Trump
e o ocaso trágico do homem branco imbrochável
Já está
mais do que claro que, no mundo em que vivemos hoje, qualquer tentativa de
previsibilidade e antecipação do que pode acontecer na política internacional
ou, ainda, qualquer esforço teórico que venha tentar dar contornos de
compreensão à realidade apreendida têm sido uma tarefa cada vez mais
frustrante. A política global com Donald Trump à frente dos Estados Unidos tem
nos colocado desafios não somente acadêmicos, em relação à produção do
conhecimento em política internacional, mas, sobretudo, desafios que nos
revelam, talvez, o que há de pior em nosso mais profundo imaginário coletivo.
O
surgimento de Trump na política não é, infelizmente, uma característica
exclusiva do contexto estadunidense. Sua figura política é a de um homem cuja
masculinidade se apresenta como invencível e isso, definitivamente, ecoa em
outras partes do globo. A começar pela figura de Jair Bolsonaro que, no Brasil,
dentre os muitos estragos políticos causados, dentre as muitas crises
produzidas, chegou a se apresentar publicamente como “imbrochável”, em cima de
um trio elétrico durante o desfile militar em celebração ao bicentenário da
Independência, em setembro de 2022.
Não
fosse o contexto político da celebração dos duzentos anos da Independência do
país, o neologismo “imbrochável”, criado pelo ex-presidente em cima de um trio
elétrico, bem poderia ter acontecido em um contexto de carnaval, também com
trios elétricos onde “imbrochável” pudesse se tornar refrão de um hit de muito
mal gosto que celebra a fantasia em torno de uma virilidade que nunca fracassa.
Que um
ex-presidente se afirme como “imbrochável” no aniversário de duzentos anos de
independência de um país diz muito sobre o quão dependentes ainda somos das
fantasias produzidas em torno do desejo, do prazer, da vitória e da conquista
de figuras masculinas. Ao entoar um coro de “imbrochável”, Bolsonaro levou à
loucura milhares de homens que também se sentiram, talvez pela primeira vez na
vida, respaldados em suas fantasias sexuais. Não é preciso ir muito longe para
lembrarmos que foi também Bolsonaro quem presenteou Javier Milei, presidente da
Argentina, em um evento voltado ao público da direita e da ultradireita,
realizado em Santa Catarina, em 2024, com uma medalha gravada com três “is”, em
alusão ao modo como Bolsonaro definiu a si mesmo como o “imbrochável, imorrível
e incomível”.
O que
une estas três figuras, Trump, Milei e Bolsonaro, é o culto a uma masculinidade
hegemônica, que se materializa na política como uma maneira de agir
desenfreada, destemida, irresponsável e com um senso de impunidade jamais
visto. Quando uma figura política como esta se coloca como “imbrochável,
imorrível e incomível” o que ela produz é, no exato momento em que é enunciada,
o seu reverso. Figuras como esta produzem aqueles que sim, vão “brochar”,
aqueles que sim, vão morrer – como aconteceu na pandemia, em que milhares de
pessoas morreram pois eram consideradas “morríveis” por essa mesma figura
política – e sim, há aqueles que serão “comidos” – em uma clara e vulgar alusão
ao ato sexual que objetifica o outro em posição de passividade.
Para
esse tipo de masculinidade, o fracasso não é, definitivamente, uma opção e a
conquista, ou melhor, a tomada de corpos e territórios alheios se torna a razão
de ser. Não é à toa que começamos o ano de 2026 com os ataques dos EUA na
Venezuela, a invasão do território
venezuelano e o sequestro do presidente Nicolás Maduro. Nos dias seguintes à
invasão da Venezuela, Trump diz querer tomar a Groelândia, hoje um território
semiautônomo de um aliado da Otan, a Dinamarca, sob a justificativa de que
navios russos e chineses ao redor da ilha constituem uma ameaça aos EUA. A
declaração do presidente causou inúmeras tensões no cenário internacional, e
Trump chegou a mobilizar um discurso de ameaça de uso da força militar para
tomar o território.
