Michael
Ledger-Lomas: Qual foi o período mortal da história?
Um dos
primeiros europeus a tentar o comércio de escravizados fracassou
miseravelmente. Em 1510, o corsário português Dom Francisco de Almeida
desembarcou no Cabo da Boa Esperança e tentou capturar alguns dos khoekhoe. Ele
errou ao confiar em seu poder de fogo. Os arcabuzes carregados por seus homens
eram tão pesados que precisavam de um
apoio para mirar e de vítimas dispostas a ficarem estáticas
para serem alvejadas. A forte chuva molhou e apagou os pavios incandescentes
necessários para acendê-los. Quando os
guerreiros khoekhoe lançaram uma saraivada de flechas envenenadas contra as
forças de De Almeida, estas bateram em retirada rapidamente. O historiador
Clifton Crais conta essa história logo no início de The Killing Age,
sua vasta e sombria epopeia sobre como a modernidade foi forjada, precisamente
por ser um período atípico em relação aos séculos que se seguiram. A loucura de
De Almeida foi um prelúdio para o “Morteceno”: um longo século XIX (1750-1900)
no qual a produção industrial de armas no Ocidente revolucionou a facilidade
com que os humanos podiam se matar e, assim, reestruturou o mundo em benefício
próprio. Poder e riquezas fluíam não da engenhosidade ou de valores superiores,
mas do cano de uma arma.
Atualmente,
somos bombardeados por narrativas históricas da modernidade com um viés
esquerdista, porém pessimista. Essas histórias invertem a teleologia outrora
esboçada por H.G. Wells e seus sucessores entre os historiadores populares. Se
a história mundial tem um ponto final nessas narrativas, não é a paz perpétua,
a prosperidade e a federação internacional, mas o aquecimento dos oceanos e os
ataques espasmódicos de hegemonias narcisistas. Os historiadores acadêmicos
voltaram a entender o capitalismo como um subconjunto do imperialismo: não
tanto uma doutrina econômica, mas uma “revolução militar-comercial” imposta
violentamente a outros, tanto em seus países quanto no exterior. Exércitos e
navios negreiros agora figuram com tanta proeminência em sua narrativa quanto
fábricas ou laboratórios, o trabalho forçado tanto quanto os dispositivos que economizam
trabalho. A adoção do conceito de Antropoceno pelos
historiadores fortaleceu sua tendência a apresentar a ascensão da civilização
ocidental como um caminho para a ruína, que exigiu a queima
cada vez mais acelerada de combustíveis fósseis e que agora está
desestabilizando o clima do qual a vida humana depende.
The
Killing Age não
se limita a acrescentar mais um lamento a essas grandes narrativas. Em vez
disso, propõe uma nova e macabra maneira de uni-las. Argumenta que mudanças
rápidas e decisivas na propensão e na capacidade de matar impulsionaram o
capitalismo, o imperialismo e as mudanças climáticas. Essa dinâmica ganhou
força inicialmente na Europa Ocidental, sobretudo na Grã-Bretanha, mas logo se
espalhou pelo mundo. Crais nega que a carnificina moderna tenha uma lógica
oculta, muito menos uma justificativa. Seu ponto de vista preferido é o
do anjo de Walter
Benjamin, olhando para trás, para os “destroços acumulados” dos séculos
passados. Contudo, ele sugere que esse processo passou por diversas fases
sangrentas e que seu trabalho estava praticamente concluído na virada do século
XX.
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Na ponta de uma arma
No
princípio era o mosquete. Ao investir na fabricação de armas, monopolizar a
produção de pólvora de qualidade e armar-se até os dentes com mosquetes de
pederneira, mais confiáveis que
os arcabuzes de De Almeida, os holandeses — e depois os britânicos
— equiparam-se para as primeiras formas de acumulação
primitiva. As armas de pederneira, que ainda funcionavam em condições
de chuva, eram muito mais confiáveis do que as armas de
mecha que as precederam, e ajudaram os invasores a se apoderarem de especiarias
tropicais e a organizarem a escravização violenta de um grande número de
africanos. Em muitos lugares colonizados por europeus, a predação caótica desse
tipo gradualmente deu lugar à produção: a dominação organizada, mas não menos
violenta, de trabalhadores locais e estrangeiros para produzir culturas
comerciais ou produtos tropicais para exportação. A Jamaica, que havia sido um
porto para piratas, tornou-se uma economia de plantation na
qual africanos escravizados trabalhavam arduamente para produzir o açúcar que
viciava os europeus.
