quarta-feira, 11 de março de 2026

Trabalho e desenvolvimento no Brasil

O doutor Luiz Pereira representa um dos valores mais destacados da nova geração de sociólogos. Impoz-se pela seriedade de seus propósitos, sua dedicação exemplar e intensa ao trabalho e a inteligência que colocou a serviço de uma careira científica ambiciosa.

Importa, sobretudo, salientar o que representa sua contribuição. Todos nós escolhemos um ou dois ângulos para canalizar as nossas carreiras. Luiz Pereira escolheu a educação e os problemas que giram em torno da sociologia das ocupações para encetar a sua carreira científica. E aí já nos deu duas excelentes contribuições: o primeiro estudo sociológico sistemático sobre a escola primária considerada como parte de uma comunidade (PEREIRA, 1960); e um magnífico estudo sobre a situação do professor primário na fase de transição em que estamos vivendo (PEREIRA, 1963).

Os dois estudos possuem uma sólida fundamentação empírica, uma clara visão dos problemas teóricos que podem esclarecer sociologicamente os temas abordados, e uma visão, às vezes implícita, outras vezes explícita, dos dilemas práticos que estamos enfrentando.

Portanto, trata-se de um cientista social que sabe combinar teoria, pesquisa e aplicação, que procura desempenhar, simultaneamente, os papéis que decorrem de sua qualidade de cidadão e de homem do mundo.

Neste trabalho, o professor Luiz Pereira atinge o ápice e, ao mesmo tempo, o término da fase por assim dizer formativa de sua carreira como sociólogo. Este constitui o trabalho mais ambicioso que realizou, aquele no qual se pode avaliar melhor as suas qualidades de intelectual, de cientista e de pensador.

Por todos os títulos, é um trabalho dramático. Mostra-nos uma realidade que muitos teimam em ignorar, que é sombria sob muitos aspectos, e que, de fato, está sucedendo: uma sociedade em que surge um proletariado que não tem condições para tomar consciência de sua situação de classes, organizar-se para defender seus interesses mais profundos e lutar por seu destino.

Em todos os níveis, aparece a propensão incoercitível e intensa de identificar-se e de integrar-se ao “sistema”.

Incapaz de uma tomada de consciência, esse proletarado manifesta-se, ao mesmo tempo, como incapaz de uma opção histórica e atua numa linha de passividade ou de conformismo político.

Como sucede, atualmente, em outros países, em primeiro lugar, o que conta para o proletariado é conseguir uma “posição dentro do sistema” e, em segundo lugar, conquistar uma melhoria progressiva, uma participação num nível de consumo que lhe permita um estalão de vida.

Por outro lado, este trabalho de Luiz Pereira revela o drama em que vive o intelectual brasileiro, principalmente, aquele que labuta na área das ciências sociais.

Refina suas possibilidades de consciência da situação e chega a descrever as coisas, tanto teórica quanto empírica e pragmaticamente, com um avanço que o separa dos seus colegas europeus e norte-americanos.

No entanto, no fim de tudo, essa consciência do intelectual, armada com os recursos mais finos e adequados da ciência moderna, só pode levar a uma clara noção da impotência do intelectual.

A sociedade reluta para criar os quadros de modernização que poderiam acolher e reelaborar tal contribuição. Ela ainda não alcançou um padrão de reação societário que dê sentido ao trabalho intelectual do cientista e ao que ele poderia significar como fator de mudança social construtiva num país em transformação e com tantos dilemas sociais.

Esse ponto merece ser enfatizado, pois, se essa é uma constante geral em relação à maioria dos cientistas sociais de nossos dias, ela aparece de modo agudo na contribuição postiva deste trabalho.

Quero convidá-los a refletir sobre isso, pois aí está o próprio cerne do drama moral e do dilema intelectual em que se acha o sociólogo brasileiro de vanguarda.

Tenho poucos reparos a fazer. Uns possuem alguma importância, outros são, por ventura, inócuos. Mas, cumprindo a minha função, gostaria de apresentá-los ao candidato:

(i) Tenho uma crítica miúda a fazer. Na p. 114, vem transcrito longo excerto de Roberto Simonsen (A evolução industrial do Brasil). Trata-se de uma passagem importante, verdadeiramente pioneira e condensa muitas das novidades em torno das quais se firmaram interpretações dos nossos economistas modernos (inclusive Celso Furtado). Desse ângulo, é uma citação meritória e que faz justiça.

Mas, há nela um trecho que não poderia ser endossado por um sociólogo, referindo-se à crise provocada pela superprodução de café e seus reflexos demográficos, escreve Roberto Simonsen: “A depressão dos preços acarretou violenta baixa dos salários no interior, verificando-se, então, desde 1901, pronunciado afluxo de colonos e imigrantes para as cidades e notadamente para a capital”.

Ora, a expansão das fazendas de café e o crescimento urbano foram quase concomitantes e constituem, nas zonas em prosperidade econômica do Estado de São Paulo, uma tendência bem definida (até diria, um padrão de desenvolvimento socio-econômico).

