Roberto
Kaz: Não é tragédia, é omissão de planejamento
Desastre
com mais de 50 mortes em Juiz de Fora explicita, uma vez mais, o que ocorre
quando governos não investem em adaptação aos efeitos das mudanças climáticas.
O dado
é do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o
Cemaden: Juiz de Fora ocupa o nono lugar na lista de municípios com a maior
população em área de risco. São 130 mil pessoas – quase um quarto da população
– vivendo em encostas. E, diante disso, o que fez Romeu Zema (NOVO), o
governador de Minas Gerais? Reduziu em 96% o investimento estadual para
prevenção contra impactos da chuva. O valor empenhado minguou de R$ 135 milhões
em 2023 para pífios R$ 6 milhões em 2025 – isso para atender todas as 21
milhões de pessoas que vivem no segundo estado mais populoso do país.
As 55
mortes contabilizadas até agora em Juiz de Fora e as seis em sua vizinha, Ubá,
não ocorreram ao acaso. São o retrato repetido à exaustão, ano a ano, do que
ocorre quando governantes não investem na adaptação de suas cidades e seus
estados aos efeitos das mudanças climáticas.
“Esse
caso é emblemático por mostrar o quanto essas narrativas dos políticos,
principalmente das prefeituras, chegaram no limite” diz Thaynah Gutierrez,
assessora internacional de Clima e Racismo Ambiental no Geledés – Instituto da
Mulher Negra. “As prefeituras geralmente dão a desculpa de que têm se
preparado, mas que lidaram com um volume de chuva muito maior do que o
esperado. Só que o preparo é geralmente só o sistema de alerta.”
Em Juiz
de Fora, a população recebeu repetidos alertas a respeito da chuva nos últimos
dias. “O alerta dizia que você precisava sair de casa. Você saía. No dia
seguinte voltava e recebia um novo alerta. Então saía de novo. Nesse vai e vem
a população vai ficando sem amparo. É urgente que se aprimore esse sistema,
para que as pessoas saibam o que é preciso fazer depois do alerta.”
O dado
do Cemaden, que colocou Juiz de Fora como a nona cidade entre 1.942 com mais
pessoas em situação de risco, é de 2023. Ou seja: não faltou aviso, e nem
tempo, para que tanto o governo de Zema quanto a prefeitura, sob o comando de
Margarida Salomão (PT), se preparassem. Mas não: a prefeitura só conseguiu
liberar 15% de R$ 70 milhões destinados pelo Ministério das Cidades a obras do
PAC para encostas em Juiz de Fora. Cerca de R$ 21 milhões estão parados por
atraso no envio dos papéis necessários.
“Está
na hora de começarmos a responsabilizar esses atores”, prossegue Thaynah
Gutierrez, referindo-se de modo amplo aos prefeitos e governadores. “É preciso
haver uma ação maior das Defensorias, do Ministério Público e da sociedade
civil. Se não há dinheiro suficiente para fazer toda a adaptação necessária,
então que se faça uma adaptação mínima, priorizando aqueles que morrem primeiro
nesse tipo de desastre. Em Juiz de Fora, boa parte dos corpos são de pessoas
negras. No Rio Grande do Sul foi a mesma coisa. No Recife também.” Ela sugere
que parte do dinheiro que costuma irrigar o setor da construção civil seja
revertido para requalificar as moradias dos que estão mais vulneráveis. “Mas os
governos preferem privilegiar quem já é mais privilegiado.”
Em
alguns casos, privilegiam a si mesmos. O urbanista e professor Roberto Andrés,
estrategista de cidades da rede Nossas, lembra que o corte de 95% feito por
Zema no combate aos impactos das chuvas não se repetiu quando ele decidiu
aumentar o próprio salário em 300%: “Quem corta recursos para combate a
enchentes quer ver mais tragédias como essas que estamos vendo.” (Em uma
resposta cretina enviada à imprensa, o governo Zema disse que sua administração
“realizou o maior investimento da história em proteção e defesa civil nos
últimos anos”, destinando R$ 94 milhões para 494 municípios. Dividindo,
chega-se à quantia de 190 mil reais por município, o preço de um jipe Compass.)
