Camila
de Caso e Ligia Toneto: Unidade para derrotar a extrema direita
O ano
de 2026 foi aberto com grandes desafios para o campo democrático popular. A
extrema direita avança no mundo com uma violência simbólica e material que há
poucos anos parecia impensável. Donald Trump apresenta seu projeto de
reorganização da geopolítica avançando sobre a América Latina. O fascismo não é
um fantasma do passado, é uma força viva que ameaça direitos, liberdades e a
própria democracia.
No
Brasil, apesar da prisão de Jair Bolsonaro e dos generais envolvidos na
tentativa de golpe de Estado e assassinato do Presidente e Vice-Presidente da
República do 8 de janeiro 2023, a extrema direita segue sendo uma relevante
força de organização e mobilização social. Figuras como Nikolas Ferreira, que
surgem das redes sociais, crescem como lideranças nacionais. O nome de Flávio
Bolsonaro, ao ser indicado como o candidato deste campo, já aparece nas
pesquisas, repetindo a polarização de 2022 como candidato do bolsonarismo para
2026.
Não
podemos deixar que o ciclo de retomada da democracia e dos direitos sociais
iniciado pelo terceiro mandato de Lula seja revertido. Recuperamos e
aperfeiçoamos programas como o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, o
Farmácia Popular, e criamos muitos outros como o Pé de Meia, o Agora Tem
Especialistas, o CEP para todos, o Desenrola e o Gás do Povo. Aprovamos a maior
Reforma da Renda da história, colocando pela primeira vez os super-ricos para
pagarem impostos. Deixamos de bater recorde de desemprego para bater recorde de
geração de empregos. Descongelamos o salário-mínimo e alcançamos o maior
rendimento médio real da série histórica. Revertemos o ciclo de crescimento das
desigualdades para atingir a menor desigualdade da história.
O
desafio da nossa geração está nítido: precisamos barrar o avanço da extrema
direita e derrotar o fascismo no Brasil e no mundo. Mais do que reeleger Lula,
precisamos mudar a correlação de forças do Congresso Nacional. Para isso,
acreditamos que um passo é indispensável, a construção de uma Federação de
esquerda que una o campo democrático popular e consiga eleger mais
parlamentares em todo Brasil.
Temos
olhado atentamente para os números que explicam a correlação de forças no
Congresso Nacional. Os dados são implacáveis: o bloco do Centrão (União, PP,
PSD, Republicanos, MDB e federação PSDB-Cidadania) soma 276 deputados. A
extrema direita organizada no PL tem 87 deputados. Do lado do campo
progressista, a Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB, PV) tem 80 deputados,
e a Federação PSOL-Rede tem 15. Somados, chegamos a 95 parlamentares, uma
bancada expressiva, mas ainda insuficiente para pautar a agenda de
transformações que o povo brasileiro demanda e que o presidente Lula precisa
implementar em seu quarto mandato.
É por
isso que defendemos a unidade da esquerda em uma única federação, para termos
uma ferramenta política com capacidade de alterar a correlação de forças no
Congresso e permitir governabilidade como força majoritária. Queremos
aprofundar a unidade que o campo progressista vem construindo desde as lutas
contra o golpe de 2016. Será fundamental para conquistarmos pautas
estruturantes como o fim da jornada 6×1, uma tributação justa que faça os
super-ricos pagarem mais, e a regulação das Big Techs para conter a avalanche
de desinformação que fortalece o fascismo.
Precisamos
nos unir para enfrentar a extrema direta de forma organizada e cotidiana. O
bolsonarismo não tira férias. Nossos partidos se uniram em momentos cruciais da
história recente, agora propomos ir além porque os desafios se avolumam. Uma
federação do nosso campo é capaz de aumentar nossas bancadas e dar um passo
além no processo de convergência programática, respeitando as nossas saudáveis
diferenças.
O
sistema eleitoral brasileiro é cruel com a fragmentação. As chamadas “sobras
eleitorais”, as cadeiras não preenchidas na primeira distribuição, são
disputadas por partidos que atingem determinados patamares de votação. Com a
federação, somamos votos em todos os estados, aumentamos o quociente partidário
e podemos eleger parlamentares do nosso campo em estados que não temos nenhum.
Não podemos correr o risco de eleger Lula e não eleger bancada, deixando o
presidente refém de um Congresso dominado pelo Centrão e pela extrema direita.
Precisamos de mais deputadas e deputados comprometidos com a classe
trabalhadora, com o feminismo, com o antirracismo e com a pauta ambiental.
