segunda-feira, 2 de março de 2026

Novo foco de tensão: Paquistão declara 'guerra aberta' ao Talebã e bombardeia Afeganistão

O Paquistão bombardeou áreas no Afeganistão nesta sexta-feira (27/2), depois que o Talebã afegão anunciou uma grande ofensiva contra postos militares paquistaneses perto da fronteira.

Esta é a mais recente escalada nas tensões entre os países vizinhos.

O governo talebã do Afeganistão disse ter lançado uma ofensiva contra bases militares paquistanesas perto da fronteira na noite de quinta-feira.

O Paquistão respondeu em poucas horas, bombardeando alvos na capital afegã, Cabul, e nas províncias de Kandahar e Paktika — províncias afegãs próximas à fronteira de 2.600 km entre os dois países.

A BBC ainda não pôde confirmar se houve vítimas em nenhum dos lados.

Os bombardeios representam o desdobramento mais significativo nas tensões contínuas entre os dois países, que haviam concordado com um cessar-fogo em outubro passado, após uma semana de confrontos mortais.

Veja o que se sabe até agora.

<><> O que aconteceu na noite de quinta?

Os primeiros relatos sobre a nova escalada no conflito começaram a surgir na quinta-feira (26/2).

Uma ofensiva foi lançada às 20h, pelo horário local (12h pelo horário de Brasília), ao longo da fronteira nas províncias de Nangarhar, Nuristan, Kunar, Khost, Paktia e Paktika, de acordo com declarações de autoridades do Talebã.

O Paquistão retaliou rapidamente, afirmando que o Talebã havia "calculado mal e aberto fogo não provocado em vários locais" do outro lado da fronteira, em sua província de Khyber Pakhtunkhwa, no noroeste do país, o que foi recebido com uma "resposta imediata e eficaz" pelas forças de segurança de Islamabad, a capital paquistanesa.

Em seguida, o Paquistão lançou uma série de bombardeios no Afeganistão na madrugada de sexta-feira, atingindo alvos em Cabul e nas províncias fronteiriças.

Zabihullah Mujahid, porta-voz do Talebã afegão, publicou — e posteriormente apagou — uma postagem na rede social X (antigo Twitter) afirmando que o grupo havia lançado ataques na madrugada de sexta-feira contra posições militares paquistanesas em Kandahar e Helmand, duas províncias do Afeganistão.

A BBC ainda não conseguiu verificar todas as alegações.

<><> Qual foi o efeito dos ataques?

O Talebã afegão afirmou ter realizado ataques aéreos contra vários alvos no Paquistão na manhã de sexta-feira. Fontes do governo talebã disseram à BBC que esses ataques foram feitos com drones lançados do Afeganistão.

Um oficial militar paquistanês confirmou que drones do Talebã afegão alvejaram três locais — a escola de artilharia do exército em Nowshehra, um ponto próximo a uma academia militar em Abbottabad e outro local perto de uma escola primária em Swabi — mas disse que todos foram destruídos.

Esses ataques são sem precedentes. Mas acredita-se que os combatentes talebãs dependam predominantemente de drones comerciais carregados com explosivos improvisados, o que limita seu alcance e capacidade de atingir alvos.

Um porta-voz do exército paquistanês afirmou que 22 alvos militares foram alvejados em todo o Afeganistão, incluindo Cabul e Kandahar, e que "grande cuidado" foi tomado para evitar baixas civis.

Ele alegou que pelo menos 274 combatentes talebãs afegãos foram mortos, com 73 postos destruídos e 18 capturados dentro do Afeganistão. Estima-se que 115 tanques, veículos blindados e sistemas de artilharia também foram destruídos, disse ele.

Doze soldados paquistaneses foram mortos, 27 ficaram feridos e um está desaparecido em combate, afirmou.

O porta-voz do Talebã afegão, Mujahid, disse que 13 combatentes talebãs foram mortos e 22 ficaram feridos, enquanto 13 civis ficaram feridos e houve um número ainda indeterminado de mortos.

Ele mencionou especificamente que a casa de um agricultor em Jalalabad foi bombardeada e a maioria de sua família foi morta, enquanto uma escola religiosa em Paktika também foi atacada.

O porta-voz do Talebã afirmou que 55 soldados paquistaneses foram mortos, 23 dos quais tiveram seus corpos levados de volta ao Afeganistão. Ele também disse que outros foram capturados vivos, enquanto 19 bases foram destruídas.

<><> O que os países estão dizendo?

Assim como em confrontos anteriores entre as forças paquistanesas e afegãs, cada lado acusa o outro de ter atacado primeiro — e ambos alegam ter infligido pesadas baixas ao adversário.

O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, disse que as forças de seu país foram capazes de "esmagar" a agressão, enquanto o ministro da Defesa declarou "guerra aberta" contra o Talebã no Afeganistão.

O Talebã afegão "retaliará se formos atacados, mas não iniciaremos confrontos no momento", disse um porta-voz militar do Talebã à BBC.

