quarta-feira, 4 de março de 2026

Estudo aponta novas dinâmicas entre pontes artificiais e mamíferos da floresta

Em toda a Amazônia, a fragmentação da floresta representa uma ameaça crescente à preservação da fauna. Em nome do desenvolvimento econômico, o avanço do agronegócio e de obras de infraestrutura — como rodovias, ferrovias, linhas de transmissão e gasodutos — traz consigo diversos riscos. Entre os principais, destacam-se o isolamento populacional de muitas espécies animais e sua eventual morte por atropelamento.

Mamíferos que vivem e se deslocam entre as árvores — como primatas, preguiças e porcos-espinhos — estão entre os mais afetados por esse confinamento geográfico. Ao mesmo tempo, também são os que menos se beneficiam de iniciativas ambientais mitigadoras, como a implementação de passagens artificiais.

Diante desse quadro, e dispostos a obter mais informações sobre o comportamento dos animais e seus habitats, os biólogos Justin Santiago e Lindsey Swierk, da Universidade de Binghamton, em Nova York, viajaram ao coração da Amazônia peruana com um propósito: entender a dinâmica das espécies locais e buscar novidades na relação entre a fauna e as passagens artificiais .

Para isso, os pesquisadores escolheram uma área de floresta contínua e instalaram câmeras em pontos estratégicos de um amplo sistema de passarelas, cuja estrutura combina redes, cordas grossas e plataformas de diferentes alturas. Entremeados, os objetos formam longos corredores suspensos, que ajudam os animais a se deslocarem da copa de uma árvore à outra.

Publicada em setembro de 2025, a pesquisa foi realizada na Estação de Campo do Conservatório Amazônico de Estudos Tropicais (ACTS), na Reserva Biológica Napo-Sucusari, uma área protegida próxima à cidade peruana de Iquitos, na região de Loreto. Por meio de armadilhas fotográficas, eles registraram durante 21 dias o vaivém de espécies como a preguiça-real (Choloepus didactylus), o macaco parauacu (Pithecia sp.) e o ouriço-de-cauda longa (Coendou l. longicaudatus), espécie descoberta em 2021.

Segundo os cientistas, é importante entender primeiro como os animais usam as passarelas em áreas de floresta contínua, para então adotar medidas que ajudem no deslocamento dessas espécies em regiões de natureza fragmentada, onde há maiores riscos ambientais.

Em entrevista à Mongabay, Justin Santiago reconhece que há “muito a aprender” sobre pontes artificiais. Ao mesmo tempo, exalta a realização de trabalhos científicos focados no uso de novas técnicas para o mapeamento da fauna em diferentes contextos florestais sul-americanos.

“Anteriormente, os estudos eram conduzidos por meio de levantamentos de campo e com o auxílio de escaladores de árvores. A ponte suspensa, assim como [se mostra útil] para as espécies estudadas, permite que os pesquisadores explorem os comportamentos de uma maneira muito mais eficaz”, disse.

Na visão de Santiago, já é possível notar avanços ao longo do tempo. “Internacionalmente, as pontes suspensas demonstraram sua eficácia em diversos habitats, proporcionando conectividade entre eles, aumentando o fluxo gênico [que mantém as populações geneticamente saudáveis] para espécies ameaçadas e reduzindo a mortalidade em áreas próximas a linhas de transmissão de energia e rodovias.”

<><> O vaivém dos parauacus

A bióloga Fernanda Abra, especialista em manejo de fauna e pesquisadora pós-doutoral no Centro de Conservação e Sustentabilidade do Instituto Smithsonian em Washington, nos Estados Unidos, concorda que o trabalho realizado no Peru pode trazer referências para a instalação de pontes em áreas movimentadas e avanços em novas formas de monitoramento.

Ela também destacou o impacto da pesquisa em áreas de mata intacta — fator que altera o comportamento da fauna —, além de um caso inédito em sua vida profissional:  a detecção da travessia dos macacos parauacus, agrupados no estudo por gênero.

“É importante ressaltar que, no estudo deles, o macaco-saki [nome popular pelo qual algumas espécies de parauacu são conhecidas, sendo mais comum no inglês “saki monkey”, como utilizado na pesquisa] foi visto utilizando as pontes. É uma espécie de primata extremamente sensível e que jamais havia sido observada utilizando estas estruturas artificiais”, disse.

Segundo Abra, apesar dos sistemas suspensos estarem em um ambiente preservado, “também podem revelar coisas importantes” para a ciência, contribuindo diretamente para o trabalho técnico de especialistas em regiões afetadas pela fragmentação florestal.

Não por acaso, os ganhos citados são perceptíveis no trabalho da própria pesquisadora, que em 2024 foi a vencedora do Prêmio Whitley, concedido pela organização britânica Whitley Fund for Nature (WFN) e conhecido como o “Oscar da natureza”. Como a Mongabay contou à época, a premiação reconheceu o trabalho de Abra à frente de pontes de dossel florestal na Terra Indígena Waimiri-Atroari, que liga as capitais Manaus (Amazonas) e Boa Vista (Roraima) pela polêmica rodovia BR-174.

