Para
não perder eleitores, políticos brasileiros não se envergonham em dizer agora o
oposto do que diziam antes
Quem
acompanhou, na semana passada, o último capítulo da novela que terminou com a
aprovação pela Câmara dos Deputados da lei que endurece o tratamento às facções
do crime organizado, reparou um detalhe, no mínimo, intrigante. Parlamentares
da situação, que normalmente rejeitam toda e qualquer medida minimamente
rigorosa de combate à bandidagem, acabaram dizendo sim ao mesmo texto que
cobriam de críticas em novembro do ano passado — quando o relatório apresentado
pelo deputado Guilherme Derrite (PP/SP) foi aprovado por 370 votos a 110. No
final das contas, o projeto foi aprovado por votação simbólica e seguiu para
sanção do presidente da República.
Merece
atenção, especialmente, essa mudança de posição dos deputados da esquerda a
respeito de uma posição que parecia um dogma sagrado em sua cartilha de
princípios — o de que bandido bom é bandido solto e sem a obrigação de prestar
contas à Justiça. O que terá acontecido nos últimos meses para justificar uma
mudança de posição tão radical a respeito de um assunto tão sensível, como é o
combate à criminalidade?
Vamos
aos fatos. Derrite ocupava a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo e se
licenciou do cargo para relatar um projeto de lei destinado a punir as facções
criminosas que espalham terror pelo país. O momento não poderia ser mais
propício. No dia 28 de outubro, uma operação vigorosa conduzida pelas polícias
Militar e Civil do Rio de Janeiro nas comunidades da Penha e do Alemão terminou
com 122 mortes. Cinco das vítimas fatais eram policiais. Entre as outras 117, a
grande maioria era de narcotraficantes ligados à facção Comando Vermelho.
Três
dias depois do confronto, e com o país em comoção apoiando a ação policial, o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia assinado e encaminhado ao Congresso
um texto elaborado pelo então ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski. A
promessa era de rigor. Só que, no final, o texto expôs um vício de origem da
lei brasileira — que costuma tratar os bandidos armados para a guerra como
vítimas indefesas do “Estado opressor”. Ao invés de endurecer, chegava a
abrandar as punições aos integrantes das facções. Se fosse aprovado em sua
forma original, como queria o então ministro da Justiça, tornaria os bandidos
faccionados mais fortes do que já eram. Em resumo, o texto usava palavras
demais para propor rigor de menos no combate ao crime.
“VÍCIOS
CONSTITUCIONAIS”
No
relatório de Derrite, as facções passaram a ser tipificadas como “toda
organização ultraviolenta, milícia privada ou grupo paramilitar que visa o
controle de territórios ou de atividades econômicas, mediante o uso da
violência, coação, ameaça ou outro meio intimidatório”. As penas previstas para
integrantes desses bandos foram ampliadas e as condições de execução das
sentenças, endurecidas. A progressão do regime fechado para o semiaberto
demoraria mais do que estava previsto na legislação ordinária.
Aprovado
na Câmara, o projeto seguiu para o Senado sob críticas pesadas dos
parlamentares da situação. O relatório de Derrite foi desfigurado e reduzido em
seu rigor. E ganhou uma novidade: a pretexto de se obter recursos financeiros
para o combate à violência, o texto recebeu um jabuti tributário destinado a
taxar as apostas esportivas eletrônicas — as chamadas bets. Com as alterações,
retornou à Câmara para nova apreciação.
Só que,
agora, do final do ano passado para cá, a intransigência da população contra o
crime ficou ainda maior e qualquer político que vier com essa conversinha de
“vítimas da sociedade” corre o risco de sofrer uma rejeição fenomenal. Talvez
esteja aí a explicação para a votação simbólica que, na terça-feira, excluiu as
mudanças feitas pelo Senado e devolveu ao texto a forma proposta por Derrite.
O
imposto sobre as bets, criado pelo relator do projeto no Senado, Alessandro
Vieira (MDB-SE), sob inspiração do ministro da Fazenda Fernando Haddad, foi
excluído e encaminhado para uma votação específica. (Em tempo: as bets devem
ser, sim, fiscalizadas com rigor e tributadas. Mas já passou da hora dos
legisladores abandonarem o recurso espertalhão de contrabandear questões
fiscais para dentro de projetos que nada têm a ver com a arrecadação. Imposto é
um tema sério demais para ficar camuflado no meio de um texto sobre um tema
completamente diferente!).
A
questão que está em foco, no entanto, não é o projeto em si, mas a postura do
governo diante dele. O acordo para lá de abrangente que excluiu do projeto as
mudanças feitas pelo Senado contou, inclusive, com o apoio do líder do PT na
Câmara, Lindbergh Farias (PT/RJ). Em novembro, ele havia sido uma das vozes
mais inflamadas contra as alterações ao texto de Lewandowski.