“O caso
de Minas é muito pior do que a redução de orçamento”, explicou o geógrafo
Diosmar Filho, da Associação de Pesquisa Iyaleta. “Minas Gerais tem 853
municípios. Desses, só 38% contavam, em 2021, com um plano diretor”, disse ele,
referindo-se ao instrumento de planejamento urbano que tem papel fundamental
para a prevenção a desastres.” O dado, extraído do IBGE, consta de um texto
publicado por Filho no livro “Federalismo, Cooperativismo e Desastres“, da
editora PUC-Rio. O livro também mostra que apenas 28% dos planos diretores no
Brasil contam com planejamento para prevenir enchentes ou inundações. “O que
está acontecendo é uma tragédia programada pelo próprio Estado pela ausência de
política de gestão territorial. A gente convencionou chamar de tragédia, mas o
nome mais correto é omissão de planejamento.”
Os
eventos extremos, como as chuvas de Juiz de Fora, têm origem climática,
sobretudo em um mundo que pelo terceiro ano seguido atingiu temperatura acima
ou próxima de 1,5ºC em relação ao período pré-industrial. Mas, como qualquer
meteorologista sabe, tragédia = clima + vulnerabilidade. Se não dá mais para
evitar o primeiro termo da equação, já que a mitigação da crise climática não
foi feita a tempo, é preciso minimizar o segundo.
“Isso
tem um impacto social profundo. Olha o quanto de infraestrutura o Estado
precisa mobilizar, no que poderia ser um gasto com prevenção”, continuou
Diosmar Filho, lembrando que o Brasil conta, agora, com um Plano Clima para
políticas de adaptação. “Esse instrumento não pode ficar na gaveta, e uma forma
de implementá-lo é através dos planos diretores urbanos, priorizando as áreas
com populações mais vulneráveis. Agora, se nada for feito, daqui um ano
voltamos à mesma conversa, só mudando o nome da cidade.”
• Riscos geológicos em Juiz de Fora. Por
Heraldo Campos
O risco
geológico é uma situação de perigo, perda ou dano ao homem e suas propriedades,
em razão da possibilidade de ocorrência de processo geológico induzido ou não.
No livro “Geologia de Engenharia , os instrumentos cartográficos que apresentam
a distribuição, o tipo, e o grau dos riscos geológicos, visando a definição de
medidas de prevenção de acidentes, são conhecidas como cartas de risco
geológico”. Estas cartas podem apresentar a distribuição do risco numa
determinada área ocupada, auxiliar no planejamento de infraestrutura ou atender
os usuários que trabalham com a redução do risco em determinadas áreas.
Ainda,
conforme as referências desse livro, as principais características das cartas
de risco geológico são: a) a rapidez de execução, devido à dinâmica da ocupação
e do risco, as cartas podem ser produzidas em curto prazo e representam o risco
presente no momento da sua elaboração; b) o apoio aos planejadores, por meio do
registro e da caracterização das áreas que estão sujeitas aos processos
geológicos causadores do risco; c) o baixo custo e simplicidade de produção,
pois os métodos de preparação derivam ou estão afeitos aos conceitos básicos da
geologia e d) a flexibilidade na apresentação das informações consideradas
importantes, uma vez que as cartas são produtos sempre voltados para a
necessidade do usuário potencial.
Assim,
uma carta de risco geológico tem como função básica a transmissão de
informações a serem usadas nas mais diferentes situações da engenharia ou do
planejamento, como também da fiscalização, gerenciamento e de planos de defesa
civil. A etapa de identificação dos riscos geológicos envolve a definição e a
caracterização dos condicionantes e dos agentes deflagradores, bem como a sua
área de influência, além dos processos geológicos que determinam as situações
de risco.
No
“Diagnóstico da população em áreas de risco geológico, Juiz de Fora, MG”,
elaborado pelo Serviço Geológico do Brasil – CPRM e publicado no ano de 2021,
“A interseção entre as 80 áreas de risco geológico mapeadas em Juiz de Fora/MG
e a área urbanizada localizada nos 695 setores censitários apresentados pelo
Censo Demográfico 2010 resultou em 304 polígonos, a partir dos quais foi
possível estimar que cerca de 16.436 domicílios particulares e coletivos estão
localizados em áreas de risco geológico alto ou muito alto.”
