quarta-feira, 11 de março de 2026

Trump e o ocaso trágico do homem branco imbrochável

Já está mais do que claro que, no mundo em que vivemos hoje, qualquer tentativa de previsibilidade e antecipação do que pode acontecer na política internacional ou, ainda, qualquer esforço teórico que venha tentar dar contornos de compreensão à realidade apreendida têm sido uma tarefa cada vez mais frustrante. A política global com Donald Trump à frente dos Estados Unidos tem nos colocado desafios não somente acadêmicos, em relação à produção do conhecimento em política internacional, mas, sobretudo, desafios que nos revelam, talvez, o que há de pior em nosso mais profundo imaginário coletivo.

O surgimento de Trump na política não é, infelizmente, uma característica exclusiva do contexto estadunidense. Sua figura política é a de um homem cuja masculinidade se apresenta como invencível e isso, definitivamente, ecoa em outras partes do globo. A começar pela figura de Jair Bolsonaro que, no Brasil, dentre os muitos estragos políticos causados, dentre as muitas crises produzidas, chegou a se apresentar publicamente como “imbrochável”, em cima de um trio elétrico durante o desfile militar em celebração ao bicentenário da Independência, em setembro de 2022.

Não fosse o contexto político da celebração dos duzentos anos da Independência do país, o neologismo “imbrochável”, criado pelo ex-presidente em cima de um trio elétrico, bem poderia ter acontecido em um contexto de carnaval, também com trios elétricos onde “imbrochável” pudesse se tornar refrão de um hit de muito mal gosto que celebra a fantasia em torno de uma virilidade que nunca fracassa.

Que um ex-presidente se afirme como “imbrochável” no aniversário de duzentos anos de independência de um país diz muito sobre o quão dependentes ainda somos das fantasias produzidas em torno do desejo, do prazer, da vitória e da conquista de figuras masculinas. Ao entoar um coro de “imbrochável”, Bolsonaro levou à loucura milhares de homens que também se sentiram, talvez pela primeira vez na vida, respaldados em suas fantasias sexuais. Não é preciso ir muito longe para lembrarmos que foi também Bolsonaro quem presenteou Javier Milei, presidente da Argentina, em um evento voltado ao público da direita e da ultradireita, realizado em Santa Catarina, em 2024, com uma medalha gravada com três “is”, em alusão ao modo como Bolsonaro definiu a si mesmo como o “imbrochável, imorrível e incomível”.

O que une estas três figuras, Trump, Milei e Bolsonaro, é o culto a uma masculinidade hegemônica, que se materializa na política como uma maneira de agir desenfreada, destemida, irresponsável e com um senso de impunidade jamais visto. Quando uma figura política como esta se coloca como “imbrochável, imorrível e incomível” o que ela produz é, no exato momento em que é enunciada, o seu reverso. Figuras como esta produzem aqueles que sim, vão “brochar”, aqueles que sim, vão morrer – como aconteceu na pandemia, em que milhares de pessoas morreram pois eram consideradas “morríveis” por essa mesma figura política – e sim, há aqueles que serão “comidos” – em uma clara e vulgar alusão ao ato sexual que objetifica o outro em posição de passividade.

Para esse tipo de masculinidade, o fracasso não é, definitivamente, uma opção e a conquista, ou melhor, a tomada de corpos e territórios alheios se torna a razão de ser. Não é à toa que começamos o ano de 2026 com os ataques dos EUA na Venezuela, a invasão  do território venezuelano e o sequestro do presidente Nicolás Maduro. Nos dias seguintes à invasão da Venezuela, Trump diz querer tomar a Groelândia, hoje um território semiautônomo de um aliado da Otan, a Dinamarca, sob a justificativa de que navios russos e chineses ao redor da ilha constituem uma ameaça aos EUA. A declaração do presidente causou inúmeras tensões no cenário internacional, e Trump chegou a mobilizar um discurso de ameaça de uso da força militar para tomar o território.