Autoridades da Organização das Nações Unidas (ONU) pediram uma desescalada imediata dos combates, enquanto o Irã, que faz fronteira com ambas as nações, ofereceu-se para mediar o conflito.

O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araqchi, observou que atualmente, estamos no Ramadã, "o mês da autodisciplina e do fortalecimento da solidariedade no mundo islâmico".

A China, que se considera amiga tanto do Afeganistão quanto do Paquistão, pediu um cessar-fogo, com a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Mao Ning, pedindo aos dois países para "manter a calma e exercer moderação".

O ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, aliada do Paquistão, reuniu-se com chanceler paquistanês para discutir maneiras de reduzir as tensões.

O porta-voz do Talebã afegão, Mujahid, disse nesta sexta-feira que "agora também queremos que a questão seja resolvida por meio do diálogo".

<><> Por que isso está acontecendo?

Os ataques aéreos ocorrem após meses de hostilidades entre os dois países. O último confronto sério foi em outubro de 2025, depois dele, um frágil cessar-fogo mediado pela Turquia e pelo Catar foi alcançado.

O Paquistão acusa o governo talebã do Afeganistão de apoiar "terroristas anti-Paquistão", a quem responsabiliza por ataques suicidas no país, incluindo um recente em uma mesquita em Islamabad.

Essa alegação é contestada pelo governo talebã, que repetidamente afirma que o território do Afeganistão não está sendo usado para ameaçar a segurança de outros países.

Por sua vez, o governo talebã acusa o Paquistão de realizar ataques não provocados nos quais civis foram mortos. O Paquistão afirma que só tem como alvo militantes.

No início desta semana, o Paquistão realizou múltiplos ataques aéreos noturnos no Afeganistão, que, segundo o Talebã, mataram pelo menos 18 pessoas, incluindo mulheres e crianças.

<><> O que torna a escalada atual diferente?

Em desvantagem bélica em relação ao Paquistão, que possui armas nucleares, analistas acreditam que é improvável que o Talebã trave uma guerra convencional contra o Paquistão. No entanto, o Talebã afegão tem vasta experiência em guerra de guerrilha.

O que torna a última rodada de ataques paquistaneses significativa é que eles visaram instalações do governo talebã em vez de alvos terroristas no Afeganistão, disse Michael Kugelman, pesquisador sênior para o Sul da Ásia no centro de estudos Atlantic Council, ao programa Newsday da BBC.

"Agora, o alvo é o próprio regime", afirmou.

Entretanto, a retórica do Talebã sugere que o grupo está empenhado em "realizar ataques implacáveis" contra o Paquistão — uma "situação precária" que pode levar a um conflito armado.

O chefe militar do Talebã afegão, Qari Muhammad Fasihuddin, afirmou em uma mensagem de vídeo na sexta-feira que o Paquistão pode esperar "uma resposta ainda mais decisiva" no futuro.

Os ataques a locais como Abbottabad e Swabi demonstram a capacidade do grupo de penetrar mais profundamente no território paquistanês do que se imaginava.

•        Por que Paquistão e Afeganistão estão em "guerra aberta"

Horas após ter suas fronteiras atacadas por forças do Talibã, o Paquistão retaliou com bombardeios a instalações militares e à capital afegã, Cabul, na noite de quinta para sexta-feira (27/02), ameaçando o frágil cessar-fogo que vigora entre os dois países vizinhos desde outubro.

Embora os dois países troquem hostilidades há meses, os confrontos da madrugada foram descritos como a escalada mais grave no conflito desde que o Talibã assumiu o poder no Afeganistão, em 2021.

Fontes ouvidas pela agência de notícias AFP afirmam que o confronto na fronteira afegã teria atingido um campo de refugiados e deixado crianças, mulheres e idosos em pânico.

O governo paquistanês acusa Kabul de dar abrigo a insurgentes do Talibã paquistanês (TTP) – tanto o governo afegão quanto o TTP negam isso –, e tem promovido ataques no território do país vizinho sob a justificativa de neutralizá-los.

Islamabad culpa o TTP e grupos separatistas pelo aumento da violência militante nos últimos anos.

"Nossa paciência chegou ao limite. A partir de agora, é guerra aberta entre nós e vocês", declarou na quinta-feira o ministro paquistanês da Defesa, Khawaja Asif, em postagem no X.

Asif acusou ainda o Talibã de transformar o Afeganistão numa "colônia da Índia", arquirrival de Islamabad. Recentemente, a Índia melhorou suas relações com o Afeganistão, o que irritou o Paquistão.

"O Paquistão fez grandes esforços para manter a normalidade de forma direta e por meio de países amigos. Envolveu-se em uma diplomacia de pleno direito. Mas os talibãs se tornaram um representante da Índia", afirmou.

No último domingo, o Paquistão lançou ataques aéreos em território afegão e anunciou ter matado ao menos 70 militantes. O Afeganistão contestou, dizendo que o ataque, na verdade, teria matado dezenas de civis e violado sua soberania e seu espaço aéreo.

