Roberto
Amaral: Quando o recuo vira destino
Em
1938, regressando de Munique, aonde fôra negociar com Adolf Hitler, o
primeiro-ministro Neville Chamberlain declara ao Parlamento britânico haver
conquistado o que denominava como “a paz para o nosso tempo”.
Enganado
ou não, enganava os ingleses e despistava o mundo, em especial o mundo europeu,
mal saído da Primeira Guerra Mundial e já se vendo ameaçado por um novo
conflito para o qual não estava preparado, como se veria logo depois.
Eram
tempos de medo, dominados pela retórica do pacifismo para enfrentar as ameaças
do rearmamento alemão comandado pela ascensão do nazifascismo.
Ao
entregar os Sudetos (parte da então Tchecoslováquia) à Alemanha como
compensação pela promessa de Berlim de não reivindicar mais territórios (mote
da doutrina do “espaço vital”, que tudo justificava), a monarquia decadente
aplainava os avanços das tropas de Hitler: o “acordo de paz” é firmado em 1938
e, já em 1939, a Polônia era invadida. Avança a guerra que a Inglaterra, não
podendo enfrentar, tentava evitar, simplesmente ignorando a agressão que vinha
a galope.
É
história contada. Aquele não era, porém, o primeiro recuo, nem seria o último
registro nos conflitos do século passado e nos conflitos de nossos dias,
ensinando que nem sempre a estratégia do passo atrás, anunciando outro passo
atrás, é a melhor arte da guerra dos que se veem ameaçados por agressores mais
poderosos.
O
agressor sempre avança onde há menor custo. Como ensinavam os argonautas,
“navegar é preciso”.
Quando
se entrega tudo, ou quase tudo, chega-se a um ponto em que não há nada mais a
entregar, nem mais ninguém para resistir, como lembra Bertolt Brecht: “Primeiro
levaram os comunistas… Depois os social-democratas… Depois vieram me levar, e
não havia mais ninguém para protestar”.
O
silêncio da comunidade internacional em face da política dos EUA não é neutro.
A indiferença ante a dor de suas vítimas, países e povos é escolha.
Em
1936, a “Frente Popular”, liderada por Léon Blum, com forte apoio socialista e
comunista, aderiu à política de “não intervenção”, fechando oficialmente a
fronteira com a Espanha, temerosa da desestabilização interna que via em seus
calcanhares, a tiracolo da Segunda Guerra Mundial. Essa foi sua contribuição
para a vitória do franquismo. Caso isolado foi a intervenção cautelosa, mas
real, da URSS, ao lado dos republicanos.
Na
mesma linha de omissão, os EUA — nada obstante nutrirem simpatias com o governo
republicano (ou ainda enxergarem as implicações do enclave fascista na Europa
ibérica às vésperas da grande guerra já anunciada) — enclausuram-se na política
isolacionista que vinha da Primeira Guerra Mundial. Era o receio de reações
internas, especialmente congressuais.
Guernica
não é obra exclusiva dos bombardeios alemães, assim como o genocídio palestino
— ainda em curso — não é, tão só, o fruto do crime continuado perpetrado pelo
sionismo israelo-estadunidense, tanto quanto os tantos crimes que se cometem
contra o povo cubano, desde a revolução de 1959, não se podem contar apenas
como engenho e paranoia do imperialismo norte-americano.
O que a
humanidade – nossos povos, nossos governos, nossos partidos, cada um de nós —
está fazendo para defender suas vítimas?
Todas
as ditas democracias, todos os governos ditos de esquerda e centro-esquerda,
todas as nossas organizações têm que assumir sua cota-parte de
responsabilidade. Não há inocentes nesta guerra.
Retornemos
a Munique, como recomendado por Gabriel Cohn. Começava, em 1939, após o
fracasso do “acordo” e a invasão da Polônia, a Segunda Guerra Mundial — que
seria vencida, como se sabe, ao preço que se sabe.
Seguem-se,
ao seu fim formal (1945), a Guerra Fria e a vitória do capitalismo, anunciada
com a queda do Muro de Berlim e o melancólico suicídio do projeto socialista,
com a autodissolução da URSS gorbatchoviana, em 1991.