O discurso da iminência da guerra ganhou espaço nos noticiários, na mídia especializada e acionou, de maneira ainda mais acirrada, o medo arraigado do “outro” que nos ameaça, só que agora, este “outro” que pode ser uma ameaça aos interesses europeus – já não se trata do migrante, do refugiado, como figura política que embaralha e rompe com as fronteiras geográficas, políticas e imaginárias de uma nação. Este “outro” que pode ser uma ameaça à Europa é um aliado da OTAN, da qual a própria Europa faz parte. O pânico na esfera internacional tem escalado níveis tão altos que o chefe de Estado Maior da França chegou a recomendar que os franceses começassem a se dispor em colocar os filhos e netos para morrerem na guerra – e Emanuel Macron calou-se. O Reino Unido enviou recomendações sobre como se proteger e se prevenir em casos de guerra, inclusive para hospitais.

Embora os EUA tenha, desde os ataques do 11 de setembro, se apresentado ao mundo como inviolável, nunca o mundo teve tanto medo de um ataque iminente sob qualquer justificativa. Seria possível enumerar muitas diferenças entre as reações políticas dos EUA frente aos ataques de 11 de setembro de 2001 e as reações políticas às ameaças que os próprios EUA produzem agora. Uma delas é que George W. Bush, o filho, em seu discurso logo após os ataques ao World Trade Center, em setembro de 2001, invocou o Ocidente para lutar contra o “mal”, contra o “terrorismo”. Bush fez um apelo à sociedade internacional ocidental para combater o “outro” perigoso, o “outro” terrorista. Trump, em seu discurso no Fórum Econômico Mundial em Davos, em janeiro deste ano, repetiu a fórmula de Bush, fazendo um apelo aos países ocidentais para agirem conjuntamente na defesa da “civilização ocidental”. No entanto, Trump afirmou também que o Ocidente precisa “salvar o homem branco”. Tal é a novidade no modo de se fazer política com figuras como essa. Não basta evocar um grupo do “nós” contra “eles”, é preciso produzir uma ameaça ao homem, e não é qualquer homem que está ameaçado, é o homem branco.

O que Trump revela, em seu discurso em Davos, é justamente o modo como a masculinidade hegemônica, para poder prevalecer e se sustentar, precisa se colocar na posição de estar ameaçada para que, então, possa ser salva. O discurso de Trump evoca a necessidade de uma figura masculina viril, forte, invencível e inabalável para governar o mundo. Tal discurso apelo porque, junto a ele, é produzida a ideia de que essa mesma figura masculina é que está ameaçada. O que faz Trump acordar um belo dia e decidir invadir a Venezuela, sequestrar seu presidente, postar uma nota no X para que todos saibam do seu feito, ou o que lhe permite desejar tomar o território da Groelândia porque acredita que é seu de direito?

Recentemente, em um artigo publicado na revista The Economist, Celso Amorim escreveu que uma das questões mais fundamentais suscitadas pela invasão estadunidense na Venezuela é: como viver num mundo sem regras? Amorim argumenta que o ponto no qual estamos na política internacional é o de abalo generalizado dos pilares do direito internacional construídos para regular a segurança coletiva, gerenciar o comércio internacional e promover os direitos humanos. Afirma também que esse tipo de intervenção militar foi considerado comum na política internacional dos séculos XIX e começo do XX. Tais intervenções só eram possíveis pois não existiam instrumentos legais, mecanismos de arbitragem e, principalmente, a Carta das Nações Unidas, que se baseia no princípio da igualdade soberana entre os Estados e proíbe a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado. Para Amorim, o que estamos vivendo é um retorno ao estado de natureza hobbesiano, no qual o indivíduo vivia em um estado de guerra de todos contra todos, onde o homem era o lobo do homem, a guerra um meio legítimo de mudança e a força militar determinante para a sobrevivência.

