Vini
Jr. - História e a luta contra o racismo
O mais
recente episódio de racismo envolvendo o jogador de futebol Vinícius Júnior, o
Vini Jr., no jogo Real Madrid e Benfica, deve ser considerado como uma curva
histórica, como continuidade. Quando um jogador negro marca, celebra e, em
seguida, denuncia ter sido chamado de “macaco”, não estamos diante de um
descontrole isolado. Estamos falando de uma cultura que ainda disputa quem pode
ser plenamente humano. A palavra lançada como ofensa não nasceu no calor do
jogo. Ela é fruto de séculos de colonialismo, de escravidão, de pseudociência
racial, de uma espécie de pedagogia da desumanização.
Na
noite europeia em que a bola rolou entre Benfica e Real Madrid, o que se viu
foi a repetição crua de um ritual antigo que aceita o corpo negro como
entretenimento, mas que o desautoriza a existir em plenitude. Um ritual que
atravessa gerações e chega ao estádio como herança maldita. Naquele contexto, o
gramado virou palco onde a velha hierarquia tentou reafirmar que talento negro
é tolerado, mas que dignidade negra é contestada. E o que tornou tudo mais
grave foi a naturalização da violência racial. Interrompeu-se a partida,
cumpriu-se um protocolo, prometeu-se investigar — e a engrenagem segue. A
mensagem implícita é que o racismo é lamentável, mas administrável. Que pode
gerar um “ruído”, mas não ruptura.
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Como se
não bastasse, ativa-se a culpabilização da vítima. Questiona-se a comemoração
do jogador, seu temperamento, sua postura. Sugere-se que ele “provoca”, que
“responde demais”, e que isso “não ajuda”. A inversão, ademais de obscena,
desloca o foco da violência para a reação. O problema deixa de ser quem
desumaniza e passa a ser quem denuncia. Essa lógica dialoga diretamente com o
avanço de forças políticas que se alimentam da ideia de hierarquia entre vidas.
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Corpo negro sob suspeita
A
ascensão da extrema-direita na Europa (e no mundo, inclusive no Brasil) é uma
realidade. Partidos nacionalistas e xenófobos ampliam cadeiras, ocupam
governos, normalizam discursos antes restritos às margens. Na França, o
fortalecimento do Reagrupamento Nacional; na Itália, o protagonismo de forças
ultraconservadoras; na Alemanha, o crescimento de siglas que relativizam o
passado nazista. O continente que prometeu aprender com seus próprios horrores
flerta novamente com a exclusão como projeto. No Reino Unido, o discurso
anti-imigração tornou-se política de Estado. Em países do Leste Europeu, a
retórica contra minorias étnicas e sexuais ganha contornos institucionais. O
estrangeiro, o negro, o muçulmano, o refugiado — todos transformados em ameaça
simbólica. A lógica é simples e brutal: para que “nós” sejamos grandes, “eles”
precisam ser contidos.
Esse
cenário ecoa com inquietante nitidez. Nos Estados Unidos, o trumpismo foi a
legitimação pública de uma nostalgia autoritária que transforma medo em
plataforma política. O slogan de “tornar a América grande novamente” carrega
consigo uma pergunta silenciosa: grande para quem? A resposta (implícita)
costuma excluir. Imigrantes latinos são convertidos em ameaça demográfica;
comunidades negras tratadas como problema de segurança; movimentos
antirracistas descritos como radicalismo.
A
retórica não cria o preconceito do zero, lógico, mas o autoriza. O trumpismo
ensinou algo perigoso ao mundo — que o ressentimento pode ser organizado como
identidade coletiva; que a frustração econômica pode ser redirecionada contra
grupos marginalizados; que é possível desacreditar a imprensa, a ciência e
outras instituições enquanto se posa de defensor da liberdade. Nesse ambiente,
discursos raciais antes confinados a margens digitais passam a frequentar
comícios e parlamentos. A fronteira do aceitável se desloca. O impensável
torna-se debatível.
Na
América Latina, a engrenagem assume contornos próprios — mas segue uma lógica
semelhante. Crises econômicas persistentes, desigualdades estruturais e
descréditos nas elites políticas alimentam a promessa de “ordem” e de
“moralização”. Lideranças de extrema-direita apresentam-se como antissistema
enquanto reproduzem velhas hierarquias sociais. No Brasil, por exemplo, a
ascensão de um ex-presidente (que felizmente hoje é presidiário) consolidou uma
retórica que frequentemente minimizou o racismo estrutural, atacou políticas de
ação afirmativa e enquadrou pautas de igualdade como “divisões ideológicas”. Ao
fazer isso, deslocou o debate, pois discutir racismo passou a ser, para muitos,
mais problemático do que praticá-lo.
Esse
movimento não é isolado. No Chile, na Argentina, na Colômbia e em outros países
da região, candidaturas ultraconservadoras crescem explorando o medo da
violência urbana, o colapso de serviços públicos e a insegurança econômica. O
inimigo é sempre bem delineado como o pobre que “não quer trabalhar”, o
indígena que reivindica território, o negro que denuncia discriminação, a
mulher que exige direitos. A frustração social é canalizada para baixo — nunca
para cima.