A
polaridade Leste-Oeste, presente o fantasma do Armagedom nuclear, foi conduzida
pelo que se chamou, primeiro, de “convivência pacífica” e, ao final, de
“entente”, um xadrez de pesos e contrapesos entre as potências e seus projetos
de domínio, que compreendiam a cartografia mais ou menos respeitada de suas
respectivas áreas de influência e controle.
Mesmo
mantendo a tensão e as disputas geopolíticas e estratégicas, os dois blocos, ao
tempo em que conservavam a acordada monitoria sobre o mundo, afastavam os
riscos dos impasses diretos.
São os
muitos anos dos “conflitos por procuração”, a marca mais significativa da
Guerra Fria, quando a violência — política, militar e ideológica — se desloca
para a periferia, nomeadamente para a Ásia (e nada mais significativo do que a
invasão do Vietnã pelos EUA), a África e o Oriente Médio.
A
América Latina, nela incluído o Caribe, conservava o destino de “quintal”, o
fardo que sobre nós pesa desde os amargos tempos da Doutrina Monroe, agora
reclamados por Peter Hegseth, secretário de Guerra (já não mais Defesa) dos
EUA.
Com o
colapso da URSS, o imperialismo, guerreiro sem adversário, livre de freio
sistêmico, assume as rédeas do mundo desregulado. A diplomacia cede ao tacape.
Regressamos, em termos planetários, ao regime do big stick.
Desde
logo, os EUA — nada do que estamos a assistir sob a fase trumpista pode ser
considerado fato novo — confrangem a ordem estatuída em regras de direito
internacional, levam à falência fática as organizações fundadas no pós-guerra
com o frustrado objetivo de manter a paz e a segurança internacionais, caso
exemplar da ONU. Retiram-se ou esvaziam agências multilaterais, como a UNESCO e
a OMS, fragilizando mecanismos de cooperação internacional construídos ao longo
de décadas.
A
polaridade cede vez à hegemonia econômica, militar, política e ideológica do
imperialismo norte-americano, o regime de hoje, belicoso, agressivo, sem
limites para seu expansionismo, tanto inquestionado quanto facilitado pelo
vazio da resistência.
Na
paranoia do regime, ensandecido e mais perigoso quanto mais decadente, o “après
moi le déluge” de Luís XV, ou, mais precisamente, a “Grande Alemanha”
(Grossdeutschland) nazista, fundem-se no Make America Great Again (MAGA), o
nexo entre o trumpismo (a contrapartida do fracasso do ensaio social-democrata)
e o “destino manifesto” dos fundadores do “A América para os americanos”.
Formulação
que, hoje, mais do que nunca, deve ser vista em sua acepção mais ampliada
possível: o espaço no qual Washington divise, imagine ou desconfie da sombra de
uma ínfima partícula de interesse ou ameaça à sua integridade, na estrita
lógica do diálogo do cordeiro com o lobo, consagrado na fábula de La Fontaine.
À
ausência de freios de qualquer ordem — freios morais, diplomáticos,
geopolíticos, estratégicos, como aqueles que, no curso da polaridade e da
Guerra Fria, condicionavam o belicismo das potências — os EUA, autoinstituídos
xerifes do mundo, implantam a lei do “Velho Oeste”.
Todos
os seus reais, supostos ou inventados adversários são peles-vermelhas em tocaia
contra o branco cristão e civilizador, selvagens sem cura e sem salvação,
criminosos irrecuperáveis, que precisam ser eliminados.
A
Europa, nau sem rumo, navegando ao sabor dos acontecimentos nos quais não
consegue intervir, carente de futuro, cuida de seu esvaziamento e da ameaça de
balcanização. As potências nucleares com pretensões hegemônicas para amanhã
cuidam de suas demandas.
A
Rússia, ameaçada pela OTAN e pelo cerco econômico-político dos EUA — que inclui
o bloqueio de reservas em dólar, restrições comerciais e limitações às
exportações de petróleo — tenta salvar-se de uma guerra de desgaste que,
projetada para cumprir-se em poucos meses, entra em seu quarto ano. Pode ser
seu Vietnã, ou seu novo Afeganistão.
