Jordan
Michel-Muniz: Floripa — marina de luxo para poucos, mar de lixo para muitos
Florianópolis
está sob intervenção.
Dissimulada
pela aparência de democracia, a especulação imobiliária reina.
Empreiteiras
investiram nas campanhas eleitorais de vários políticos locais.
O
resultado é um modelo político-econômico no qual as pessoas votam mas não têm
voz.
A gente
não tem grana pra fazer lóbi (lobby) e defender a cidadania.
Por
coincidência (?!), após a eleição, os vereadores destroçaram o Plano Diretor da
cidade, redigido coletivamente pela comunidade para proteger a natureza, a
qualidade de vida, os ‘comuns’.
Antes,
o Plano Diretor previa o máximo de três pavimentos, agora erguem torres de
oito, doze ou mais andares, na orla marinha, indiferentes à área protegida das
restingas e ao direito de todos à paisagem, entre os muitos males da
verticalização nas praias.
A
regulação urbana foi implodida em prol das construtoras, prejudicando
moradores.
Uma
turma insaciável atua predatoriamente em Floripa.
E quer
invadir também o mar, com uma marina para privilegiados.
Luxo
para milionários, lixo venenoso no mar.
Diversos
movimentos sociais lutam contra este roubo do comum.
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O que são os ‘comuns’?
Pense
nos indígenas, sem bens privados ou ‘coisa pública’ (em latim, ‘res publica’,
república).
As
coisas são comuns a tribo, dádivas naturais.
Os
comuns existiam no direito romano: ar, água corrente, o mar e a costa.
Na
época feudal os comuns eram campos cultivados de modo compartilhado pelos
servos, e alguns pastos e florestas cujo uso a lei do costume garantia.
Quando
o capitalismo dá fim ao feudalismo, ele rouba tais comuns, cercando estes
espaços e impedindo os camponeses de obter deles seu alimento.
Repare
aí em dois pontos-chave:
a) o
comum não admite apropriação, compra ou privatização, nem por particulares
(privada), nem pelo Estado (pública); se isto ocorre, é roubo.
b)
comunidade e comum são inseparáveis: não existe comunidade sem comuns, nem
comum desvinculado da comunidade.
Há
comuns materiais – ar, água, meio ambiente, paisagem, sol… –, e imateriais –
linguagem, conhecimento, o cuidado e os afetos, todos essenciais às
comunidades.
Nos
comuns, cooperação, deliberação coletiva e uso compartilhado tomam o lugar da
competição, imposição e exclusividade.
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Marina em Florianópolis
Aprovaram
o projeto de uma megamarina na Avenida Beira-Mar Norte, local de prédios de
alto padrão no centro de Floripa, com trânsito congestionado o dia todo.
Planejam
612 vagas para barcos de luxo, de até 33 metros (algo como 8 fuscas
enfileirados), em 300.000 m² de mar (1 quilômetro de extensão, por 300 metros
mar adentro).
Sua
construção tirará o sustento de pescadores e milhares de pessoas que vivem do
mar.
Ela
provocará incontáveis danos ambientais.
Ali
lançaram esgoto e resíduos tóxicos por décadas, inclusive metais pesados
letais: estes detritos que o tempo enterrou no leito marinho causam doenças
graves e danos neurológicos.
Dragar
e fazer diques (paredes desde o fundo do mar) revolverá toneladas de sedimentos
tóxicos – declarados 244.000 m³, provavelmente bem mais –, deixando
contaminantes e resíduos orgânicos suspensos por muito tempo, que correnteza,
maré e vento espalharão.
A obra
aumentará a turbidez, barrando luz essencial à fauna e à flora marinhas, e
reduzirá o pH, deixando o mar ácido e impróprio à vida.
Piorará
a falta de oxigênio nas águas da baía, ampliando zonas mortas.
Haverá
mortandade de peixes, além de aves e botos, ambos em risco de extinção, e
golfinhos.
Cortará
58 plantas nativas e outras tantas exóticas, suprimindo 2 palmeiras de butiá
(coquinho apreciado por humanos e aves), também em perigo de extinção pelos
desmatamentos.
