Gilberto
Lopes: Políticas de cortes de gastos
Parece
que sobram divisas na Costa Rica. Há mais de dois anos que o colón não para de
valorizar-se frente ao dólar. Embora o Banco Central atribua a abundância de
moeda estrangeira à transformação produtiva e ao sucesso do modelo exportador,
economistas destacados sugerem uma visão diferente.
Norberto
Zúñiga, consultor da empresa Ecoanálisis, e Fernando Naranjo, ex-ministro da
fazenda e presidente da empresa Conselheiros Econômicos e Financeiros (CEFSA),
citados pelo CRHoy, defendem que a valorização do colón se deve principalmente
ao endividamento externo do governo nos últimos anos.
Não se
trataria de grandes mudanças no investimento estrangeiro direto (IED), cujos
níveis foram semelhantes em 2024 e 2025. O aumento das reservas monetárias
internacionais, afirmou Norberto Zúñiga, é quase totalmente explicado nesses
anos pelo financiamento externo líquido obtido pelo Ministério da Fazenda.
Fernando
Naranjo concorda com a ideia de que o aumento do endividamento externo foi um
dos principais responsáveis pela queda da taxa de câmbio. Na opinião dele, as
emissões de três bilhões de eurobônus em 2023 geraram um excesso de dólares no
mercado local, ao que se somaram mais duas emissões, na casa dos bilhões, em
novembro de 2025 e janeiro de 2026, com altas taxas de juros.
A maior
oferta de dólares não é resultado de um aumento das exportações – as
exportações do regime definitivo cresceram apenas entre 1% e 1,5% no ano
passado, disse Fernando Naranjo –, nem de investimentos estrangeiros diretos ou
do turismo, mas do endividamento.
O
resultado é que a dívida do governo atingiu 60,4% do PIB em dezembro passado,
de acordo com dados do Ministério da Fazenda, o que permite ao governo congelar
os salários dos funcionários em 2027, aplicando a “regra fiscal” aprovada
durante o governo do PAC, de Carlos Alvarado.
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As “regras fiscais” da União Europeia são uma farsa
Não há
uma razão científica sequer que permita garantir que a manutenção de déficits
fiscais inferiores a 3% do PIB, ou 60% no caso da dívida pública, implicará uma
redução da dívida ou uma reativação da atividade econômica. “Pelo contrário, o
que acontece é exatamente o oposto, pois o gasto público é fundamental para
realizar investimentos fora do alcance da iniciativa privada”, alertou o
economista espanhol Juan Torres López.
Professor
de economia aplicada na Universidade de Sevilha e membro do Conselho Científico
da Attac Espanha (uma organização “contra a ditadura dos mercados e a
especulação financeira”), Juan Torres López volta ao tema, vez ou outra, em sua
página “Ganas de escribir”. Há alguns anos, antes de sua aposentadoria, fui
entrevistá-lo em Sevilha e, desde então, volto ocasionalmente às suas páginas.
Com o
Tratado de Maastricht (de fevereiro de 1992) – diz Juan Torres López –, foram
estabelecidas essas regras fiscais na União Europeia (UE): os déficits públicos
não deveriam ultrapassar 3% do PIB, nem a dívida pública 60%.
Durante
a crise que começou em 2007, a disciplina fiscal baseada em ambos os critérios
foi reforçada. Tratava-se, como disse a então chanceler alemã, a conservadora
Angela Merkel, de colocar um cadeado, de garantir que “nenhum Parlamento
pudesse alterá-las”.
A
desculpa foi que a redução da dívida era imprescindível e que isso só poderia
ser obtido pela diminuição do gasto público e dos déficits. A realidade mostrou
que a disciplina fiscal, em vez de diminuir, aumentou, contrariamente ao que se
afirmava após o corte do gasto público.
Carmen
Reinhart, economista de origem cubana e professora de Harvard sobre dívida
soberana, e Kenneth Rogoff, também professor de Harvard sobre dívida,
publicaram, em 2011, os resultados de uma análise de oito séculos de história
financeira, que os levou a concluir que, se a dívida ultrapassasse 60% do PIB
nos países emergentes e 90% nos mais avançados, o crescimento econômico se
deterioraria.
