segunda-feira, 9 de março de 2026

Camila de Caso e Ligia Toneto: Unidade para derrotar a extrema direita

O ano de 2026 foi aberto com grandes desafios para o campo democrático popular. A extrema direita avança no mundo com uma violência simbólica e material que há poucos anos parecia impensável. Donald Trump apresenta seu projeto de reorganização da geopolítica avançando sobre a América Latina. O fascismo não é um fantasma do passado, é uma força viva que ameaça direitos, liberdades e a própria democracia.

No Brasil, apesar da prisão de Jair Bolsonaro e dos generais envolvidos na tentativa de golpe de Estado e assassinato do Presidente e Vice-Presidente da República do 8 de janeiro 2023, a extrema direita segue sendo uma relevante força de organização e mobilização social. Figuras como Nikolas Ferreira, que surgem das redes sociais, crescem como lideranças nacionais. O nome de Flávio Bolsonaro, ao ser indicado como o candidato deste campo, já aparece nas pesquisas, repetindo a polarização de 2022 como candidato do bolsonarismo para 2026.

Não podemos deixar que o ciclo de retomada da democracia e dos direitos sociais iniciado pelo terceiro mandato de Lula seja revertido. Recuperamos e aperfeiçoamos programas como o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, o Farmácia Popular, e criamos muitos outros como o Pé de Meia, o Agora Tem Especialistas, o CEP para todos, o Desenrola e o Gás do Povo. Aprovamos a maior Reforma da Renda da história, colocando pela primeira vez os super-ricos para pagarem impostos. Deixamos de bater recorde de desemprego para bater recorde de geração de empregos. Descongelamos o salário-mínimo e alcançamos o maior rendimento médio real da série histórica. Revertemos o ciclo de crescimento das desigualdades para atingir a menor desigualdade da história.

O desafio da nossa geração está nítido: precisamos barrar o avanço da extrema direita e derrotar o fascismo no Brasil e no mundo. Mais do que reeleger Lula, precisamos mudar a correlação de forças do Congresso Nacional. Para isso, acreditamos que um passo é indispensável, a construção de uma Federação de esquerda que una o campo democrático popular e consiga eleger mais parlamentares em todo Brasil.

Temos olhado atentamente para os números que explicam a correlação de forças no Congresso Nacional. Os dados são implacáveis: o bloco do Centrão (União, PP, PSD, Republicanos, MDB e federação PSDB-Cidadania) soma 276 deputados. A extrema direita organizada no PL tem 87 deputados. Do lado do campo progressista, a Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB, PV) tem 80 deputados, e a Federação PSOL-Rede tem 15. Somados, chegamos a 95 parlamentares, uma bancada expressiva, mas ainda insuficiente para pautar a agenda de transformações que o povo brasileiro demanda e que o presidente Lula precisa implementar em seu quarto mandato.

É por isso que defendemos a unidade da esquerda em uma única federação, para termos uma ferramenta política com capacidade de alterar a correlação de forças no Congresso e permitir governabilidade como força majoritária. Queremos aprofundar a unidade que o campo progressista vem construindo desde as lutas contra o golpe de 2016. Será fundamental para conquistarmos pautas estruturantes como o fim da jornada 6×1, uma tributação justa que faça os super-ricos pagarem mais, e a regulação das Big Techs para conter a avalanche de desinformação que fortalece o fascismo.

Precisamos nos unir para enfrentar a extrema direta de forma organizada e cotidiana. O bolsonarismo não tira férias. Nossos partidos se uniram em momentos cruciais da história recente, agora propomos ir além porque os desafios se avolumam. Uma federação do nosso campo é capaz de aumentar nossas bancadas e dar um passo além no processo de convergência programática, respeitando as nossas saudáveis diferenças.

O sistema eleitoral brasileiro é cruel com a fragmentação. As chamadas “sobras eleitorais”, as cadeiras não preenchidas na primeira distribuição, são disputadas por partidos que atingem determinados patamares de votação. Com a federação, somamos votos em todos os estados, aumentamos o quociente partidário e podemos eleger parlamentares do nosso campo em estados que não temos nenhum. Não podemos correr o risco de eleger Lula e não eleger bancada, deixando o presidente refém de um Congresso dominado pelo Centrão e pela extrema direita. Precisamos de mais deputadas e deputados comprometidos com a classe trabalhadora, com o feminismo, com o antirracismo e com a pauta ambiental.