Não me parece, no entanto, que estamos retornando a um estado de natureza hobbesiano, até porque tal estado de natureza se refere mais a um constructo abstrato, filosófico, que nos orienta em nossas compreensões do que é viver em comunidade política e seus limites – e menos sobre um suposto momento em que todos deixamos o estado primitivo e entramos num estágio mais avançado, onde a ordem impera e o medo da morte acaba. Não se trata bem de um retorno a um estado de natureza, como argumenta Amorim, e sim um acionar de um estado de presença no mundo que, durante muito tempo, ficou recalcado no inconsciente.

Examinemos o ato de um presidente que sobe no palanque e fala, repetidamente, que é “imbrochável”. Ao fazê-lo, ele aciona no outro o desejo do desejo do outro, em termos hegelianos. Em uma cultura machista e patriarcal, onde ser homem é sinônimo de onipotência, ouvir o desejo de um “macho” ser enunciado diante de outros “machos” é um ato performativo que (re)produz uma masculinidade tóxica, destrutiva e inabalável. Ser reconhecido socialmente como “imbrochável” é a chancela para que os impulsos passionais mais destrutivos sejam liberados. Aí reside o perigo. Ao longo do século XX estivemos empenhados em construir arcabouços legais, jurídicos e institucionais para que fosse possível viver no que se considerou, por muito tempo, como uma sociedade civilizada. Nela, ao contrário do que ocorre no suposto “estado da natureza”, a morte não seria mais um problema, porque ela e seu medo estariam geridos, controlados e depositados sob os domínios de um soberano. Vemos agora que é justamente esse soberano quem evoca o que há de mais violento e nocivo e que foi sendo recalcado em nosso imaginário coletivo ao longo dos pactos políticos que fizemos como sociedade.

Eis que chega um momento em que o soberano acorda e decide rasgar todos os limites institucionais e evocar as paixões humanas mais destruidoras. Afirmar-se como “imbrochável” guarda íntimas relações causais com as intervenções desmedidas e excepcionais que a política internacional tem vivido. Ser “imbrochável” é acordar um belo dia e invadir a Venezuela, é atacar o Irã e bombardear escolas matando mais de cem  meninas. É dizimar a população palestina em um processo de genocídio televisionado. Ser “imbrochável” é, hoje, um ato performativo intrínseco a líderes políticos cuja figura masculina sente-se capaz de fazer o que quiser a despeito do direito internacional.

Segundo o próprio Trump afirmou a repórteres do New York Times, ele não precisa do direito internacional. O presidente deixou claro que ele mesmo seria o árbitro de quando os princípios legais internacionais se aplicariam aos EUA. Trump só faz o que quer, sem nenhum constrangimento da comunidade internacional, não porque estamos voltando a um estado de natureza hobbesiano, mas porque esse estado de natureza é uma construção patriarcal que manteve nosso imaginário político refém da crença de que viver em comunidade política requer uma autoridade paternal, ao mesmo tempo protetora e violadora, ao mesmo tempo que protege (alguns), viola o corpo-território (de outros). É o que ocorre quando a exceção torna-se regra, é sobre a indistinção entre um domínio da ordem, regido por uma soberania, e um domínio da excepcionalidade, em que a ordem é suspensa e tudo é permitido, como propunha Giorgio Agamben.

Trata-se, como tão bem expôs Pedro Paulo Pereira em texto recente, de uma mudança profunda de sensibilidade política, a partir da qual há em jogo um regime de afetos em que a exceção ganha valor e a suspensão do direito torna-se sinônimo de justiça. Como argumenta Pereira, a violência soberana opera como uma tecnologia legítima de recomposição do real e, nesse sentido, os sujeitos políticos, por excelência, são aqueles que funcionam a partir da lógica do comando, suspendendo a norma jurídica como uma técnica ordinária de governo e reinscrevendo a soberania como prática de tomada, nas palavras do autor.

