segunda-feira, 2 de março de 2026

Roberto Amaral: Quando o recuo vira destino

Em 1938, regressando de Munique, aonde fôra negociar com Adolf Hitler, o primeiro-ministro Neville Chamberlain declara ao Parlamento britânico haver conquistado o que denominava como “a paz para o nosso tempo”.

Enganado ou não, enganava os ingleses e despistava o mundo, em especial o mundo europeu, mal saído da Primeira Guerra Mundial e já se vendo ameaçado por um novo conflito para o qual não estava preparado, como se veria logo depois.

Eram tempos de medo, dominados pela retórica do pacifismo para enfrentar as ameaças do rearmamento alemão comandado pela ascensão do nazifascismo.

Ao entregar os Sudetos (parte da então Tchecoslováquia) à Alemanha como compensação pela promessa de Berlim de não reivindicar mais territórios (mote da doutrina do “espaço vital”, que tudo justificava), a monarquia decadente aplainava os avanços das tropas de Hitler: o “acordo de paz” é firmado em 1938 e, já em 1939, a Polônia era invadida. Avança a guerra que a Inglaterra, não podendo enfrentar, tentava evitar, simplesmente ignorando a agressão que vinha a galope.

É história contada. Aquele não era, porém, o primeiro recuo, nem seria o último registro nos conflitos do século passado e nos conflitos de nossos dias, ensinando que nem sempre a estratégia do passo atrás, anunciando outro passo atrás, é a melhor arte da guerra dos que se veem ameaçados por agressores mais poderosos.

O agressor sempre avança onde há menor custo. Como ensinavam os argonautas, “navegar é preciso”.

Quando se entrega tudo, ou quase tudo, chega-se a um ponto em que não há nada mais a entregar, nem mais ninguém para resistir, como lembra Bertolt Brecht: “Primeiro levaram os comunistas… Depois os social-democratas… Depois vieram me levar, e não havia mais ninguém para protestar”.

O silêncio da comunidade internacional em face da política dos EUA não é neutro. A indiferença ante a dor de suas vítimas, países e povos é escolha.

Em 1936, a “Frente Popular”, liderada por Léon Blum, com forte apoio socialista e comunista, aderiu à política de “não intervenção”, fechando oficialmente a fronteira com a Espanha, temerosa da desestabilização interna que via em seus calcanhares, a tiracolo da Segunda Guerra Mundial. Essa foi sua contribuição para a vitória do franquismo. Caso isolado foi a intervenção cautelosa, mas real, da URSS, ao lado dos republicanos.

Na mesma linha de omissão, os EUA — nada obstante nutrirem simpatias com o governo republicano (ou ainda enxergarem as implicações do enclave fascista na Europa ibérica às vésperas da grande guerra já anunciada) — enclausuram-se na política isolacionista que vinha da Primeira Guerra Mundial. Era o receio de reações internas, especialmente congressuais.

Guernica não é obra exclusiva dos bombardeios alemães, assim como o genocídio palestino — ainda em curso — não é, tão só, o fruto do crime continuado perpetrado pelo sionismo israelo-estadunidense, tanto quanto os tantos crimes que se cometem contra o povo cubano, desde a revolução de 1959, não se podem contar apenas como engenho e paranoia do imperialismo norte-americano.

O que a humanidade – nossos povos, nossos governos, nossos partidos, cada um de nós — está fazendo para defender suas vítimas?

Todas as ditas democracias, todos os governos ditos de esquerda e centro-esquerda, todas as nossas organizações têm que assumir sua cota-parte de responsabilidade. Não há inocentes nesta guerra.

Retornemos a Munique, como recomendado por Gabriel Cohn. Começava, em 1939, após o fracasso do “acordo” e a invasão da Polônia, a Segunda Guerra Mundial — que seria vencida, como se sabe, ao preço que se sabe.

Seguem-se, ao seu fim formal (1945), a Guerra Fria e a vitória do capitalismo, anunciada com a queda do Muro de Berlim e o melancólico suicídio do projeto socialista, com a autodissolução da URSS gorbatchoviana, em 1991.

