A
luta indígena mostra o caminho para derrotar a política privatista do governo
Lula
A
ocupação do terminal da imperialista estadunidense Cargill em Santarém (PA)
começou em 22/01 e foi ganhando força, reunindo centenas de indígenas e
apoiadores. Com a demora do governo em apresentar respostas concretas, a
mobilização escalou: na quarta (04/02) houve bloqueio de acesso ao aeroporto e,
na madrugada de quinta (05/02), a ocupação chegou ao próprio terminal
aeroportuário, uma demonstração da disposição de luta para barrar a destruição
do Tapajós. O Decreto nº 12.600/2025, de 28 de agosto de 2025, é o coração do
ataque. Ele trata os rios como “corredores logísticos” e coloca empreendimentos
do setor hidroviário no PND, isto é, no programa de
desestatização/privatização. Ou seja, concebe os rios como via de escoamento
dos lucros do agronegócio.
Como
foi bem descrito recentemente aqui no Esquerda Diário, com o avanço da
mobilização o governo foi obrigado a retroceder e suspender o projeto de
dragagem do Rio Tapajós. A medida é resultado direto da luta dos povos
indígenas e apoiadores, e confirma o que a própria mobilização vem
demonstrando: sem luta, não tem recuo do governo nem dos interesses do agro e
das multinacionais. Mas, como as lideranças indígenas vêm afirmando desde o
início, a luta não pode se limitar a “suspender a dragagem”. O alvo é revogar
integralmente o Decreto nº 12.600/2025, assinado por Lula, que privatiza os
rios Tapajós, Madeira e Tocantins.
Na
prática, isso significa subordinar a vida do rio, seus povos, territórios,
modos de vida, equilíbrio ecológico, ao escoamento de commodities e ao lucro. E
esse processo avançou sem consulta livre, prévia e informada, um direito
previsto na Convenção 169 da OIT, que o Brasil reconhece. Boulos mentiu aos
povos indígenas na COP e a medida de hoje segue sem ouvir a reivindicação dos
povos indígenas, que é a revogação do decreto. Não por acaso, a mobilização
denuncia que o decreto abre caminho para intervenções de grande impacto no
Tapajós. Não existe verdadeiro direito dos povos indígenas se o governo Lula
pode decretar a privatização dos rios. A continuação da ocupação, com forte
apoio de diversos setores sociais, mostra um salto político importante do movimento
indígena, do qual precisamos aprender e nos inspirar.
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A conexão entre a luta histórica indígena e as experiências recentes
Há um
acúmulo de experiências com o governo Lula, inclusive com camadas mais jovens
do movimento tomando à frente da luta, com métodos mais radicalizados e
enfrentando a intransigência do governo federal.
Se é
verdade que a história do Estado brasileiro é a história de crimes humanitários
e genocídios deixados impunes contra os povos originários e africanos
escravizados desde a colonização portuguesa, tivemos também uma inflexão
particular no pacto da Nova República e da Constituinte de 1988 com o golpe
institucional. A fim de impor níveis ainda mais brutais de exploração contra a
classe trabalhadora brasileira, maiores daqueles que os governos do PT já
vinham aplicando, o golpe rompeu com o ordenamento daquela frágil república dos
ricos surgida do desvio do ascenso operário do final dos anos 1970 e início dos
80, consumada com a Constituição “cidadã” de 1988, que formalmente incluía na
letra da lei o direitos dos povos originários à sua própria cultura e terras,
marcando uma conquista importante com o direito de demarcação das terras,
transformando os indígenas em sujeitos de direito e não de tutela, ao mesmo
tempo em que não lhes garante o direito de autodeterminação se assim o
quiserem.
No caso
do Pará, a porta de entrada da Amazônia, a experiência dos povos originários
com os governos do PT vem de antes. A construção da Usina Hidrelétrica de Belo
Monte é exemplo disso, como parte do projeto neodesenvolvimentista do governo
federal (Lula/Dilma), no qual o governo estadual de Ana Júlia Carepa (PT)
marcou o momento em que o PT paraense, outrora aliado das populações
ribeirinhas e indígenas do Xingu, passou a operar como o executor de grandes
obras de infraestrutura rejeitadas por essas mesmas populações, priorizando a
aliança com o setor elétrico e as grandes empreiteiras.
Anos
depois, a porteira abriu com o golpe, e o governo Bolsonaro levou à frente uma
verdadeira cruzada anti-índigena, radicalizando a fronteira agrícola, o garimpo
ilegal e o desmatamento, com casos bizarros como a situação da contaminação por
mercúrio de centenas de yanomamis, algo articulado pelas Forças Armadas e
garimpeiros. A tese reacionária do Marco Temporal marca essa inflexão, na qual
se pretende aniquilar o direito elementar da demarcação de terras.