Segundo
esse estudo “Quanto aos processos geológicos relacionados às áreas de risco,
registra-se que grande parte dos domicílios se encontram em áreas sujeitas a
sofrerem perdas ou danos decorrentes de instabilização de encostas a partir da
deflagração de deslizamentos (99,78%). De maneira menos frequente, também foram
identificados domicílios em áreas de risco a queda de blocos (0,16%), e
inundação (0,05%).”
Recentemente
a tragédia que vitimou várias pessoas em Juiz de Fora, por causa das chuvas
intensas nesse mês de fevereiro de 2026, para Marcelo Seluchi, coordenador
geral de operações e modelagem do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de
Desastres Naturais (CEMADEN) “a cidade é top 10 em alertas e isso tem relação
com sua formação. Ela tem topografia 'equivalente à da região serrana do Rio de
Janeiro, onde fica Petrópolis, que também conta muitos alertas', além de ser
uma cidade grande e com muita gente morando próximo a encostas.”
Para
concluir, ressalta-se a importância técnica das cartas de risco geológico com o
objetivo de dotar as prefeituras municipais de instrumentos cartográficos para
contribuir com as políticas públicas voltadas à prevenção e a resposta aos
desastres “naturais” como os que vem ocorrendo em Juiz de Fora e em outros
municípios brasileiros. Em tempo, com tudo isso em mãos, sabe-se que é uma
dificuldade a remoção de todas as moradias em áreas de risco.
• Juiz de Fora é a 9ª cidade brasileira
com mais pessoas em áreas de risco
Quase
um quarto da população vive em áreas suscetíveis a desastres; 40 pessoas haviam
morrido até a tarde de ontem devido às chuvas.
Juiz de
Fora (MG) é a 9ª cidade do país com o maior número absoluto de pessoas morando
em áreas de risco. Segundo uma nota técnica do Cemaden do ano passado, são
quase 130 mil moradores vivendo nessas condições – cerca de um quarto da
população total da cidade – o que ajuda a explicar a tragédia dos últimos dias.
Entre
2ª e 3ª feiras (23 e 24/2), Juiz de Fora recebeu quase toda a chuva esperada
para fevereiro, cerca de 200 mm. As inundações e os deslizamentos de terra
provocados por tanta água em tão pouco tempo criaram um cenário de destruição e
morte na cidade da Zona da Mata mineira.
Até às
17h de ontem (25/2), a Defesa Civil da cidade confirmou a morte de 40 pessoas,
e 31 ainda estavam desaparecidas – ao todo, 101 pessoas foram vítimas de
soterramento. Ubá, a cerca de 100 km da cidade, registrou seis mortes e dois
desaparecidos, conta a CNN Brasil.
Também
até a tarde de ontem, a Defesa Civil de Juiz de Fora registrou mais de 800
ocorrências – a maioria delas de escorregamentos de talude, ameaças de
escorregamento e alagamentos, detalha o UOL. Cerca de 1.000 pessoas estavam sem
energia e há mais de 3.500 desabrigadas e desalojadas.
A
cidade tem um relevo acidentado e encostas íngremes ocupadas por pessoas.
Segundo Marcelo Seluchi, coordenador geral de operações e modelagem do Cemaden
ouvido pelo UOL, é uma geografia que se assemelha à de Petrópolis, na Região
Serrana do Rio de Janeiro, que também foi fortemente atingida por chuvas
extremas em 2022. O que mostra que as autoridades sabem dos riscos, mas só se
movimentam quando a tragédia ocorre.
A
situação piora com eventos extremos cada vez mais frequentes e intensos
provocados pelas mudanças climáticas. O Oceano Atlântico está de 2oC a 3oC mais
quente que o habitual, alimentando as chuvas.
Juiz de
Fora tem encostas voltadas diretamente para o oceano, o que facilita o
recebimento direto de umidade vinda do mar. Com o mar mais quente, o serviço
ecossistêmico de evaporação se potencializa, o que torna a região mais sensível
a chuvas extremas.