A China
trabalha com o tempo há mais de quatro mil anos. Enquanto faz negócios mundo
afora, pode esperar pelo fim do ciclo hegemônico dos EUA. É a nova “convivência
pacífica”.
A série
de crimes em desenvolvimento pelos EUA é extensa e está muito longe de concluir
seu repertório.
Fixemo-nos
na América Latina, e o primeiro registro é o da invasão da Venezuela,
transformada em protetorado sob a regência da Casa Branca, depois de ter seu
presidente (não vem ao caso que seja) sequestrado e transferido para uma prisão
em NY. Antes, durante e depois, seu bloqueio aéreo e naval e, ao fim e ao cabo,
o sequestro de suas reservas de petróleo.
Mas o
que mais me toca é o garrote vil, extraordinariamente covarde, que ameaça matar
de fome e doenças o povo cubano. Sim: o objetivo, hoje, não é mais destruir a
resistência do regime tentativamente socialista, mas eliminar sua gente.
A
pequena Cuba, desde 1959, padece sob isolamento político e bloqueio econômico,
invasões e sabotagens. Trata-se de estrangular a economia como forma de
disciplinar um governo eleito como adversário, ainda que o custo recaia sobre a
população.
Nós,
brasileiros, supondo-nos grandes e poderosos, na ilusão da incolumidade, não
identificamos como ameaça o isolamento para o qual caminhamos na América do
Sul, nem consideramos como precedente perigoso a invasão da Venezuela.
Lembrando,
uma vez mais, Bertolt Brecht: nosso país não é socialista e nosso presidente
não é acusado de traficante. Nada a temer.
• Europa entre Pequim e Washington: o
encontro sino-alemão e a transição da ordem global. Por Maria Luiza Falcão
Quando
o chanceler alemão Friedrich Merz se sentou com o presidente Xi Jinping em
Pequim, na quarta-feira, dia 25 de fevereiro, o encontro foi formalmente
bilateral. Mas suas implicações são sistêmicas.
Estamos
diante da segunda e da terceira maiores economias do mundo discutindo o futuro
de cadeias produtivas, tecnologia, energia e comércio em um momento de
transição estrutural da ordem internacional. Não se trata apenas de relações
comerciais. Trata-se da posição da Europa em um mundo que já não é organizado
por uma hegemonia única.
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No
último ano, a China voltou a ocupar o posto de principal parceiro comercial da
Alemanha. Apesar de todo o discurso europeu sobre “de-risking”, a gravidade
econômica entre o maior polo industrial da Europa e o maior polo manufatureiro
da Ásia permanece intensa. O problema não é se a relação importa — é como
recalibrá-la quando o equilíbrio anterior mudou.
A
Alemanha perdeu terreno relativo, especialmente no setor automotivo.
Fabricantes chineses de veículos elétricos estabeleceram liderança em
integração de baterias, software e escala produtiva. Marcas alemãs ainda detêm
prestígio global, mas prestígio não substitui velocidade tecnológica.
No
entanto, a narrativa não é de simples declínio. Empresas alemãs operam cada vez
mais sob a lógica “China for China”: produzem localmente, inovam localmente e
se integram ao ecossistema chinês. Para setores como química, maquinário
avançado e automóveis premium, o mercado chinês deixou de ser oportunidade
complementar — tornou-se estrutural.
Desconectar-se
não seria prudência estratégica; seria autossabotagem.
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A Europa e a perda da zona de conforto
O
encontro sino-alemão ocorre após uma década e meia de abalos internos europeus.
A crise
do euro expôs a fragilidade de uma união monetária sem união fiscal. A
resposta, baseada em austeridade, restaurou a credibilidade financeira, mas
enfraqueceu a legitimidade social do projeto europeu. O Brexit quebrou o mito
da irreversibilidade da integração. A crise migratória e o crescimento modesto
ampliaram o espaço da extrema direita.
A
pandemia levou à criação do programa NextGenerationEU — um mecanismo
extraordinário de emissão conjunta de dívida para financiar a recuperação e a
transição verde e digital. Foi um avanço institucional relevante, mas ainda
circunscrito a uma lógica emergencial. A estrutura fiscal restritiva permanece
objeto de disputa.