Nesse
contexto, os povos originários, que nunca deixaram de resistir aos séculos de
opressão colonial, estiveram na vanguarda de diversos processos importantes de
luta. O Acampamento Luta pela Vida de 2022 conseguiu reunir mais de 100 povos
de distintas partes do país, derrotando a votação do Marco Temporal por parte
do STF. O governo Lula assumiu o governo fazendo inúmeras promessas ao
movimento, com o cacique Raoni subindo a rampa do Palácio do Planalto junto do
presidente, gerando expectativas sobretudo com relação à demarcação de terras.
A criação do Ministério dos Povos Indígenas era parte das tentativas do governo
de frente ampla em desviar o profundo descontentamento e vontade de luta do
movimento para dentro das instituições, com Sônia Guajajara do PSOL cumprindo
um importante papel de colocar toda a energia dos povos indígenas na confiança
na conciliação de classes. No entanto, as contradições cada vez mais foram
aparecendo.
São
muitos os exemplos, como a aprovação da exploração de petróleo na Foz do
Amazonas, que inclusive já apresentou vazamentos, desconsiderando completamente
o impacto ambiental e o modo de vida dos povos originários da região. O texto
do Marco Temporal foi aprovado no Congresso durante o governo Lula III, com
votos de parte considerável de sua base aliada. A forte greve dos professores
do Pará, enfrentando um aliado de Lula, o governador Helder Barbalho (MDB), e
derrotando o projeto de lei que atentava contra a educação indígena, marcou uma
importante confluência entre luta indígena e operária, em um estado na qual a
classe trabalhadora é marcadamente negra e indígena, além da forte presença da
resistência de comunidades aldeadas. Desde aí, a desconfiança com o Ministério
de Sônia Guajajara tomou contornos mais concretos, uma vez que enquanto a
psolista procurava colocar panos quentes na situação e salvar a pele de
Barbalho, o próprio movimento indígena e os professores não cederem e venceram
apesar das tentativas de contenção. Além disso, o projeto de dragagem dos rios
Tocantins, Madeiro e Tapajós é uma das medidas no marco de todo um projeto mais
amplo de infraestrutura para escoamento da produção da soja que tem a China
como principal destino, como por exemplo o projeto da construção da Ferrogrão,
ferrovia que iria interligar Sinop (MT) a Miritituba (PA) e que tem leilão
programado para o 1º semestre, o que promete mais tensão em torno do tema,
agora ainda mais próximo das eleições.
Sem
dúvidas, a COP30 em Belém marcou um importante divisor de águas, uma
conferência que reuniu em peso desde o lobby petrolífero, bancário e do
agronegócio até os representantes diplomáticos do imperialismo europeu e da
China, para organizar um grande greenwashing no coração da Amazônia. Enquanto
os capitalistas e seus representantes negociavam como só restar nos adaptar à
crise climática e continuar acumulando capital contra os limites naturais do
planeta, os povos do Baixo Tapajós invadiram a Blue Zone, parte restrita e
destinada às negociações diplomáticas e de lobby, denunciando a falta de
diálogo do governo brasileiro e a grande farsa do capitalismo verde, dizendo
“nós não comemos dinheiro”. O protesto estampou a capa dos principais jornais
pelo mundo mostrando as contradições do governo por um lado, e por outro, a
força dos povos originários que junto a setores de ambientalistas independentes
mostraram para o mundo quem são os que de fato estão lutando em defesa do meio
ambiente e contra a farsa das cúpulas climáticas burguesas como as COPs.
O que
Lula tenta vender como uma hábil negociação diplomática com Trump, na verdade é
o reposicionamento do Brasil enquanto um país duplamente dependente da disputa
entre EUA e China, agora também tentando ter mais margem de manobra com o
acordo União Europeia e Mercosul, e a sua consequência não é de forma alguma
uma maior independência nacional com relação ao imperialismo, mas uma
subordinação inconciliável à lógica imperialista do extrativismo, espoliando as
formas tradicionais de vida dos povos originários, a natureza e os direitos e
futuro dos trabalhadores e oprimidos. A luta indígena mostra o potencial de se
desenvolver um caminho diametralmente oposto.