Não é por menos que o Centrão também tem se organizado em federações competitivas para ocupar o Congresso. Com isso, amplia sua força para aprofundar o processo de apropriação do orçamento público por emendas parlamentares, retirando a transparência e a aplicação estratégica dos recursos, além de tornar a disputa política profundamente desequilibrada. A esquerda também precisa se organizar em conjunto para ampliar nossa força para implementar projetos que ampliem direitos. Construir uma federação de esquerda é sinalizar para os movimentos sociais e para a sociedade a disposição de colocar os interesses do povo brasileiro acima das diferenças partidárias.

O momento exige grandeza política, a história nos mostra que não podemos menosprezar o fascismo. Enquanto escrevemos, novos episódios de violência política e avanço reacionário se acumulam no noticiário internacional e nacional. Nossa geração será julgada pela capacidade de responder a esse desafio com coragem e unidade.

Defendemos a federação de esquerda porque acreditamos que é o caminho mais consistente para derrotar o bolsonarismo, ampliar a bancada progressista no Congresso, dar governabilidade ao presidente Lula e, principalmente, avançar nos direitos do povo brasileiro e na defesa da nossa soberania nacional. Que possamos, a partir da unidade, consolidar a retomada da democracia brasileira.

•        Há perigo na esquina política. Por Adilson Roberto Gonçalves

As eleições estão logo ali e a extrema direita está à espreita. Já venderam Jair Bolsonaro como outsider (mesmo após três décadas dentro do congresso), Tarcísio de Freitas como não bolsonarista e moderado (isso com a defesa da anistia ao ex-presidente condenado e uso do boné MAGA), e agora, querem rotular Flávio Bolsonaro de “direita não truculenta”. Realmente, Josef Goebbels foi um mestre medíocre em face dos pupilos que produziu.

A técnica de dissimulação e expansão da influência é simples e se repete: o fascismo, ainda chamado de extrema direita, não revela o quão nocivo é para a população, especialmente para os trabalhadores, os mais vulneráveis e os periféricos.

Eles festejam todas as derrotas para os trabalhadores e minorias, tanto aqui como nos vizinhos. A Argentina é o exemplo mais notório e recente. Que as medidas aprovadas na Argentina não embasem uma retomada do “efeito Orloff” por aqui, uma vez que a Câmara daquele país aprovou reforma que flexibiliza lei trabalhista. Que os ares ainda progressistas de nosso governo caminhem para uma reumanização das relações de trabalho, não para a consolidação do inferno na Terra, como aconteceu no país vizinho. Isso somente acontecerá se conseguirem aprovar a redução da jornada de trabalho nas próximas semanas, antes da janela eleitoral, pois a invasão fascista do Parlamento será mais intensa ainda nas eleições de outubro, a se confirmar as articulações em curso.

A técnica de criar factoides para esconder a podridão profunda é outra artimanha dos fascistas. Vemos os exemplos de Epstein para Donald Trump e de Daniel Vorcaro para os fascistas domésticos. A bomba política em que os arquivos de Jeffrey Epstein está se transformando, com forte componente de exploração sexual, faz lembrar as denúncias de corrupção do governo Collor, no Brasil, especialmente o que veio à tona, posteriormente, com a publicação de “Notícias do Planalto: A Imprensa e Fernando Collor”, de Mario Sérgio Conti em 1999. No livro, há uma passagem de revelação de áudios de uma festa em que o ex-presidente participou e a maior preocupação não eram os diálogos que comprovavam a corrupção, mas, sim, se estavam presentes cenas das orgias sexuais havidas. A transcrição das falas usa palavrões, desnecessários aqui, mas reveladores do que era aquela “nova República”.

Embriões do fascismo estavam por toda a parte e parece que somente tomamos conhecimento dele após as fogueiras de junho de 2013.

•        Michelle retoma ataques a Flávio Bolsonaro por aliança com Ciro Gomes

rês meses após declarar guerra aos enteados pela condução de negociatas envolvendo o clã Bolsonaro nas eleições estaduais, Michelle Bolsonaro (PL) voltou à tona na madrugada deste sábado (7) e atacou novamente a tentativa de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de costurar uma aliança com Ciro Gomes (PSDB) na disputa ao governo do Ceará.

Nas anotações flagradas pela Folha durante reunião de dirigentes do Partido Liberal em 24 de fevereiro, Flávio escreve “PL na chapa” ao lado do nome de Ciro Gomes sobre a disputa ao governo do Ceará. “No palanque c/ Ciro pode fazer tb Cap. Wagner (x PT)”, anotou ainda Flávio.

