Resistência
e dissuasão: a estratégia de alto risco do Irã para a guerra
A
postura militar do Irã em um conflito crescente
com Israel e os Estados Unidos sugere que o
país não está lutando por vitória em um sentido convencional. Está lutando pela
sobrevivência — e por sobreviver em seus próprios termos.
Os
líderes e comandantes da república islâmica vêm se
preparando para esse momento há anos.
Eles
sabiam que suas ambições regionais poderiam eventualmente provocar um confronto
direto com Israel ou com os EUA, e que uma guerra com um provavelmente atrairia
o outro. Esse padrão ficou evidente na Guerra de 12 Dias em junho de
2025, quando Israel atacou primeiro e os EUA se juntaram dias depois.
Na
atual rodada de combates, os dois lançaram ataques contra o Irã
simultaneamente.
Dada a
superioridade tecnológica, as capacidades de inteligência e o avançado
equipamento militar dos EUA e de Israel, seria ingenuidade achar que os
estrategistas iranianos estivessem planejando uma vitória direta no campo de
batalha.
Em vez
disso, o Irã parece ter construído uma estratégia baseada em dissuasão e
resistência. Na última década, o país investiu fortemente em mísseis
balísticos, drones de longo alcance e em uma rede de grupos armados aliados em
toda a região.
O Irã
também entende as suas próprias limitações: o território continental dos EUA
está fora de alcance, mas as bases americanas espalhadas pela região —
especialmente em países árabes vizinhos — não estão fora de alcance. Já Israel
está bem dentro do alcance de mísseis e drones iranianos, e conflitos recentes
demonstraram que os seus sistemas de defesa aérea podem ser penetrados. Cada
projétil que atravessa esses sistemas carrega não apenas peso militar, mas
também psicológico.
O
cálculo do Irã também se baseia, em parte, na economia da guerra. Os
interceptadores usados por Israel e pelos EUA são muito mais caros do que
muitos dos drones e mísseis empregados pelo Irã. Um conflito prolongado obriga
os EUA e Israel a gastar recursos de alto custo para interceptar ameaças
comparativamente baratas.
A
energia é outra alavanca na economia da guerra.
O Estreito de Ormuz continua sendo
um dos pontos de estrangulamento mais críticos do mundo para o transporte de
petróleo e gás. O Irã não precisa fechar completamente essa estreita via
marítima do Golfo. Mesmo ameaças críveis e interrupções limitadas já elevaram
os preços e, se continuarem, podem aumentar a pressão internacional por uma
desescalada do conflito.
Nesse
sentido, a escalada se torna uma ferramenta voltada não necessariamente para
derrotar militarmente os adversários do Irã, mas para elevar o custo de
continuar a guerra.
Isso
nos leva aos ataques contra países vizinhos.
Ataques
com mísseis e drones contra países como Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait,
Omã e Iraque parecem ter sido concebidos para sinalizar que abrigar forças dos
EUA traz riscos.
O Irã
pode esperar que esses governos pressionem os EUA a limitar ou interromper as
operações, mas essa é uma aposta perigosa. Expandir ainda mais os ataques corre
o risco de endurecer a hostilidade desses países e empurrá-los com mais firmeza
para o campo EUA–Israel.
As
consequências de longo prazo podem durar mais que a própria guerra, remodelando
os alinhamentos regionais de formas que deixariam o Irã mais isolado.
Se a
sobrevivência é o objetivo principal, então ampliar o círculo de inimigos é um
passo de alto risco. Ainda assim, do ponto de vista do Irã, a contenção pode
parecer igualmente arriscada se for interpretada como sinal de fraqueza.
Relatos
de que comandantes locais podem estar selecionando alvos ou lançando mísseis
com relativa autonomia levantam novas questões.
Se
confirmada, essa situação não indicaria necessariamente o colapso das
estruturas de comando. A doutrina militar iraniana, especialmente dentro da
Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, há muito incorpora elementos
descentralizados para garantir continuidade sob ataques intensos.
