Em
defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 de
março de 2026 é o Dia da Bibliotecária e Bibliotecário. O governo do presidente
Lula, recentemente, atualizou o programa Minha Casa, Minha Vida. Uma das
novidades que o presidente anunciou, entre as qualificações que visam promover
o acesso a direitos fundamentais, foi a criação de Bibliotecas Comunitárias nas
novas unidades do programa habitacional. Em uma mídia de divulgação do governo
federal, pode-se ver o conceito que rege esses espaços: salas com paredes e
mobiliários brancos, uma estante e alguns poucos livros. Evidentemente, o foco
do programa é criar habitações que ofereçam progressivamente melhor qualidade
de vida a pessoas de baixa renda; e não a criação de dispositivos culturais.
Mas há, entretanto, uma importante discussão que pode ser feita sobre a visão
dos governos Lula e da esquerda, em grande medida. Para ir direto ao ponto: as
Bibliotecas são, quando muito, elementos secundários, dadas pouca importância,
e simbolicamente passivos, quase estático, onde pouco acontece, onde falam poucas
vozes. Nesse sentido, são um espaço de lazer insosso e sem vida.
Todo
dia 12 de março comemoramos o dos trabalhadores bibliotecários. A data é uma
lembrança a Manuel Bastos Tigre, nordestino que viveu a virada do século XX,
primeiro Bibliotecário concursado do Brasil. Engenheiro de profissão, Bastos
Tigre foi aos Estados Unidos especializar-se, e lá conheceu o então
bibliotecário-chefe da Universidade de Columbia, Melvil Dewey. Retornando desse
importante encontro, eventualmente tornou-se Bibliotecário do Museu Nacional.
Esse seu mentor, entretanto, é de especial interesse para nós. Ele criou, como
fruto de seu trabalho, um Sistema de Classificação — isto é, uma maneira de
organizar livros — que acabou por se tornar o método mais utilizado pelas
Bibliotecas no Mundo: até mesmo na Índia, país de outro cânone da área de organização.
Esta constatação já dá apresenta pedaço do problema: nesse caso, do contexto de
imperialismo e colonialismo que envolve as Bibliotecas. Seja por esse fato do
domínio estadunidense, seja pelo sistema de Dewey carregar essencialmente a
forma de pensar de um homem branco do ocidente.
Isso já
é suficiente para colocar o problema e voltarmos a relacioná-lo com o problema
inicial. Ainda mais no contexto altamente contraditório em que vivemos; de um
lado o desenvolvimento das chamadas “Inteligências Artificiais” – IA; de outro,
as escolas sem biblioteca funcionando. A Biblioteconomia é política.
As
bibliotecas estão atravessadas pela política — seja pela questão do letramento,
memória e verdade, ou direito à cultura — e quem as faz também deve ser
político. Se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao papel
estratégico das Bibliotecas no desenvolvimento cultural, educacional,
científico e econômico do Brasil. Se proibimos ou deixamos de incentivar sua
existência, nos tornamos uma nação sem memória, sem capacidade de ler o
presente, e sem possibilidades de Futuro. Sem o fator fundamental, o ser
humano, os bibliotecários e trabalhadores de bibliotecas, não há bibliotecas.
Sem eles, não há um intermediário entre o livro, a informação que seja, e o
usuário; sem uma sustentação em tripé, as dinâmicas culturais desmoronam sobre
si.
Nessa
empreitada, as bibliotecas tomam outra dimensão, para além de maçantes salas
com livros. Por isso dizemos que a “Biblioteconomia é política”, não é neutra.
Mas mais do que isso, é necessário levar a cabo tudo isso e defender a
materialidade dessa afirmação. Defender as bibliotecas, hoje, é defender
principalmente as pessoas que nela trabalham. E, hoje, se entender pessoa
bibliotecária dentro desse escopo perpassa por uma reflexão crítica da formação
acadêmica nas universidades e da atuação conjunta enquanto categoria. O mito da
neutralidade bibliotecária é perverso nesse sentido, ele divide uma categoria
que já é nucleada quase que por definição. Por isso mesmo uma articulação
bibliotecária nacional: nossos locais de trabalho são campos sígnicos, que
refletem e projetam o sistema epistêmico de nossa sociedade. As bibliotecas do
Minha Casa, Minha Vida, então, têm o potencial de serem dispositivos de
formação do pensamento crítico. Mas para isso, os bibliotecários e todos
aqueles que valorizam a interculturalidade e a criticidade devem defender
bibliotecas cada vez melhores, que reflitam nosso projeto de país.
Fonte:
Por Felipe Sanches, em A Terra é Redonda

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