O
discurso da iminência da guerra ganhou espaço nos noticiários, na mídia
especializada e acionou, de maneira ainda mais acirrada, o medo arraigado do
“outro” que nos ameaça, só que agora, este “outro” que pode ser uma ameaça aos
interesses europeus – já não se trata do migrante, do refugiado, como figura
política que embaralha e rompe com as fronteiras geográficas, políticas e
imaginárias de uma nação. Este “outro” que pode ser uma ameaça à Europa é um
aliado da OTAN, da qual a própria Europa faz parte. O pânico na esfera
internacional tem escalado níveis tão altos que o chefe de Estado Maior da
França chegou a recomendar que os franceses começassem a se dispor em colocar
os filhos e netos para morrerem na guerra – e Emanuel Macron calou-se. O Reino
Unido enviou recomendações sobre como se proteger e se prevenir em casos de
guerra, inclusive para hospitais.
Embora
os EUA tenha, desde os ataques do 11 de setembro, se apresentado ao mundo como
inviolável, nunca o mundo teve tanto medo de um ataque iminente sob qualquer
justificativa. Seria possível enumerar muitas diferenças entre as reações
políticas dos EUA frente aos ataques de 11 de setembro de 2001 e as reações
políticas às ameaças que os próprios EUA produzem agora. Uma delas é que George
W. Bush, o filho, em seu discurso logo após os ataques ao World Trade Center,
em setembro de 2001, invocou o Ocidente para lutar contra o “mal”, contra o
“terrorismo”. Bush fez um apelo à sociedade internacional ocidental para
combater o “outro” perigoso, o “outro” terrorista. Trump, em seu discurso no
Fórum Econômico Mundial em Davos, em janeiro deste ano, repetiu a fórmula de
Bush, fazendo um apelo aos países ocidentais para agirem conjuntamente na
defesa da “civilização ocidental”. No entanto, Trump afirmou também que o
Ocidente precisa “salvar o homem branco”. Tal é a novidade no modo de se fazer
política com figuras como essa. Não basta evocar um grupo do “nós” contra
“eles”, é preciso produzir uma ameaça ao homem, e não é qualquer homem que está
ameaçado, é o homem branco.
O que
Trump revela, em seu discurso em Davos, é justamente o modo como a
masculinidade hegemônica, para poder prevalecer e se sustentar, precisa se
colocar na posição de estar ameaçada para que, então, possa ser salva. O
discurso de Trump evoca a necessidade de uma figura masculina viril, forte,
invencível e inabalável para governar o mundo. Tal discurso apelo porque, junto
a ele, é produzida a ideia de que essa mesma figura masculina é que está
ameaçada. O que faz Trump acordar um belo dia e decidir invadir a Venezuela,
sequestrar seu presidente, postar uma nota no X para que todos saibam do seu
feito, ou o que lhe permite desejar tomar o território da Groelândia porque
acredita que é seu de direito?
Recentemente,
em um artigo publicado na revista The Economist, Celso Amorim escreveu que uma
das questões mais fundamentais suscitadas pela invasão estadunidense na
Venezuela é: como viver num mundo sem regras? Amorim argumenta que o ponto no
qual estamos na política internacional é o de abalo generalizado dos pilares do
direito internacional construídos para regular a segurança coletiva, gerenciar
o comércio internacional e promover os direitos humanos. Afirma também que esse
tipo de intervenção militar foi considerado comum na política internacional dos
séculos XIX e começo do XX. Tais intervenções só eram possíveis pois não
existiam instrumentos legais, mecanismos de arbitragem e, principalmente, a
Carta das Nações Unidas, que se baseia no princípio da igualdade soberana entre
os Estados e proíbe a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial
ou a independência política de qualquer Estado. Para Amorim, o que estamos
vivendo é um retorno ao estado de natureza hobbesiano, no qual o indivíduo vivia
em um estado de guerra de todos contra todos, onde o homem era o lobo do homem,
a guerra um meio legítimo de mudança e a força militar determinante para a
sobrevivência.