Redes
de comunicação são vulneráveis à interceptação e ao bloqueio. Comandantes de
alto escalão têm sido alvo de ataques. A superioridade aérea dos EUA e de
Israel limita a supervisão central. Nessas condições, listas de alvos
previamente autorizadas e delegação de autoridade para lançamentos podem ser
medidas deliberadas contra uma "decapitação" da liderança.
Essa
estrutura pode explicar como as forças iranianas continuaram operando após a
morte de figuras importantes da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã e mesmo
após a morte do Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, nos ataques
iniciais conduzidos por EUA e Israel no sábado (28/2).
Mas a
descentralização também traz riscos. Comandantes locais atuando com informações
incompletas podem atingir alvos não intencionais, incluindo Estados vizinhos
que buscavam manter neutralidade.
A
ausência de um quadro operacional unificado aumenta a probabilidade de erros de
cálculo. Se isso se prolongar, também pode resultar na perda de comando e
controle.
Em
última análise, a abordagem do Irã parece se basear na crença de que o país
pode suportar punições por um tempo maior do que o tempo que seus adversários
estariam dispostos a suportar os danos e custos da guerra.
Se for
esse o caso, trata-se de uma forma de escalada calculada: resistir, retaliar,
evitar o colapso total e esperar que surjam fissuras políticas do outro lado.
Ainda
assim, a resistência tem limites. Os estoques de mísseis são limitados e as
linhas de produção estão constantemente sob ataque. Os lançadores móveis são
atingidos em movimento e substituí-los leva tempo.
A mesma
lógica se aplica aos adversários do Irã.
Israel
não conseguiu confiar completamente em seus sistemas de defesa aérea. Cada
brecha amplia a ansiedade pública. Os EUA precisam pesar a escalada regional, a
volatilidade do mercado de energia e o custo financeiro de operações
prolongadas.
Ambos
os lados parecem supor que o tempo está a seu favor. Os dois não podem estar
certos.
Nesta
guerra, a república islâmica não precisa de triunfo. Ela precisa permanecer de
pé.
Resta
saber se esse objetivo é alcançável, sem alienar permanentemente seus vizinhos.
¨ Irã: a força para dar
fim ao dia mais longo da história
Talvez,
com os ataques terroristas de Trump e Netanyahu contra a República Islâmica do Irã na madrugada de
28 de fevereiro, tenha começado, enfim, a terminar o dia mais longo da
história.
Porque
poucas vezes na história um dia durou tanto quanto aquele que começou em 7 de
outubro de 2023, com os ataques teledirigidos pelo Mossad — uma armadilha na qual o
Hamas caiu
ingenuamente, acreditando atacar posições do ocupante sionista em territórios
palestinos, quando na verdade soltava as mãos de Netanyahu para que, a partir
de então, após a suposta Tormenta de al-Aqsa, o Exército de Israel iniciasse a
campanha mais sanguinária de que o mundo tem memória desde a Guerra do Vietnã.
O
Estado sionista conseguiu exterminar milhares de habitantes de Gaza e demolir
inteira e para sempre a ideia de uma Palestina livre. Também estabeleceu como
normalidade que um dos exércitos mais poderosos do mundo ataque uma população
civil durante mais de 870 dias, assassinando não apenas pelo fogo de suas armas
de última geração ou pelo peso dos escombros que caíam sobre famílias inteiras
que se encontravam na “segurança de seus lares” quando foram bombardeadas, mas
também — e, se não me engano, uma verdadeira novidade para os tempos modernos —
expressamente pela fome, pelo frio e pela falta de atenção médica. Desse modo,
prolongou o sofrimento ao máximo possível, para que a dor se torne pele e sirva
de escarmento a qualquer um que ouse resistir à vontade do “povo eleito”.