Poderá
formar marés vermelhas – proliferação de microalgas – cujas toxinas matam
peixes, moluscos e outros animais, e acarretam problemas de saúde em humanos,
às vezes, fatais.
A
contaminação atingirá a Baía Sul, maior produtora de ostras do Brasil, um
molusco bioacumulador de poluentes, por se alimentar filtrando a água, o que
retém agentes patogênicos presentes nos sedimentos que serão dispersados pela
dragagem da marina.
Todos
estes males persistirão após os previstos cinco anos de construção.
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Desrespeito às comunidades pesqueiras tradicionais
Se
algum peixe, ave ou boto sobreviver a este longo revolvimento de materiais
tóxicos, seguirá exposto aos poluentes pelo tráfego de veleiros e iates de
luxo, que gerarão um rastro de toxicidade ao sair da marina.
A
diversão dos ricos romperá redes de trabalho dos pescadores, se ainda houver o
que pescar.
Não
bastasse esta breve lista de como causar um ecocídio, as tintas
anti-incrustantes dos cascos dos barcos de lazer produzem forte impacto
ambiental.
A
pintura é venenosa para que cracas não se fixem e os brinquedos dos
privilegiados não percam velocidade.
Há dois
venenos: cobre, liberado continuamente em nanopartículas que aderem às
brânquias dos peixes, gerando asfixia e morte; e tributil estanho (TBT,
proibido, mas muito usado), que ocasiona a masculinização de fêmeas de
moluscos, e daí esterilidade e declínio populacional.
O TBT
se acumula nos sedimentos marinhos e causa toxicidade hepática, renal,
cardiovascular e hormonal em mamíferos, além de danos ao DNA e câncer.
Humanos
são mamíferos…
O TBT
tem efeitos de biomagnificação – concentração aumentada ao longo da cadeia
alimentar, da qual somos o topo.
O mesmo
sucede com metais pesados antes mencionados.
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Crimes que se repetem
Para
tão vasto rol de crimes oferecem ao Estado 500 mil reais de compensação
ambiental.
A vida
vale pouco, né?
Lembra
do dito antes, que não se pode comprar o comum?
Mas
neste acordo não só compram vidas como o pagamento é pela permissão para
destruir, aniquilar parte do comum e roubar outro tanto.
Todo
este veneno poderá, sem você ver, aparecer na sua mesa, em vários pontos do
Brasil, pelos frutos do mar que saem daqui.
Certamente
estará nas refeições das comunidades dos maretórios – conceito social e
político que une marés e territórios – os territórios influenciados pelas
marés.
As
regiões costeiras são vitais para a sobrevivência alimentar e econômica de
pescadores, marisqueiros e extrativistas.
A morte
do mar será também a do modo de vida deles.
Desrespeitam
direitos territoriais, ambientais e existenciais destas comunidades.
O
projeto da marina de luxo é ecocídio anunciado.
Já
esquecemos de Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais?
Nada
aprendemos com 291 seres humanos e milhões de animais e plantas mortos?
Quanto
vale cada vida, na insensibilidade da “compensação ambiental”?
Mariana
e Brumadinho foram crimes ambientais e sociais, de negócios que visando maior
lucro desconsideraram ameaças às populações e aos ecossistemas.
Exatamente
o que se vê na concepção desta marina: descaso pelos riscos.
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Imoralidade e descaso
Quem
autorizou?
Foi o
Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA).
O
Ministério Público Federal (MPF) ajuizou ação para que Ibama e ICMBio
examinassem o Estudo de Impacto Ambiental (EIA-RIMA).
Ambos
recusaram, alegando não ser mar territorial ou unidade de conservação.
Espantoso:
por definição as 12 milhas do mar territorial começam na costa!
Quanto
à ausência de unidade de conservação naquele ponto, há várias delas próximas:
Manguezal do Itacorubi, Estação Ecológica Carijós, Áreas de Proteção Ambiental
Anhatomirim e da Baleia Franca, Reserva Extrativista Pirajubaé e Reserva
Biológica Arvoredo.
