Trabalho
e desenvolvimento no Brasil
O
doutor Luiz Pereira representa um dos valores mais destacados da nova geração
de sociólogos. Impoz-se pela seriedade de seus propósitos, sua dedicação
exemplar e intensa ao trabalho e a inteligência que colocou a serviço de uma
careira científica ambiciosa.
Importa,
sobretudo, salientar o que representa sua contribuição. Todos nós escolhemos um
ou dois ângulos para canalizar as nossas carreiras. Luiz Pereira escolheu a
educação e os problemas que giram em torno da sociologia das ocupações para
encetar a sua carreira científica. E aí já nos deu duas excelentes
contribuições: o primeiro estudo sociológico sistemático sobre a escola
primária considerada como parte de uma comunidade (PEREIRA, 1960); e um
magnífico estudo sobre a situação do professor primário na fase de transição em
que estamos vivendo (PEREIRA, 1963).
Os dois
estudos possuem uma sólida fundamentação empírica, uma clara visão dos
problemas teóricos que podem esclarecer sociologicamente os temas abordados, e
uma visão, às vezes implícita, outras vezes explícita, dos dilemas práticos que
estamos enfrentando.
Portanto,
trata-se de um cientista social que sabe combinar teoria, pesquisa e aplicação,
que procura desempenhar, simultaneamente, os papéis que decorrem de sua
qualidade de cidadão e de homem do mundo.
Neste
trabalho, o professor Luiz Pereira atinge o ápice e, ao mesmo tempo, o término
da fase por assim dizer formativa de sua carreira como sociólogo. Este
constitui o trabalho mais ambicioso que realizou, aquele no qual se pode
avaliar melhor as suas qualidades de intelectual, de cientista e de pensador.
Por
todos os títulos, é um trabalho dramático. Mostra-nos uma realidade que muitos
teimam em ignorar, que é sombria sob muitos aspectos, e que, de fato, está
sucedendo: uma sociedade em que surge um proletariado que não tem condições
para tomar consciência de sua situação de classes, organizar-se para defender
seus interesses mais profundos e lutar por seu destino.
Em
todos os níveis, aparece a propensão incoercitível e intensa de identificar-se
e de integrar-se ao “sistema”.
Incapaz
de uma tomada de consciência, esse proletarado manifesta-se, ao mesmo tempo,
como incapaz de uma opção histórica e atua numa linha de passividade ou de
conformismo político.
Como
sucede, atualmente, em outros países, em primeiro lugar, o que conta para o
proletariado é conseguir uma “posição dentro do sistema” e, em segundo lugar,
conquistar uma melhoria progressiva, uma participação num nível de consumo que
lhe permita um estalão de vida.
Por
outro lado, este trabalho de Luiz Pereira revela o drama em que vive o
intelectual brasileiro, principalmente, aquele que labuta na área das ciências
sociais.
Refina
suas possibilidades de consciência da situação e chega a descrever as coisas,
tanto teórica quanto empírica e pragmaticamente, com um avanço que o separa dos
seus colegas europeus e norte-americanos.
No
entanto, no fim de tudo, essa consciência do intelectual, armada com os
recursos mais finos e adequados da ciência moderna, só pode levar a uma clara
noção da impotência do intelectual.
A
sociedade reluta para criar os quadros de modernização que poderiam acolher e
reelaborar tal contribuição. Ela ainda não alcançou um padrão de reação
societário que dê sentido ao trabalho intelectual do cientista e ao que ele
poderia significar como fator de mudança social construtiva num país em
transformação e com tantos dilemas sociais.
Esse
ponto merece ser enfatizado, pois, se essa é uma constante geral em relação à
maioria dos cientistas sociais de nossos dias, ela aparece de modo agudo na
contribuição postiva deste trabalho.
Quero
convidá-los a refletir sobre isso, pois aí está o próprio cerne do drama moral
e do dilema intelectual em que se acha o sociólogo brasileiro de vanguarda.
Tenho
poucos reparos a fazer. Uns possuem alguma importância, outros são, por
ventura, inócuos. Mas, cumprindo a minha função, gostaria de apresentá-los ao
candidato:
(i)
Tenho uma crítica miúda a fazer. Na p. 114, vem transcrito longo excerto de
Roberto Simonsen (A evolução industrial do Brasil). Trata-se de uma passagem
importante, verdadeiramente pioneira e condensa muitas das novidades em torno
das quais se firmaram interpretações dos nossos economistas modernos (inclusive
Celso Furtado). Desse ângulo, é uma citação meritória e que faz justiça.
Mas, há
nela um trecho que não poderia ser endossado por um sociólogo, referindo-se à
crise provocada pela superprodução de café e seus reflexos demográficos,
escreve Roberto Simonsen: “A depressão dos preços acarretou violenta baixa dos
salários no interior, verificando-se, então, desde 1901, pronunciado afluxo de
colonos e imigrantes para as cidades e notadamente para a capital”.
Ora, a
expansão das fazendas de café e o crescimento urbano foram quase concomitantes
e constituem, nas zonas em prosperidade econômica do Estado de São Paulo, uma
tendência bem definida (até diria, um padrão de desenvolvimento
socio-econômico).