Não por
acaso, diversos vídeos e imagens da ocupação do aeroporto de Santarém e do
porto da Cargill falavam sobre uma “nova cabanagem”, revolta popular
protagonizada por indígenas e escravizados que enfrentaram o Império brasileiro
entre 1835 e 1840, no período regencial. É esse tipo de espírito guerreiro que
aterroriza os herdeiros dos senhores de escravos e bandeirantes, os
latifundiários e seus políticos capitalistas, como o reacionário Malaquias José
Mottin (PL) que atropelou lideranças indígenas com seu carro em uma
manifestação recentemente, respondida hoje com a ocupação da Câmara de
Vereadores de Santarém exigindo sua cassação imediata.
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Para onde vai a mobilização?
A que
se considerar também como o ímpeto de luta dos povos originários, em especial
da região paraense, se colocam em um contexto internacional de avanço do
imperialismo estadunidense, com a invasão da Venezuela, mas também de lutas
importantes como os processos na Bolívia contra o aumento dos combustíveis, na
Argentina contra a reforma trabalhista de Milei, para não comentar os
fortíssimos protestos contra o ICE de Donald Trump nos Estados Unidos.
Nesse
contexto, o governo Lula encontra-se num impasse. A partir do Ministério dos
Povos Indígenas, tentou colocar panos quentes na situação articulando uma mesa
de negociação à portas fechadas com algumas lideranças, o que foi veementemente
negado: qualquer proposta deveria ser feita ao conjunto do movimento, de forma
aberta. Obrigado a retroceder, a ministra Sônia Guajajara anunciou que iria
suspender as obras de dragagem do Rio Tapajós, o que no entanto também não foi
capaz de arrefecer o movimento, afinal a principal reivindicação não foi
atingida, a revogação integral do decreto 12.600. A experiência acumulada com o
governo e a desconfiança gestada durante anos também com relação ao Ministério
deu impulso a esse movimento, nos deixando a importante lição de que há apenas
uma forma de derrotar a sanha de lucro dos capitalistas e os ataques dos
governos: com uma luta intransigente e independente.
Por
hora, os povos indígenas continuam ocupando o terminal do porto da Cargill, e
não há sinais de que pretendem voltar atrás, ganhando dia após dia mais apoio e
visibilidade. Estão havendo discussões para a deflagração de uma greve nacional
dos servidores técnico-administrativos das universidades federais agora logo
depois do carnaval. MPF teve de entrar inclusive com um pedido ao governo e a
PM para que não usasse a força, ainda que salientando que “qualquer ação de uso
da força deveria ser proporcional”. Não está descartada a possibilidade de
escalada da violência, sendo que a entrada em cena de um setor desse setor
grevista, justamente que marcou uma inflexão importante de questionamento aos
pilares da conciliação da frente ampla como o próprio Arcabouço Fiscal, poderia
ter um potencial explosivo, algo que as centrais sindicais como CUT e CTB
procuram amortecer e separar.
Por
isso é tão importante difundir e apoiar essa luta, como o Esquerda Diário está
fazendo divulgando a campanha financeira da ocupação. Mais do que isso, é
crucial que as centrais sindicais, a começar pelas alinhadas com o governo Lula
como CUT e CTB rompam sua paralisia e sejam parte da solidariedade ativa com a
luta dos povos originários, assim como a UNE, que chegou a soltar nota em
solidariedade à luta indígena, mas não vem organizando as bases do movimento
estudantil para fortalecermos essa luta, procurando interligar e impulsionar
também a luta dos TAEs.
Uma
vitória dos povos indígenas contra os planos privatistas do governo Lula,
significaria também uma derrota para a extrema-direita pois fortalece a luta
dos trabalhadores e todos os oprimidos do país e pode impulsionar a
constituição de alternativas radicais de esquerda, críticas e independentes não
apenas ao projeto de conciliação de Lula, mas também ao projeto de país
abertamente entreguista e reacionário da extrema direita, pautando para além da
revogação do decreto, a necessidade de levantar demandas fundamentais como a
estatização dos bens naturais nacionais, tais como os rios e florestas;
expropriação dos grandes monopólios imperialistas do agronegócio, a começar
pela Cargill por exemplo, sob gestão operária e controle indígena e popular;
demarcação de todos os territórios indígenas e pelo direito à sua
autodeterminação se assim desejarem; a reforma agrária radical com a
expropriação dos latifúndios sem indenização e o não pagamento da dívida
pública, aliado ao monopólio do comércio exterior. É preciso expulsar o
imperialismo da Amazônia e do Brasil, e para isso a unidade da classe
trabalhadora com os povos originários é estratégica e indispensável, algo que
só pode ser feito em uma luta intransigente, anticapitalista e revolucionária.
Fonte:
Esquerda Diário

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