terça-feira, 10 de março de 2026

Mulheres hétero podem ser consideradas grupo de risco para ISTs? Entenda

O relato recente da atriz Mel Lisboa, 44, reacendeu um debate importante sobre a saúde sexual das mulheres. Em entrevista a um podcast, a artista contou que descobriu ter contraído HPV, doença sexualmente transmissível (IST) quando adolescente, após ser traída pelo namorado da época -- diagnóstico que veio durante uma consulta ginecológica e já em estágio avançado. A experiência, segundo ela, serviu de alerta para os riscos de infecções sexualmente transmissíveis mesmo em relações aparentemente estáveis.

Casos como esse ajudam a levantar uma discussão cada vez mais presente entre especialistas: mulheres heterossexuais podem ser consideradas um grupo vulnerável às ISTs? Embora muitas vezes não sejam vistas como população de maior risco, fatores como desigualdade nas negociações sobre uso de preservativo, relações monogâmicas com parceiros que têm múltiplas parcerias, falta de testagem frequente e até mesmo condições biológicas podem aumentar a exposição a infecções.

Uma pesquisa de 2022 intitulada "Infecções sexualmente transmissíveis e saúde reprodutiva feminina", de Olivia T Van Gerwen, Christina A Muzny e Jeanne M Marrazzo, descobriu que as mulheres são mais afetadas por infecções sexualmente transmissíveis do que os homens ao longo da vida.

"Do ponto de vista biológico, isso se explicaria por características anatômicas e fisiológicas do trato genital feminino", disse a médica ginecologista Laura Gusman, em entrevista à CNN, que concorda que "existe uma vulnerabilidade biológica real, que ajuda a explicar por que a transmissão de algumas infecções ocorre com maior facilidade do homem para a mulher do que no sentido inverso."

"Durante a relação sexual, a mucosa vaginal e cervical fica exposta ao sêmen, que pode permanecer em contato com esses tecidos por um período prolongado, aumentando a possibilidade de transmissão de vírus e bactérias presentes nesse fluido. Além disso, o trato genital feminino é formado por uma ampla superfície mucosa que é influenciada pelas flutuações hormonais, que podem modificar a resposta inflamatória local e a capacidade de defesa contra microrganismos."

Outro fator importante, segundo a profissional, é que durante a relação sexual podem ocorrer pequenas lesões, especialmente quando há pouca lubrificação ou em situações de relação sexual forçada, acarretando em microfissuras que facilitam a entrada de agentes infecciosos.

"Soma-se a isso o fato de que, em algumas infecções, como o HIV, o sêmen pode apresentar concentrações virais mais elevadas do que as secreções vaginais, o que contribui para que a transmissão do homem para a mulher ocorra com mais facilidade", explicou Gusman.

<><> Contexto social estrutural também pode colaborar para mais ISTs em mulheres

Outro estudo de 2022, "Relações de gênero e poder no contexto das vulnerabilidades de mulheres às infecções sexualmente transmissíveis", de Samy Moura, Maria Adelane da Silva, Andréa Moreira e Ana Karina Pinheiro, evoca que a desigualdade de gênero ainda coloca muitas mulheres em posição de submissão nas relações, o que dificulta o diálogo sobre sexo seguro e o reconhecimento de seus próprios direitos sexuais e reprodutivos.

"Em muitos contextos, mulheres ainda enfrentam dificuldades para negociar o uso do preservativo dentro das relações, especialmente quando existe desigualdade de poder, dependência emocional ou econômica, ou mesmo o receio de gerar conflitos dentro do relacionamento", ressaltou a ginecologista.

A sexualidade feminina ainda é cercada por tabus, o que acaba limitando o acesso a conhecimento, prevenção e cuidado.