As
armas não eram apenas ferramentas para extrair bens e pessoas de outros
lugares. Crais sugere que elas eram uma mercadoria vital para o fortalecimento
das redes comerciais. Ele evoca vividamente o desejo dos não europeus por
mosquetes, que conferiam uma vantagem — tanto psicológica quanto material — em
conflitos com rivais locais. Ele estima que fabricantes e comerciantes
ocidentais exportaram cerca de meio bilhão de armas de meados do século XVIII
até a virada do século XX, juntamente com pólvora suficiente para matar todas
as pessoas vivas na época. Um pico nesse comércio foi a expressão perversa de
um dividendo da paz: após derrotar Napoleão Bonaparte em Waterloo, os países
europeus esgotaram seus estoques e venderam armas para a América Latina e a África.
Onde
quer que as armas chegassem, as sociedades se transformavam para obtê-las e
causavam estragos com elas. Piratas indonésios fortemente armados trocavam
prisioneiros por produtos florestais com povos isolados em Bornéu, que os
queriam para sacrifícios humanos. Na América do Norte, o contrabando de armas
levou ao “ecocídio”: o extermínio implacável de animais de pele valiosa,
começando na costa leste e avançando a oeste, à medida que as Primeiras Nações
usavam armas de comerciantes britânicos para matar os castores, cujas peles
podiam ser trocadas por ainda mais armas. A torrente de armas permitiu que
povos como os iroqueses ou os sioux se transformassem em sociedades escravistas
que forçavam seus cativos a trabalhar na preparação de peles para o mercado.
Embora
a análise de Crais seja abrangente, ele oferece um relato particularmente
fascinante de como as armas corromperam a África, onde o capitalismo
militarizado nunca foi apenas algo imposto pelos europeus aos povos indígenas
passivos. Ao longo da costa oeste africana, os europeus uniram forças com
senhores da guerra que usavam armas para consolidar seu controle sobre o
litoral e as fozes dos rios, monopolizando o fluxo de mercadorias e pessoas do
interior. Ele traça um retrato macabro de Estados predadores como o Império de
Oyo e o Reino de Daomé, cujos governantes acumulavam bens europeus enquanto
escravizavam seus vizinhos. Em outros lugares, Crais mapeia economias
escravistas tão terríveis quanto relativamente desconhecidas: “egípcios
cruelmente racistas” transformaram o Sudão em um vasto mercado de escravizados,
enquanto caravanas de comerciantes fortemente armados do Golfo Pérsico partiam
de Zanzibar em busca de marfim e seres humanos.
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“Economias imorais”
As
relações das quais essas “economias imorais” dependiam estavam longe de ser
estáveis ou igualitárias.
Crais descreve, de forma provocativa, os europeus no exterior como “senhores
da guerra”, um termo que visa transmitir a ideia de que
aventureiros, e não exércitos convencionais,
lideraram o avanço violento do capitalismo. No entanto, as companhias que
operavam em todos os lugares, da Baía de Hudson, no Canadá,
ao rio Níger, provavelmente se baseavam mais em artifícios
legais e financeiros do que em força bruta. Elas se apropriavam
da autoridade estatal e, muitas vezes, investiam mais capital do que
acumulavam. A Companhia Britânica das Índias Orientais, que empunhava “uma
espada em uma mão e um livro-razão na outra” enquanto conquistava vastas
extensões do subcontinente indiano, era um exemplo essa abordagem.
Os
europeus frequentemente entregavam armas com uma notável naturalidade, armas
que supostamente lhes confeririam uma vantagem decisiva, pois geriam uma
tecnologia de dominação ainda mais insidiosa: a dívida. Os homens fortes com
quem negociavam tinham dificuldades para pagar pelas armas quando os animais de
pele desapareciam de seus territórios ou quando os povos que atacavam se
armavam. Os europeus, então, atacavam seus devedores. Na América do Norte,
exigiam a entrega de terras; na Índia, o controle da arrecadação de impostos
como pagamento. Em vez de bens materiais, tomavam a soberania.