A polaridade Leste-Oeste, presente o fantasma do Armagedom nuclear, foi conduzida pelo que se chamou, primeiro, de “convivência pacífica” e, ao final, de “entente”, um xadrez de pesos e contrapesos entre as potências e seus projetos de domínio, que compreendiam a cartografia mais ou menos respeitada de suas respectivas áreas de influência e controle.

Mesmo mantendo a tensão e as disputas geopolíticas e estratégicas, os dois blocos, ao tempo em que conservavam a acordada monitoria sobre o mundo, afastavam os riscos dos impasses diretos.

São os muitos anos dos “conflitos por procuração”, a marca mais significativa da Guerra Fria, quando a violência — política, militar e ideológica — se desloca para a periferia, nomeadamente para a Ásia (e nada mais significativo do que a invasão do Vietnã pelos EUA), a África e o Oriente Médio.

A América Latina, nela incluído o Caribe, conservava o destino de “quintal”, o fardo que sobre nós pesa desde os amargos tempos da Doutrina Monroe, agora reclamados por Peter Hegseth, secretário de Guerra (já não mais Defesa) dos EUA.

Com o colapso da URSS, o imperialismo, guerreiro sem adversário, livre de freio sistêmico, assume as rédeas do mundo desregulado. A diplomacia cede ao tacape. Regressamos, em termos planetários, ao regime do big stick.

Desde logo, os EUA — nada do que estamos a assistir sob a fase trumpista pode ser considerado fato novo — confrangem a ordem estatuída em regras de direito internacional, levam à falência fática as organizações fundadas no pós-guerra com o frustrado objetivo de manter a paz e a segurança internacionais, caso exemplar da ONU. Retiram-se ou esvaziam agências multilaterais, como a UNESCO e a OMS, fragilizando mecanismos de cooperação internacional construídos ao longo de décadas.

A polaridade cede vez à hegemonia econômica, militar, política e ideológica do imperialismo norte-americano, o regime de hoje, belicoso, agressivo, sem limites para seu expansionismo, tanto inquestionado quanto facilitado pelo vazio da resistência.

Na paranoia do regime, ensandecido e mais perigoso quanto mais decadente, o “après moi le déluge” de Luís XV, ou, mais precisamente, a “Grande Alemanha” (Grossdeutschland) nazista, fundem-se no Make America Great Again (MAGA), o nexo entre o trumpismo (a contrapartida do fracasso do ensaio social-democrata) e o “destino manifesto” dos fundadores do “A América para os americanos”.

Formulação que, hoje, mais do que nunca, deve ser vista em sua acepção mais ampliada possível: o espaço no qual Washington divise, imagine ou desconfie da sombra de uma ínfima partícula de interesse ou ameaça à sua integridade, na estrita lógica do diálogo do cordeiro com o lobo, consagrado na fábula de La Fontaine.

À ausência de freios de qualquer ordem — freios morais, diplomáticos, geopolíticos, estratégicos, como aqueles que, no curso da polaridade e da Guerra Fria, condicionavam o belicismo das potências — os EUA, autoinstituídos xerifes do mundo, implantam a lei do “Velho Oeste”.

Todos os seus reais, supostos ou inventados adversários são peles-vermelhas em tocaia contra o branco cristão e civilizador, selvagens sem cura e sem salvação, criminosos irrecuperáveis, que precisam ser eliminados.

A Europa, nau sem rumo, navegando ao sabor dos acontecimentos nos quais não consegue intervir, carente de futuro, cuida de seu esvaziamento e da ameaça de balcanização. As potências nucleares com pretensões hegemônicas para amanhã cuidam de suas demandas.

A Rússia, ameaçada pela OTAN e pelo cerco econômico-político dos EUA — que inclui o bloqueio de reservas em dólar, restrições comerciais e limitações às exportações de petróleo — tenta salvar-se de uma guerra de desgaste que, projetada para cumprir-se em poucos meses, entra em seu quarto ano. Pode ser seu Vietnã, ou seu novo Afeganistão.

