quarta-feira, 11 de março de 2026

José Genoino: o sistema não quer Lula e a eleição deste ano será parecida com a de 2006

José Genoino afirmou que a conjuntura política brasileira entrou em uma fase de confronto em torno da liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da eleição deste ano. Ao analisar o cenário, o ex-presidente nacional do PT e ex-deputado federal disse que a disputa não se limita a episódios isolados da crise política, mas envolve uma ação mais ampla de setores do sistema político, financeiro, judicial e midiático para condicionar ou enfraquecer o papel de Lula.

Em entrevista ao Bom Dia 247, Genoino sustentou que o ambiente atual guarda semelhanças com a eleição presidencial de 2006, quando Lula disputou a reeleição sob forte pressão política durante a crise do mensalão. Na avaliação dele, a ofensiva de agora também busca limitar a força de uma liderança popular que, segundo disse, não é vista como confiável pelos setores dominantes.

“Eu acho que a eleição de 2026 vai ser parecida com a de 2006 que se deu no bojo do mensalão, da crise do mensalão. O que que o sistema queria? Que o Lula renunciasse à condição da reeleição para não ter o impeachment. O que eles não querem é o fortalecimento da liderança popular do Lula. Isso é porque o Lula não é de confiança deles. Esse é o problema”, declarou.

Ao longo da entrevista, Genoino afirmou que o debate político não pode ser reduzido a uma defesa automática das instituições tal como elas funcionam hoje. Segundo ele, a esquerda deve sustentar a defesa da democracia, mas associada a um programa de mudanças nas estruturas de poder. Nesse ponto, citou o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal e o próprio sistema político como alvos de reformas necessárias.

“Nós devemos defender as instituições democráticas, mas com reforma, com mudança. Nós não podemos defender o Congresso do jeito que ele está. Tem que ter mudança nas emendas, tem que ter mudança na relação com o executivo. A mesma coisa do Supremo. Nós devemos defender o papel do Supremo, mas fazendo reforma no Supremo”, afirmou.

Para Genoino, a identificação da esquerda com o funcionamento atual dessas estruturas abre espaço para que a extrema direita tente monopolizar o discurso anti sistema. Por isso, defendeu uma posição que combine defesa institucional com crítica política organizada. “Nós não podemos abraçar dizer assim que nós vamos defender, porque aí a esquerda fica identificada com o sistema e vem uma extrema direita anti sistema e nos coloca em situação difícil, como já aconteceu”, disse.

Na leitura do ex-dirigente petista, a crise em torno de investigações, vazamentos e disputas públicas tem sido usada para atingir politicamente Lula, mesmo quando os fatos não dizem respeito diretamente ao governo. Ele afirmou que há uma tentativa de associar diferentes episódios ao presidente, com o objetivo de produzir desgaste eleitoral e de reduzir sua margem de liderança no debate nacional.

“Existe uma conspiração, porque existe uma ofensiva do sistema e há o sistema midiático, o sistema monopolista, o sistema financeiro que quer desgastar o Lula”, declarou. Em seguida, acrescentou: “Há uma disputa política. Nós não podemos ser ingênuos, temos que ter posição sem ingenuidade”.

Genoino também argumentou que esse movimento ocorre em paralelo à ação da extrema direita e de setores que, segundo ele, atuam por meio da mídia corporativa e de interesses econômicos para enfraquecer Lula antes da disputa eleitoral. “A extrema direita, via mídia corporativa e a velha burguesia liberal querem enfraquecer o papel do Lula em 2026”, afirmou.

Ao relembrar a disputa de 2006, o ex-presidente do PT sugeriu que a principal lição daquele momento foi a capacidade de Lula de transformar um ambiente de crise em afirmação política. Segundo Genoino, essa experiência precisa ser considerada na estratégia do campo governista para este ano, num quadro em que, segundo ele, o sentimento social é de ceticismo e insegurança.

“Numa situação de crise mundial e nacional, nós temos que fazer uma campanha quente”, disse. Para ele, a disputa eleitoral exigirá mais definição política, mais capacidade de mobilização e menos aposta em acordos conduzidos apenas pelas cúpulas. “A campanha terá que ser mais radicalizada, a campanha terá que ser mais politizada”, declarou.

Genoino avaliou ainda que a resposta do PT e das forças de esquerda deve combinar a denúncia do funcionamento do sistema com a apresentação de alternativas concretas para a população. Segundo ele, não basta apenas prestar contas da gestão ou defender realizações administrativas. Será necessário, afirmou, dialogar com expectativas sociais mais amplas e construir uma mensagem política capaz de organizar apoio popular.

“Nós vamos fazer uma campanha, não é para chutar o pau da barraca, nós vamos fazer uma campanha falando do sistema, mas ao mesmo tempo falando da esperança, criticando a podridão do sistema, mas falando que há alternativa”, afirmou. Em outro trecho, reforçou: “O centro da nossa campanha tem que ser a esperança”.