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Quando
essas narrativas se espalham, o racismo deixa de ser vergonha — e volta a ser
opinião. E opinião (sabemos) disputa espaço público. A violência simbólica
encontra respaldo na retórica da “liberdade de expressão”, como se chamar
alguém de macaco fosse ponto de vista legítimo. É nesse caldo que o caso de
Vinícius Jr. precisa ser lido. O futebol é vitrine global. O que acontece ali
reverbera de modo planetário. Quando a denúncia é relativizada, o recado que
atravessa fronteiras afirma que o corpo negro continua sob suspeita; continua
precisando provar que sua dor é real; continua tendo sua humanidade submetida a
debate.
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Racismo como acessório
Há,
nisso, uma tentativa insistente de aniquilação do outro. Não se trata
unicamente de ofender; trata-se de reduzir. Reduzir à caricatura, ao
estereótipo, ao animal. Esse tipo de aniquilação não precisa mais de fogueiras
— porque ela é materializada pela repetição, pelo desgaste, pelo descrédito,
pela exaustão. Ela sussurra que talvez o ofendido esteja exagerando; que talvez
não tenha sido bem assim; que talvez devesse focar apenas em jogar.
Convenhamos,
para corpos negros em espaços historicamente brancos, jogar futebol nunca foi
apenas jogar. Cada drible carrega expectativa; cada gol traz consigo
vigilância; cada gesto suscita julgamento ampliado. Exige-se excelência
permanente e, ao mesmo tempo, silêncio absoluto. A menor reação vira manchete.
A agressão (muitas vezes) vira rodapé.
Rodapé
como foi o cântico entoado por jogadores da Seleção Argentina após a conquista
da Copa do Mundo de 2022. Em meio à euforia da vitória, circulou nas redes um
vídeo em que atletas argentinos cantavam versos ofensivos direcionados a Kylian
Mbappé e demais jogadores negros da seleção francesa — versos que ironizavam a
ascendência africana dos atletas, insinuando que “vieram da África”, reduzindo
identidades complexas a uma caricatura racial.
Aquele
episódio não ocorreu em um estádio hostil, nem sob provocação adversária
imediata. Foi dentro do próprio ônibus da equipe campeã, durante a celebração.
Não era resposta a insulto algum, mas a reafirmação de uma ideia antiga, qual
seja, a de que o negro europeu é sempre estrangeiro, sempre outro, sempre menos
legítimo na nação que representa. Mbappé, nascido em Paris, campeão do mundo
aos 19 anos, autor de três gols da final no Catar (artilheiro da competição) —
ainda assim tratado como corpo deslocado.
E o que
aconteceu depois? Indignação pontual; algumas notinhas protocolares; pedidos de
desculpa individuais. O escândalo logo foi absorvido pela narrativa maior da
“festa histórica”, da “paixão argentina”, do “exagero de comemoração”. A
vitória permaneceu como manchete gloriosa; o cântico racista virou nota
lateral. Rodapé. E esse é o mecanismo. Quando o alvo reage — como faz Vinícius
Júnior —, a reação ganha centralidade. Porém, debate-se seu comportamento, sua
personalidade, sua postura. Quando a agressão parte do grupo vencedor, ela é
diluída na euforia coletiva. O peso moral nunca é equivalente. A indignação é
seletiva. O enquadramento, revelador.
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O que faremos com essa violência?
Esse
tipo de episódio escancara como a agressão racial não produz ruptura
estrutural. Não há suspensão de títulos; não há comoção duradoura; não há
revisão profunda da cultura esportiva. Há (no máximo) algum constrangimento
administrado. E a administração do constrangimento é uma forma sofisticada de
preservação da ordem. O rodapé é isso. A violência que não impede a festa; que
não compromete o legado; que não altera o imaginário heroico. É a prova viva de
que, para muitos, o racismo é acessório — lamentável, mas secundário diante da
“glória esportiva”.
E é
precisamente contra essa hierarquia moral que a denúncia pública deve se
erguer. Porque enquanto insultos raciais forem tratados como detalhe narrativo
— seja no calor de uma derrota, seja na euforia de uma vitória —, continuará
sendo naturalizada a lógica que exige excelência do corpo negro e oferece, em
troca, suspeita, vigilância e desumanização. A dureza necessária está em nomear
as coisas. Racismo não é mal-entendido; não é excesso de competitividade; não é
“folclore” de arquibancada. É violência na sua máxima expressão. Violência
sustentada por estruturas sociais e, cada vez mais, por discursos políticos que
reabilitam a exclusão como se fosse patriotismo. Se a extrema direita cresce
propondo muros — físicos e simbólicos —, o racismo nos estádios é um desses
muros. Ele delimita quem pode celebrar sem ser punido; quem pode errar sem ser
demonizado; quem pode existir sem ser reduzido.
O que
está em jogo não é a reputação de um atleta, mas o tipo de sociedade que se
aceita manter. E uma sociedade que relativiza insultos raciais em nome do
espetáculo caminha perigosamente para normalizar outras formas de
desumanização. A história europeia já mostrou aonde isso pode levar. A história
brasileira também. A pergunta que não quer calar não é se houve ofensa. É o que
faremos com ela. Se será mais um episódio arquivado na memória curta do esporte
ou se servirá de ruptura real. Porque cada vez que o racismo é tratado como
detalhe, reafirma-se a velha ordem.
O gol
foi um ato esportivo. A denúncia, um ato de coragem. O que a sociedade fará a
partir disso dirá muito sobre o mundo que estamos dispostos a aceitar — ou a
transformar.
Fonte:
Por Verbena Córdula, em Diálogos do Sul Global

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