A China trabalha com o tempo há mais de quatro mil anos. Enquanto faz negócios mundo afora, pode esperar pelo fim do ciclo hegemônico dos EUA. É a nova “convivência pacífica”.

A série de crimes em desenvolvimento pelos EUA é extensa e está muito longe de concluir seu repertório.

Fixemo-nos na América Latina, e o primeiro registro é o da invasão da Venezuela, transformada em protetorado sob a regência da Casa Branca, depois de ter seu presidente (não vem ao caso que seja) sequestrado e transferido para uma prisão em NY. Antes, durante e depois, seu bloqueio aéreo e naval e, ao fim e ao cabo, o sequestro de suas reservas de petróleo.

Mas o que mais me toca é o garrote vil, extraordinariamente covarde, que ameaça matar de fome e doenças o povo cubano. Sim: o objetivo, hoje, não é mais destruir a resistência do regime tentativamente socialista, mas eliminar sua gente.

A pequena Cuba, desde 1959, padece sob isolamento político e bloqueio econômico, invasões e sabotagens. Trata-se de estrangular a economia como forma de disciplinar um governo eleito como adversário, ainda que o custo recaia sobre a população.

Nós, brasileiros, supondo-nos grandes e poderosos, na ilusão da incolumidade, não identificamos como ameaça o isolamento para o qual caminhamos na América do Sul, nem consideramos como precedente perigoso a invasão da Venezuela.

Lembrando, uma vez mais, Bertolt Brecht: nosso país não é socialista e nosso presidente não é acusado de traficante. Nada a temer.

•        Europa entre Pequim e Washington: o encontro sino-alemão e a transição da ordem global. Por Maria Luiza Falcão

Quando o chanceler alemão Friedrich Merz se sentou com o presidente Xi Jinping em Pequim, na quarta-feira, dia 25 de fevereiro, o encontro foi formalmente bilateral. Mas suas implicações são sistêmicas.

Estamos diante da segunda e da terceira maiores economias do mundo discutindo o futuro de cadeias produtivas, tecnologia, energia e comércio em um momento de transição estrutural da ordem internacional. Não se trata apenas de relações comerciais. Trata-se da posição da Europa em um mundo que já não é organizado por uma hegemonia única.

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No último ano, a China voltou a ocupar o posto de principal parceiro comercial da Alemanha. Apesar de todo o discurso europeu sobre “de-risking”, a gravidade econômica entre o maior polo industrial da Europa e o maior polo manufatureiro da Ásia permanece intensa. O problema não é se a relação importa — é como recalibrá-la quando o equilíbrio anterior mudou.

A Alemanha perdeu terreno relativo, especialmente no setor automotivo. Fabricantes chineses de veículos elétricos estabeleceram liderança em integração de baterias, software e escala produtiva. Marcas alemãs ainda detêm prestígio global, mas prestígio não substitui velocidade tecnológica.

No entanto, a narrativa não é de simples declínio. Empresas alemãs operam cada vez mais sob a lógica “China for China”: produzem localmente, inovam localmente e se integram ao ecossistema chinês. Para setores como química, maquinário avançado e automóveis premium, o mercado chinês deixou de ser oportunidade complementar — tornou-se estrutural.

Desconectar-se não seria prudência estratégica; seria autossabotagem.

<><> A Europa e a perda da zona de conforto

O encontro sino-alemão ocorre após uma década e meia de abalos internos europeus.

A crise do euro expôs a fragilidade de uma união monetária sem união fiscal. A resposta, baseada em austeridade, restaurou a credibilidade financeira, mas enfraqueceu a legitimidade social do projeto europeu. O Brexit quebrou o mito da irreversibilidade da integração. A crise migratória e o crescimento modesto ampliaram o espaço da extrema direita.