Na
visão de Crais, a matança em nome do capital não abriu caminho para o
industrialismo movido a combustíveis fósseis, mas sim o tornou possível em
primeiro lugar. Práticas que hoje parecem arcaicas, como o abate em massa de
animais ou a captura violenta de pessoas, na verdade, lubrificaram as
engrenagens da modernidade industrial. Uma guerra de um século contra os
elefantes africanos sustentou o desenvolvimento de cidades industriais como
Ivoryton, Connecticut, que produzia teclas de piano para as salas de estar
estadunidenses. New Bedford, Massachusetts, foi a base da frota baleeira
estadunidense antes de se tornar um polo industrial. As caldeiras deram lugar
aos fusos, e a gordura de boi ao algodão, mas a violência foi uma constante: o
algodão de New Bedford vinha do Sul, um império escravista dentro da república,
cujos líderes esperavam expandir suas fronteiras até o Pacífico. A Guerra Civil
Estadunidense frustrou esses sonhos. Quando terminou, os estadunidenses
voltaram suas armas contra os búfalos das Grandes Planícies, reduzindo sua
população de cerca de setenta milhões para algumas centenas em poucas décadas.
Suas peles resistentes, que não eram muito úteis na fabricação de couro,
revelaram-se excelentes correias para máquinas, ajudando a maximizar a produção
de máquinas a vapor. Conexões como essas encorajam Crais a apresentar as armas
como o tiro de partida para o aquecimento global antropogênico. Ele reconhece
que os cientistas discordam sobre quando a mudança climática induzida pelo
homem se tornou palpável e prejudicial. A poeira lançada na atmosfera por
erupções vulcânicas parece ter resfriado o planeta em meados do século XIX,
mascarando o impacto das emissões industriais de gases. Alguns pesquisadores,
no entanto, acreditam que a mudança climática antropogênica agravou as secas
severas que atingiram grande parte da América do Norte no final do século XIX e
interrompeu os sistemas de monções asiáticos. Seguindo Mike Davis, Crais
argumenta que a má gestão de autoridades britânicas dogmáticas transformou a
quebra das colheitas indianas em grandes fomes. Ele acrescenta à sua lista de
vítimas os trinta a sessenta milhões de pessoas que “pereceram
desnecessariamente” de fome na Índia e na China no final do século XIX.
Contudo,
nem todas as ligações feitas por Crais entre o capitalismo e o excesso de
mortes por fome e doenças são tão especulativas. A predação, e os regimes de
produção exploratórios que se seguiram, muitas vezes tiveram efeitos imediatos
e graves sobre as ecologias locais. O extermínio dos búfalos norte-americanos
levou à fome dos indígenas das planícies que dependiam deles. Isso foi
intencional, mas outros desastres foram acidentais. Onde quer que elefantes
africanos fossem caçados, árvores e arbustos cresciam novamente. Estes
abrigavam a mosca tsé-tsé, vetor de uma doença do sono mortal que matou milhões
de pessoas, cavalos e animais de fazenda em toda a África. A rede de canais de
irrigação escavada pelo quediva do Egito como parte de seu plano para forçar os
camponeses a cultivar algodão para exportação provou ser o habitat ideal para
mosquitos e caracóis: milhões sucumbiram à malária e à esquistossomose que eles
transmitiam.
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O período mais violento de todos os tempos?
Esse
capitalismo armado é tão letal que é difícil entender por que Crais encerra
abruptamente o Morteceno por volta de 1900. Sua resposta, paradoxalmente,
reside na expansão formal dos impérios europeus. Esse processo continuou a
desencadear grande violência, principalmente porque era frequentemente
impulsionado por piratas com armas novas e melhores. Cecil Rhodes estabeleceu
seu feudo na África do Sul com rifles Martini-Henri e metralhadoras Maxim, que
dizimaram os regimentos Ndebele que suas tropas enfrentaram. Contudo, o novo
imperialismo do final do século XIX preferia cada vez mais a estabilidade ao
caos lucrativo e tentava estabelecer um monopólio da violência.
A
proibição de exportação de armas, acordada na Conferência de Bruxelas de 1890
entre as potências imperiais, diminuiu a intensidade das guerras internas na
África; as fronteiras políticas definidas pelas potências coloniais perduraram
em grande parte desde a independência até os dias atuais. Os europeus também se
arrependeram da lucrativa decisão de armar os rebeldes Taiping contra o regime
Qing na China. Apesar de terem intimidado os Qing e saqueado sua capital,
Pequim, agora os auxiliavam na eliminação dos rebeldes.
