Tempos
de exceção moderno
O
Estado de exceção moderno, teorizado entre o final da Primeira Guerra Mundial e
a Segunda, se inscreve na crise na democracia liberal e de suas instituições,
do Parlamento à educação, da justiça à família, de igrejas a sindicatos, entre
outras. Menos coercitivas do que no passado, essas instituições são, também,
menos protetoras, podendo se desfazer a qualquer momento. Descrença ainda na
representação política, em que se separaram os representantes dos
representados.
Tais
circunstâncias se associam ao esgarçamento do Estado-nação como referência
simbólica de pertencimento e de suas prerrogativas de bem-estar social, a
política se convertendo em gestão, e as instituições públicas em empresas,
submetidas a avaliações e performances, produzindo competições que rompem
vínculos profissionais de confiança e amizade.
As
instituições se tornam, assim, incompreensíveis, e a política é esvaziada do
sentido da cidadania, de valores e direitos comuns e compartilhados, resultando
na indiferenciação entre fato e direito, entre a aplicabilidade da lei e sua
suspensão, o que faz vacilar o princípio de realidade social e subjetivo.
É assim
que o conceito de alienação abrange diferentes figurações. Pois, se alienação
provém de alienus, alheio, estranho, quando referido por Karl Marx ao mundo do
trabalho – no qual o trabalhador não se reconhece a si mesmo quando está no
trabalho, mas se sente fora de si e só está junto a si quando fora do trabalho
–,o conceito hoje amplia seu alcance, no sentido em que a alienação
contemporânea como estado de exceção é a própria maneira de habitar o mundo, na
dispersão do Eu na exterioridade, com o enfraquecimento da capacidade de
julgar, de avaliar acontecimentos na condição de maioridade intelectual, “ sem
a direção de outrem”.
Eis por
que a alienação como estado de exceção significa também a colonização do mundo
interno, o que se manifesta em pensamentos homogêneos e unidimensionais de
grupos isolacionistas, no declínio da capacidade de pensar, de discriminar, de
duvidar – prevalecendo o “valor de exibição”, no desejo fusional das massas, em
um universo de identificações imediatas e de sociabilidade empática, de amor ou
ódio aos governantes.
Concorre,
para tanto, a universalização do mercado para todas as esferas da vida, em
particular na introdução do marketing político, da indústria cultural, da
obsolescência permanente de valores e comportamentos. O que significa, na vida
em comum, a deslegitimação permanente de instituições constituídas em uma
tradição, que entrecruzava sua arché e o futuro. Deste modo, a ruptura com o
passado foi o pressuposto da expansão do capitalismo global: “o dispositivo
teórico da Economia Política […] é o de abolir tudo o que, nos costumes, nos
hábitos e nas leis existentes, sejam obstáculo ao ‘ jogo natural’ do mercado,
isto é, a seu funcionamento sem entraves nem tempos mortos,[…] cuja validade
teórica e prática depende da propensão real dos indivíduos para funcionarem
como a teoria exige[…], a saber, sem filiação, sem pertencimentos ou
enraizamento”.
A
política encontra-se sob os auspícios da tecnologia, da burocracia e da
economia – que impõem a aceleração do tempo, o que se traduz no liberalismo
econômico, tudo resultando no liberalismo libidinal da ilimitação, da fantasia
de poder ter fazer e ter tudo. Sem referências estáveis e estabilizadoras, as
experiências do passado não são mais de valia como comunicação entre as
gerações, advindo diversas formas de insegurança e de medo.
Pois se
a democracia promete o máximo de sobrevivência, segurança, justiça e liberdade,
ela o faz sempre no horizonte de sua incompletude, mas ao mesmo tempo de
esperança.
Mas
quando o presente é de incerteza e de desordem psíquica e política, o futuro
não representa mais uma possibilidade, e a política manifesta seus elementos de
exceção, pretendendo instaurar uma ordem que perdeu sua dimensão fundamental:
“A segurança como paradigma de governo não nasce para instaurar a ordem, mas
para governar a desordem.É neste sentido que a segurança, juntamente com o
estado de exceção, é o paradigma fundamental da política mundial”.
Neste
horizonte, desenvolvem-se mecanismos de controle, em sociedades que se mostram
incontroláveis, como o atestam as redes sociais e a Inteligência Artificial nos
diferentes campos em que passam a ser utilizadas. No que diz respeito a seu
impacto na democracia, não se trata mais da formação de cidadãos pelas
instituições a partir da educação pública e humanista, tampouco de eleitores
referidos a associações, sindicatos, partidos políticos, porém de votantes
“formados” pela lógica do “facebook” e da economia digital, que se instalam na
exibição de si e no culto à facilidade e à imediatez do presente.
Neste
confinamento no presente há perda de espera e de esperança, estabelecendo-se
uma espera sem horizonte de espera, que é a reificação do futuro: “trata-se de
uma espera muito específica no momento atual da mundialização. Enquanto o
capital se propaga, a força de trabalho das populações em perpétua peregrinação
é compartimentada e comprimida por uma gama variada de coerções, a mais sutil e
onipresente de todas sendo a espera, quer dizer, a disciplinarização pela
espera[…], a imobilização no interior de uma máquina de compressão e
aceleração[…], em uma degradação filosófica da espera. No imediato pós-guerra,
o olho clínico de Samuel Beckett [em Esperando Godot ou em Fim de partida] lhe
permitiu fazer um diagnóstico, quando ele viu que este seria a marca do novo
curso do mundo”.
Tempo
patológico, nele o futuro não é mais promessa, mas ameaça. Por isso, ao
analisar as relações entre os indivíduos em uma comunidade em “estado de
emergência”, Sigmund Freud referia-se ao Nebenmensch, o próximo, o semelhante
que seria familiar e protetor, subitamente irrompendo como estranho e hostil,
conformando uma alteridade radical e um corpo estranho, inassimiláveis no
interior do Sujeito. Como perigo angustiante, ele é “informe”: “este Outro
inassimilável não pode ser [objeto de resiliência], pois arrisca sempre
surpreender de novo e de nos precipitar do alto de sua aparição, deixando-nos
sem defesa. O que causa o trauma é a alteridade absoluta, para além de qualquer
inter-subjetividade[…]. Ela marca a ausência de proteção e abrigo, pois a
aparição do Outro precede o ato de visá-lo, já que ele não se deixa preceder
por nenhum sinal precursor, surpreendendo sem que se tenha tempo de se
proteger”.
Medo e
angústia trazem de volta o “reino das emoções primárias, do culto de ídolos,
uma situação propícia a manipulações e à demagogia, induzindo à ansiedade que
provoca uma regressão psicológica para disposições paranoides, arcaicas,
sobretudo ideologias e doutrinas maniqueístas de vingança e de extermínio:
“Este fenômeno propriamente falando é anormal, assinala a entrada no que é
legítimo denominar uma patologia social”.
Reaver
o ideário de origem da democracia é acolher, reabrindo-o, o futuro. Pois, se a
democracia e a cultura não são capazes de estabelecer uma sociedade ideal, ao
menos permitem criar uma sociedade capaz de idealização.
Fonte:
Por Olgaria Matos, em A Terra é Redonda

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