Na entrevista, ele também disse que o partido precisa ter atuação mais incisiva no enfrentamento político. “A bancada do PT tem que ser mais ousada para fazer essa disputa política”, declarou. Para Genoino, caberia a Lula manter uma posição de estadista, enquanto o partido e sua militância responderiam de forma mais direta ao ambiente de confronto.

Ao sintetizar sua visão sobre o momento atual, Genoino afirmou que o país vive uma disputa que ultrapassa fatos episódicos e alcança o próprio desenho das instituições e do processo eleitoral. Na avaliação dele, a tentativa de desgastar Lula se conecta a uma estratégia de tutela política ou de derrota eleitoral, o que exigirá do campo governista uma linha de atuação mais clara diante do sistema que, segundo disse, não aceita plenamente a liderança do presidente.

¨      Investigações ampliam incerteza eleitoral e pressionam favoritismo de Lula, aponta diretor da Eurasia

O avanço de investigações com potencial de atingir diferentes setores da política brasileira pode aumentar a incerteza no cenário eleitoral de 2026 e pressionar o favoritismo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A avaliação é do cientista político Silvio Cascione, diretor da consultoria Eurasia Group e mestre em ciência política pela Universidade de Brasília (UnB).

Em artigo publicado no jornal Estado de S. Paulo, Cascione afirma que a intensificação de apurações recentes pode influenciar o ambiente político ao deslocar o debate público da economia para temas ligados à corrupção e a escândalos políticos.

Segundo ele, o mês de março costuma marcar uma fase decisiva do calendário político em anos eleitorais. “Em ano eleitoral, março é um período de intensa atividade política. É o último mês para trocas partidárias e para que futuros candidatos renunciem aos seus cargos no governo. Muitas alianças serão seladas nas próximas quatro semanas”, escreve.

<><> Investigações dominam o noticiário político

De acordo com o analista, no entanto, o noticiário recente tem sido dominado por investigações que podem alterar o equilíbrio da disputa eleitoral. Entre os fatos citados estão a quebra de sigilo bancário de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, e a prisão do banqueiro Daniel Vorcaro.

Para Cascione, esses episódios aumentam as chances de que as investigações relacionadas ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e ao Banco Master ganhem relevância política. Ele também menciona a chamada Operação Carbono Oculto, que investiga possíveis conexões entre política e crime organizado.

“Ambas aumentam as chances de que as investigações sobre o INSS e o Banco Master desestabilizem um cenário eleitoral ainda muito marcado pelo equilíbrio entre Lula e Bolsonaro”, afirma no texto.

O autor acrescenta que as diferentes apurações em curso têm potencial para atingir atores de diversos campos políticos e institucionais. “Figuras do governo, da oposição e do Judiciário têm sido implicadas, e cada um desses lados tem muito a perder com a investida da Polícia Federal e de órgãos de controle”, escreve.

<><> Risco político maior para o governo

Na avaliação do cientista político, embora as investigações possam afetar diversos atores, o impacto tende a ser mais sensível para quem ocupa o poder.

Cascione observa que o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça pode permitir um ritmo mais acelerado de trabalho nas investigações relacionadas ao Banco Master, o que ampliaria a pressão política no período pré-eleitoral.

“Mas, de janeiro para cá, ficou clara a tendência de que as apurações ganhem mais força. O ministro André Mendonça indica que permitirá um ritmo mais intenso de trabalho no caso Master. Isso representa um risco maior para Lula do que para a oposição”, afirma.

<><> Popularidade e economia sustentam favoritismo

Apesar dos riscos políticos apontados, o diretor da Eurasia Group observa que o presidente ainda mantém vantagem no cenário eleitoral atual.

Segundo ele, Lula aparece como favorito devido a um nível de aprovação considerado relativamente elevado. Cascione cita dados de um banco de dados da IPSOS Public Affairs que reúne mais de 500 eleições em diferentes países.

“Hoje, Lula é o favorito à vitória porque tem uma taxa de aprovação razoável, de 45% em média. De acordo com um banco de dados de mais de 500 eleições, coletado pela IPSOS Public Affairs, governantes com aprovação acima de 40% são reeleitos na maior parte das vezes”, afirma.

De acordo com o analista, essa popularidade está associada ao desempenho econômico recente. Contudo, ele ressalta que escândalos e investigações podem alterar o foco do debate público.

“Mas é mais difícil manter o foco dos eleitores em boas notícias quando histórias de corrupção começam a dominar o noticiário”, escreve.

<><> Caso Lulinha pode pressionar governo

O cientista político também aponta que o caso envolvendo Lulinha pode gerar constrangimentos políticos ao governo, uma vez que obrigaria o presidente a responder sobre o tema em meio à disputa eleitoral.