Não é
por menos que o Centrão também tem se organizado em federações competitivas
para ocupar o Congresso. Com isso, amplia sua força para aprofundar o processo
de apropriação do orçamento público por emendas parlamentares, retirando a
transparência e a aplicação estratégica dos recursos, além de tornar a disputa
política profundamente desequilibrada. A esquerda também precisa se organizar
em conjunto para ampliar nossa força para implementar projetos que ampliem
direitos. Construir uma federação de esquerda é sinalizar para os movimentos
sociais e para a sociedade a disposição de colocar os interesses do povo
brasileiro acima das diferenças partidárias.
O
momento exige grandeza política, a história nos mostra que não podemos
menosprezar o fascismo. Enquanto escrevemos, novos episódios de violência
política e avanço reacionário se acumulam no noticiário internacional e
nacional. Nossa geração será julgada pela capacidade de responder a esse
desafio com coragem e unidade.
Defendemos
a federação de esquerda porque acreditamos que é o caminho mais consistente
para derrotar o bolsonarismo, ampliar a bancada progressista no Congresso, dar
governabilidade ao presidente Lula e, principalmente, avançar nos direitos do
povo brasileiro e na defesa da nossa soberania nacional. Que possamos, a partir
da unidade, consolidar a retomada da democracia brasileira.
• Há perigo na esquina política. Por
Adilson Roberto Gonçalves
As
eleições estão logo ali e a extrema direita está à espreita. Já venderam Jair
Bolsonaro como outsider (mesmo após três décadas dentro do congresso), Tarcísio
de Freitas como não bolsonarista e moderado (isso com a defesa da anistia ao
ex-presidente condenado e uso do boné MAGA), e agora, querem rotular Flávio
Bolsonaro de “direita não truculenta”. Realmente, Josef Goebbels foi um mestre
medíocre em face dos pupilos que produziu.
A
técnica de dissimulação e expansão da influência é simples e se repete: o
fascismo, ainda chamado de extrema direita, não revela o quão nocivo é para a
população, especialmente para os trabalhadores, os mais vulneráveis e os
periféricos.
Eles
festejam todas as derrotas para os trabalhadores e minorias, tanto aqui como
nos vizinhos. A Argentina é o exemplo mais notório e recente. Que as medidas
aprovadas na Argentina não embasem uma retomada do “efeito Orloff” por aqui,
uma vez que a Câmara daquele país aprovou reforma que flexibiliza lei
trabalhista. Que os ares ainda progressistas de nosso governo caminhem para uma
reumanização das relações de trabalho, não para a consolidação do inferno na
Terra, como aconteceu no país vizinho. Isso somente acontecerá se conseguirem
aprovar a redução da jornada de trabalho nas próximas semanas, antes da janela
eleitoral, pois a invasão fascista do Parlamento será mais intensa ainda nas
eleições de outubro, a se confirmar as articulações em curso.
A
técnica de criar factoides para esconder a podridão profunda é outra artimanha
dos fascistas. Vemos os exemplos de Epstein para Donald Trump e de Daniel
Vorcaro para os fascistas domésticos. A bomba política em que os arquivos de
Jeffrey Epstein está se transformando, com forte componente de exploração
sexual, faz lembrar as denúncias de corrupção do governo Collor, no Brasil,
especialmente o que veio à tona, posteriormente, com a publicação de “Notícias
do Planalto: A Imprensa e Fernando Collor”, de Mario Sérgio Conti em 1999. No
livro, há uma passagem de revelação de áudios de uma festa em que o
ex-presidente participou e a maior preocupação não eram os diálogos que
comprovavam a corrupção, mas, sim, se estavam presentes cenas das orgias
sexuais havidas. A transcrição das falas usa palavrões, desnecessários aqui,
mas reveladores do que era aquela “nova República”.
Embriões
do fascismo estavam por toda a parte e parece que somente tomamos conhecimento
dele após as fogueiras de junho de 2013.
• Michelle retoma ataques a Flávio
Bolsonaro por aliança com Ciro Gomes
rês
meses após declarar guerra aos enteados pela condução de negociatas envolvendo
o clã Bolsonaro nas eleições estaduais, Michelle Bolsonaro (PL) voltou à tona
na madrugada deste sábado (7) e atacou novamente a tentativa de Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) de costurar uma aliança com Ciro Gomes (PSDB) na disputa ao
governo do Ceará.
Nas
anotações flagradas pela Folha durante reunião de dirigentes do Partido Liberal
em 24 de fevereiro, Flávio escreve “PL na chapa” ao lado do nome de Ciro Gomes
sobre a disputa ao governo do Ceará. “No palanque c/ Ciro pode fazer tb Cap.