Como se
fossem cavar a marina numa piscina fechada e a água tóxica e os animais
envenenados não passassem de um lugar a outro, por dezenas ou centenas de
quilômetros.
A lama
tóxica da Barragem em Mariana respeitou limites das competências burocráticas?
Ou a
morte assolou o Rio Doce e quilômetros de mar sem indagar pelo órgão
(ir)responsável?
Após a
negativa dos organismos federais houve acordo com o IMA, condicionado a
audiências públicas, obrigatórias por lei, enfatizou o juiz, mas nunca
efetuadas, segundo pescadores.
O
governador elogiou o Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA) pelo
“esforço grande para viabilizar a Licença Ambiental de Instalação (LAI)” da
marina.
O IMA
deve sacrificar vidas no “esforço” para ajudar a especulação imobiliária e
empreiteiras?
Na
Licença Ambiental de Instalação (LAI) há recomendações fantasiosas, “pra inglês
ver”, com termos como “preferencialmente”, “desejável”, “recomendado”,
“sugere-se” e similares.
Os
riscos e danos ambientais tolerados são tantos que exigiriam anexo maior que
este texto.
O
Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina admite saber da dispersão de
sedimentos tóxicos e de matéria orgânica acidificante, e revela que ignora o
“comportamento da mesma”.
Em vez
de impor estudo prévio abrangente quanto à dispersão de sedimentos ao longo das
estações do ano, só pediu que mapeiem “em diferentes condições oceanográficas o
real alcance de dispersão da pluma durante as atividades de dragagem”.
Em
linguagem popular, equivale a dizer: escavem e vamos ver até onde chega toda
esta m…!
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O roubo do comum
Lamentavelmente,
o Governo Federal cedeu o terreno para a marina, com área de 432.898 m².
A
doação coube ao Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI),
pelo programa Imóvel da Gente.
Da
gente, quem?
O
terreno é público: por que não erguer ali moradia social, prédios de 8 a 12
andares para a classe trabalhadora, financiados pelo Minha Casa, Minha Vida, se
é pra ser “Imóvel da Gente”?
Daí
quem trabalha não precisaria sacudir em ônibus lotados dos distantes subúrbios
até seu emprego, pagando uma das tarifas mais caras do Brasil.
Afinal,
a área é federal, um aterro que só existe pelo trabalho suado da classe
trabalhadora.
Classe
que também construiu a avenida, asfaltou, mantém as pistas e o belo
ajardinamento…
Beleza
ausente nas periferias destinadas à classe trabalhadora desde o início do
capitalismo, quando ricos roubaram o comum cercando terras que pobres tornaram
aptas ao plantio, criando assim gente faminta que aceita salários miseráveis
para não morrer de fome.
“Ele,
um humilde operário
Um
operário em construção.
Olhou
em torno: gamela
Banco,
enxerga, caldeirão
Vidro,
parede, janela
Casa,
cidade, nação!
Tudo,
tudo o que existia
Era ele
quem o fazia…”
[Vinicius
de Moraes, O operário em construção]
O
esforço coletivo, dos impostos ao trabalho pesado, permitiu o aterro e criação
da Beira-Mar Norte: por que voltar aos cercamentos do que é comum, criando um
feudo para milionários?
Ah, mas
haverá quadras de esporte e zonas de lazer públicas, para trabalhadoras e
trabalhadores curtirem com suas famílias…
No fim
do expediente?
Antes
de pegar o ônibus lotado com tarifa caríssima pra sacudir até a periferia onde
mora?
Domingo?
Uma
família de quatro pessoas gastaria 3% do salário mínimo em ônibus.
Ir ao
parque um dia por semana custaria ao mês 12% do salário mínimo.
Comes e
bebes teriam que levar de casa: tal como na praia, seriam desprezados como
‘farofeiros’ ante o champanhe nos iates.
Pela
localização, a rica marina e o parque ‘público’ com que disfarçam o luxo
servirão ao prazer das classes privilegiadas que ali residem, valorizando ainda
mais seus imóveis.
Bem
popular a tal marina…
“Dou-te
tempo de lazer
Dou-te
tempo de mulher.
