O
que a Reforma Sanitária ensina ao Brasil
Em um
mês de março, há 40 anos, acontecia um evento que mudaria os rumos da vida
política e social brasileira. Não simplesmente por ter dado as bases para o que
viria a ser o Sistema Único de Saúde (SUS) – o que já seria extraordinário. Mas
a 8ª Conferência Nacional de Saúde, que aconteceu em Brasília entre os dias 18
e 21 de março de 1986, conseguiu ir além. Mostrou que mesmo em tempos brutos é
possível construir força política para ensejar grandes mudanças.
A
história da Reforma Sanitária não é conhecida pelos brasileiros. Pouco se conta
sobre como foi possível criar um sistema de saúde dessas proporções. Quase
ninguém sabe que seu projeto era ainda mais ousado, mas começou a ser
dinamitado logo a partir de seu nascimento, porque “a saúde como direito de
todos e dever do Estado” entrava na Constituição no mesmo momento em que o
Brasil abria-se ao neoliberalismo.
Essa
história – e suas contradições – começa a ser descrita e debatida pelo Outra
Saúde a partir de agora. No ano em que seu grande marco, a 8ª Conferência
Nacional de Saúde (carinhosamente conhecida como Oitava), faz quatro décadas,
queremos resgatar seu espírito de criação coletiva e participação popular e
investigar o que ela tem a dizer ao Brasil de 2026. Seu ímpeto e sua
criatividade têm muito a ensinar em um ano como este.
Há 40
anos, o Brasil se preparava para desenhar uma nova Constituição, após um duro
período de ditadura militar. A 8ª Conferência Nacional de Saúde foi convocada
em meio a esse processo e a uma grande ebulição social. Sérgio Arouca,
sanitarista que havia liderado nos anos anteriores a luta pela Reforma
Sanitária e estava no posto de presidente da Fiocruz, foi uma figura chave
nesse momento. Foi sua a grande ideia de transformar a conferência, que até
então era um encontro de gestores e burocratas, em uma grande assembleia
popular.
Arouca
percebeu que se deixasse para a estrutura governamental da época comandar o
processo de elaboração de um novo sistema de saúde, os movimentos sociais
jamais teriam capacidade de enfrentar o establishment do Instituto Nacional de
Assistência Médica da Previdência Social (Inamps), já fortemente ligado à saúde
privada. Era preciso abrir a Conferência a uma participação popular muito
ampla. Conta-se que o ministro da Saúde à época, Carlos Sant’Anna, teria
perguntado a Arouca: “Mas quem vai ser o louco que vai coordenar isso?” – ouviu
como resposta: “Eu!”.
Essa
ousadia permitiu que os pensadores e sanitaristas, aliados aos setores
populares e sindicatos – e a força organizativa dos partidos de esquerda, com
especial protagonismo dos comunistas –, formulassem um projeto para um sistema
de saúde público e universal. A ideia de direito à saúde e as concepções que
percebiam-na como responsabilidade do Estado, e não dos indivíduos, estavam
sendo debatidas intensamente desde a fundação do Cebes (Centro de Estudos
Brasileiros de Saúde), e foram fortalecidas com a criação da Abrasco
(Associação Brasileira de Saúde Coletiva), ambas no final dos anos 1970. Suas
construções teóricas encontraram eco em movimentos sociais pelo Brasil, que
buscavam formas de garantir saúde para todos.
Em
diálogo com a redação do Outra Saúde para a construção desse projeto, a
cientista política Sonia Fleury, pensadora de destaque da Reforma Sanitária até
hoje, contou sobre o clima daquele encontro. “Um momento catártico de formação
de vontade política” – mais importante, em sua visão, do que o relatório que
saiu dali de fato. Também presente na conversa, Paulo Amarante, um dos líderes
da posterior Reforma Psiquiátrica, lembra que o próprio Sérgio Arouca tinha uma
percepção parecida: “Ele dizia que muita gente criticava a forma como se deu a
8ª Conferência, ‘muito bate-boca, boa parte não sai do papel’. Arouca
respondia: o importante é construir uma massa crítica, um movimento, um debate.