O
resultado do negacionismo climático e da inação política se traduz em histórias
tristes como a da técnica de enfermagem, Jaqueline Vicente. Ela foi socorrida
com vida depois de passar mais de 15 horas soterrada, mas não resistiu aos
ferimentos. Seus dois filhos e seu companheiro ainda não foram encontrados. A
mãe morreu na tragédia, relata o g1.
Em Ubá,
as chuvas tomaram o subsolo do campus da Universidade do Estado de Minas Gerais
(UEMG), destruindo o que encontrou pela frente: livros, mobiliário e
equipamentos de alto valor. A diretora da unidade, Kelly Silva, estimou ao g1
um prejuízo de até R$ 10 milhões.
A
Defesa Civil e o Inmet mantêm o alerta de “grande perigo” para a região devido
à saturação do solo, o que eleva o risco de novos deslizamentos de terra e
inundações, mesmo com a diminuição da intensidade das chuvas.
Agência
Pública, Estadão e O Tempo também noticiaram os impactos das chuvas extremas na
região de Juiz de Fora.
• Crise climática torna chuvas mais
intensas e concentradas no Brasil
A
sequência de temporais que provocou mortes na Zona da Mata mineira e causou
alagamentos e deslizamentos no litoral de São Paulo e no Rio de Janeiro, também
com mortes, reacende uma pergunta, mostra a Folha: até que ponto as mudanças
climáticas estão por trás de chuvas cada vez mais intensas e concentradas em um
curto período de tempo?
Do
ponto de vista científico, especialistas explicam que não é possível atribuir
automaticamente um evento isolado à crise do clima. Contudo, é consenso que as
mudanças do clima têm aumentado a intensidade e a frequência de eventos
climáticos extremos.
“O
impacto da mudança climática é que a frequência de acontecimentos extremos
aumenta. Com a atmosfera aquecida, aumenta a capacidade dela de reter água. Ela
consegue acumular volumes maiores, e isso pode provocar precipitações mais
intensas”, detalha Fernando Ramos Martins, professor do Instituto do Mar da
Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
Para
Gilvan Sampaio, doutor em meteorologia do INPE, o aumento da temperatura
provoca dois efeitos principais nas regiões tropicais. “Nas regiões onde se tem
mais disponibilidade de umidade, ou seja, a maior parte do Brasil, a evaporação
aumenta e as nuvens ficam mais profundas, gerando chuvas mais intensas”,
afirma. “Já nas regiões mais secas, o aumento da temperatura vai aumentar a
demanda por evaporação, só que sem ter umidade. O processo de formação de nuvem
se torna menos eficiente e a tendência é que aquela região fique mais seca”,
completa.
Climatologista
e coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do CEMADEN, José Marengo
reforça que estudos de atribuição já identificam uma tendência consistente de
alta de eventos extremos associada à crise climática. Segundo ele, as regiões
Sudeste e Sul são as mais expostas, tanto pela densidade populacional quanto
pela infraestrutura. “Desastre depende não só da ameaça, mas também da
vulnerabilidade”, afirma (Leia aqui a entrevista de Marengo ao ClimaInfo).
Um
sinal das mudanças climáticas é a temperatura do Oceano Atlântico, que está
entre 2ºC e 3ºC mais alta que o habitual. Esse aquecimento oceânico tem
alterado o regime de chuvas no Brasil e contribuído para a ocorrência de
eventos extremos, como os temporais que atingiram São Paulo Minas Gerais e Rio
nos últimos dias, informa a Rádio Itatiaia.
Dados
de monitoramento, incluindo registros da Administração Atmosférica e Oceânica
dos Estados Unidos (NOAA, sigla em Inglês), indicam que o aquecimento dos
oceanos se acelerou nas últimas décadas. Um estudo publicado em janeiro na
revista Advances in Atmospheric Sciences aponta que, em 2025, o aquecimento
global dos oceanos atingiu um novo recorde, impulsionado pelo aumento da
concentração de gases de efeito estufa na atmosfera.
Fonte:
Observatório do Clima/IHU/ClimaInfo

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