50
anos da República Saaraui, descolonização bloqueada e a dívida do Brasil
Em 27
de fevereiro de 1976 foi proclamada a República Árabe Saaraui Democrática
(RASD), no contexto da retirada colonial espanhola e da invasão do território
por forças estrangeiras.
Cinquenta
anos depois, o Saara Ocidental permanece como a última colônia da África, não
por falta de base jurídica para sua independência, mas pela decisão política
das potências internacionais de impedir a conclusão de seu processo de
descolonização.
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Poucos
conflitos contemporâneos apresentam um quadro jurídico tão claro quanto o Saara
Ocidental. Desde 1963 o território figura na lista de Territórios Não Autônomos
das Nações Unidas, o que estabelece a obrigação internacional de conduzi-lo à
autodeterminação.
A
Declaração sobre a Concessão da Independência aos Países e Povos Coloniais
consagrou esse direito como princípio fundamental do sistema internacional, sem
exceções.
Em
1975, a Corte Internacional de Justiça confirmou que não existiam vínculos de
soberania entre o Reino do Marrocos e o território capazes de impedir a
autodeterminação do povo saaraui. A decisão deveria ter encerrado qualquer
pretensão anexionista. Em vez disso, abriu-se caminho para a ocupação.
Ignorando
o parecer da Corte, o Reino (colonial) do Marrocos organizou a chamada Marcha
Verde, operação político-militar que combinou pressão diplomática, mobilização
civil encenada e incursão armada. Bombardeios com napalm e fósforo branco
forçaram o deslocamento de milhares de saarauis para o deserto argelino.
Poucos
dias antes da morte de Francisco Franco, a Espanha assinou os chamados Acordos
de Madri, transferindo a administração do território a Marrocos e Mauritânia
sem consultar o povo saaraui. O acordo jamais transferiu soberania e nunca foi
reconhecido pela ONU como instrumento válido de descolonização. Ainda assim,
abriu caminho para uma ocupação que persiste até hoje.
O que
se seguiu foi uma guerra de libertação nacional conduzida pela Frente
Polisario, reconhecida internacionalmente como representante legítima do povo
saaraui. Entre 1980 e 1987, Marrocos construiu o maior muro militar contínuo do
mundo contemporâneo, com cerca de 2.700 quilômetros protegidos por dezenas de
milhares de soldados e milhões de minas terrestres.
Esse
sistema transformou o território em um espaço de segregação geográfica e
política, um verdadeiro apartheid territorial que separa áreas ocupadas e zonas
libertadas.
Em
1991, sob os auspícios da ONU, Marrocos e a Frente Polisario aceitaram um
cessar-fogo baseado em um compromisso central para a realização de um referendo
de autodeterminação supervisionado pela Missão das Nações Unidas para o
Referendo no Saara Ocidental (MINURSO). O referendo deveria ocorrer em 1992.
Nunca ocorreu.
O
bloqueio foi político, não técnico. Marrocos passou a questionar o corpo
eleitoral e, posteriormente, rejeitou qualquer solução que incluísse a
independência como opção. Em vez de impor o cumprimento dos acordos, o Conselho
de Segurança optou por administrar o impasse. A MINURSO transformou-se em uma
missão permanente sem cumprir sua função essencial, um símbolo da impotência
seletiva do sistema internacional.
A
missão permanece até hoje como a única operação de paz da ONU sem mandato para
monitorar violações de direitos humanos, apesar das reiteradas denúncias de
detenções arbitrárias, tortura e repressão política nos territórios ocupados.
Essa exceção não é casual. Ela expressa o duplo padrão aplicado à questão
saaraui.
A
ocupação marroquina consolidou-se como um sistema de colonização de povoamento.
Colonos foram incentivados a instalar-se no território, a identidade saaraui
passou a ser criminalizada e os recursos naturais, como fosfato, pesca e
energia, são explorados sem o consentimento do povo do território.
Uma
parte significativa da população vive há meio século nos campos de refugiados
de Tindouf, no deserto argelino, onde a República Saaraui estruturou
instituições estatais no exílio.
Nos
territórios ocupados, manifestações pacíficas são reprimidas violentamente e
ativistas são perseguidos por reivindicar direitos reconhecidos pelo próprio
sistema internacional.
Nesse
cenário, a resistência saaraui não representa uma radicalização política, mas a
consequência lógica de uma legalidade bloqueada. Quando o direito à
autodeterminação é negado indefinidamente, a resistência torna-se a expressão
histórica de um direito impedido de se realizar.
Cinco
décadas após a proclamação da RASD, torna-se evidente que o problema central
não é a ausência de solução jurídica, mas a falta de vontade política para
aplicá-la. O Direito Internacional reconhece o direito do povo saaraui à
autodeterminação. O que se recusa a reconhecer é a necessidade de fazê-lo
valer.
Esse
duplo padrão manifesta-se também na política externa brasileira.
O
Brasil reconheceu a independência do Timor-Leste e o Estado da Palestina,
coerentemente com sua tradição diplomática de defesa da autodeterminação dos
povos. No entanto, permanece até hoje sem reconhecer a República Árabe Saaraui
Democrática.
O
próprio ex-chanceler Celso Amorim registrou que, durante os governos do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o reconhecimento não ocorreu em razão de
compromissos diplomáticos com o Reino do Marrocos, especialmente no contexto do
pleito brasileiro por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.
Essa
posição expõe uma contradição profunda. O Brasil afirma defender a
autodeterminação como princípio universal, mas aplica esse princípio de forma
seletiva quando interesses estratégicos estão em jogo.
A
questão saaraui tornou-se, assim, um teste para a coerência da política externa
brasileira.
Cinco
décadas após a criação da RASD, o Saara Ocidental continua sendo a prova viva
de que a descolonização pode ser adiada, mas não anulada. A resistência do povo
saaraui demonstra que nenhum processo colonial se estabiliza indefinidamente
sobre a negação de um direito histórico.
O Saara
Ocidental não é apenas a última colônia da África — é o espelho da
credibilidade do sistema internacional e da coerência moral dos Estados que
afirmam defender a liberdade dos povos.
Se o
Brasil pretende honrar sua tradição histórica de solidariedade às lutas contra
o colonialismo e o apartheid, chegou a hora de o presidente Lula romper o
silêncio diplomático e reconhecer oficialmente a República Árabe Saaraui
Democrática.
Sayid
Marcos Tenório é historiador e escritor. É vice-presidente da Associação de
Solidariedade e pela Autodeterminação do povo Saaraui – ASAARAUI Brasília.
Fonte:
Por Sayid Marcos Tenório, no Brasil 247

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