pública, como
bem salienta a última obra da filósofa Victória Camps. A governança
democrática, assim, não se confunde com a diluição da responsabilidade estatal,
mas com sua qualificação. Ao articular diferentes níveis de governo e promover
cooperação federativa, as políticas educacionais podem reduzir desigualdades
regionais e assegurar padrões mínimos de qualidade, reafirmando a educação como
direito social.
Em ano
de disputa eleitoral, a importância desses mecanismos se intensifica. O risco
de instrumentalização da educação para fins partidários, de simplificação de
debates complexos e de circulação de desinformação exige instituições
educacionais protegidas por processos democráticos sólidos. Aqui entra nosso
argumento central: radicalizar a importância da governança democrática
significa insistir na centralidade de espaços deliberativos, na autonomia
político-pedagógica das instituições escolares e na valorização de critérios
públicos e transparentes para formulação e avaliação de políticas.
Radicalizar,
aqui, não é extremar posições, mas aprofundar compromissos. É afirmar que a
escola não pertence a um governo, mas à comunidade política; que as políticas
educacionais devem ser orientadas por princípios constitucionais e por pactos
sociais duradouros; que decisões precisam ser justificadas publicamente e
submetidas ao escrutínio social. Em tempos de permanentes antagonismos, a
estabilidade institucional e a confiança tornam-se bens preciosos (mais uma vez
dialogando com a filósofa).
Com
Victória Camps, aprendemos que a confiança pública, como dimensão ética da vida
coletiva, pode ser elemento central para a governança democrática. Ela não se
impõe por decreto, mas se constrói pela coerência entre discurso e prática,
pela previsibilidade das regras e pelo reconhecimento mútuo entre os sujeitos.
Quando famílias e estudantes percebem que as decisões educacionais são tomadas
com base em critérios justos, participativos e orientados ao bem comum,
fortalecem-se os vínculos que sustentam a legitimidade do Estado.
A vida
em comum, por sua vez, não é simples coexistência, mas prática cotidiana de
convivência orientada por valores compartilhados. A escola é um dos primeiros
lugares em que crianças e jovens experimentam concretamente o que significa
participar de uma comunidade plural. A governança democrática, ao incorporar
mecanismos de deliberação e participação, educa para a democracia ao mesmo
tempo em que a pratica, isto é, o modo como se decide no interior das políticas
educacionais também é, em si, formativo.
Essa
perspectiva dialoga com a compreensão de que as virtudes públicas — como
responsabilidade, respeito, solidariedade e prudência — precisam ser cultivadas
institucionalmente. A ética da responsabilidade pública exige governantes e
gestores comprometidos com o interesse coletivo, mas também cidadãos dispostos
a participar e a reconhecer a legitimidade das decisões compartilhadas. A
democracia não é apenas um arranjo procedimental; é uma cultura que se aprende
e se exercita. Sob lógica, então, vale a pena destacar que fortalecer
mecanismos de governança democrática nas políticas educacionais significa
investir na formação de uma cultura institucional baseada na cooperação e na
corresponsabilidade.
Em
síntese, a governança democrática nas políticas educacionais pode ser uma
condição para o Estado cumprir sua tarefa pública de garantir o direito à
educação com qualidade e justiça social. Ao promover novos agenciamentos entre
Estado e sociedade, ela amplia a capacidade institucional de responder a
desafios complexos e de sustentar projetos educacionais de longo prazo. Em ano
eleitoral, reafirmar e aprofundar esses mecanismos é gesto de responsabilidade
histórica: trata-se de proteger a escola como espaço de vida em comum, de
reconstruir a confiança pública e de consolidar a educação como bem
compartilhado por todos.
Fonte:
Por Roberto Rafael Dias da Silva, em Outras Palavras

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