Os
deputados da situação — a começar pelo próprio Lindbergh — disseram na época
que o texto continha “vícios constitucionais” insanáveis e que a única atitude
possível era ignorar o relatório modificado e retornar ao projeto original.
Agora, porém, PT, por meio de seu líder de bancada, aderiu sem resistência ao
acordo que aprovou o texto de Derrite.
ARITMÉTICA
ELEMENTAR
O que
explica essa mudança radical? O que houve não foi, até prova em contrário, algo
parecido com o “estalo de Vieira” — o fenômeno paranormal que, de uma hora para
outra, teria transformado o jovem e limitado jesuíta português Antônio Vieira
em um dos pregadores mais cultos e iluminados da cristandade. O padre, que era,
então, um seminarista meio tolinho, ficou inteligentíssimo após sentir, dentro
da cabeça, o “estalo” que lhe revelou todos os mistérios Divinos.
No caso
de Lindbergh e de seus companheiros “da esquerda”, subitamente convertidos ao
projeto rigoroso de Derrite, não consta que suas mentes tenham sido abertas por
qualquer “estalo”. Mas, de qualquer forma — e, provavelmente, motivados por um
justificável senso de sobrevivência eleitoral —, eles parecem ter se
convencido, de uma hora para outra, do efeito positivo das propostas de rigor
no combate ao crime sobre a decisão de voto do cidadão.
A
grande preocupação dos parlamentares que mudaram de ideia não parece ter sido
com a definição de uma política de segurança de longo prazo ou com a definição
de um marco regulatório duradouro que facilite o combate às facções. A
preocupação é com o curtíssimo prazo — ou com os efeitos das medidas que forem
tomadas agora nas próximas eleições. Pesquisas apontam que, em 2026, a
segurança pública será um tema crucial no debate. Os defensores da linha dura
no tratamento aos bandidos levarão vantagens sobre os que enxergam os
criminosos como vítimas da sociedade. Sendo assim, o melhor é ser um “linha
dura”.
O
receio de desagradar o eleitor tem orientado as principais decisões políticas
neste início de ano. Em nome disso, políticos mandam às favas o compromisso com
a coerência e passam a agir com os olhos voltados exclusivamente para a
conquista da popularidade. E, antes que alguém tome esse comentário como uma
crítica aos políticos da base governista, é bom observar que essa postura é a
mesma da oposição diante de outro tema rumoroso. O tema é a proposta da
deputada Erika Hilton (PSOL/SP), que prevê a redução da jornada de trabalho de
seis para quatro dias na semana.
O
projeto é um horror. Ele não se apoia em qualquer estudo minimamente sério
sobre as consequências da redução da jornada. Apenas parte da constatação de
que a medida já foi adotada por países ricos e altamente produtivos da Europa
(o que está longe de ser o caso do Brasil). O texto traz um erro de aritmética
elementar logo na definição de seu objeto ao propor uma “duração do trabalho
normal não superior a oito horas diárias e trinta e seis horas semanais, com
jornada de trabalho de quatro dias por semana”. Qualquer aluno do ensino básico
que já tenha se deparado com as tabuadas sabe que a multiplicação de oito (o
tempo da jornada) por quatro (o número de dias trabalhados) não é 36, como
citado no texto da psolista. É 32!
Mesmo
com a inépcia demonstrada diante de uma operação aritmética elementar, o
projeto de redução da jornada seguiu em frente. O texto foi abraçado pelo
Planalto — que o incluiu entre as prioridades e pretende utilizá-lo como uma
demonstração de seu zelo com o bem-estar do trabalhador. Na semana passada, o
ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Guilherme
Boulos, disse que o governo quer a matéria aprovada ainda este ano — de
preferência no primeiro semestre.
Na
semana passada, o presidente da Câmara, Hugo Motta, indicou o deputado Paulo
Azi (União/BA) como relator do projeto de Hilton e de um outro texto sobre o
mesmo assunto, de autoria do deputado Reginaldo Lopes (PT/MG). É aí que a
situação fica mais intrigante: o União, partido de Azi, se posiciona
formalmente contra projetos como o de Hilton e o de Lopes. É pouquíssimo
provável, porém, que o relator proponha um texto contrário à redução da
jornada. Outra situação difícil é encontrar na vasta bancada da direita,
inclusive entre os políticos que se definem como “liberais”, alguém que se
oponha a uma medida intervencionista e populista como essa.
Pelo
mesmíssimo motivo que motivou a mudança de ideia de Lindbergh e de seus amigos
em relação ao projeto que endurece o jogo contra o crime organizado, Azi e seus
correligionários não devem arriscar seu prestígio eleitoral se opondo à ideia
da redução da jornada. O projeto, como se sabe, propõe que os assalariados
tenham uma jornada menor, mas sofram uma redução de salários na mesma
proporção. Ou seja: vende a ilusão de que as pessoas trabalharão menos e
ganharão mais. Mais uma vez, a preocupação não é com o longo prazo, mas com os
efeitos da medida nas eleições de outubro.