<><> O que está por trás do conflito

O Paquistão saudou a volta do Talibã ao poder no Afeganistão em 2021. À época, o então primeiro ministro Imran Khan chegou a dizer que os afegãos haviam "quebrado as correntes da escravidão".

Mas as relações azedaram logo, em função da aliança do Talibã paquistanês com o grupo homônimo que governa o Afeganistão.

Islamabad afirma que o Afeganistão é base da liderança do TTP e de muitos de seus combatentes, além de grupos armados separatistas da província do Baluchistão, palco de conflitos violentos há décadas e de disputa por recursos naturais.

Ataques do TTP e de insurgentes balúchis vêm aumentando desde 2022, segundo a Armed Conflict Location & Event Data, uma organização global de monitoramento.

Cabul insiste que não permite o uso do território afegão para ataques lançados por militantes hostis ao governo paquistanês. Pelo contrário: é o Paquistão que estaria abrigando combatentes do Estado Islâmico, rivais do Talibã e responsáveis por atentados terroristas recentes no Afeganistão — uma acusação que Islamabad nega.

Na semana passada, um ataque cometido por um cidadão afegão deixou 11 agentes de segurança e dois civis mortos no distrito paquistanês de Bajaur, informaram autoridades locais. O TTP reivindicou a autoria do ataque.

Forças de segurança paquistanesas afirmam ter "evidências irrefutáveis" de que militantes no Afeganistão estão por trás de uma onda recente de ataques e bombardeios suicidas.

<><> O que é o Talibã paquistanês?

O TTP, popularmente conhecido como Talibã paquistanês, foi formado em 2007 por militantes que atuavam no noroeste do Paquistão.

Desde então, conseguiram expandir seu domínio territorial, principalmente ao longo da fronteira com o Afeganistão, mas também em áreas do interior do país, como o vale do Suate.

Ao longo de sua existência, o TPP tem promovido ataques em mercados, mesquitas, aeroportos, bases militares e postos de polícia. Um de seus ataques mais famosos, em 2012, feriu a então estudante Malala Yousafzai, laureada com o Prêmio Nobel dois anos depois.

O TTP também lutou ao lado do Talibã contra as forças lideradas pelos Estados Unidos no Afeganistão e abrigou combatentes afegãos no Paquistão.

As tentativas do Paquistão até agora de reprimir o TTP em seu próprio território tiveram sucesso limitado, mas uma ofensiva que terminou em 2016 conseguiu reduzir drasticamente, ainda que por poucos anos, o poder de fogo do grupo.

<><> Paquistão é potência nuclear

Agora, analistas afirmam que a tendência é que o Paquistão intensifique sua campanha militar contra o TTP no Afeganistão. Em contrapartida, a retaliação afegã deve vir na forma de mais ataques a postos de fronteira e ataques de guerrilha contra forças de segurança paquistanesas.

O Paquistão é militarmente muito superior ao Afeganistão: uma potência nuclear com 170 ogivas e mais de 600 mil homens em suas Forças Armadas, além de 6 mil veículos blindados, 4,6 mil peças de artilharia e mais de 400 caças, segundo o Instituto Internacional para Estudos Estratégicos. Já o Talibã no Afeganistão tem 172 mil homens, mas nenhuma força aérea de fato ou caça — restam-lhe ao menos seis aeronaves e 23 helicópteros, embora não se saiba em quais condições de uso —, além de blindados da era soviética.

Enquanto o Paquistão continua a investir em seu programa nuclear e na modernização de suas forças naval e aérea, as capacidades militares do Talibã afegão estão decaindo, também devido à falta de apoio internacional ao grupo.

<><> Cessar-fogo em risco

As relações entre os dois países nos últimos meses têm sido marcadas por tensão. Em outubro, confrontos na fronteira deixaram dezenas de soldados, civis e supostos militantes mortos.

Um acordo de cessar-fogo firmado logo depois sob mediação do Catar e da Turquia atenuou os ânimos dos dois lados, mas não conteve totalmente os ataques mútuos a forças de segurança nas fronteiras.

Islamabad diz que o cessar-fogo não durou muito devido à continuidade dos ataques militantes no Paquistão vindos do Afeganistão, e queixa-se de repetidos confrontos e fechamentos de fronteira que teriam prejudicado o comércio e a circulação de pessoas.

O Paquistão, que chegou a abrigar milhares de refugiados afegãos após a ascensão do Talibã em 2021, iniciou uma ampla repressão em outubro de 2023 para expulsar migrantes sem documentos, incentivando aqueles que estavam no país a sair voluntariamente para evitar prisões e expulsando à força outros. O Irã também começou uma repressão contra migrantes aproximadamente na mesma época.

Desde então, milhões cruzaram a fronteira para o Afeganistão, incluindo pessoas que nasceram no Paquistão há décadas e que haviam construído suas vidas e criado negócios ali.

Somente no ano passado, 2,9 milhões de pessoas retornaram ao Afeganistão, segundo a agência da ONU para refugiados, e quase 80 mil já retornaram somente neste ano.

 

Fonte: BBC News no Afeganistão/DW Brasil

 

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