Não me
parece, no entanto, que estamos retornando a um estado de natureza hobbesiano,
até porque tal estado de natureza se refere mais a um constructo abstrato,
filosófico, que nos orienta em nossas compreensões do que é viver em comunidade
política e seus limites – e menos sobre um suposto momento em que todos
deixamos o estado primitivo e entramos num estágio mais avançado, onde a ordem
impera e o medo da morte acaba. Não se trata bem de um retorno a um estado de
natureza, como argumenta Amorim, e sim um acionar de um estado de presença no
mundo que, durante muito tempo, ficou recalcado no inconsciente.
Examinemos
o ato de um presidente que sobe no palanque e fala, repetidamente, que é
“imbrochável”. Ao fazê-lo, ele aciona no outro o desejo do desejo do outro, em
termos hegelianos. Em uma cultura machista e patriarcal, onde ser homem é
sinônimo de onipotência, ouvir o desejo de um “macho” ser enunciado diante de
outros “machos” é um ato performativo que (re)produz uma masculinidade tóxica,
destrutiva e inabalável. Ser reconhecido socialmente como “imbrochável” é a
chancela para que os impulsos passionais mais destrutivos sejam liberados. Aí
reside o perigo. Ao longo do século XX estivemos empenhados em construir
arcabouços legais, jurídicos e institucionais para que fosse possível viver no
que se considerou, por muito tempo, como uma sociedade civilizada. Nela, ao
contrário do que ocorre no suposto “estado da natureza”, a morte não seria mais
um problema, porque ela e seu medo estariam geridos, controlados e depositados
sob os domínios de um soberano. Vemos agora que é justamente esse soberano quem
evoca o que há de mais violento e nocivo e que foi sendo recalcado em nosso
imaginário coletivo ao longo dos pactos políticos que fizemos como sociedade.
Eis que
chega um momento em que o soberano acorda e decide rasgar todos os limites
institucionais e evocar as paixões humanas mais destruidoras. Afirmar-se como
“imbrochável” guarda íntimas relações causais com as intervenções desmedidas e
excepcionais que a política internacional tem vivido. Ser “imbrochável” é
acordar um belo dia e invadir a Venezuela, é atacar o Irã e bombardear escolas
matando mais de cem meninas. É dizimar a
população palestina em um processo de genocídio televisionado. Ser “imbrochável”
é, hoje, um ato performativo intrínseco a líderes políticos cuja figura
masculina sente-se capaz de fazer o que quiser a despeito do direito
internacional.
Segundo
o próprio Trump afirmou a repórteres do New York Times, ele não precisa do
direito internacional. O presidente deixou claro que ele mesmo seria o árbitro
de quando os princípios legais internacionais se aplicariam aos EUA. Trump só
faz o que quer, sem nenhum constrangimento da comunidade internacional, não
porque estamos voltando a um estado de natureza hobbesiano, mas porque esse
estado de natureza é uma construção patriarcal que manteve nosso imaginário
político refém da crença de que viver em comunidade política requer uma
autoridade paternal, ao mesmo tempo protetora e violadora, ao mesmo tempo que
protege (alguns), viola o corpo-território (de outros). É o que ocorre quando a
exceção torna-se regra, é sobre a indistinção entre um domínio da ordem, regido
por uma soberania, e um domínio da excepcionalidade, em que a ordem é suspensa
e tudo é permitido, como propunha Giorgio Agamben.
Trata-se,
como tão bem expôs Pedro Paulo Pereira em texto recente, de uma mudança
profunda de sensibilidade política, a partir da qual há em jogo um regime de
afetos em que a exceção ganha valor e a suspensão do direito torna-se sinônimo
de justiça. Como argumenta Pereira, a violência soberana opera como uma
tecnologia legítima de recomposição do real e, nesse sentido, os sujeitos
políticos, por excelência, são aqueles que funcionam a partir da lógica do
comando, suspendendo a norma jurídica como uma técnica ordinária de governo e
reinscrevendo a soberania como prática de tomada, nas palavras do autor.