BRASIL
X ARGENTINA
Enquanto
a vizinha Argentina propõe a ampliação da jornada de trabalho como parte do
esforço para remendar os estragos que as décadas de populismo peronista
produziram em sua economia, o Brasil insiste em tomar decisões que o aproximam
cada vez mais da beira do abismo. Ao contrário do que afirmam os defensores da
medida, seu impacto econômico será imediato e seu efeito será negativo por
todos os aspectos. A Confederação Nacional da Indústria (CNI), por exemplo, vem
alertando para o aumento expressivo dos custos com pessoal.
O
aumento da folha de pagamentos, segundo a CNI, será repassado para os preços
das mercadorias até o limite da possibilidade. A partir daí, haverá um aumento
das demissões ou, na melhor das hipóteses, dos contratos informais de trabalho.
Este será o preço da medida populista.
A
discussão é interessante. Argentina e Brasil ocupam, neste momento, polos
opostos nas discussões sobre o futuro do trabalho. Enquanto o país platino
propõe um choque de liberdade, que flexibiliza as regras dos contratos de
prestação de serviço como parte das medidas de estímulo à geração de empregos e
incentivo à economia, o Brasil acredita que está apostando na qualidade de vida
e no bem-estar do trabalhador. No final das contas, como acredita a CNI, isso
pode significar um retrocesso na produtividade e, em consequência, a perda de
competitividade da economia.
Nesse
ponto, é bom repetir: embora muito se comente sobre os efeitos desastrosos que
a redução da jornada de trabalho pode ter sobre o custo da mão de obra e sobre
o temor que a aprovação da medida provoque não uma onda, mas um tsunami de
desemprego, é difícil encontrar algum parlamentar da oposição que se oponha
abertamente a essa medida. É justamente aí que está o perigo.
O
Brasil está num momento decisivo e, no contexto atual, as condições de
organização do mercado de trabalho são essenciais para definir o rumo que a
economia seguirá. O país vive um momento delicado, uma espécie de cabo de
guerra em que os dados positivos puxam a corda na direção do crescimento,
enquanto dados negativos fazem força na direção oposta. Entre os dados
positivos, destaca-se, por exemplo, a possibilidade concreta de queda da
inflação. A pesquisa Focus, divulgada pelo Banco Central na segunda-feira
passada, prevê uma inflação de 3,91% para 2026. Em 2025, a taxa foi de 4,26%.
Outro
ponto positivo, decorrente mais da conjuntura internacional do que dos acertos
da política econômica nacional, é a taxa de câmbio favorável ao Brasil. No dia
8 de abril do ano passado, o Dólar fechou a R$ 6,01. Desde então, teve início
um movimento persistente de queda e, na sexta-feira da semana passada, ele
custava R$ 5,14 — uma queda de quase 15% em dez meses. Ou seja, visto por esses
aspectos, tudo vai bem.
O que
explica, então, a permanência da taxa básica de juros, a Selic, em 15% ao ano,
quando o mercado inteiro apostava que a queda que poderá levá-la para algo em
torno de 12,5% no final de 2026 tivesse início na reunião do Comitê de Política
Monetária de janeiro deste ano? Pior: o que explica a insistência do Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social em cobrar por seus
financiamentos taxas de juros equivalentes às da banca privada — quando, por se
tratar de uma instituição de fomento, o banco deveria, por obrigação, praticar
taxas que estimulassem os investimentos, mantivessem a economia aquecida?
São
questões que intrigam a qualquer um que procure entender as decisões de um
governo que, preocupado com as eleições que poderão dar ao presidente Lula e a
seu partido mais quatro anos no poder, se esquiva de tomar as medidas de efeito
prolongado, que poderiam ser o alicerce de um país realmente desenvolvido. Este
é o ponto: por que essa mania permanente de sugar a força vital do setor
produtivo para alimentar as medidas populistas que dão aos trabalhadores uma
falsa sensação de prosperidade quando, na verdade, funcionam como uma bomba
relógio que pode explodir a qualquer momento?
Este é,
no final das contas, o aspecto que une todas as questões debatidas ao longo
deste texto. Ao invés de se preocupar com os efeitos de longo prazo das
políticas que propõem, os políticos brasileiros — sejam eles da direita, da
esquerda, do centro, de baixo e de cima — sempre se mostram preocupados com os
efeitos eleitorais imediatos das posições que assumem publicamente. E em nome
disso, como cantava Raul Seixas em sua Metamorfose Ambulante, parecem sempre
dispostos a desdizer agora aquilo tudo que disseram antes.
Fonte:
Por Nuno Vasconcellos, em O Dia

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