Uma
tese que se popularizou em todo o mundo para justificar as políticas de cortes
de gastos com as quais se prometia a redução da dívida. Alguns meses depois,
Thomas Herndon, Michael Ash e Robert Polin publicaram, no Cambridge Journal of
Economics, em março de 2014, uma crítica ao trabalho de seus colegas de
Harvard. A base de dados com a qual trabalharam continha erros e omissões
importantes, sem os quais seria impossível chegar à conclusão a que chegaram.
“Não há
qualquer fundamento científico ou empírico para limitar o crescimento da dívida
a 60% do PIB”, afirma diz Juan Torres López. Não há absolutamente nenhuma prova
que permita afirmar que essa porcentagem é mais conveniente do que 30%, 100% ou
qualquer outra.
Por
acaso a economia europeia como um todo tem um desempenho melhor e é mais
competitiva do que a dos Estados Unidos por ter uma porcentagem de dívida
pública muito mais baixa, de 100% do PIB na zona do euro e 93% na UE, contra
134% nos EUA?, questiona.
Critério
semelhante é expresso por Philipp Heimberger e Anna Matzner, economistas do
Instituto de Estudos Econômicos Internacionais de Viena (WIIW), que afirmam que
a consolidação fiscal tem efeitos contracionistas ao longo do ciclo econômico.
Num artigo publicado em fevereiro passado – “Fiscal Consolidation Costs Europe
Jobs and Deepens Inequality” –, eles afirmam que os resultados de seus estudos
mostram que o ajuste fiscal desacelera muito mais a economia em fases de
recessão do que em períodos de expansão.
A
conclusão é que garantir que mais dívida pública implica menor crescimento
econômico “foi um fiasco”, diz Juan Torres López.
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Não funciona lá, funcionará aqui?
A esta
altura, qualquer pessoa inteligente fará a mesma pergunta: se as autoridades
europeias realmente desejam diminuir a dívida e aumentar a atividade econômica,
por que insistem em tomar medidas de disciplina fiscal cujo efeito evidente, e
que ninguém pode negar, tem sido o contrário?
Naturalmente,
devemos fazer a mesma pergunta aqui. A “regra fiscal”, que congela os salários
públicos quando a dívida ultrapassa 60% do PIB, só serviu para uma deterioração
notável dos serviços públicos e para a fuga de profissionais qualificados, da
área da saúde e do ensino superior, entre outras.
Contribuiu
também para o empobrecimento de setores da população dependentes dos salários
públicos e provocou uma crescente disparidade social, que alimenta o negócio
das drogas ilícitas e do narcotráfico, especialmente entre os jovens e nas
zonas marginais do país.
Na
Costa Rica, essas políticas – com as quais sonhavam os setores neoliberais mais
radicais – foram impulsionadas por um partido que surgiu do que parecia ser o
esgotamento das medidas de privatização e ajuste fiscal, ao qual, na época, se
juntou uma certa esquerda. Mas que, uma vez no poder, se aliou aos grupos mais
conservadores, que as impulsionaram governando sob uma relativa sombra, entre
2018 e 2022, durante o governo de Alvarado.
Políticas
que o atual governo de Rodrigo Chaves, cujo mandato termina em maio próximo,
continuou aprofundando, tendo conseguido eleger sua candidata, Laura Fernández,
com uma ampla maioria, para liderar o governo nos próximos quatro anos. Não há
qualquer razão para pensar que seu programa adotará uma orientação diferente.
Um dos
resultados dessas políticas, como apontou Fernando Naranjo em artigo publicado
no dia 16 de dezembro – “Do passo de jaguar ao ritmo de tartaruga” –, é que a
economia costarriquenha, em sua parte doméstica, onde se concentra
aproximadamente 85% da produção nacional, excluindo as exportações das zonas
francas, cresceu nos anos anteriores cerca de 4,7%. No ano passado (2024),
cresceu 3% e, no que vai do ano atual (2025), “com dificuldade chegará a 2,3%”.