“O trabalho é interessante e tem aplicabilidade. Hoje, na nossa área de mitigação de impacto para a fauna arborícola, tentamos entender coisas bem básicas. Como, por exemplo, quais são os designs de pontes artificiais mais adequados para tipos diferentes de locomoção: tem macaco que se desloca por braquiação [de galho em galho], tem macaco que salta e tem macaco que é mais terrestre do que arborícola”, disse.

“Então, entender o design da ponte — a aparência, o formato e os materiais usados — é fundamental para a gente crescer nesta área.”

<><> Os desafios para a reconectar a floresta

Há dois tipos de impactos predominantes sobre as espécies, segundo os especialistas. Um deles é o atropelamento, que causa a morte direta de animais que atravessam as vias — um problema com características variadas a depender do bioma, como explicado nesta outra reportagem.

No entanto, para as espécies arborícolas, o principal impasse reside em um fenômeno da fragmentação florestal: o efeito barreira. Quando ele ocorre, a espécie não se sente incentivada a realizar a travessia de um ponto a outro, o que leva ao seu isolamento — e, consequentemente, a casos de endocruzamento, em que espécies aparentadas cruzam entre si, podendo causar doenças e declínio da população.

Em entrevista à Mongabay, Abra destacou uma recomendação do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), que deve converter o projeto de pontes de dossel vencedor do Prêmio Whitley em um modelo padrão para o Brasil.

No entanto, segundo ela, os desafios brasileiros seguem presentes, uma vez que o país combina sua vasta biodiversidade de espécies arborícolas com a quarta maior malha rodoviária do planeta — mais de 1,7 milhão de quilômetros de estradas e rodovias, segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT).

“Vários primatas amazônicos e da Mata Atlântica — como o muriqui, o macaco-aranha e o macaco-barrigudo — dificilmente desceriam da árvore para atravessar uma rodovia. E as pontes artificiais de dossel se tornam uma solução. Elas são simples, replicáveis, efetivas e de baixo custo quando comparadas ao valor de outras medidas — como uma passagem inferior de fauna ou um viaduto vegetado”, disse Abra.

Outros estudos trilham o mesmo caminho. Um deles é fruto do trabalho de doutorado da mestre em Ecologia Ana Rubia Rossi, da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). Publicada em outubro de 2022 e desenvolvida sob a orientação de Abra, a pesquisa vem ajudando a salvar a vida de primatas endêmicos e ameaçados de extinção na região de Ilhéus, no sul da Bahia.

O estudo se desenvolve na rodovia estadual BA-262, conhecida como Estrada do Chocolate por ser área de cultivo de cacau. Nessa região, o trabalho de campo criou um censo de registros sonoros e visuais, possibilitando o monitoramento e a instalação de pontes de dossel para espécies endêmicas como o sagui-de-wied (Callithrix kuhlii) e o mico-leão-de-cara-dourada (Leontopithecus chrysomelas).

Em 2021, Rossi identificou mais de cinquenta pontos de conexão natural de dossel no curso de 48 quilômetros da BA-262, uma região preservada de Mata Atlântica que conta com o manejo ambiental de sistemas agroflorestais, como as cabrucas. Nesse trecho do bioma, há baixos registros de atropelamentos de animais arborícolas.

O cenário, no entanto, pode mudar em breve. Pouco a pouco, a rodovia se torna uma das principais rotas de acesso a um novo porto em construção na região de Ilhéus, o que tem levado a transformações no traçado da estrada, além da remodelação da linha de energia elétrica que a margeia.

Segundo os especialistas, as consequências já são notáveis — o que torna urgente a instalação de novas estruturas suspensas. “Eu estava esperando o financiamento para novas pontes quando vi dois machos de mico-leão atropelados em dias seguidos. E pensei: não dá mais para esperar, preciso fazer alguma coisa agora, mesmo com poucos recursos. Assim, nós instalamos cordas em correntes, ligando diretamente as árvores em seis locais onde estávamos assistindo aos bichos morrendo”, disse Rossi.

Para sua surpresa e alívio, apenas onze dias após adotar a medida provisória, já foi possível observar primatas utilizando o recurso. “É um recorde”, celebrou.

“Meu trabalho precisa ter respaldo social. E a burocracia para liberar a instalação de estruturas fixas na rodovia é a [parte] mais difícil. Como eu sei as rotas dos animais arborícolas, a ideia de usar cordas ligando uma árvore à outra foi a grande sacada — e uma medida mais rápida. Por isso, chamei meu projeto de ‘Pontes para a Conservação’. Preciso fazer pontes para além da instalação delas em si; preciso fazer pontes com as pessoas”, concluiu Rossi.

 

Fonte: Mongabay

 

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