segunda-feira, 2 de março de 2026

O sistema alimentar que não amadurece: vamos falar de bananas?

É domingo à tarde. Na televisão, passa um filme qualquer para preencher o tempo. Na tela, um personagem atrasado atravessa apressado a cozinha, pega uma fruta sobre a mesa e, entre uma tarefa e outra, engole às pressas algumas colheres de cereal com leite. Nada de extraordinário. Uma cena banal, repetida todos os dias em milhões de casas. No café da manhã de qualquer grande cidade do mundo, uma banana e uma tigela de cereal parecem escolhas inocentes. Não são.

Elas carregam uma história longa e pouco visível. São o resultado de decisões políticas, de cadeias produtivas globais, de interesses econômicos e de um modelo de produção que, há décadas, vem padronizando o que comemos. Aquilo que aparece como simples preferência individual é, na verdade, parte de um sistema alimentar cada vez mais homogeneizado, sustentado pela mecanização da produção, pela concentração de mercados e pela redução da diversidade de sabores, saberes e culturas.

O historiador Massimo Montanari lembra que “o sistema alimentar contém e transporta a cultura de quem o pratica, é depositário da tradição e da identidade do grupo”. Se a comida carrega identidade, o que carrega, então, o agronegócio global?

<><> A banana sobre a mesa, afinal, nunca foi apenas uma banana

Entre a pirâmide alimentar e a fruta apanhada às pressas na cozinha existe um mesmo roteiro: o de um modelo que define, de cima para baixo, o que deve ser produzido, comercializado e consumido. Um roteiro no qual empresas como a Chiquita Brands não são apenas fornecedoras de alimentos, mas atores políticos de uma história marcada por exploração, violência e dominação econômica.

Para responder à pergunta “o que carrega, então, o agronegócio global?”, podemos começar com uma fruta aparentemente banal: a banana. Hoje, a maior comercializadora global do produto é a Chiquita Brands International, empresa que produz diretamente em ao menos dez países da América Latina e distribui para outros 47 ao redor do mundo: da Europa à Ásia, da África às Américas. A presença quase onipresente da marca nos supermercados globais ajuda a naturalizar a ideia de que a banana sempre foi um alimento universal. Mas essa não é bem a verdade.

Perguntar qual veio primeiro, a empresa ou o gosto dos estadunidenses pela fruta, é como perguntar o que surgiu antes, o ovo ou a galinha. O primeiro registro de chegada da banana aos Estados Unidos é de 1804. Elas chegavam esporadicamente, trazidas por algum capitão ou navegador e eram vendidas em pequenas quantidades. Foi assim até cerca de 1850. Nessa década, alguns importadores começaram a exportar banana com maior frequência. Em 1860, o número de frutas importadas passou a aumentar de forma significativa, e a Jamaica passou a ser a maior fonte de bananas, desbancando Cuba.

Nesse período inicial, a banana era cultivada de forma integrada a outros alimentos. Registros de 1886 mostram que, no Caribe, a fruta era plantada junto com café, cacau e hortaliças, em quintais e pequenas propriedades. Não havia ainda a paisagem homogênea do monocultivo que hoje domina extensas regiões tropicais. Na década de 1870, os Estados Unidos importaram cerca de 250 mil dólares em bananas, um valor expressivo para a época, mas que ainda não havia transformado radicalmente a paisagem.

Essa transformação começaria a se acelerar no final do século XIX. O jornalista Frederick Adams, em um livro de 1914, registra a derrubada de floresta para plantação de bananas, ao que tudo indica, já baseado no monocultivo. De acordo com Plishka (2024), a transformação das paisagens jamaicanas em grandes áreas de plantação de bananas iniciou na década de 1890, com forte aceleração a partir de 1899. Foi nesse ano que a Boston Fruit Company fundiu-se à empresa de Minor C. Keith – Tropical Trading and Transport Company – dando origem à United Fruit Company, embrião do que mais tarde se tornaria a Chiquita Brands.

Minor C. Keith fez fortuna com a abertura de linhas férreas na Costa Rica para o transporte de sua produção de bananas, a partir de concessões de terras e incentivos fiscais, assim nasceu a United Fruit Company. A partir dessa fusão, no caso da Costa Rica, as bananas passaram a competir com a principal fonte de divisas no país, o café.

A empresa cresceu a passos largos sob a tutela do governo estadunidense, detinha grande extensões de terra na América Central e centenas de quilômetros de ferrovias, controle absoluto sobre produção e logística. A United Fruit Company aproveitou-se do neocolonialismo dos Estados Unidos na região. Na época, a hegemonia de Washington nos países da América Central se dava pela combinação de pressão econômica e diplomacia coercitiva. Os EUA garantiam a entrada de investimentos e a fidelidade de governos aliados por meio do uso da força sempre quando seus interesses estavam ameaçados.