“Não só
a atividade econômica diminuiu”, acrescenta, “como a criação de empregos se
transformou numa redução de postos de trabalho para cinquenta mil pessoas”.
Mais
grave é a situação do desemprego juvenil. Em novembro de 2025, a taxa de
desemprego do setor atingiu 17,6%, em comparação com uma taxa de desemprego
total de 6,6%. “Em 2010, de acordo com dados oficiais, havia 313.903 jovens
trabalhando ativamente. Em novembro de 2025, o número caiu para 191.198, ou
seja, 115.640 postos de trabalho a menos. Em 15 anos, o país não gerou novos
empregos para os jovens”, conclui Fernando Naranjo.
Apesar
dessa realidade, a oposição insiste em sua campanha contra os maus modos do
presidente, contra seus desafios aos outros poderes do Estado, contra seus
ataques aos partidos tradicionais, sem que essa crítica consiga permear uma
opinião pública cansada dos enganos do passado recente e dos resultados de pelo
menos 40 anos de um neoliberalismo que foi demolindo os alicerces do Estado
Social, construído desde meados do século passado na Costa Rica, com especial
sucesso.
Parece
cada vez mais evidente que apenas um redirecionamento da política da oposição,
no sentido de criticar as medidas mais radicais do modelo neoliberal, permitirá
reorganizar o cenário político e enfrentar a nova onda que virá com o governo
de Laura Fernández.
• Contraste entre lulismos. Por Fernando
Nogueira da Costa
Vou
contrastar o lulismo 2003–2010 com o de 2023–2026, além de o confrontar com o
discurso econômico do bolsonarismo. Vou abrir as duas trilhas com foco
explícito na “gramática política” – não só em resultados socioeconômicos.
Na
comparação entre os lulismos, ambos adotam a mesma política social ativa, mas
com outra gramática. No lulismo 2003–2010, a gramática era da ascensão. Não era
só crescimento com inclusão. Era uma narrativa de passagem de classe ou
mobilidade social.
A
estrutura discursiva era “ontem tinha exclusão, fome, invisibilidade, hoje tem
emprego, consumo, carteira assinada, amanhã terá classe média de renda, diploma
universitário, casa própria, viagem de avião”. Os elementos-chave dessa
gramática era emprego formal como eixo organizador da vida, crédito como ponte
para o futuro (não como armadilha), consumo popular como sinal de dignidade,
Estado como alavanca, não como “socorro”.
O Bolsa
Família funcionava como porta de entrada, não como destino. O subtexto era
“você está subindo junto com o país”. Isso criava lealdade política, não apenas
aprovação administrativa.
No
lulismo 2023–2026, a gramática é da recomposição. Agora, o ponto de partida foi
outro: terra arrasada e mundo pior. Estrutura discursiva atual é “ontem, no
período 2019-2022, tinha destruição institucional, fome, caos, hoje tem
reconstrução, normalização, credibilidade, amanhã…” Está indefinido ou técnico
demais.
O
problema da gramática atual está na ênfase em responsabilidade fiscal,
reconstrução institucional, diálogo com o mercado. Trata-se de uma linguagem de
contenção, não de transformação.
Mesmo
quando os resultados são bons com queda do desemprego, crescimento do PIB acima
do esperado, inflação abaixo do teto da meta irrealista, redução da pobreza e
da desigualdade, tudo isso não vira narrativa mobilizadora. O subtexto
percebido por muitos é “o governo está evitando o pior” – e não “o país está
indo para algum lugar”.
Em
contraste com o discurso econômico do bolsonarismo está o ponto decisivo. O
bolsonarismo é capaz de iludir muitos mesmo sem entregar economia, porque
entrega sentido. A economia no bolsonarismo é secundária. Ela não organiza o
discurso. Ela é subordinada a três eixos morais: ordem, costumes, identidade.