A ideia da consciência sanitária na população”.
O
Sistema Único de Saúde foi parar na lei. Mas não haveria este SUS sem um
pensamento teórico inovador aliado a uma base popular disposta a lutar pela
reforma na Saúde – e que clamava por reformas mais amplas. Hoje, mesmo que o
SUS não tenha concretizado seu projeto por completo, o Brasil tem um sistema de
saúde universal. A fatia mais empobrecida da população tem acesso a cuidados.
As estruturas de participação social seguem existindo. Todos podem se vacinar
sem pagar. Há medicamentos gratuitos para certos tipos de doenças. Uma pessoa
rica não fura a fila de um transplante simplesmente por ter mais recursos.
Essas conquistas se devem aos pilares que foram construídos naquele período
histórico, que teve a 8ª Conferência como marco.
O que
veio depois? Por que, a despeito de tudo isso, o acesso à saúde no Brasil
continua tão desigual? Como o setor privado encontrou tanto espaço para se
infiltrar? O que os convênios de assistência médica têm a ver com isso? Por que
o país não produz mais a maior parte dos medicamentos e insumos médicos que
consome? Como explicar a exaustão dos trabalhadores da saúde, e uma crescente
precarização? Por que há tantas filas? O que fazer, diante dos novos desafios
postos pela crise ambiental? As tecnologias digitais servirão para ampliar o
acesso à saúde ou para privatizá-la ainda mais? São questões que se levantam
nesta celebração dos 40 anos da 8ª Conferência que propõe o Outra Saúde – e que
nos empenharemos para encontrar respostas.
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Nova fase da luta social pela Saúde
Desde o
ano passado, Outra Saúde mantém uma parceria com o Instituto de Comunicação e
Informação Científica e Tecnológica em Saúde, o Icict, da Fiocruz. Proposto
também por Sérgio Arouca, ele nasceu no mesmo 1986, meses após a Conferência.
Em meio às comemorações das quatro décadas da unidade, realizaremos o primeiro
encontro com debates, depoimentos e celebração da Oitava. Ele acontecerá no
Rio, no período de dois dias, ainda neste primeiro semestre – mais detalhes
serão divulgados em breve.
Esse
primeiro encontro se encerra com um acontecimento especial: o lançamento da 2ª
Conferência Nacional Livre Democrática e Popular de Saúde. Organizada pela
Frente pela Vida, esta é a segunda edição de um encontro que é compreendido
como uma das grandes inovações recentes em relação à participação social do
SUS.
A
Conferência Livre aconteceu pela primeira vez em 2022, e organizou os
movimentos sociais da saúde em torno de um projeto comum para a reconstrução do
sistema de saúde pós-pandemia e pós-Bolsonaro. Foi também uma força
mobilizadora em torno da candidatura de Lula. Naquele dia, o presidente pode
testemunhar que havia base social para a defesa do SUS – o que se refletiu
notavelmente nas construções feitas durante o governo de transição e na
reformulação do Ministério da Saúde.
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O que propomos
Estamos
preparando uma série de reportagens que serão publicadas ao longo do próximo
ano. Elas servirão para olharmos ao presente e ao futuro, inspirados pelo que
foi a Reforma Sanitária. Para 2026, elegemos três temas principais para
analisar, refletir e formular: (1) financiamento; (2) indústria; (3)
trabalhadores. É um primeiro passo.
Outra
Saúde articula-se também para que, depois deste primeiro encontro, aconteçam
mais eventos, em outras cidades do Brasil (aceitamos propostas!). Nossa ideia é
ouvir as pessoas que estiveram presentes na 8ª Conferência, dialogar com
analistas daquele processo histórico e refletir sobre sua importância. Mas
sobretudo pensar e imaginar coletivamente como ela pode servir de exemplo para
o Brasil de hoje.
Fonte:
Por Gabriela Leite, em Outra Saúde

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