No comando do União Brasil, o ex-deputado Capitão Wagner vem costurando um amplo apoio a Ciro no Ceará, que inclui a federação com o PP, para fazer frente ao atual governador, Elmano de Freitas, do PT, favorito na disputa.

Na madrugada, Michelle compartilhou uma notícia do site Diário do Nordeste que revela uma declaração de Ciro dizendo que ela “humilhou” o deputado bolsonarista André Fernandes.

“Todo mundo viu, a esposa do ex-presidente da República, do Bolsonaro, veio aqui, humilhou André Fernandes, que é o presidente do PL. E eu não tenho nada a ver com isso, eu fiquei quieto. Aí o PL pediu um tempo para pacificar o problema interno deles. Quem sou eu para dizer ‘não’? Dou o tempo. Está guardada aqui uma vaga para a aliança que una toda a oposição para salvar o Ceará”, disse Ciro, segundo o site, durante o Encontro dos Produtores Rurais do Ceará (Eproce) nesta sexta-feira (6).

No storie seguinte, Michelle manda um novo recado aos enteados, em especial a Flávio, que vem conduzindo as negociações nos Estados, muitas vezes atrapalhando os planos da madrasta.

“O jogo é sujo, meus amigos… E muito mais sujo do que muitos imaginam”, escreveu a ex-primeira-dama sobre as negociatas conduzidas por Flávio Bolsonaro.

<><> Guerra com a madrasta

Dias antes de Flávio ser ungido pelo pai, Jair Bolsonaro, como pré-candidato à Presidência, Michelle, que também se colocava na disputa ao Planalto, declarou guerra aos enteados em meio às negociações conduzidas pelo deputado André Fernandes (PL-RJ) com Ciro Gomes no Ceará.

Acusada de “autoritária” por Carlos, Eduardo e o próprio Flávio Bolsonaro, Michelle passou a madrugada do dia 2 de dezembro de 2025 nas redes sociais rebatendo os enteados, horas antes de uma reunião de urgência convocada pelo PL para debater a guerra no clã.

Embora diga que “não vou” responder “às manifestações dos meus enteados”, Michelle divulgou uma nota rebatendo todas os ataques, vindos especialmente de Flávio, que afirmou que a madrasta “não é política e precisa entender que a forma de tomar uma decisão às vezes é mais importante do que a própria decisão”, em declaração machista e misógina ao site Metrópoles.

“Eu respeito a opinião dos meus enteados, mas penso diferente e tenho o direito de expressar meus pensamentos com liberdade e sinceridade”, afirmou, mirando Flávio em seguida.

“Antes de ser uma líder política, eu sou mulher, sou mãe, sou esposa e, se tiver que escolher entre ser política, mãe ou esposa, ficarei com as duas últimas opções”, emendou Michelle, apresentando seu trunfo na guerra: o comando do eleitorado feminino na ultradireita.

Michelle abre a nota dizendo que “vivemos tempos difíceis” e que “nesses períodos, é normal que os nervos fiquem à flor da pele e podemos vir a machucar aqueles a quem jamais gostaríamos de magoar”.

No entanto, a ex-primeira-dama deixa claro aos enteados e aos caciques do PL que não vai retroceder e incita apoiadores.

“Cada pessoa é livre para tomar as suas decisões, e eu o faço considerando, coerentemente, os meus valores: a minha fé e os princípios de uma política honesta, limpa e que verdadeiramente transforme a vida das pessoas – é nisso que acredito e é por esses objetivos que tenho trabalhado todos os dias”, ressalta, indicando sua plataforma eleitoral, descrita no livro “Edificando a Nação: Sobre Bases e Valores”.

Em seguida, ela passa a detonar a aliança costurada no Ceará por André Fernandes, que teve aval do marido, com o grupo político de Ciro Gomes.

“Eu jamais poderia concordar em ceder o meu apoio à candidatura de um homem que tanto mal causou ao meu marido e à minha família. Como apoiar (ou deixar de, caridosamente, admoestar quem apoia) um homem que foi responsável por implantar a narrativa que rotulou o meu marido como genocida? Como ficar feliz com o apoio à candidatura de um homem que xinga o meu marido o tempo todo de ladrão de galinha, de frouxo e tantos outros xingamentos? Como ser conivente com o apoio a uma raposa política que se diz orgulhoso de ter feito a petição que levou à inelegibilidade do meu marido e se diz satisfeito com a perseguição que ele tem sofrido?”, dispara.