Desde
aquele 7 de outubro, Israel recebeu dos Estados Unidos, de Deus e do consenso
internacional tudo o que quis: inicialmente, impunidade para exterminar Gaza e
a Cisjordânia, e depois, submeter a Síria, colocando em sua
presidência um de seus agentes, Abu Mohammad al-Golani, que observa impávido de
Damasco como, a cada dia, as tropas sionistas anexam mais e mais território
sírio sem que a ninguém sequer ocorra perguntar: até quando, até quanto?
Outro
de seus anseios também lhe foi concedido: exterminar a cúpula do Hezbollah,
começando nada menos que por seu mítico líder, Hasan Nasrallah, o que permitiu
a desarticulação da organização, reduzindo-a a um mínimo poder de fogo — ainda
que, nos últimos dias, tenha voltado a atacar posições sionistas no norte da
Palestina ocupada.
Esses
ataques deram pretexto, mais uma vez, a Netanyahu para atacar
indiscriminadamente o povo libanês, somando mais baixas civis e terminando de
dar forma à anexação daquele país, cuja última fase havia começado em setembro
de 2024.
É nesse
contexto que não causaram espanto as palavras do embaixador dos Estados Unidos
em Israel, Mike Huckabee, quando, em um programa jornalístico — no qual o
diplomata, aparentemente, não estava bêbado nem drogado, mas, pelo contrário,
parecia muito sereno e reflexivo — disse ao atônito Tucker Carlson, um de seus
agentes midiáticos: “Por mandato bíblico, Israel tem o direito de se expandir
do Nilo até o Eufrates, abrangendo territórios de países vizinhos”. Isso é algo
que não sei se o mandato bíblico diz, mas que os sionistas afirmam desde 1886,
quando ainda faltavam três anos para o nascimento de Adolfo Hitler — argumento
que acabaria por lhes oferecer o grande pretexto para que mereçam tudo.
Assim,
já vemos a Palestina apagada do mapa; os retalhos que restavam da Cisjordânia
anexados pelos colonos sionistas; e, na Faixa de Gaza, já anunciado um
megaprojeto imobiliário onde, sobre o que foi tumba e martírio de milhões de
palestinos, serão erguidas torres de luxo que aspiram rivalizar com Cannes,
Mônaco e Saint-Tropez. Para o início das obras resta apenas uma incerteza: como
remover os milhões de toneladas de escombros de Gaza, resultado dos
bombardeios, sem que apareçam as centenas de milhares de mortos que ali
ficaram?
Um
Líbano demolido e à beira de ser declarado protetorado sionista; e uma Síria
praticamente anexada, embora ainda se debata entre a ocupação israelense e a
guerra étnica que os mujahidines de al-Golani empreenderam contra as minorias
alauíta, cristã, árabe xiita e drusa — e que os curdos tratem de se dar por
avisados.
Com a
Arábia Saudita, a Jordânia e os emirados do Golfo Pérsico já mergulhados na
imoralidade absoluta, os sionistas se aproximam de algo ainda superior ao sonho
do Eretz Yisra’el Hašlemah, ou a Grande Israel: derrotar o último
vestígio da integridade muçulmana — o Irã. Dessa forma, avançam para ficar com
a totalidade do Oriente Médio enquanto Egito e Turquia deixam acontecer porque,
como dizia Brecht, isso não lhes diz respeito.
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Na intimidade, chama-me petróleo
Grosseiro,
brega e intelectualmente degenerado, chama a atenção que Donald Trump tenha
sido tão sagaz ao justificar seus ataques a nações como Venezuela e Irã — para
citar apenas as mais recentes — afirmando que o faz apenas para derrubar
governos que privam seus cidadãos de bem-estar e liberdade e evitar que ponham
em perigo os Estados Unidos e seus próprios cidadãos. Bem, o mandatário o faz
por essas razões e por outras só conhecidas por ele, Netanyahu e Jeffrey
Epstein (RIP), o schutzhaftlagerführer da Lolita Island — essa
espécie de Guantánamo all inclusive que o Mossad abriu para
fotografar, filmar e gravar ricos e famosos enquanto abusavam de menores e
praticavam canibalismo, entre outras delicadezas da perversão burguesa.
