O
sistema alimentar que não amadurece: vamos falar de bananas?
É
domingo à tarde. Na televisão, passa um filme qualquer para preencher o tempo.
Na tela, um personagem atrasado atravessa apressado a cozinha, pega uma fruta
sobre a mesa e, entre uma tarefa e outra, engole às pressas algumas colheres de
cereal com leite. Nada de extraordinário. Uma cena banal, repetida todos os
dias em milhões de casas. No café da manhã de qualquer grande cidade do mundo,
uma banana e uma tigela de cereal parecem escolhas inocentes. Não são.
Elas
carregam uma história longa e pouco visível. São o resultado de decisões
políticas, de cadeias produtivas globais, de interesses econômicos e de um
modelo de produção que, há décadas, vem padronizando o que comemos. Aquilo que
aparece como simples preferência individual é, na verdade, parte de um sistema
alimentar cada vez mais homogeneizado, sustentado pela mecanização da produção,
pela concentração de mercados e pela redução da diversidade de sabores, saberes
e culturas.
O
historiador Massimo Montanari lembra que “o sistema alimentar contém e
transporta a cultura de quem o pratica, é depositário da tradição e da
identidade do grupo”. Se a comida carrega identidade, o que carrega, então, o
agronegócio global?
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A banana sobre a mesa, afinal, nunca foi apenas uma banana
Entre a
pirâmide alimentar e a fruta apanhada às pressas na cozinha existe um mesmo
roteiro: o de um modelo que define, de cima para baixo, o que deve ser
produzido, comercializado e consumido. Um roteiro no qual empresas como a
Chiquita Brands não são apenas fornecedoras de alimentos, mas atores políticos
de uma história marcada por exploração, violência e dominação econômica.
Para
responder à pergunta “o que carrega, então, o agronegócio global?”, podemos
começar com uma fruta aparentemente banal: a banana. Hoje, a maior
comercializadora global do produto é a Chiquita Brands International, empresa
que produz diretamente em ao menos dez países da América Latina e distribui
para outros 47 ao redor do mundo: da Europa à Ásia, da África às Américas. A
presença quase onipresente da marca nos supermercados globais ajuda a
naturalizar a ideia de que a banana sempre foi um alimento universal. Mas essa
não é bem a verdade.
Perguntar
qual veio primeiro, a empresa ou o gosto dos estadunidenses pela fruta, é como
perguntar o que surgiu antes, o ovo ou a galinha. O primeiro registro de
chegada da banana aos Estados Unidos é de 1804. Elas chegavam esporadicamente,
trazidas por algum capitão ou navegador e eram vendidas em pequenas
quantidades. Foi assim até cerca de 1850. Nessa década, alguns importadores
começaram a exportar banana com maior frequência. Em 1860, o número de frutas
importadas passou a aumentar de forma significativa, e a Jamaica passou a ser a
maior fonte de bananas, desbancando Cuba.
Nesse
período inicial, a banana era cultivada de forma integrada a outros alimentos.
Registros de 1886 mostram que, no Caribe, a fruta era plantada junto com café,
cacau e hortaliças, em quintais e pequenas propriedades. Não havia ainda a
paisagem homogênea do monocultivo que hoje domina extensas regiões tropicais.
Na década de 1870, os Estados Unidos importaram cerca de 250 mil dólares em
bananas, um valor expressivo para a época, mas que ainda não havia transformado
radicalmente a paisagem.
Essa
transformação começaria a se acelerar no final do século XIX. O jornalista
Frederick Adams, em um livro de 1914, registra a derrubada de floresta para
plantação de bananas, ao que tudo indica, já baseado no monocultivo. De acordo
com Plishka (2024), a transformação das paisagens jamaicanas em grandes áreas
de plantação de bananas iniciou na década de 1890, com forte aceleração a
partir de 1899. Foi nesse ano que a Boston Fruit Company fundiu-se à empresa de
Minor C. Keith – Tropical Trading and Transport Company – dando origem à United
Fruit Company, embrião do que mais tarde se tornaria a Chiquita Brands.
Minor
C. Keith fez fortuna com a abertura de linhas férreas na Costa Rica para o
transporte de sua produção de bananas, a partir de concessões de terras e
incentivos fiscais, assim nasceu a United Fruit Company. A partir dessa fusão,
no caso da Costa Rica, as bananas passaram a competir com a principal fonte de
divisas no país, o café.
A
empresa cresceu a passos largos sob a tutela do governo estadunidense, detinha
grande extensões de terra na América Central e centenas de quilômetros de
ferrovias, controle absoluto sobre produção e logística. A United Fruit Company
aproveitou-se do neocolonialismo dos Estados Unidos na região. Na época, a
hegemonia de Washington nos países da América Central se dava pela combinação
de pressão econômica e diplomacia coercitiva. Os EUA garantiam a entrada de
investimentos e a fidelidade de governos aliados por meio do uso da força
sempre quando seus interesses estavam ameaçados.