Michelle segue dizendo que “acredito em uma política diferente” e que “não basta derrotar o PT e a esquerda; é preciso fazê-lo mantendo-nos fieis aos nossos valores”.

“No evento [no Ceará], vi nos olhos do povo que ama Bolsonaro o mesmo desconforto e insatisfação que eu sinto. Penso que derrotar o PT dessa forma seria o mesmo que trocar Joseph Stalin por Vladimir Lenin”, disse a ex-primeira-dama, comparando Lula e Ciro aos dois líderes socialistas.

Michelle, então, enfatiza que não apoiará a aliança “ainda que essa fosse a vontade do Jair”, ressaltando que “ele não me falou se é”.

“Peço aos meus enteados que me entendam e me perdoem, não foi minha intenção contrariá-los. Eu, assim como eles, quero apenas o melhor para o nosso herói, seu pai, meu esposo e o maior líder que esse país já teve – Jair Messias Bolsonaro”, conclui.

Em seguida, Michelle publicou seis vídeos com declarações de Ciro Gomes atacando o clã e uma notícia de Aécio Neves, líder do PSDB, dizendo que “não apoiaremos família Bolsonaro nem Lula em 2026”.

A ex-primeira-dama encerrou os ataques por volta das 4 horas desta terça-feira com novo recado aos enteados e aliados deles.

“E diante de todas as atrocidades, calúnias e difamações que Ciro Gomes lança contra mim, contra o meu marido, contra os meus enteados, seguimos firmes na verdade. Nada disso muda quem somos, nem o propósito que Deus nos confiou. Jamais negociareis os meus valores”, conclui.

<><> Recuo

Após levar a briga com a madrasta ao pai, na cela onde está preso na Papudinha, Flávio recuou da guerra com Michelle Bolsonaro (PL) e disse que chegou a “pedir desculpas a ela”.

Em entrevista após deixar a PF, o senador afirmou que Bolsonaro “não consegue acompanhar muito, porque nesse cubículo que ele está de 12 metros quadrados” por ter apenas uma televisão de TV aberta.

“Então eu expliquei pra ele o que tinha acontecido, e falei pra ele que já me resolvi com a Michelle, pedi desculpas a ela, ela também”, afirmou o filho “01”, que havia se autoproclamado porta-voz do clã, ressaltando que a reunião do PL para debater a “autoritária” ex-primeira-dama servirá “para a ente criar, na verdade, uma rotina de tomar as decisões em conjunto”.

Flávio, então, disse que o pai teria recuado na aliança com Ciro Gomes (PSDB) e o grupo do tucano Tasso Jereissati no Ceará, que motivou o levante de Michelle, que humilhou publicamente o deputado André Fernandes (PL-CE), que estava à frente da negociata em torno do apoio ao pai, Alcides Fernandes (PL-CE), na disputa ao Senado.

“Não teve apoio a Ciro, porque ali eram conversas. Não tinha decisão nenhuma tomada, como não tem até agora”, disse o senador, contradizendo a declaração do dia anterior, quando atacou a madrasta por dizer que o pai teria dado aval à aliança.

Flávio ainda se mostrou manso dirigindo agora elogios à madrasta. “Então não tem problema nenhum com a Michelle, é uma mulher que conquistou e virou uma referência no país inteiro, que levou o movimento de mulheres por todo o Brasil, uma mulher respeitada e tem uma boa imagem, que é um grande quadro sim do nosso partido e que tem um papel muito importante nesse momento do Brasil. A gente vai estar junto, não adianta quererem separar, divergências fazem parte e a gente vai tentar conversar e alinhar em todos os estados, incluindo o Ceará”.

O senador ainda tentou minimizar a dura nota em que Michelle manteve sua posição e rebateu uma fala machista dele, dizendo que era “não era política”.

“Mas, ela está tratando de uma coisa que a gente não está tratando. A minha questão foi a forma como as coisas aconteceram, não é o possível palanque lá. E ela está partindo do princípio de que já tinha uma decisão, que ela estava ouvindo de algumas pessoas que já existia essa decisão”, afirmou.

Três dias depois, Flávio deu nova coletiva afirmando que o pai o havia escolhido como pré-candidato à Presidência. Contrariada, Michelle chegou a pedir afastamento da PL no dia 9 de dezembro e até hoje não fez sequer uma publicação em apoio à pré-candidatura do enteado nas redes.

 

Fonte: Le Monde/Brasil 247/Fórum

 

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