Portanto,
tudo o que vês
Será
teu se me adorares
E,
ainda mais, se abandonares
O que
te faz dizer não.”
[Vinicius
de Moraes, O operário em construção]
Não!
Não ao roubo do comum!
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Transporte público?
A
segunda maior desculpa para a obra é que servirá ao transporte marítimo.
Imagine
a pessoa pegar o ônibus no continente para o cais, esperar pela barca, aturar a
lenta travessia, desembarcar na ilha na avenida de pior trânsito e pegar outro
transporte para chegar ao terminal de integração central (Ticen), onde enfim
tomará mais um ônibus até seu trabalho.
E o
mesmo em sentido inverso para voltar.
Insano!
A
prefeitura promete um BRT (transporte rápido por ônibus). Então por que não
fazem o BRT ligando bairros e cruzando as pontes, eliminando duas trocas de
veículos?
Transporte
marítimo é altamente poluente, lento, ineficiente e depende das condições do
mar. Nas baías ventos fortes são ameaça constante à navegação.
Se
fosse viável, bastaria um atracadouro, perto da integração central dos ônibus,
claro.
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Luxo para poucos, lixo para muitos
Agora
noto injustiça com quem mora na área nobre da Baía Norte, em apartamentos com
um dos metros quadrados mais caros da cidade.
Seria
injusto erguer prédios de 8 a 12 andares na frente deles – no terreno federal
do “Imóvel da Gente” – e roubar a paisagem de quem vive no outro lado da
avenida, fora piorar o trânsito caótico e o problema do esgoto, esconder o pôr
do sol…
Injusto?
O
prefeito autorizou isto ao mutilar o Plano Diretor e liberar a verticalização
em praias da ilha!
Como
dito no início, fazem edifícios que nos tiram o nascer do sol e da lua, a vista
do mar e dos verdes morros, sombreiam casas, param o trânsito, jogam esgoto no
mar, criam escassez de água, destroem a natureza…
Por que
não é possível realizar o mesmo onde mora a classe dominante?
Não se
pode dar função social à propriedade pública, como manda a Constituição
Federal?
A
classe trabalhadora não merece?
Injustos
são prefeito e vereadores que não cuidam do meio ambiente nem respeitam a forma
de vida da comunidade tradicional dos pescadores e da população em geral.
Falta
dinheiro para edifícios populares?
Não! A
prefeitura, novamente sem ouvir a comunidade, quer construir moradias sociais
em praia no sul da ilha, roubando um terço do Parque do Morro das Pedras.
Por que
não usam o terreno da Beira-Mar Norte, que não é parque e está vago?
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Cidade para todas e todos
Aliás,
se a proposta é o bem público, por que não começar pelo básico?
Despoluir
as baías!
Por
décadas jogaram nelas toneladas de resíduos tóxicos e esgoto não tratado.
Ainda
despejam, pela insuficiência e falhas das Estações de Tratamento de Esgoto das
baías.
Sem
esquecer do rompimento da barragem de esgoto que invadiu a Lagoa da Conceição
há cinco anos, milhões de litros de lodo tóxico.
Aí a
Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (CASAN) resolveu envenenar o lado
oposto, fez uma barragem no Parque Natural Municipal das Dunas da Lagoa da
Conceição.
Este
desdém pelo saneamento contribuiu para 2,7 mil casos de doenças diarreicas
agudas em Floripa só no primeiro mês de 2026, segundo dados do Ministério da
Saúde.
Para
limpar não tem dinheiro?
Mas
para poluir mais tem?
Não
seria maravilhoso desfrutar de praias no centro da cidade?
Ter
lazer natural acessível à classe trabalhadora?
Mergulhar
no mar, jogar futebol na areia, tomar sol…
Onde o
turista visse o peixe que vai comer sendo capturado por pescadores artesanais!
Aí, sim
Floripa seria atração turística internacional: com mar limpo e sem discriminar
pobres.
Vamos
tratar todas as pessoas de maneira igualitária?
É o que
nos falta, não prédios enormes nas praias e marinas de luxo fazendo do mar um
lixo.
Fonte:
Viomundo

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