Moraes
no alvo e Mendonça em ascensão no caso Master
O
ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça se tornou o novo
pesadelo do mundo político, após acumular as relatorias de duas investigações
com potencial para atingir altas autoridades da República — os inquéritos que
apuram fraudes no Banco Master e no INSS.
Se o
ministro Alexandre de Moraes se tornou temido após conduzir inquéritos
controversos que atingiram principalmente o campo bolsonarista, Mendonça tem em
suas mãos investigações que podem alcançar lideranças de diferentes espectros
políticos — e até mesmo alguns de seus pares no STF, como o próprio Moraes e
Dias Toffoli, devido à supostas ligações desses ministros com o Banco Master e
seu dono, Daniel Vorcaro.
"Ele
tem todas as armas na mão, resta saber se vai querer usá-las", disse o
deputado Kim Kataguiri, ao ser questionado pela BBC News Brasil se Mendonça já
pode ser considerado mais poderoso que seu colega.
Daniel
Vorcaro, dono do Master, foi preso preventivamente na quarta-feira (4/2), por
ordem de Mendonça, três semanas após o ministro ser sorteado para assumir o
inquérito, após Toffoli se afastar do caso.
Em
Brasília, especula-se que uma prisão prolongada poderia levar o banqueiro a
fechar um acordo de delação premiada.
Segundo
fontes ouvidas pela BBC News Brasil com interlocução com o presidente do STF,
Edson Fachin, há expectativa de que a atuação de Mendonça possa melhorar o
forte desgaste causado na imagem do Supremo devido às supostas conexões de
Toffoli e Moraes. Por outro lado, há temores do abalo que a Corte pode sofrer
com novas revelações envolvendo ministros.
Toffoli,
primeiro relator do inquérito do Banco Master, foi constrangido a deixar o caso
em reunião conduzida por Fachin com todos os ministros do STF, após ser
revelado que um fundo ligado ao Master comprou parte de um resort no Paraná que
pertencia a uma empresa de Toffoli e dois irmãos do ministro.
Já
Moraes virou alvo de críticas após sua esposa, a advogada Viviane Barci de
Moares, ter mantido um contrato de R$ 129 milhões com Master. Agora, novas
informações vazadas da investigação ampliaram os indícios de conexão entre
Moraes e Vorcaro.
Amostras
do potencial danoso de uma eventual delação premiada do banqueiro foram
reveladas a partir da noite de quarta-feira (4/2), após parte do conteúdo
aprendido no celular de Vorcaro ser divulgado a jornalistas.
Segundo
o jornal O Globo, Vorcaro falou com Moraes no dia de sua primeira prisão, no
ano passado. Ele teria enviado mensagem ao ministro às 7h19m do dia 17 de
novembro dizendo: "Fiz uma correria aqui para tentar salvar. Alguma
novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?".
De
acordo com o jornal, não é possível saber a resposta de Moraes porque ele
enviou mensagens de visualização única, que depois se apagam. Procurado pelo O
Globo, o ministro negou ter se comunicado com o banqueiro.
Além
disso, jornalistas tiveram acesso à parte do material apreendido na
investigação do Banco Master que Mendonça autorizou que fosse compartilhado com
a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, que investiga no
Congresso as fraudes no pagamento de aposentados e pensionistas.
A
decisão autorizava apenas o envio de conteúdo relacionado ao INSS, mas chegaram
à CPMI conversas mais amplas, que acabaram vazadas. A BBC News Brasil também
obteve acesso ao material.
Esse
material mostra o banqueiro relatando encontros com Moraes em trocas de
mensagens com sua namorada, Martha Graeff.
Essas
conversas também mostram a proximidade de Vorcaro com o senador Ciro Nogueira
(PP-PI), que foi ministro da Casa Civil do governo de Jair Bolsonaro
(2019-2022).
Nas
mensagens à namorada, Nogueira é descrito por Vorcaro como "um dos meus
grandes amigos de vida" e é celebrado por apresentar no Congresso uma
proposta legislativa que beneficiaria o Master, mas que acabou não sendo
aprovada.
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Lulinha vira alvo de investigações do INSS
Por
outro lado, decisões de Mendonça também estão dando dor de cabeça para o
Palácio do Planalto, desde que um dos filhos do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva virou alvo do inquérito que apura as fraudes do INSS.
Fábio
Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, é suspeito de ligação com o lobista
Antônio Carlos Camilo Antunes, o "careca do INSS", investigado como
um dos principais operadores do esquema de fraude que desviou recursos de
aposentados e pensionistas.
Segundo
o portal G1, a quebra de sigilo fiscal e bancário do filho de Lula já foi
autorizada por Mendonça. O caso está em sigilo e o Supremo não divulgou essa
decisão.
Além
disso, a CPMI do INSS também aprovou essa quebra de sigilo no dia 26 de
fevereiro. Uma semana depois, a defesa de Lulinha conseguiu anular esse ato no
STF, com uma decisão do ministro Flávio Dino nesta quinta-feira (5/2), após o
precedente aberto pela empresária Roberta Luchsinger. Ela conseguiu, no dia
anterior, uma decisão de Dino suspendendo a abertura do seu sigilo fiscal e
bancário.