A
guerra na Ucrânia aprofundou a ruptura estrutural. A rápida redução da
dependência energética da Rússia alterou profundamente o modelo industrial
alemão, cuja competitividade historicamente combinava energia relativamente
acessível e engenharia de precisão. Custos energéticos elevados pressionaram
cadeias produtivas e reacenderam temores de desindustrialização.
A
Europa que simbolizava estabilidade e social-democracia consolidada enfrenta
hoje crescimento modesto, envelhecimento demográfico e avanço de forças
nacionalistas.
Esse
contexto interno molda o significado do encontro com Pequim.
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O sistema pós-hegemônico e o dilema europeu
O mundo
atual pode ser descrito como um sistema pós-hegemônico: uma configuração em que
nenhuma potência exerce liderança incontestada capaz de estruturar regras
globais de forma unilateral. Diferentemente do período pós-Guerra Fria — quando
a primazia americana organizava a arquitetura econômica e de segurança — o
cenário contemporâneo é caracterizado por competição estratégica, rivalidades
tecnológicas e fragmentação regulatória.
A
ascensão chinesa alterou o eixo produtivo global. Os Estados Unidos permanecem
potência central, mas enfrentam polarização interna e redefinição de
prioridades estratégicas. A ordem liberal que sustentou a globalização profunda
fragmenta-se sob políticas industriais competitivas e protecionismos seletivos.
A era
Trump intensificou essa transição. Ao privilegiar uma lógica transacional, com
ameaças tarifárias inclusive contra aliados europeus e ênfase em subsídios
domésticos estratégicos, Washington deixou claro que o compromisso com o
multilateralismo e a previsibilidade já não é automático. Para a Europa, isso
significa operar em um ambiente no qual seu principal aliado é,
simultaneamente, parceiro de segurança e competidor industrial. Essa dupla
pressão — competição americana e ascensão chinesa — define o dilema europeu.
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China, Alemanha e a nova geoeconomia
A
visita de Merz a Pequim insere-se em um contexto diplomático mais amplo.
Líderes ocidentais têm intensificado diálogos com a China, reconhecendo que a
reorganização global não pode ser conduzida ignorando um de seus principais
arquitetos industriais.
A China
tornou-se motor de modernidade tecnológica em áreas como manufatura
inteligente, inteligência artificial incorporada à produção e energias
renováveis. Seu modelo é estatalmente coordenado e politicamente condicionado —
mas é tecnologicamente dinâmico.
Para a
Alemanha, cuja prosperidade depende de dominar transições industriais, o
desafio não é escolher entre engajamento e confrontação automática. É dominar a
complexidade.
Como
argumenta Dani Rodrik, a Europa não deveria tentar competir com a China na
produção em massa de veículos elétricos, onde esta já consolidou escala e
preço, por exemplo. A alternativa estratégica passa por investir em tecnologias
de próxima geração, cadeias de maior valor agregado e segmentos nos quais ainda
possa definir padrões.
Isso
exige política industrial coordenada, flexibilidade fiscal e visão estratégica
— áreas em que a Europa nem sempre foi ousada nas últimas décadas.
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O que está em jogo
O
encontro sino-alemão não é um episódio isolado. É sintoma de um mundo em
transição.
A
Europa não pode simplesmente alinhar-se automaticamente a Washington nem se
desvincular de Pequim. Precisa construir autonomia relativa dentro de
interdependências inevitáveis.
A zona
de conforto — energia barata, globalização previsível e guarda-chuva
estratégico incontestado — terminou.
O que
está em jogo não é apenas o equilíbrio comercial entre Alemanha e China. É a
capacidade europeia de reinventar seu projeto social-democrata em um sistema
global no qual a estabilidade não é mais um dado estrutural, mas resultado de
negociação permanente.
A
visita a Pequim, portanto, não trata apenas de comércio.
Trata
do lugar da Europa em uma ordem que ainda está sendo escrita.
Fonte:
Viomundo/Brasil 247

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