Figuras
políticas que se colocam como salvadoras e redentoras produzem o mundo de tal
maneira que ele se torna desejável a partir do culto de uma soberania
virilizada. Tais figuras performatizam a ideia de que viver em comunidade,
hoje, requer virilizar a soberania. Para isso, necessitaríamos de figuras
masculinas que sejam viris, fortes e suficientemente inabaláveis para dar conta
do recado. Para essa mentalidade patriarcal, que cada vez mais toma conta do
modo como se compreende e se vive a política, de nada adianta ir para as mesas
de negociação – o que funciona mesmo é, como diz o jargão profundamente
machista, “botar o pau na mesa”. É o que Trump tem demonstrado fazer na
política internacional. É assim que ele dá o seu recado: é preciso ir para
cima, é preciso ir pela força e não fracassar. Quando Bolsonaro foi preso,
Trump afirmou não gostar estar perto de perdedores. Isso confirma a lógica por
trás da ideia de uma masculinidade hegemônica, invencível e inabalável. Talvez,
para Trump, a prisão de Bolsonaro revele que ele não foi tão homem como deveria
ter sido. Será que, para Trump, Bolsonaro seria tão “imbrochável” como diz ser?
Se o
que a vertente realista da política internacional nos deixa como legado é a
máxima de que “os fortes mandam e os fracos obedecem”, como está no diálogo
entre os mélios e o atenienses na História da Guerra do Peloponeso, de
Tucídides, o que hoje algumas figuras masculinas de liderança global
representam é a ideia de que “os mais viris ditam as regras e os fracos
obedecem”. Trump não se deixa constranger por nenhuma regra, por nenhuma norma,
por nenhuma lei. A norma é ele quem faz. A norma depende do que ele entende ser
a norma. É como lhe foi perguntado recentemente em uma entrevista ao The New
York Times sobre se havia algo que pudesse freá-lo. Ao que Trump respondeu que
só há uma coisa que pode detê-lo: sua mente, sua própria moralidade. Ou seja,
ele é a própria virilização da soberania: uma soberania “imbrochável”.
Não se
trata, contudo, de um retorno a uma natureza primitiva, idílica e perigosa.
Esta nunca deixou de nos habitar, ela só tem sido acionada em nosso imaginário
político, pois em tempos de crise do neoliberalismo, em que as promessas de
autonomia e liberdade são colocadas por terra, costumamos recorrer a esse
imaginário político cuja figura protagonista é sempre um homem, travestido de
pai, igualmente protetor e violador, que surge para redimir os indefesos dos
males do mundo. Na reunião em Davos, Trump lamentou que antes de começar a
reivindicar o território da Groelândia, seus aliados o chamavam de daddy
(papai). Me pergunto se, talvez, seria assim que Trump gostava de ser chamado
pelas mulheres e meninas de quem, segundo as denúncias, ele abusou sexualmente.
Ser chamado de daddy pelos seus aliados políticos “machos” estaria também nesse
registro da fantasia sexual do poder?
Desejar
ser chamado de daddy diz muito sobre os tempos que estamos vivendo. Diz, ainda
mais, sobre como nosso imaginário político é protagonizado por figuras
paternais que prometem a salvação. E o discurso da paternidade salvacionista
não é uma exclusividade da direita. Relembro que nas campanhas do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva como candidato nas últimas eleições, circulava nas
redes sociais um slogan, entre parte considerável da esquerda brasileira, que
dizia o papai voltou! ou o pai tá on! Se isso não é um reflexo do acionamento
de nossas fantasias de poder mais arraigadas em torno de figuras dotadas de uma
autoridade soberana e protetora, estratégia que se assemelha ao lamento de
Trump em não ser mais chamado de daddy pelos seus pares, então eu não saberia
dizer o que é.
Precisamos
nos desvencilhar dessa trama centrada no pai que volta para solucionar os
problemas do mundo e da política. Primeiro porque o problema não é algo a ser
solucionado por uma ação externa, uma intervenção divina, ao mesmo tempo
trágica e redentora, que evoca uma gramática judaico-cristã. Segundo, porque
enquanto estivermos condicionados a nos orientar politicamente em torno de uma
figura paternal dotada de uma legitimada autoridade soberana, estaremos fadados
a esperar sempre o retorno do Messias para dar conta do problema. E temos visto
o caos produzido pelos Messias que têm surgido. E terceiro, porque enquanto
acreditarmos que a política só é viável mediada pela figura do pai, estaremos
reféns da história tomada nas mãos dos “vencedores”. Como já nos alertava
Walter Benjamin, é preciso tomar as rédeas da história e fazê-la por nós
mesmos, ou estaremos sempre fadados à posição dos vencidos.