Não
havia nada de filantrópico na desmilitarização do mundo. Nos Estados Unidos, a
proibição da venda de armas aos povos indígenas fortaleceu o poder dos colonos
armados, enquanto os brancos no sul usaram a Segunda Emenda para manter a
proibição do porte de armas aos seus escravizados libertos. Ainda assim, Crais
conclui que a era da matança estava chegando ao fim. Essa afirmação contrasta
com a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Preocupado principalmente com as
escaramuças entre senhores da guerra dentro dos impérios ou em suas margens
fragmentadas, Crais pouco menciona o que considera um confronto convencional
entre sistemas de alianças dinásticas. O conflito lhe interessa principalmente
porque foi seguido por uma nova injeção de armamento excedente no mundo
extraeuropeu. Ele trata a Segunda Guerra Mundial de maneira semelhante,
mencionando-a principalmente para enfatizar as décadas de comércio de armas que
se seguiram ao seu término.
Um
“Morteceno” que inclui a caça de elefantes ou o “genocídio pelágico” de
baleias, mas exclui o Somme, Stalingrado ou Dachau, é perigosamente artificial.
Ao avaliar The Killing Age, precisamos distinguir o alcance e a
energia com que mapeia o excesso de mortes de seus argumentos sobre
periodização, causalidade e, portanto, responsabilidade. Crais nunca parece ter
certeza se o impulso de matar é fundamental para os seres humanos ou um
fenômeno historicamente novo que sequestrou o Ocidente e depois engolfou o
mundo. Por vezes, Crais oferece uma definição agostiniana de seres humanos,
como criaturas impelidas a tomar o que os outros possuem — uma premissa
suficientemente abrangente para explicar quase todas as formas políticas e
sociais da história. Mas ele também quer datar nossa Queda com bastante
precisão: os europeus do início da era moderna, afirma ele, escolheram a
violência, antes de vitimizar ou subjugar o resto do planeta.
Se The
Killing Age fosse mais consistente em sua antropologia pessimista,
muito do que descreve deveria ser visto como uma intensificação de processos
naturais, e não como um frenesi criminoso de “destruição planetária
implacável”. Os baleeiros que matavam cachalotes pelo óleo, que se tornou
indispensável para iluminar casas e fábricas, eram pouco diferentes dos
aborígenes australianos que caçaram a megafauna de seu continente até a
extinção. Deveríamos “lamentar coletivamente o que fizemos” se tal destruição é
inerente à condição humana? Talvez a questão não seja tanto se devemos
lamentar, mas sim se, ao fazê-lo, estamos respondendo a evidências históricas
ou, ao contrário, expressando nossas convicções políticas ou espirituais.
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A aritmética do massacre
Talvez
seja a escala que distingue os crimes planetários do Morteceno da rotineira e
horrível experiência humana. “Os motores da história, que haviam começado
séculos antes, de repente aceleraram e saíram do controle”, escreve Crais,
provocando uma “tempestade”. Ele utiliza uma quantidade impressionante de
estatísticas para sustentar essas metáforas turvas. Repetidamente, busca chocar
e persuadir o leitor com a quantidade de armas que circularam durante o
Morteceno. O volume importa, argumenta ele, precisamente porque essas armas não
representaram uma mudança qualitativa em letalidade. A maioria eram mosquetes
de pederneira — o “Toyota Corolla” das armas de fogo, ou, mais apropriadamente,
o “AK-47” — capazes de infligir ferimentos horríveis, mas nem rápidos de
disparar e tampouco fáceis de mirar. Muitos de seus compradores locais optaram
por decorá-los em vez de usá-los. Ainda assim, não devem os quinhentos milhões
de armas exportadas para o resto do mundo ter tido enormes efeitos sobre seus
fabricantes e compradores?