A empresa atuava por meio do seu poder econômico para compra de terras por valores irrisórios de forma clandestina, e passou a adotar também uma política predatória para eliminar e comprar concorrentes, tornando-se a principal latifundiária e empregadora em diversos países da América Central, submetendo governos a partir da sua influência, em conformidade com a política externa estadunidense.

Em meados do séc. XX, a banana deixou de ser apenas um alimento tropical para se tornar um projeto político-econômico. A United Fruit Company não apenas produzia e comercializava frutas: controlava portos, ferrovias, sistemas de transporte e vastas extensões de terra em diversos países da América Central e do Caribe. Como registrou Adams, em tom celebratório e sem pudor imperialista, tratava-se de “uma história de conquista pacífica e honrosa de uma parte dos trópicos americanos”.

O crescimento do consumo não foi espontâneo: no início das importações, a banana era considerada um alimento de luxo. Mas, com a atuação da United Fruit Company, ela se transformou em um alimento base da dieta americana. A empresa adotou estratégias comerciais agressivas, campanhas publicitárias que envolviam médicos financiados pela companhia, imagens de bananas conectadas a outros alimentos consumidos no café da manhã, e a criação da personagem “Miss Chiquita” que, em forma de música, ensinava a população a consumir a fruta.

Estratégias que, somadas à consolidação de um sistema logístico controlado por uma única corporação, que, se por um lado, educaram o paladar estadunidense a desejar a banana, por outro, reorganizaram e submeteram países inteiros para produzi-la.

Essa reorganização teve custos humanos e políticos imensos. A United Fruit Company esteve vinculada a alguns dos episódios mais violentos da história latino-americana. Em 1928, na Colômbia, a repressão a uma greve de cerca de 25 mil trabalhadores bananeiros resultou no chamado Massacre das Bananeiras, quando centenas de operários foram mortos pelo Exército colombiano em defesa dos interesses da empresa. Décadas depois, em 1954, a corporação teve papel central no golpe de Estado que derrubou o presidente guatemalteco Jacobo Árbenz, cujo governo tentou implementar uma reforma agrária que atingia diretamente as terras da United Fruit. O episódio tornou-se um marco da intervenção norte-americana na região e consolidou o termo “república das bananas” como sinônimo de países submetidos a interesses corporativos externos.

Não à toa, a história da United Fruits Company povoa o imaginário da América Latina: Gabriel Garcia Marquez, por exemplo, utilizou o Massacre das Bananeiras em seu clássico Cem Anos de Solidão, transformando a história da banana em metáfora literária da violência e da dependência latino-americana. Essa história explica, a partir de uma fruta, como se deu o processo de formação de elites locais e da exploração dos países por parte de uma empresa, com aval do governo estadunidense. E, pior: essa ação sobre as comunidades seguem acontecendo.

Em 2024, a Chiquita Brands, nome adotado pela antiga United Fruit Company, foi condenada por tribunais dos Estados Unidos por financiar grupos paramilitares na Colômbia, sendo obrigada a indenizar famílias de vítimas assassinadas por essas organizações. O caso demonstrou que as práticas de interferência política e violência associadas à produção de bananas estão longe de pertencer apenas ao século XX.

Se, como afirma Montanari, o sistema alimentar transporta a cultura de quem o pratica, o que o sistema alimentar globalizado transporta é um conjunto de relações profundamente desiguais. Por meio da banana, consolidou-se um modo de produzir e consumir que extrapola a própria fruta. Um modo que transforma territórios diversos em paisagens uniformes e que converte hábitos alimentares locais em preferências globais. A mesma fruta, com o mesmo formato e sabor, vendida em qualquer supermercado do planeta como se fosse um produto neutro e natural. A história da Chiquita revela que, muito antes de chegarem às prateleiras, nossos alimentos já foram atravessados por disputas de poder.

<><> Comer é um ato político

Diante desse cenário, a pergunta que permanece é inevitável: se o que comemos é resultado de relações históricas de poder, é possível construir outro caminho? A crítica ao imperialismo alimentar não se limita a denunciar empresas ou questionar diretrizes nutricionais. Ela aponta para a necessidade de repensar quem decide sobre a comida e em benefício de quem.