É provável que os efeitos da depressão acelerassem, momentaneamente, o referido processo. Mas, não o engendraram, nem o modificaram em sua essência na referida conjuntura. O município da capital oferece boa ilustração e o recenseamento de Toledo Piza (1896) revela: Estrangeiros – 71.468 (54,6%); Nacionais – 59.307 (45,4%). Separando-se os brancos nacionais desse conjunto, só os italianos entravam com uma cota superior – 44.854.

Seria prudente corrigir, pois, a interpretação de Roberto Simonsen. Os economistas são propensos a procurar explicações econômicas simples para fenômenos sociais complexos e que, por vezes, condicionam o próprio crescimento econômico.

(ii) No plano teórico, levanto quatro tipos de objeção em face do trabalho: (a) Houve uma espécie de ingurgitamento teórico do programa inicial de pesquisa. Esta foi concebida e centrada, inicialmente, na situação de trabalho. Depois, acabou sendo projetada num contexto teórico demasiado amplo, de desenvolvimento econômico. Como muitos problemas não haviam sido previstos como problemas de pesquisa, sua solução aparece como elocubração de temas tratados por outros especialistas.

O alargamento do contexto teórico, neste sentido, empobreceu uma exploração a fundo e completa dos resultados da pesquisa inicial e ela própria não se beneficiou daquele alargamento;

(b) Há uma contradição insanável entre o sistema de referência teórico adotado e o próprio nível de análise da realidade. O método escolhido foi o dialético; a realidade foi vista através de concomitantes. Em consequência, o que resulta é uma caracterização estrutural-funcional do sistema, esse momento não caracteriza o que é específico e essencial da análise dialética: a abstração das variáveis que explicam a flutação desse padrão, em termos de desenvolvimento e em termos de crise.

Em vista disso, não vejo porque teimar em escolher e apontar como método de interpretação o recurso interpretativo que não foi realmente explorado. Por que não dizer que se trata de uma análise de concomitantes em nível estrutural-funcional e, pois, de análise funcional?

(c) Há um esforço meritório de integração teórica. Mas, ele conduziu o autor por caminhos incongruentes e indefensáveis. Tome-se, por exemplo, a análise da personalidade: personalidade básica capitalista, personalidade-status operária, etc; como outras soluções: sistemas, subsistemas, subsistemas de subsistemas, etc. Quase compete com Talcott Parsons no furor decomposocionista…

Aí aparece um problema real. Abram Kardiner e Ralph Linton levaram em conta sociedades mais ou menos homogêneas; Karl Marx ignorou os elementos comuns na participação da cultura pelas diferentes classes sociais. Todavia, se existe uma personalidade básica capitalista, como explicar os conteúdos e a organização da personalidade do operário em face do empreário ou capitalista?

(d) Na representação da realidade e, em seguida, na interpretação da mesma, o autor trilha caminhos que não me parecem isentos de críticas. Na verdade, todo o seu esforço analítico gira em torno da criação de equivalentes conceituais da realidade. De modo que esta não é vista em si mesma, mas através de categorias abstratas.

Nisso não haveria nenhum mal, embora tal procedimento contamine as possibilidades de uma orientação de cunho histórico-sociológico. O mal reside na falta de uma fundamentação metodológica mais sólida e segura da orientação explorada.

O investigador pode operar com tipos empíricos, do nível da sociologia descritiva, ou com tipos esquemáticos, ao nível de outros campos da sociologia (inclusive no da sociologia histórica ou diferencial).

Portanto, a deficiência metodológica aparece na falta de adequação lógica entre a inteligência interpretativa e a realidade: esta não foi elaborada de forma típica. O que aparece na descrição e na interpretação não é a realidade no estado de pureza empírica, nem a realidade vista dialeticamente (como construção de um tipo extremo). Mas o equivalente da realidade, proposto pelo investigador e visto por ele sob alguns aspectos dinâmicos.

Essa crítica me parece a mais fundamental e a única que atinge profundamente a natureza da contribuição teórica do trabalho.

(e) Acredito que possa fazer, por fim, uma crítica estritamente teórica. Ao que parece, trata-se de descobrir uma correlação (ainda mais no nível teórico histórico) entre trabalho e desenvolvimento capitalista, por assim dizer, que empolga e deforma o agente de trabalho, e que o agente de trabalho acaba plasmado pelo contexto capitalista do sistema.

Ora, e os problemas gerais e específicos: como uma coisa tem influenciado, está influenciando e poderá influenciar a outra? Do ponto de vista teórico, esse era o dado geral de maior importância, que ficou num segundo plano e como implicação por causa da técnica de análise e de exposição.

Essas críticas não excluem nem a minha admiração por Luiz Pereira, nem pelo trabalho. Este não só fica como um esforço pioneiro, ele coloca os problemas que temos de enfrentar numa área de investigações dessa natureza.

Em suma, as críticas não indicam senão divergências. Não se trata de uma investigação frustrada, mas de uma contribuição fundamental, que revela grande maestria, alargando sobremaniera a problemática dos estudos sociológicos do trabalho. Pelas qualidades desta investigação, queria felicitar o autor, a Cadeira de Sociologia I e a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras.

 

Fonte: Por Florestan Fernandes, em A Terra é Redonda

 

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