É
provável que os efeitos da depressão acelerassem, momentaneamente, o referido
processo. Mas, não o engendraram, nem o modificaram em sua essência na referida
conjuntura. O município da capital oferece boa ilustração e o recenseamento de
Toledo Piza (1896) revela: Estrangeiros – 71.468 (54,6%); Nacionais – 59.307
(45,4%). Separando-se os brancos nacionais desse conjunto, só os italianos
entravam com uma cota superior – 44.854.
Seria
prudente corrigir, pois, a interpretação de Roberto Simonsen. Os economistas
são propensos a procurar explicações econômicas simples para fenômenos sociais
complexos e que, por vezes, condicionam o próprio crescimento econômico.
(ii) No
plano teórico, levanto quatro tipos de objeção em face do trabalho: (a) Houve
uma espécie de ingurgitamento teórico do programa inicial de pesquisa. Esta foi
concebida e centrada, inicialmente, na situação de trabalho. Depois, acabou
sendo projetada num contexto teórico demasiado amplo, de desenvolvimento
econômico. Como muitos problemas não haviam sido previstos como problemas de
pesquisa, sua solução aparece como elocubração de temas tratados por outros
especialistas.
O
alargamento do contexto teórico, neste sentido, empobreceu uma exploração a
fundo e completa dos resultados da pesquisa inicial e ela própria não se
beneficiou daquele alargamento;
(b) Há
uma contradição insanável entre o sistema de referência teórico adotado e o
próprio nível de análise da realidade. O método escolhido foi o dialético; a
realidade foi vista através de concomitantes. Em consequência, o que resulta é
uma caracterização estrutural-funcional do sistema, esse momento não
caracteriza o que é específico e essencial da análise dialética: a abstração
das variáveis que explicam a flutação desse padrão, em termos de
desenvolvimento e em termos de crise.
Em
vista disso, não vejo porque teimar em escolher e apontar como método de
interpretação o recurso interpretativo que não foi realmente explorado. Por que
não dizer que se trata de uma análise de concomitantes em nível
estrutural-funcional e, pois, de análise funcional?
(c) Há
um esforço meritório de integração teórica. Mas, ele conduziu o autor por
caminhos incongruentes e indefensáveis. Tome-se, por exemplo, a análise da
personalidade: personalidade básica capitalista, personalidade-status operária,
etc; como outras soluções: sistemas, subsistemas, subsistemas de subsistemas,
etc. Quase compete com Talcott Parsons no furor decomposocionista…
Aí
aparece um problema real. Abram Kardiner e Ralph Linton levaram em conta
sociedades mais ou menos homogêneas; Karl Marx ignorou os elementos comuns na
participação da cultura pelas diferentes classes sociais. Todavia, se existe
uma personalidade básica capitalista, como explicar os conteúdos e a
organização da personalidade do operário em face do empreário ou capitalista?
(d) Na
representação da realidade e, em seguida, na interpretação da mesma, o autor
trilha caminhos que não me parecem isentos de críticas. Na verdade, todo o seu
esforço analítico gira em torno da criação de equivalentes conceituais da
realidade. De modo que esta não é vista em si mesma, mas através de categorias
abstratas.
Nisso
não haveria nenhum mal, embora tal procedimento contamine as possibilidades de
uma orientação de cunho histórico-sociológico. O mal reside na falta de uma
fundamentação metodológica mais sólida e segura da orientação explorada.
O
investigador pode operar com tipos empíricos, do nível da sociologia
descritiva, ou com tipos esquemáticos, ao nível de outros campos da sociologia
(inclusive no da sociologia histórica ou diferencial).
Portanto,
a deficiência metodológica aparece na falta de adequação lógica entre a
inteligência interpretativa e a realidade: esta não foi elaborada de forma
típica. O que aparece na descrição e na interpretação não é a realidade no
estado de pureza empírica, nem a realidade vista dialeticamente (como
construção de um tipo extremo). Mas o equivalente da realidade, proposto pelo
investigador e visto por ele sob alguns aspectos dinâmicos.
Essa
crítica me parece a mais fundamental e a única que atinge profundamente a
natureza da contribuição teórica do trabalho.
(e)
Acredito que possa fazer, por fim, uma crítica estritamente teórica. Ao que
parece, trata-se de descobrir uma correlação (ainda mais no nível teórico
histórico) entre trabalho e desenvolvimento capitalista, por assim dizer, que
empolga e deforma o agente de trabalho, e que o agente de trabalho acaba
plasmado pelo contexto capitalista do sistema.
Ora, e
os problemas gerais e específicos: como uma coisa tem influenciado, está
influenciando e poderá influenciar a outra? Do ponto de vista teórico, esse era
o dado geral de maior importância, que ficou num segundo plano e como
implicação por causa da técnica de análise e de exposição.
Essas
críticas não excluem nem a minha admiração por Luiz Pereira, nem pelo trabalho.
Este não só fica como um esforço pioneiro, ele coloca os problemas que temos de
enfrentar numa área de investigações dessa natureza.
Em
suma, as críticas não indicam senão divergências. Não se trata de uma
investigação frustrada, mas de uma contribuição fundamental, que revela grande
maestria, alargando sobremaniera a problemática dos estudos sociológicos do
trabalho. Pelas qualidades desta investigação, queria felicitar o autor, a
Cadeira de Sociologia I e a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras.
Fonte:
Por Florestan Fernandes, em A Terra é Redonda

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