Poucos dias ao início de 2026, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos apresentou uma nova versão de sua pirâmide alimentar, atualizando recomendações sobre consumo de proteínas, grãos, laticínios e frutas. O anúncio foi tratado como mais um avanço na busca por dietas mais saudáveis e na diminuição de doenças crônicas causadas também pela má alimentação. Mas, como quase tudo que envolve comida, a questão está longe de ser apenas nutricional. Guias alimentares nunca são meros manuais de boa alimentação. Eles orientam políticas públicas, influenciam programas de compras governamentais, definem cardápios escolares e moldam o comportamento de milhões de consumidores dentro e fora do país que os produz.

Ao definir o que deve ser reconhecido como uma “dieta equilibrada”, o governo dos Estados Unidos não apenas orienta comportamentos individuais, mas atua diretamente na organização dos mercados alimentares globais. As recomendações oficiais são resultado de intensas disputas entre evidências científicas e a atuação sistemática de lobbies da indústria agroalimentar, que pressionam para garantir espaço a produtos vinculados a cadeias produtivas já consolidadas Ao mesmo tempo em que fortalece conglomerados agroindustriais (os famosos lobbies), enfraquece sistemas alimentares locais e regionais, deslocando agricultores de mercados de proximidade e aprofundando a dependência de fluxos internacionais de alimentos.

Desde a década de 1990, movimentos camponeses e organizações sociais vêm formulando uma resposta política: a construção de outro caminho rumo à soberania alimentar. O conceito, sistematizado pela Via Campesina, afirma que os povos devem ter o direito de definir seus próprios sistemas alimentares, priorizando a produção local, a diversidade cultural e o acesso democrático à terra e aos recursos naturais. A soberania alimentar questiona o próprio modelo de produção que gera fome, desigualdade e degradação ambiental (Zanotto, 2017).

Nesse debate, o Brasil ofereceu um exemplo importante ao mundo com a elaboração de seu Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado em 2014. Em vez de organizar recomendações por nutrientes ou porções, o documento prioriza alimentos in natura e minimamente processados, valorizou a cultura alimentar e denunciou explicitamente os efeitos dos ultraprocessados. Mais do que um manual nutricional, tornou-se uma proposta política de sistema alimentar. Ao reconhecer que comida é também cultura, o guia brasileiro colocou em evidência que não existe dieta saudável sem produção socialmente justa e ambientalmente sustentável.

Circuitos longos de produção favorecem o não saber. Se nosso personagem compra uma maçã em um supermercado, não saberá de onde ela vem e o que ela carrega: quais agrotóxicos, histórias, relações ambientais e de trabalho. Porém, se compra uma cesta de produtos do sítio da dona Inês, saberá muito mais sobre aquele alimento. Terá um indicativo de como foi produzido e do que foi utilizado em seu plantio. Em quais mãos ele passa antes de chegar à sua mesa. Pensar em circuitos curtos de produção evidencia a capacidade de agência individual frente às grandes questões do mundo.

Experiências espalhadas pela América Latina reforçam que outros modelos são possíveis. Redes de agroecologia, mercados institucionais para a agricultura familiar, compras públicas de alimentos locais e políticas de reforma agrária demonstram que a diversidade produtiva pode caminhar junto com a qualidade nutricional. O contraste com o modelo representado pela Chiquita Brands é evidente. Enquanto o sistema alimentar hegemônico aposta na uniformização de cultivos e sabores, iniciativas de base comunitária resgatam sementes crioulas, receitas tradicionais e circuitos curtos de comercialização.

Trata-se de compreender como recomendações aparentemente neutras podem reforçar um sistema que concentra poder, empobrece dietas e fragiliza culturas alimentares. Enquanto corporações transformam florestas em extensões intermináveis de uma única fruta, outras formas de produção podem se desenvolver com paisagens mais diversas e resilientes. São dois projetos de mundo que se enfrentam diariamente, ainda que nem sempre estejam presentes nas prateleiras dos supermercados.

O personagem apressado do filme de domingo volta à cozinha e escolhe quase sem pensar: uma banana e uma tigela de cereal. Ele acredita estar fazendo apenas um lanche rápido. Mas nada ali é totalmente inocente. A banana sobre a mesa carrega o peso das “repúblicas das bananas”. O cereal carrega a lógica das monoculturas globais. A pirâmide alimentar que orienta a escolha carrega disputas entre ciência e mercado. Juntos, compõem um cardápio que parece simples, mas que expressa um sistema alimentar insustentável. Reconhecer essa trama é o primeiro passo para transformá-la.

Comer é cultura, território e poder.

 

Fonte: Por Andréia Anschau, Beatriz Ribeiro Rocha e Erick José de Paula Simão, no Le Monde

 

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