A
empresa atuava por meio do seu poder econômico para compra de terras por
valores irrisórios de forma clandestina, e passou a adotar também uma política
predatória para eliminar e comprar concorrentes, tornando-se a principal
latifundiária e empregadora em diversos países da América Central, submetendo
governos a partir da sua influência, em conformidade com a política externa
estadunidense.
Em
meados do séc. XX, a banana deixou de ser apenas um alimento tropical para se
tornar um projeto político-econômico. A United Fruit Company não apenas
produzia e comercializava frutas: controlava portos, ferrovias, sistemas de
transporte e vastas extensões de terra em diversos países da América Central e
do Caribe. Como registrou Adams, em tom celebratório e sem pudor imperialista,
tratava-se de “uma história de conquista pacífica e honrosa de uma parte dos
trópicos americanos”.
O
crescimento do consumo não foi espontâneo: no início das importações, a banana
era considerada um alimento de luxo. Mas, com a atuação da United Fruit
Company, ela se transformou em um alimento base da dieta americana. A empresa
adotou estratégias comerciais agressivas, campanhas publicitárias que envolviam
médicos financiados pela companhia, imagens de bananas conectadas a outros
alimentos consumidos no café da manhã, e a criação da personagem “Miss
Chiquita” que, em forma de música, ensinava a população a consumir a fruta.
Estratégias
que, somadas à consolidação de um sistema logístico controlado por uma única
corporação, que, se por um lado, educaram o paladar estadunidense a desejar a
banana, por outro, reorganizaram e submeteram países inteiros para produzi-la.
Essa
reorganização teve custos humanos e políticos imensos. A United Fruit Company
esteve vinculada a alguns dos episódios mais violentos da história
latino-americana. Em 1928, na Colômbia, a repressão a uma greve de cerca de 25
mil trabalhadores bananeiros resultou no chamado Massacre das Bananeiras,
quando centenas de operários foram mortos pelo Exército colombiano em defesa
dos interesses da empresa. Décadas depois, em 1954, a corporação teve papel
central no golpe de Estado que derrubou o presidente guatemalteco Jacobo
Árbenz, cujo governo tentou implementar uma reforma agrária que atingia
diretamente as terras da United Fruit. O episódio tornou-se um marco da
intervenção norte-americana na região e consolidou o termo “república das
bananas” como sinônimo de países submetidos a interesses corporativos externos.
Não à
toa, a história da United Fruits Company povoa o imaginário da América Latina:
Gabriel Garcia Marquez, por exemplo, utilizou o Massacre das Bananeiras em seu
clássico Cem Anos de Solidão, transformando a história da banana em metáfora
literária da violência e da dependência latino-americana. Essa história
explica, a partir de uma fruta, como se deu o processo de formação de elites
locais e da exploração dos países por parte de uma empresa, com aval do governo
estadunidense. E, pior: essa ação sobre as comunidades seguem acontecendo.
Em
2024, a Chiquita Brands, nome adotado pela antiga United Fruit Company, foi
condenada por tribunais dos Estados Unidos por financiar grupos paramilitares
na Colômbia, sendo obrigada a indenizar famílias de vítimas assassinadas por
essas organizações. O caso demonstrou que as práticas de interferência política
e violência associadas à produção de bananas estão longe de pertencer apenas ao
século XX.
Se,
como afirma Montanari, o sistema alimentar transporta a cultura de quem o
pratica, o que o sistema alimentar globalizado transporta é um conjunto de
relações profundamente desiguais. Por meio da banana, consolidou-se um modo de
produzir e consumir que extrapola a própria fruta. Um modo que transforma
territórios diversos em paisagens uniformes e que converte hábitos alimentares
locais em preferências globais. A mesma fruta, com o mesmo formato e sabor,
vendida em qualquer supermercado do planeta como se fosse um produto neutro e
natural. A história da Chiquita revela que, muito antes de chegarem às
prateleiras, nossos alimentos já foram atravessados por disputas de poder.
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Comer é um ato político
Diante
desse cenário, a pergunta que permanece é inevitável: se o que comemos é
resultado de relações históricas de poder, é possível construir outro caminho?
A crítica ao imperialismo alimentar não se limita a denunciar empresas ou
questionar diretrizes nutricionais. Ela aponta para a necessidade de repensar
quem decide sobre a comida e em benefício de quem.