Para
responder a essa pergunta, precisamos considerar a magnitude relativa, e não a
absoluta. Em 1790, as armas representavam apenas 0,15% das exportações
britânicas para o resto do mundo. A argumentação a favor da indispensabilidade
da fabricação de armas para a industrialização baseia-se em exemplos
sugestivos, como a dinastia bancária Lloyd’s, que começou no ramo de armas
antes de se expandir para o comércio e as finanças. A implicação — de que a
fabricação de armas era uma parte inovadora da economia, em vez de
significativa em termos absolutos — assemelha-se a argumentos agora comuns nos
estudos sobre o tráfico transatlântico de escravizados. Apesar de todos os seus
horrores, Crais admite que, na melhor das hipóteses, pode-se dizer que a
escravidão teve “efeitos agregados consideráveis” na revolução industrial
britânica. Os ganhos de eficiência nas plantações das Índias Ocidentais foram
paralelos aos da indústria manufatureira nacional, mas não os anteciparam; o
açúcar cultivado por escravos alimentava os operários das fábricas urbanas, mas
não explica os ganhos de produtividade das indústrias em que trabalhavam. A
arma é menos o “epicentro” do imperialismo mercantil do que seu símbolo mais
evocativo.
De
fato, escondida nas estatísticas de Crais, encontra-se uma ressalva reveladora:
a vasta maioria das armas fabricadas por europeus nunca saiu da Europa. Ao
longo do século XVIII, apenas 15% da produção britânica foi exportada; o
restante foi para os arsenais de suas forças armadas. Seriam as armas realmente
tão importantes para a transformação do mundo se a maioria delas desapareceu em
arsenais domésticos ou foi utilizada principalmente em campos de batalha
europeus, em vez de ser empunhada por senhores da guerra em campos de
extermínio na África e na Ásia?
Os
números terríveis, por vezes incompreensivelmente enormes, de mortes reunidos
por Crais fazem com que essas críticas pareçam insignificantes. Sem dúvida,
convencem os leitores a rejeitar como eurocêntrica uma visão do longo século
XIX como um intervalo estável entre os dois grandes derramamentos de sangue das
Guerras Napoleônicas e da Primeira Guerra Mundial. Antes da Rebelião de Tianjin
ser finalmente derrotada, entre vinte e trinta milhões de chineses foram
mortos, um número que supera o total de mortos da Primeira Guerra Mundial. Mas
magnitude não é sinônimo de significância, e nem todas as enormidades precisam
ser enormes. Crais constantemente maximiza o número de pessoas mortas em
guerras, como se o Morteceno fosse a soma total de números de uma coluna de
planilha. Ele se desespera ao calcular quantos africanos morreram em guerras
iniciadas por estrangeiros antes de sugerir que “talvez centenas de milhões”
possam ter perecido. Essa generalização é pouco convincente. A Companhia
Britânica da África do Sul de Cecil Rhodes travou guerras de invasão e
contrainsurgência cuja crueldade lembra os piores crimes da atualidade,
incluindo o uso de dinamite contra mulheres e crianças enquanto se abrigavam em
cavernas. No entanto, o historiador William Beinart calculou que essas
campanhas mataram apenas cerca de doze mil pessoas.
Pode
parecer grotesco escrever “apenas” em tal contexto, mas a imprecisão dos
números gigantescos apresentados por Crais deixa os leitores inseguros sobre
como calibrar sua resposta emocional. Em um apêndice, ele nos diz que talvez
228 milhões de pessoas morreram desnecessariamente na África, Ásia e Américas
durante o Morteceno. Em estimativas mais conservadoras, porém, o número poderia
ser de apenas cem milhões. Mas então Crais se anima a questionar se não
poderíamos elevar esse número para trezentos milhões, incluindo outras partes
do mundo. Se supusermos que uma pessoa média pesa cerca de 40 quilos, então uma
biomassa humana de até 12 bilhões de quilos desapareceu do mundo durante o
Morteceno. Tenho vergonha de dizer que esse número não despertou nenhuma emoção
em mim. Mas por que deveria? Não há peso moral no peso físico.
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Calamidades humanas
Em The
Killing Age é citada a frase de Edward Gibbon de que a vocação do
historiador é o “cálculo melancólico das calamidades humanas”. Crais segue essa
premissa, mas carece da clareza direta e objetiva de Gibbon ao abordar a
questão da responsabilidade individual ou coletiva pelos desastres que
descreve. A maioria das mortes “desnecessárias” ali mencionadas não foram atos
de assassinato, mas sim consequência de fomes ou doenças que se seguiram a
guerras, mudanças econômicas drásticas ou simplesmente do mau tempo.