Wagner (x PT)”, anotou ainda Flávio.
No
comando do União Brasil, o ex-deputado Capitão Wagner vem costurando um amplo
apoio a Ciro no Ceará, que inclui a federação com o PP, para fazer frente ao
atual governador, Elmano de Freitas, do PT, favorito na disputa.
Na
madrugada, Michelle compartilhou uma notícia do site Diário do Nordeste que
revela uma declaração de Ciro dizendo que ela “humilhou” o deputado
bolsonarista André Fernandes.
“Todo
mundo viu, a esposa do ex-presidente da República, do Bolsonaro, veio aqui,
humilhou André Fernandes, que é o presidente do PL. E eu não tenho nada a ver
com isso, eu fiquei quieto. Aí o PL pediu um tempo para pacificar o problema
interno deles. Quem sou eu para dizer ‘não’? Dou o tempo. Está guardada aqui
uma vaga para a aliança que una toda a oposição para salvar o Ceará”, disse
Ciro, segundo o site, durante o Encontro dos Produtores Rurais do Ceará
(Eproce) nesta sexta-feira (6).
No
storie seguinte, Michelle manda um novo recado aos enteados, em especial a
Flávio, que vem conduzindo as negociações nos Estados, muitas vezes
atrapalhando os planos da madrasta.
“O jogo
é sujo, meus amigos… E muito mais sujo do que muitos imaginam”, escreveu a
ex-primeira-dama sobre as negociatas conduzidas por Flávio Bolsonaro.
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Guerra com a madrasta
Dias
antes de Flávio ser ungido pelo pai, Jair Bolsonaro, como pré-candidato à
Presidência, Michelle, que também se colocava na disputa ao Planalto, declarou
guerra aos enteados em meio às negociações conduzidas pelo deputado André
Fernandes (PL-RJ) com Ciro Gomes no Ceará.
Acusada
de “autoritária” por Carlos, Eduardo e o próprio Flávio Bolsonaro, Michelle
passou a madrugada do dia 2 de dezembro de 2025 nas redes sociais rebatendo os
enteados, horas antes de uma reunião de urgência convocada pelo PL para debater
a guerra no clã.
Embora
diga que “não vou” responder “às manifestações dos meus enteados”, Michelle
divulgou uma nota rebatendo todas os ataques, vindos especialmente de Flávio,
que afirmou que a madrasta “não é política e precisa entender que a forma de
tomar uma decisão às vezes é mais importante do que a própria decisão”, em
declaração machista e misógina ao site Metrópoles.
“Eu
respeito a opinião dos meus enteados, mas penso diferente e tenho o direito de
expressar meus pensamentos com liberdade e sinceridade”, afirmou, mirando
Flávio em seguida.
“Antes
de ser uma líder política, eu sou mulher, sou mãe, sou esposa e, se tiver que
escolher entre ser política, mãe ou esposa, ficarei com as duas últimas
opções”, emendou Michelle, apresentando seu trunfo na guerra: o comando do
eleitorado feminino na ultradireita.
Michelle
abre a nota dizendo que “vivemos tempos difíceis” e que “nesses períodos, é
normal que os nervos fiquem à flor da pele e podemos vir a machucar aqueles a
quem jamais gostaríamos de magoar”.
No
entanto, a ex-primeira-dama deixa claro aos enteados e aos caciques do PL que
não vai retroceder e incita apoiadores.
“Cada
pessoa é livre para tomar as suas decisões, e eu o faço considerando,
coerentemente, os meus valores: a minha fé e os princípios de uma política
honesta, limpa e que verdadeiramente transforme a vida das pessoas – é nisso
que acredito e é por esses objetivos que tenho trabalhado todos os dias”,
ressalta, indicando sua plataforma eleitoral, descrita no livro “Edificando a
Nação: Sobre Bases e Valores”.
Em
seguida, ela passa a detonar a aliança costurada no Ceará por André Fernandes,
que teve aval do marido, com o grupo político de Ciro Gomes.
“Eu
jamais poderia concordar em ceder o meu apoio à candidatura de um homem que
tanto mal causou ao meu marido e à minha família. Como apoiar (ou deixar de,
caridosamente, admoestar quem apoia) um homem que foi responsável por implantar
a narrativa que rotulou o meu marido como genocida? Como ficar feliz com o
apoio à candidatura de um homem que xinga o meu marido o tempo todo de ladrão
de galinha, de frouxo e tantos outros xingamentos? Como ser conivente com o
apoio a uma raposa política que se diz orgulhoso de ter feito a petição que
levou à inelegibilidade do meu marido e se diz satisfeito com a perseguição que
ele tem sofrido?”, dispara.