"Mulheres de classes sociais mais baixas, por exemplo, enfrentam maior risco de aquisição de ISTs, muitas vezes por acesso insuficiente à informação, à prevenção e aos serviços de saúde", disse o ginecologista Vinícius Araújo, também à CNN. "Há ainda a vulnerabilidade dentro de relacionamentos abusivos ou tóxicos. Muitas mulheres acreditam estar em uma relação monogâmica, enquanto o parceiro não é fiel. Nesses casos, a exposição ocorre sem que elas tenham consciência do risco ou autonomia para negociar o uso de preservativo."

Culpa no diagnóstico pode se tornar perigosa

"Trabalhar a questão da culpa é fundamental para que o diagnóstico seja feito precocemente e o tratamento iniciado sem demora", destacou Araújo. Ao receber o diagnóstico, muitas mulheres relatam sentir vergonha ou culpa, principalmente quando acreditavam estar em uma relação estável. Esses sentimentos podem atrasar a busca por atendimento e dificultar o início do tratamento adequado.

Segundo o infectologista Paulo Abrão, presidente da Sociedade Paulista de Infectologia, se os diagnósticos não forem precoces, os riscos para a pessoa doente aumentam. "Aumenta também o tempo de transmissão das ISTs para outras parcerias, se não são curadas", explicou o médico.

<><> As ISTs mais comuns em mulheres

Entre as infecções sexualmente transmissíveis mais comuns entre mulheres estão o HPV, a sífilis, o herpes genital, a clamídia e a gonorreia.

"As ISTs em mulheres podem acarretar em lesões genitais locais e até situações graves como câncer por HPV de colo uterino, vagina, vulva, anus e reto. A sífilis pode acometer o sistema nervoso central e a visão, além de poder haver sífilis congênita (passagem para o feto). Ainda, ISTs podem levar a infertilidade", destacou Abrão.

O HPV, caso de Mel Lisboa, é extremamente prevalente. "Como ele é tão frequente, basicamente todos nós vamos encontrar algum tipo de HPV durante a nossa vida", afirmou o infectologista Renato Kfouri, em entrevista anterior à CNN. A infecção geralmente começa na adolescência, com a iniciação sexual, e o contato com o vírus pode se manter ao longo da vida.

"As ISTs podem ter impactos importantes na saúde da mulher, muitas vezes de forma silenciosa. Infecções bacterianas como clamídia e gonorreia podem ascender pelo trato genital e desencadear doença inflamatória pélvica, que está associada à infertilidade tubária, dor pélvica crônica e aumento do risco de gravidez ectópica. O HPV, quando não identificado e acompanhado, pode evoluir para lesões precursoras e câncer do colo do útero. A sífilis, por sua vez, pode evoluir para formas sistêmicas e trazer complicações graves, especialmente na gestação", explicou Laura Gusman.

<><> Prevenção e frequência de exames

O uso consistente do preservativo feminino ou masculino continua sendo uma das medidas mais importantes para reduzir o risco de transmissão de ISTs, inclusive dentro de relacionamentos estáveis, explicou Gusman.

"A vacinação contra o HPV é outra medida fundamental e deve ser estimulada tanto em meninas quanto em meninos, lembrando também da vacinação contra Hepatite B. A realização periódica de exames de rastreamento e testagens para ISTs também é parte essencial do cuidado com a saúde sexual", afirmou a médica.

Ainda, os especialistas destacaram que, de maneira geral, mulheres sexualmente ativas devem realizar avaliação ginecológica anual. Já o rastreamento para clamídia é particularmente importante em mulheres jovens. As diretrizes recomendam a investigação em mulheres sexualmente ativas com menos de 25 anos e a manutenção do rastreio se identificados fatores de risco, já que essa infecção costuma ser assintomática.

Em relação ao HPV, o rastreamento do câncer do colo do útero deve ser realizado, de acordo com as diretrizes atuais, em mulheres entre 25 e 64 anos que já iniciaram a vida sexual.

"Fazer exames médicos de rotina anualmente e, na mínima suspeita, procurar os serviços de saúde para consulta, é fundamental. Usar todos os métodos de prevenção disponíveis também", ressaltou Paulo Abrão.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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