O
discurso implícito é “pode estar difícil, mas agora com a extrema direita o
país tem valores.” A gramática bolsonarista, mesmo sendo contraditória e
simplória, é clara. “O Estado é inimigo (exceto polícia e militares)”. “A
inflação não é culpa do governo, é importada do mundo”. “A pobreza é resultado
de preguiça ou corrupção passada”. “O mercado é moralmente superior”.
O
sofrimento vira prova de caráter. A economia vira um rito de sacrifício moral:
“estamos sofrendo hoje para salvar o país”.
Por
qual razão isso poderá colar na mente de quase metade do eleitorado, mesmo com
maus resultados econômicos e sociais? Porque oferece culpados claros (esquerda,
STF, imprensa, minorias), simplifica o mundo, transforma frustração material em
identidade moral.
Enquanto
a direita discursa com esses maus modos, a esquerda responde com dados, séries
históricas e explicações estruturais. São verdadeiras, mas frias para cativar
um eleitorado em busca de esperança.
O ponto
cego atual da esquerda, inclusive lulista, é ela ganhar no PIB, ganhar no
emprego, ganhar na redução da pobreza, mas perder na pergunta fundamental:
“para onde estamos indo?”.
Sem uma
“gramática de futuro”, o conservadorismo preenche o vazio, a pauta moral domina
e os resultados econômicos viram detalhe técnico.
Em uma
síntese dura, mas honesta, para a esquerda preparar um novo discurso eleitoral,
deve considerar o seguinte. O lulismo clássico organizava esperança material. O
lulismo atual organiza contenção institucional. O bolsonarismo organiza sentido
moral, mesmo no desastre.
Em
política eleitoral, não se vence só com bons resultados econômicos e sociais.
Vence-se quando esses resultados fazem parte de uma história compartilhada.
O
significado de “traduzir política econômica em linguagem de dignidade” não é
mudar o conteúdo da política. É mudar o regime de sentido no qual ela é
apresentada, vivida e reconhecida.
Em vez
de política como correção técnica de falhas, o desafio é passar a política como
restituição de valor social às pessoas comuns. Isso se faz em cinco movimentos
combinados.
O
primeiro é nomear o sofrimento como injustiça, não como vulnerabilidade. O
segundo passo é mostrar a política como reconhecimento, não como favor.
Terceiro movimento é conectar economia ao cotidiano moral das pessoas. Quarto
movimento é devolver agência sem culpar o indivíduo.
Por
fim, cabe usar uma gramática de pertencimento, não de polarização abstrata. A
linguagem tecnocrática fala em eficiência, equilíbrio, credibilidade. A
linguagem de dignidade fala em pertencer ao país, ser respeitado como
trabalhador, ter futuro aqui.
Não é
moralismo conservador. É moralidade cívica. Dignidade é sentir “este país foi
feito também para gente como eu”.
Portanto,
traduzir política econômica em linguagem de dignidade é: trocar pena por
respeito; trocar número por experiência; trocar favor por reconhecimento;
trocar gestão por sentido coletivo. Onde a política econômica devolve nome,
valor e pertencimento, ela deixa de ser técnica distante e passa a ser
experiência compartilhada de justiça.
A
esquerda defende, corretamente, direitos. Porém, está com dificuldade de
reconstruir uma narrativa integradora, capaz de unir classes, regiões e
culturas em um futuro planejado e compartilhado com esperança de todos os
eleitores.
Para a
esquerda recuperar essa gramática não se trata de apenas repetir o
desenvolvimentismo de outrora. É atualizar a lógica de pertencimento: a
necessidade emocional e psicológica humana de se sentir parte integrante,
aceito e valorizado em um grupo, ambiente ou comunidade, como família, amigos
ou trabalho. No caso, em uma comunidade nacional.
Deve
voltar a falar de futuro, não só de proteção. Transição energética pode ser
apresentada como projeto nacional. Infraestrutura social (cuidados com idosos,
saúde, educação) ser visto como motor econômico. Tecnologia e Inteligência
artificial serem parte de política pública, não só iniciativas de mercado. Não
é “gasto social”, é investimento civilizatório. Política deve ser apresentada
como é: ação coletiva.
Fonte:
A Terra é Redonda

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