Michelle
segue dizendo que “acredito em uma política diferente” e que “não basta
derrotar o PT e a esquerda; é preciso fazê-lo mantendo-nos fieis aos nossos
valores”.
“No
evento [no Ceará], vi nos olhos do povo que ama Bolsonaro o mesmo desconforto e
insatisfação que eu sinto. Penso que derrotar o PT dessa forma seria o mesmo
que trocar Joseph Stalin por Vladimir Lenin”, disse a ex-primeira-dama,
comparando Lula e Ciro aos dois líderes socialistas.
Michelle,
então, enfatiza que não apoiará a aliança “ainda que essa fosse a vontade do
Jair”, ressaltando que “ele não me falou se é”.
“Peço
aos meus enteados que me entendam e me perdoem, não foi minha intenção
contrariá-los. Eu, assim como eles, quero apenas o melhor para o nosso herói,
seu pai, meu esposo e o maior líder que esse país já teve – Jair Messias
Bolsonaro”, conclui.
Em
seguida, Michelle publicou seis vídeos com declarações de Ciro Gomes atacando o
clã e uma notícia de Aécio Neves, líder do PSDB, dizendo que “não apoiaremos
família Bolsonaro nem Lula em 2026”.
A
ex-primeira-dama encerrou os ataques por volta das 4 horas desta terça-feira
com novo recado aos enteados e aliados deles.
“E
diante de todas as atrocidades, calúnias e difamações que Ciro Gomes lança
contra mim, contra o meu marido, contra os meus enteados, seguimos firmes na
verdade. Nada disso muda quem somos, nem o propósito que Deus nos confiou.
Jamais negociareis os meus valores”, conclui.
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Recuo
Após
levar a briga com a madrasta ao pai, na cela onde está preso na Papudinha,
Flávio recuou da guerra com Michelle Bolsonaro (PL) e disse que chegou a “pedir
desculpas a ela”.
Em
entrevista após deixar a PF, o senador afirmou que Bolsonaro “não consegue
acompanhar muito, porque nesse cubículo que ele está de 12 metros quadrados”
por ter apenas uma televisão de TV aberta.
“Então
eu expliquei pra ele o que tinha acontecido, e falei pra ele que já me resolvi
com a Michelle, pedi desculpas a ela, ela também”, afirmou o filho “01”, que
havia se autoproclamado porta-voz do clã, ressaltando que a reunião do PL para
debater a “autoritária” ex-primeira-dama servirá “para a ente criar, na
verdade, uma rotina de tomar as decisões em conjunto”.
Flávio,
então, disse que o pai teria recuado na aliança com Ciro Gomes (PSDB) e o grupo
do tucano Tasso Jereissati no Ceará, que motivou o levante de Michelle, que
humilhou publicamente o deputado André Fernandes (PL-CE), que estava à frente
da negociata em torno do apoio ao pai, Alcides Fernandes (PL-CE), na disputa ao
Senado.
“Não
teve apoio a Ciro, porque ali eram conversas. Não tinha decisão nenhuma tomada,
como não tem até agora”, disse o senador, contradizendo a declaração do dia
anterior, quando atacou a madrasta por dizer que o pai teria dado aval à
aliança.
Flávio
ainda se mostrou manso dirigindo agora elogios à madrasta. “Então não tem
problema nenhum com a Michelle, é uma mulher que conquistou e virou uma
referência no país inteiro, que levou o movimento de mulheres por todo o
Brasil, uma mulher respeitada e tem uma boa imagem, que é um grande quadro sim
do nosso partido e que tem um papel muito importante nesse momento do Brasil. A
gente vai estar junto, não adianta quererem separar, divergências fazem parte e
a gente vai tentar conversar e alinhar em todos os estados, incluindo o Ceará”.
O
senador ainda tentou minimizar a dura nota em que Michelle manteve sua posição
e rebateu uma fala machista dele, dizendo que era “não era política”.
“Mas,
ela está tratando de uma coisa que a gente não está tratando. A minha questão
foi a forma como as coisas aconteceram, não é o possível palanque lá. E ela
está partindo do princípio de que já tinha uma decisão, que ela estava ouvindo
de algumas pessoas que já existia essa decisão”, afirmou.
Três
dias depois, Flávio deu nova coletiva afirmando que o pai o havia escolhido
como pré-candidato à Presidência. Contrariada, Michelle chegou a pedir
afastamento da PL no dia 9 de dezembro e até hoje não fez sequer uma publicação
em apoio à pré-candidatura do enteado nas redes.
Fonte:
Le Monde/Brasil 247/Fórum

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