Dino
considerou que a decisão não teve "fundamentação concreta", já que a
comissão aprovou em bloco 87 requerimentos com medidas para a investigação. No
dia seguinte, ele anulou todas as quebras decretadas na votação em bloco, a
pedido da defesa da Lulinha.
"Por
óbvio, esclareço que a decisão de ontem e a presente decisão não têm qualquer
relação e não invalidam quebras de sigilo efetuadas na investigação da Polícia
Federal, sob a supervisão do STF, em procedimentos próprios", ressaltou
Dino ao aceitar o recurso de Lulinha, em referência às decisões de Mendonça.
Luchsinger
é amiga do filho de Lula e também é investigada por suposta ligação com o
"careca do INSS". Segundo informações reveladas pela imprensa
brasileira e que a BBC News Brasil não confirmou oficialmente, ela também teria
intermediado pagamentos para Lulinha. Ele nega qualquer ilegalidade.
Antes
de sua defesa conseguir anular a quebra da CPMI no STF, informações vazaram na
quinta-feira (5/2).
Segundo
dados da CPMI revelados pelo portal Metrópoles e confirmados pela BBC News
Brasil, o filho de Lula movimentou, em transações bancárias, R$ 19,5 milhões em
quatro anos — de janeiro de 2022 a janeiro deste ano, foram 9,774 milhões em
crédito (que entraram na conta) e 9,758 milhões em débito (que saíram).
A
defesa de Lulinha reagiu ao vazamento por meio de uma nota, em que diz que as
fontes de renda são "legítimas" e que é "gritante a ausência de
menção a qualquer elemento ligado às fraudes do INSS, o alegado objeto
investigativo da quebra de sigilo".
Questionado
sobre o assunto em dezembro, Lula declarou que "todas as pessoas
envolvidas" no esquema de desconto ilegal de benefícios do INSS seriam
investigadas.
Para o
cientista político Lucas de Aragão, da consultoria Arko Advice, os reflexos das
duas investigações no Congresso e no Poder Executivo dão muitos poderes ao
ministro.
"André
Mendonça hoje talvez seja a figura mais relevante no processo político",
afirma
"Institucionalmente,
ele fica muito fortalecido porque é relator de dois casos muito importantes. Ou
seja, dá um poder formal a ele, um poder institucional", reforça.
Aragão,
porém, não subestima a força de Moraes, após sua atuação à frente de inquéritos
que culminaram na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de
golpe de Estado.
"O
Alexandre [de Moraes] ainda tem um poder por conta da relação dele com alguns
outros ministros, do papel dele dos últimos anos, e da defesa que a Corte fez
dele ao longo desses últimos anos", ressaltou.
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Mendonça se tornou poderoso ao herdar investigações de Toffoli
Assim
como o inquérito do Banco Master, a investigação das fraudes no INSS também
chegou às mãos de Mendonça após passar pelo gabinete de Toffoli.
O caso
foi enviado a ele inicialmente, porque o ministro já era relator de uma ação
sobre o acordo de ressarcimento dos aposentados e pensionistas prejudicados
pelos desvios.
É comum
que casos similares sejam distribuídos ao mesmo gabinete. No entanto, a
Procuradoria-Geral da República (PGR) questionou o envio do inquérito criminal
para Toffoli, já que o processo que estava com ele era uma ação civil.
O então
presidente do STF, Luís Roberto Barroso, atendeu ao pedido da PGR e determinou
a redistribuição do caso, que acabou sorteado para Mendonça.
Em
entrevista à BBC News Brasil em fevereiro, o jurista Oscar Vilhena Vieira,
professor da FGV Direito SP, disse não ser correto considerar Mendonça como um
ministro mais independente do mundo político que Toffoli.
O novo
relator do caso Master chegou ao STF em 2021, nomeado pelo então presidente
Jair Bolsonaro, após atuar como ministro da Justiça de seu governo.
Assim
como todos os ministros da Corte, teve que fazer campanha no Senado por sua
aprovação.
"É
um ministro discreto, mas é um ministro que, evidentemente, tem os seus laços.
E agora eu acho que ele tem condição de provar se ele é um ministro imparcial
ou não", disse Vieira.
• Suposta conversa entre Moraes e Vorcaro
no dia da prisão do banqueiro é 'grave', avaliam ministros do STF
Ministros
do Supremo Tribunal Federal (STF) avaliam como “grave” a revelação de mensagens
atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro enviadas ao ministro Alexandre de Moraes
no dia em que o empresário foi preso pela primeira vez, em novembro de 2025. Em
conversas reservadas, integrantes da Corte disseram que o episódio torna a
situação do magistrado “difícil” de explicar e pode aprofundar o desgaste
institucional do tribunal.
Segundo
relatos de ministros ouvidos pela reportagem, a divulgação do conteúdo aumenta
as pressões internas sobre o STF em um momento considerado delicado para a
imagem da Corte.