“O caso de Lulinha é especialmente preocupante para o governo, pois força Lula a dar satisfações sobre o assunto quando ele gostaria de falar em salário mínimo, imposto de renda zero e redução da jornada de trabalho”, afirma.

Ao mesmo tempo, ele observa que a campanha do presidente deve explorar episódios envolvendo aliados da oposição. Segundo Cascione, conexões de Flávio Bolsonaro e aliados com o Banco Master podem se tornar tema de disputa política.

<><> Eleição pode ser decidida por eleitores não alinhados

O artigo também destaca que a eleição de 2026 tende a ser definida por um grupo relativamente pequeno de eleitores que não se identificam fortemente com os principais polos políticos do país.

Segundo Cascione, esse eleitorado não é majoritariamente petista nem bolsonarista e muitas vezes demonstra pouco interesse pela política.

Ele argumenta que, na ausência de uma terceira candidatura competitiva, o ambiente político gerado por investigações e escândalos pode favorecer candidatos da oposição caso o debate público se torne dominado por temas negativos.

<><> Histórico mostra que escândalos não impedem vitória

Por fim, o diretor da Eurasia Group lembra que escândalos políticos nem sempre impedem a vitória eleitoral de governantes. Ele cita o exemplo da eleição de 2014, quando a então presidente Dilma Rousseff foi reeleita em meio a um ambiente de forte tensão política.

“Em 2014, Dilma foi reeleita mesmo após os protestos de 2013 e a eclosão da Lava Jato, e a história pode se repetir com Lula, pelo menos quanto à vitória eleitoral”, escreve.

Ainda assim, ele conclui que o desfecho dependerá do rumo das investigações nos próximos meses.

“Nos próximos meses, teremos mais elementos para entender a profundidade de cada caso e o potencial de dano a Lula ou a Flávio. Porém, se os escândalos deslocarem o debate público dos temas econômicos para a corrupção daqui até outubro, Lula poderá perder sua vantagem sobre Flávio”, afirma.

¨      André Mendonça terá papel central nas eleições de 2026, diz Luís Nassif

O jornalista Luís Nassif afirmou nesta sexta-feira (6) em texto publicado no jornal GGN que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça deverá se tornar um dos principais personagens das eleições de 2026. Segundo o analista, a atuação do magistrado em investigações de grande repercussão política pode influenciar diretamente o ambiente eleitoral.

Nassif sustenta que o papel de Mendonça no inquérito relacionado ao Banco Master evidencia um alinhamento político que, na avaliação dele, tende a repercutir no cenário eleitoral. Para o jornalista, a atuação do ministro não se explica apenas pelo fato de ele ter sido indicado ao Supremo pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

De acordo com Nassif, o caso Banco Master passou a registrar uma série de vazamentos de informações nos últimos dias. Parte dessas divulgações foi atribuída à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, hipótese que o jornalista considera equivocada.

Ele afirma que, logo no início da investigação, a Polícia Federal teria divulgado mensagens extraídas do celular do empresário Daniel Vorcaro. Diante da repercussão, o ministro Dias Toffoli decidiu levar o inquérito ao STF e designar peritos com o objetivo de evitar novos vazamentos.

Na avaliação do jornalista, o episódio reúne características semelhantes às observadas em investigações anteriores de grande impacto político no país. “O caso Master tem tudo para repetir a Lava Jato 1”, escreveu Nassif no texto.

Segundo ele, investigações que envolvem grande número de suspeitos e forte repercussão pública costumam ser conduzidas paralelamente à cobertura jornalística, muitas vezes impulsionada pela divulgação seletiva de informações.

Nassif sustenta que o cenário atual difere do período da Lava Jato porque, desta vez, o protagonista institucional estaria dentro da própria Suprema Corte. Para ele, Mendonça teria responsabilidade direta pelo fluxo de informações que vem sendo divulgado.

O jornalista também observa que políticos ligados ao bolsonarismo e ao Centrão aparecem entre os principais suspeitos no caso Banco Master. Em sua análise, o envio do inquérito ao Congresso teria criado condições para novos vazamentos conforme interesses políticos.

“Firmou-se ali, sem nenhuma sutileza, o pacto que deverá marcar a campanha eleitoral desse ano”, escreveu Nassif.

O texto também menciona questionamentos sobre decisões tomadas durante a investigação, como a quebra de sigilo de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, citada no artigo como um ponto que, segundo o jornalista, exigiria esclarecimentos adicionais.

Ao concluir a análise, Nassif afirma que o Brasil se aproxima de uma eleição decisiva em meio a um ambiente político marcado por disputas institucionais, investigações e forte polarização. Segundo ele, esse conjunto de fatores poderá influenciar de forma significativa o rumo do processo eleitoral de 2026.

 

Fonte: Brasil 247

 

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