A pandemia levou à criação do programa NextGenerationEU — um mecanismo extraordinário de emissão conjunta de dívida para financiar a recuperação e a transição verde e digital. Foi um avanço institucional relevante, mas ainda circunscrito a uma lógica emergencial. A estrutura fiscal restritiva permanece objeto de disputa.

A guerra na Ucrânia aprofundou a ruptura estrutural. A rápida redução da dependência energética da Rússia alterou profundamente o modelo industrial alemão, cuja competitividade historicamente combinava energia relativamente acessível e engenharia de precisão. Custos energéticos elevados pressionaram cadeias produtivas e reacenderam temores de desindustrialização.

A Europa que simbolizava estabilidade e social-democracia consolidada enfrenta hoje crescimento modesto, envelhecimento demográfico e avanço de forças nacionalistas.

Esse contexto interno molda o significado do encontro com Pequim.

<><> O sistema pós-hegemônico e o dilema europeu

O mundo atual pode ser descrito como um sistema pós-hegemônico: uma configuração em que nenhuma potência exerce liderança incontestada capaz de estruturar regras globais de forma unilateral. Diferentemente do período pós-Guerra Fria — quando a primazia americana organizava a arquitetura econômica e de segurança — o cenário contemporâneo é caracterizado por competição estratégica, rivalidades tecnológicas e fragmentação regulatória.

A ascensão chinesa alterou o eixo produtivo global. Os Estados Unidos permanecem potência central, mas enfrentam polarização interna e redefinição de prioridades estratégicas. A ordem liberal que sustentou a globalização profunda fragmenta-se sob políticas industriais competitivas e protecionismos seletivos.

A era Trump intensificou essa transição. Ao privilegiar uma lógica transacional, com ameaças tarifárias inclusive contra aliados europeus e ênfase em subsídios domésticos estratégicos, Washington deixou claro que o compromisso com o multilateralismo e a previsibilidade já não é automático. Para a Europa, isso significa operar em um ambiente no qual seu principal aliado é, simultaneamente, parceiro de segurança e competidor industrial. Essa dupla pressão — competição americana e ascensão chinesa — define o dilema europeu.

<><> China, Alemanha e a nova geoeconomia

A visita de Merz a Pequim insere-se em um contexto diplomático mais amplo. Líderes ocidentais têm intensificado diálogos com a China, reconhecendo que a reorganização global não pode ser conduzida ignorando um de seus principais arquitetos industriais.

A China tornou-se motor de modernidade tecnológica em áreas como manufatura inteligente, inteligência artificial incorporada à produção e energias renováveis. Seu modelo é estatalmente coordenado e politicamente condicionado — mas é tecnologicamente dinâmico.

Para a Alemanha, cuja prosperidade depende de dominar transições industriais, o desafio não é escolher entre engajamento e confrontação automática. É dominar a complexidade.

Como argumenta Dani Rodrik, a Europa não deveria tentar competir com a China na produção em massa de veículos elétricos, onde esta já consolidou escala e preço, por exemplo. A alternativa estratégica passa por investir em tecnologias de próxima geração, cadeias de maior valor agregado e segmentos nos quais ainda possa definir padrões.

Isso exige política industrial coordenada, flexibilidade fiscal e visão estratégica — áreas em que a Europa nem sempre foi ousada nas últimas décadas.

<><> O que está em jogo

O encontro sino-alemão não é um episódio isolado. É sintoma de um mundo em transição.

A Europa não pode simplesmente alinhar-se automaticamente a Washington nem se desvincular de Pequim. Precisa construir autonomia relativa dentro de interdependências inevitáveis.

A zona de conforto — energia barata, globalização previsível e guarda-chuva estratégico incontestado — terminou.

O que está em jogo não é apenas o equilíbrio comercial entre Alemanha e China. É a capacidade europeia de reinventar seu projeto social-democrata em um sistema global no qual a estabilidade não é mais um dado estrutural, mas resultado de negociação permanente.

A visita a Pequim, portanto, não trata apenas de comércio.

Trata do lugar da Europa em uma ordem que ainda está sendo escrita.

 

Fonte: Viomundo/Brasil 247

 

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