Integrantes
do Supremo ressaltam que é necessário ter acesso ao conteúdo completo das
comunicações para compreender o contexto das mensagens. Ministros mais próximos
de Moraes também defendem cautela e afirmam que é preciso aguardar possíveis
novos desdobramentos do caso.
Alexandre
de Moraes negou na quinta-feira ter recebido as mensagens mencionadas na
reportagem. O ministro declarou que “não recebeu as mensagens referidas na
matéria” e afirmou que “trata-se de ilação mentirosa no sentido, novamente, de
atacar o STF”. Procurado novamente nesta sexta-feira, o magistrado não se
manifestou.
Segundo
a colunista Malu Gaspar, Vorcaro teria enviado uma série de mensagens ao
ministro no dia 17 de novembro de 2025, data em que foi deflagrada a operação
da Polícia Federal que resultou em sua prisão no Aeroporto de Guarulhos, à
noite. As informações extraídas do celular do banqueiro indicariam que ele
relatava a Moraes o andamento de negociações para a venda do Banco Master e
também faria referências a um inquérito sigiloso que tramitava na Justiça
Federal de Brasília.
Entre
as mensagens registradas, Vorcaro teria perguntado duas vezes ao ministro se
havia alguma novidade e questionado: “Conseguiu bloquear?”. A Polícia Federal
identificou ao menos nove mensagens trocadas entre 7h19 e 20h48 naquele dia. De
acordo com investigadores, a comunicação teria ocorrido por meio de anotações
no bloco de notas enviadas via WhatsApp como imagens de visualização única.
A
defesa de Daniel Vorcaro reagiu à divulgação das informações. Em nota, os
advogados afirmaram que a exposição de dados do celular do banqueiro inclui
“conversas íntimas, pessoais e que expõem terceiros não envolvidos com os
fatos, além de supostos diálogos com autoridades e até o ministro do STF,
Alexandre de Moraes, talvez editadas e tiradas de contexto”.
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Investigação e crise no tribunal
O caso
envolvendo o Banco Master desencadeou uma das maiores crises institucionais
recentes do Supremo. O episódio passou a levantar questionamentos sobre a
atuação de ministros da Corte, especialmente de Alexandre de Moraes e de Dias
Toffoli, que inicialmente era o relator do processo.
Toffoli
deixou a relatoria do inquérito no mês anterior após semanas de desgaste. Entre
as decisões criticadas por investigadores estava a escolha dos peritos
responsáveis pela análise do material extraído do celular de Vorcaro. A
situação se agravou depois que o ministro confirmou ser sócio da empresa
Maridt, que havia vendido participação em um resort no Paraná para um fundo
ligado ao empresário Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro investigado.
Com a
saída de Toffoli, o processo foi redistribuído ao ministro André Mendonça. Na
quarta-feira, ele determinou a prisão de Vorcaro e de outros investigados na
terceira fase da operação Compliance Zero.
A
investigação da Polícia Federal apura um suposto esquema bilionário de fraudes
no sistema financeiro. Entre os crimes investigados estão gestão fraudulenta de
instituição financeira, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
De acordo com investigadores, estruturas do mercado financeiro teriam sido
usadas para captar recursos e movimentar ativos considerados de alto risco ou
baixa liquidez, além de operações destinadas a ocultar prejuízos e desviar
recursos.
A
decisão de Mendonça também menciona suspeitas de interlocução com servidores
públicos e tentativas de interferir nas investigações. A prisão de Vorcaro será
analisada pela Segunda Turma do STF a partir do dia 13, quando os ministros
decidirão se mantêm ou não a medida.
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Reação no congresso
A
divulgação das mensagens provocou repercussão também no Congresso Nacional. O
senador Alessandro Vieira (MDB-SE), relator da CPI do Crime Organizado, afirmou
que as informações divulgadas exigem investigação.
Segundo
ele, “são fatos gravíssimos que exigem apuração rápida e transparente. Ao que
tudo indica, nós temos relações, no mínimo, não republicanas entre ministros da
Suprema Corte e um cidadão que hoje está preso e denunciado por fazer parte do
crime organizado, com fraudes e golpes bilionários”.
Na
Câmara dos Deputados, o deputado Duarte Júnior (PSB-MA), vice-presidente da CPI
do INSS, disse que pretende levar o tema à comissão e estuda a possibilidade de
convidar Alexandre de Moraes para prestar esclarecimentos.
De
acordo com o parlamentar, “os dados são bem reveladores. Não se trata de um
encontro institucional entre um ministro do Supremo e um magistrado dentro do
tribunal, mas de um encontro particular, com relações pessoais e mensagens
perguntando sobre supostos bloqueios de processo. São questões graves que
precisam ser aprofundadas”.
O
deputado acrescentou que o colegiado avalia os instrumentos disponíveis para
avançar nas apurações. “A gente está estudando a melhor forma de fazer isso,
seja com requerimento de novas informações, quebra de algum outro sigilo ou um
convite para esclarecimentos”, afirmou.
Fonte:
BBC News Brasil/Brasil 247

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