Enquanto
o papai estiver no comando, continuaremos a ver figuras como a de Trump
defendendo que temos que perfurar, sim, a terra e extrair, sim, os recursos
energéticos disponíveis para a humanidade. Seguiremos vendo figuras como a dele
surgindo na política e entoando seu mesmo mote drill, baby, drill! (perfure,
baby, perfure!), mote mobilizado repetidamente por Trump em suas últimas
campanhas. Nesta lógica, o que impera é uma soberania virilizada, uma soberania
que para se afirmar, precisa perfurar, indiscriminadamente, precisa penetrar
(nos múltiplos sentidos semânticos da palavra) corpos-territórios outros,
precisa extrair tudo o que for possível. Perfure, baby, perfure! revela o
desejo irrefreável de uma masculinidade cujas fantasias sexuais de poder giram
em torno, justamente, da penetração de territórios alheios, da penetração não
consensual de corpos alheios, fazendo com que, assim, ao penetrarem, tais
corpos-territórios se tornem seus.
É esta,
na fabulação atual da política internacional, a fantasia que permite a figuras
como Trump invadir a Venezuela, o Irã, propor-se a tomar a Groelândia e o que
mais for preciso. Nessa lógica, a virilização da soberania se faz necessária.
Perfure, baby, perfure! revela que é preciso haver um homem – na acepção mais
tóxica, violenta e criminosa possível – que coloque ordem no mundo, guiado por
um desejo de autoridade e extração infinita de recursos da terra, próprio da
petro-masculinidade, como propõe Cara New Dagget. Perfure, baby, perfure! é a
metonímia do poder do pai (ou do daddy) cujos desejos são ancorados no homem
fóssil, negacionista, que trata a todos como crianças que devem ser orientadas
por quem realmente tem autoridade e sabe o que faz: perfure, baby,
perfure!.
O que
temos vivido na política internacional não é somente uma mudança profunda de
paradigma no modo como a governança global e as dinâmicas de poder operam. O
que vivemos é uma profunda crise de sensibilidade e uma necessidade de
produzir, de maneira incessante, figuras hiperviris, fortes, inabaláveis e
salvadoras.
Elas
vêm em uma dupla chave – tanto a que protege, a que cuida, quanto a que julga,
pune, mata, é a autoridade soberana paternal máxima, é o pai que faz o que
quer, pois é a autoridade máxima da família, é tanto o que estende a mão quanto
o que aperta o gatilho. Nosso choque em relação a como viver em um mundo sem
regras diz muito sobre nossas próprias fabulações políticas. Revela que viver
em um mundo com regras nunca passou de uma fabulação que garantiu, até certo
momento, uma falsa sensação de segurança. Garantida pelo patriarca da família,
aquele que detém o monopólio legítimo da força, aquele que tem o braço forte e
a mão amiga (como diz o lema do Exército Brasileiro), aquele que faz viver, mas
também pode fazer morrer.
Viver
em um mundo com Donald Trump nos escancara o modo como a política internacional
é uma fábula na qual nos sentimos órfãos de pai e, consequentemente, parecemos
sempre estar à sua espera – assim como se espera o Messias, ou um deus
ex-machina que, como nas tragédias gregas, vem para expiar e redimir a
humanidade de todas as impurezas. A questão é que os males e as impurezas podem
ser muitos. O mal é uma figura espectral definida pelo próprio patriarca e ela
pode ser o migrante, o refugiado, o terrorista, o comunista etc. Não precisamos
de figuras paternas mais docilizadas e humanas. Não precisamos de pai nenhum. O
que precisamos é assumir que nós somos o Messias das nossas próprias vidas, que
não temos que estar à espera do retorno de nenhum soberano e que é preciso
criar outras fabulações para a política internacional – caso contrário, aparecerão outros tantos pais
querendo nos salvar.
Fonte:
Por Vinícius Santiago, em Outras Palavras

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