Poucos
dias ao início de 2026, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos
apresentou uma nova versão de sua pirâmide alimentar, atualizando recomendações
sobre consumo de proteínas, grãos, laticínios e frutas. O anúncio foi tratado
como mais um avanço na busca por dietas mais saudáveis e na diminuição de
doenças crônicas causadas também pela má alimentação. Mas, como quase tudo que
envolve comida, a questão está longe de ser apenas nutricional. Guias
alimentares nunca são meros manuais de boa alimentação. Eles orientam políticas
públicas, influenciam programas de compras governamentais, definem cardápios
escolares e moldam o comportamento de milhões de consumidores dentro e fora do
país que os produz.
Ao
definir o que deve ser reconhecido como uma “dieta equilibrada”, o governo dos
Estados Unidos não apenas orienta comportamentos individuais, mas atua
diretamente na organização dos mercados alimentares globais. As recomendações
oficiais são resultado de intensas disputas entre evidências científicas e a
atuação sistemática de lobbies da indústria agroalimentar, que pressionam para
garantir espaço a produtos vinculados a cadeias produtivas já consolidadas Ao
mesmo tempo em que fortalece conglomerados agroindustriais (os famosos
lobbies), enfraquece sistemas alimentares locais e regionais, deslocando
agricultores de mercados de proximidade e aprofundando a dependência de fluxos
internacionais de alimentos.
Desde a
década de 1990, movimentos camponeses e organizações sociais vêm formulando uma
resposta política: a construção de outro caminho rumo à soberania alimentar. O
conceito, sistematizado pela Via Campesina, afirma que os povos devem ter o
direito de definir seus próprios sistemas alimentares, priorizando a produção
local, a diversidade cultural e o acesso democrático à terra e aos recursos
naturais. A soberania alimentar questiona o próprio modelo de produção que gera
fome, desigualdade e degradação ambiental (Zanotto, 2017).
Nesse
debate, o Brasil ofereceu um exemplo importante ao mundo com a elaboração de
seu Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado em 2014. Em vez de
organizar recomendações por nutrientes ou porções, o documento prioriza
alimentos in natura e minimamente processados, valorizou a cultura alimentar e
denunciou explicitamente os efeitos dos ultraprocessados. Mais do que um manual
nutricional, tornou-se uma proposta política de sistema alimentar. Ao
reconhecer que comida é também cultura, o guia brasileiro colocou em evidência
que não existe dieta saudável sem produção socialmente justa e ambientalmente
sustentável.
Circuitos
longos de produção favorecem o não saber. Se nosso personagem compra uma maçã
em um supermercado, não saberá de onde ela vem e o que ela carrega: quais
agrotóxicos, histórias, relações ambientais e de trabalho. Porém, se compra uma
cesta de produtos do sítio da dona Inês, saberá muito mais sobre aquele
alimento. Terá um indicativo de como foi produzido e do que foi utilizado em
seu plantio. Em quais mãos ele passa antes de chegar à sua mesa. Pensar em
circuitos curtos de produção evidencia a capacidade de agência individual
frente às grandes questões do mundo.
Experiências
espalhadas pela América Latina reforçam que outros modelos são possíveis. Redes
de agroecologia, mercados institucionais para a agricultura familiar, compras
públicas de alimentos locais e políticas de reforma agrária demonstram que a
diversidade produtiva pode caminhar junto com a qualidade nutricional. O
contraste com o modelo representado pela Chiquita Brands é evidente. Enquanto o
sistema alimentar hegemônico aposta na uniformização de cultivos e sabores,
iniciativas de base comunitária resgatam sementes crioulas, receitas
tradicionais e circuitos curtos de comercialização.
Trata-se
de compreender como recomendações aparentemente neutras podem reforçar um
sistema que concentra poder, empobrece dietas e fragiliza culturas alimentares.
Enquanto corporações transformam florestas em extensões intermináveis de uma
única fruta, outras formas de produção podem se desenvolver com paisagens mais
diversas e resilientes. São dois projetos de mundo que se enfrentam
diariamente, ainda que nem sempre estejam presentes nas prateleiras dos
supermercados.
O
personagem apressado do filme de domingo volta à cozinha e escolhe quase sem
pensar: uma banana e uma tigela de cereal. Ele acredita estar fazendo apenas um
lanche rápido. Mas nada ali é totalmente inocente. A banana sobre a mesa
carrega o peso das “repúblicas das bananas”. O cereal carrega a lógica das
monoculturas globais. A pirâmide alimentar que orienta a escolha carrega
disputas entre ciência e mercado. Juntos, compõem um cardápio que parece
simples, mas que expressa um sistema alimentar insustentável. Reconhecer essa
trama é o primeiro passo para transformá-la.
Comer é
cultura, território e poder.
Fonte:
Por Andréia Anschau, Beatriz Ribeiro Rocha e Erick José de Paula Simão, no Le
Monde

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