Figuras políticas que se colocam como salvadoras e redentoras produzem o mundo de tal maneira que ele se torna desejável a partir do culto de uma soberania virilizada. Tais figuras performatizam a ideia de que viver em comunidade, hoje, requer virilizar a soberania. Para isso, necessitaríamos de figuras masculinas que sejam viris, fortes e suficientemente inabaláveis para dar conta do recado. Para essa mentalidade patriarcal, que cada vez mais toma conta do modo como se compreende e se vive a política, de nada adianta ir para as mesas de negociação – o que funciona mesmo é, como diz o jargão profundamente machista, “botar o pau na mesa”. É o que Trump tem demonstrado fazer na política internacional. É assim que ele dá o seu recado: é preciso ir para cima, é preciso ir pela força e não fracassar. Quando Bolsonaro foi preso, Trump afirmou não gostar estar perto de perdedores. Isso confirma a lógica por trás da ideia de uma masculinidade hegemônica, invencível e inabalável. Talvez, para Trump, a prisão de Bolsonaro revele que ele não foi tão homem como deveria ter sido. Será que, para Trump, Bolsonaro seria tão “imbrochável” como diz ser?

Se o que a vertente realista da política internacional nos deixa como legado é a máxima de que “os fortes mandam e os fracos obedecem”, como está no diálogo entre os mélios e o atenienses na História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides, o que hoje algumas figuras masculinas de liderança global representam é a ideia de que “os mais viris ditam as regras e os fracos obedecem”. Trump não se deixa constranger por nenhuma regra, por nenhuma norma, por nenhuma lei. A norma é ele quem faz. A norma depende do que ele entende ser a norma. É como lhe foi perguntado recentemente em uma entrevista ao The New York Times sobre se havia algo que pudesse freá-lo. Ao que Trump respondeu que só há uma coisa que pode detê-lo: sua mente, sua própria moralidade. Ou seja, ele é a própria virilização da soberania: uma soberania “imbrochável”.

Não se trata, contudo, de um retorno a uma natureza primitiva, idílica e perigosa. Esta nunca deixou de nos habitar, ela só tem sido acionada em nosso imaginário político, pois em tempos de crise do neoliberalismo, em que as promessas de autonomia e liberdade são colocadas por terra, costumamos recorrer a esse imaginário político cuja figura protagonista é sempre um homem, travestido de pai, igualmente protetor e violador, que surge para redimir os indefesos dos males do mundo. Na reunião em Davos, Trump lamentou que antes de começar a reivindicar o território da Groelândia, seus aliados o chamavam de daddy (papai). Me pergunto se, talvez, seria assim que Trump gostava de ser chamado pelas mulheres e meninas de quem, segundo as denúncias, ele abusou sexualmente. Ser chamado de daddy pelos seus aliados políticos “machos” estaria também nesse registro da fantasia sexual do poder?

Desejar ser chamado de daddy diz muito sobre os tempos que estamos vivendo. Diz, ainda mais, sobre como nosso imaginário político é protagonizado por figuras paternais que prometem a salvação. E o discurso da paternidade salvacionista não é uma exclusividade da direita. Relembro que nas campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva como candidato nas últimas eleições, circulava nas redes sociais um slogan, entre parte considerável da esquerda brasileira, que dizia o papai voltou! ou o pai tá on! Se isso não é um reflexo do acionamento de nossas fantasias de poder mais arraigadas em torno de figuras dotadas de uma autoridade soberana e protetora, estratégia que se assemelha ao lamento de Trump em não ser mais chamado de daddy pelos seus pares, então eu não saberia dizer o que é.

Precisamos nos desvencilhar dessa trama centrada no pai que volta para solucionar os problemas do mundo e da política. Primeiro porque o problema não é algo a ser solucionado por uma ação externa, uma intervenção divina, ao mesmo tempo trágica e redentora, que evoca uma gramática judaico-cristã. Segundo, porque enquanto estivermos condicionados a nos orientar politicamente em torno de uma figura paternal dotada de uma legitimada autoridade soberana, estaremos fadados a esperar sempre o retorno do Messias para dar conta do problema. E temos visto o caos produzido pelos Messias que têm surgido. E terceiro, porque enquanto acreditarmos que a política só é viável mediada pela figura do pai, estaremos reféns da história tomada nas mãos dos “vencedores”. Como já nos alertava Walter Benjamin, é preciso tomar as rédeas da história e fazê-la por nós mesmos, ou estaremos sempre fadados à posição dos vencidos.