É
estranho invocar o Antropoceno para inflar o número de mortes do Morteceno,
quando quase ninguém tinha a menor ideia de que o consumo de combustíveis
fósseis estava desregulando o clima. Crais aponta para os cientistas que, nas
últimas décadas do século XIX, postularam uma ligação entre os níveis de
dióxido de carbono e o aumento das temperaturas. No entanto, isso dificilmente
basta para estabelecer uma “negação” culpável sobre as causas ou o impacto do
aquecimento global.
Em todo
caso, é difícil descartar o Antropoceno como um crime — ou mesmo um erro —
quando todos que leem essas palavras devem seu padrão de vida a ele. É fácil
lamentar a transformação de elefantes em teclas de piano, de búfalos em
“roupões” para nova-iorquinos elegantes ou de pepinos-do-mar em afrodisíacos,
mas é muito mais difícil imaginar como poderíamos ter dispensado a iluminação a
querosene.
Existe
uma lacuna moral, ou talvez psicológica, no cerne de The Killing Age.
Nunca nos é apresentada uma explicação convincente sobre por que tantas pessoas
se sentiram à vontade para matar nesse período, ou como era fazê-lo. Como
muitas publicações comerciais de história, The Killing Age tem
uma estrutura picaresca em vez de forense: cada capítulo apresenta um novo
grupo de criminosos antes de detalhar suas trajetórias. A maioria desses
perpetradores são executores, não pensadores, oportunistas instintivos e
brutais como Rhodes — ou seus equivalentes africanos, asiáticos e
latino-americanos — que se lançaram ao mundo, de cabeça baixa e arma em punho.
É
salutar lembrar que as pessoas nem sempre têm justificativas elaboradas para o
mal que causam. O panorama boschiano de Crais, com seu egoísmo implacável e
ganância primordial, serve como um corretivo para muitas análises acadêmicas do
imperialismo europeu e do colonialismo de povoamento, que o veem como gerado
por mudanças fundamentais na forma como as sociedades pensavam, com as igrejas,
o Iluminismo ou as ciências sendo acusados, de diversas maneiras, de gerar
novos motivos e justificativas para a pilhagem e a dominação de outros povos.
Para Crais, os europeus não precisavam de ideias para justificar seus apetites
implacáveis. A grande mudança ocorreu nas ferramentas que possuíam para
perseguir seus sonhos grosseiros de autoengrandecimento. Seu materialismo
revigorante está em consonância com outras obras recentes que entendem o
imperialismo como um desdobramento de uma antiga sede de lucro.
Ainda
assim, as ações de seus homens armados tinham um contexto moral e intelectual
que é abordado aqui de forma muito superficial. Seus crimes não podem ser
compreendidos sem considerar a complexa teia de reflexões religiosas,
pensamento jurídico e legislação que
justificavam o uso da violência por europeus contra outros povos e, por vezes,
restringiam seus excessos. Crais questiona, de forma um tanto ingênua, por que
mais pessoas não protestaram contra um mundo moderno que estava indo tão
“profundamente errado”. A resposta pode estar no fato de que muitos
deles se consideravam mais ou menos certos.
Ao
refletir sobre o que define um Estado, Santo Agostinho citou o pirata capturado
por Alexandre, o Grande: “Eu luto em um pequeno navio, e me chamam de pirata;
você luta com uma grande frota, e te chamam de comandante”. Muitos Estados
poderiam ser considerados bandos de ladrões; muitos ladrões, ao acumularem
poder para conquistar regiões inteiras e subjugar suas populações, podiam
alegar ter fundado reinos. The Killing Age evoca de forma
arrepiante como as distinções entre senhores da guerra e estadistas, impérios e
bandos de ladrões, se tornam tênues e imprecisas quando consideramos o roubo
organizado e o assassinato em massa. É um mundo bastante semelhante ao nosso, o
que explica por que o termo “Morteceno” não se consolidará como um rótulo para
um período histórico distinto. Agostinho acreditava que um verdadeiro Estado
deve ser fundado na “justiça” – princípio este que ele não extraiu da, mas sim
aplicou à sua reflexão sobre o passado. Precisamos de um princípio semelhante
para dar sentido aos fatos desconcertantes e macabros que The Killing
Age nos apresenta.
Fonte: Tradução
Pedro Silva, para Jacobin Brasil

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