Para
além de qualquer especulação, Estados Unidos e Israel parecem não ter tido
tanta facilidade nos primeiros dias de sua guerra contra a República Islâmica.
Ainda assim, alcançaram um golpe tão efetivo quanto o martírio do aiatolá Ali
Khamenei, de seus familiares diretos e de muitos de seus principais
colaboradores, após a negativa do Líder Supremo de abandonar sua residência e
de ser evacuado para um local seguro. Assim, Khamenei não foi surpreendido: ele
e os seus foram elevados à condição de shahid (mártir), o
primeiro alvo atacado pela coalizão fascista.
Isso é
algo que, a partir do nosso ponto de vista ocidental oportunista e pragmático,
não conseguimos dimensionar, mas que grande parte dos 1,7 bilhão de muçulmanos
certamente compreenderá. Para eles, tratou-se de uma lição única, comovente e
de honra, que mais cedo ou mais tarde desencadeará uma resposta capaz de voltar
a tirar o sono de muitos no Ocidente. Prova disso é o que fizeram, na tarde de
1º de março, os milhares que se mobilizaram para assaltar os consulados
estadunidenses de Bagdá, no Iraque, e os de Karachi e Lahore, no Paquistão —
mesmo sob risco das próprias vidas, já que a repressão em Karachi deixou ao
menos uma dúzia de mortos e 50 feridos. E, conhecendo a firmeza dos muçulmanos
diante de situações como essa, é improvável que se acovardem; ao contrário,
isso fará com que muitos outros saiam pelo mundo para imitá-los. Basta lembrar
Paris em 2015, Bruxelas em 2016, Nice em 2016, Berlim em 2016, Londres e
Manchester em 2017 ou Barcelona em 2017 para compreender o que isso pode
significar.
Enquanto
isso, a própria guerra vem revelando que o Irã se encontra muito mais bem
preparado do que na Guerra dos 12 dias de junho de 2025, quando Tel Aviv havia
errado seus cálculos, obrigando Trump a realizar um resgate de emergência antes
que os danos se tornassem irreparáveis. Entre eles, o fechamento do estreito de
Ormuz que, coordenado com os houthis iemenitas fazendo o mesmo em Bab el-Mandeb
— o estreito que separa o Golfo de Áden do Mar Vermelho — poderia incendiar a
economia mundial.
Até
agora, mesmo examinando o que consegue escapar da censura militar do ente
sionista, das usinas de fake news e desse novo Torquemada da
verdade em que transformaram a IA, o que se percebe é que a resposta de Teerã é
muito mais impressionante do que qualquer especulação prévia. As forças
iranianas conseguiram até mesmo esgotar o supostamente mágico e onipotente Domo
de Ferro e seus sistemas antimísseis multicamadas, atingindo à vontade cidades
israelenses, bases e navios estadunidenses — sobre os quais a censura impede
que se conheçam mais detalhes. Há inclusive um rumor, confirmado e negado
inúmeras vezes, de que o escritório de Netanyahu teria sido atingido; ele
obviamente não se encontrava ali, mas, se for verdade, o fato possui grande
valor simbólico. Ainda assim, nada poderá reparar o assassinato de mais de 150
meninas em uma escola no sul do Irã, atacada nas primeiras horas dos
bombardeios.
Entendamos
bem isto: assim como ocorreu na Venezuela e nos bombardeios contra posições
terroristas na Nigéria em dezembro do ano passado, tudo é feito para levar
“liberdade” e “democracia” a essas nações — embora, cá entre nós, você já saiba
como classificar corretamente essas ações.
Fonte: BBC
News Persa/Rebelión

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