Enquanto o papai estiver no comando, continuaremos a ver figuras como a de Trump defendendo que temos que perfurar, sim, a terra e extrair, sim, os recursos energéticos disponíveis para a humanidade. Seguiremos vendo figuras como a dele surgindo na política e entoando seu mesmo mote drill, baby, drill! (perfure, baby, perfure!), mote mobilizado repetidamente por Trump em suas últimas campanhas. Nesta lógica, o que impera é uma soberania virilizada, uma soberania que para se afirmar, precisa perfurar, indiscriminadamente, precisa penetrar (nos múltiplos sentidos semânticos da palavra) corpos-territórios outros, precisa extrair tudo o que for possível. Perfure, baby, perfure! revela o desejo irrefreável de uma masculinidade cujas fantasias sexuais de poder giram em torno, justamente, da penetração de territórios alheios, da penetração não consensual de corpos alheios, fazendo com que, assim, ao penetrarem, tais corpos-territórios se tornem seus.

É esta, na fabulação atual da política internacional, a fantasia que permite a figuras como Trump invadir a Venezuela, o Irã, propor-se a tomar a Groelândia e o que mais for preciso. Nessa lógica, a virilização da soberania se faz necessária. Perfure, baby, perfure! revela que é preciso haver um homem – na acepção mais tóxica, violenta e criminosa possível – que coloque ordem no mundo, guiado por um desejo de autoridade e extração infinita de recursos da terra, próprio da petro-masculinidade, como propõe Cara New Dagget. Perfure, baby, perfure! é a metonímia do poder do pai (ou do daddy) cujos desejos são ancorados no homem fóssil, negacionista, que trata a todos como crianças que devem ser orientadas por quem realmente tem autoridade e sabe o que faz: perfure, baby, perfure!. 

O que temos vivido na política internacional não é somente uma mudança profunda de paradigma no modo como a governança global e as dinâmicas de poder operam. O que vivemos é uma profunda crise de sensibilidade e uma necessidade de produzir, de maneira incessante, figuras hiperviris, fortes, inabaláveis e salvadoras.

Elas vêm em uma dupla chave – tanto a que protege, a que cuida, quanto a que julga, pune, mata, é a autoridade soberana paternal máxima, é o pai que faz o que quer, pois é a autoridade máxima da família, é tanto o que estende a mão quanto o que aperta o gatilho. Nosso choque em relação a como viver em um mundo sem regras diz muito sobre nossas próprias fabulações políticas. Revela que viver em um mundo com regras nunca passou de uma fabulação que garantiu, até certo momento, uma falsa sensação de segurança. Garantida pelo patriarca da família, aquele que detém o monopólio legítimo da força, aquele que tem o braço forte e a mão amiga (como diz o lema do Exército Brasileiro), aquele que faz viver, mas também pode fazer morrer.

Viver em um mundo com Donald Trump nos escancara o modo como a política internacional é uma fábula na qual nos sentimos órfãos de pai e, consequentemente, parecemos sempre estar à sua espera – assim como se espera o Messias, ou um deus ex-machina que, como nas tragédias gregas, vem para expiar e redimir a humanidade de todas as impurezas. A questão é que os males e as impurezas podem ser muitos. O mal é uma figura espectral definida pelo próprio patriarca e ela pode ser o migrante, o refugiado, o terrorista, o comunista etc. Não precisamos de figuras paternas mais docilizadas e humanas. Não precisamos de pai nenhum. O que precisamos é assumir que nós somos o Messias das nossas próprias vidas, que não temos que estar à espera do retorno de nenhum soberano e que é preciso criar outras fabulações para a política internacional – caso  contrário, aparecerão outros tantos pais querendo nos salvar.

 

Fonte: Por Vinícius Santiago, em Outras Palavras

 

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