segunda-feira, 2 de março de 2026

Roberto Kaz: Não é tragédia, é omissão de planejamento

Desastre com mais de 50 mortes em Juiz de Fora explicita, uma vez mais, o que ocorre quando governos não investem em adaptação aos efeitos das mudanças climáticas.

O dado é do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o Cemaden: Juiz de Fora ocupa o nono lugar na lista de municípios com a maior população em área de risco. São 130 mil pessoas – quase um quarto da população – vivendo em encostas. E, diante disso, o que fez Romeu Zema (NOVO), o governador de Minas Gerais? Reduziu em 96% o investimento estadual para prevenção contra impactos da chuva. O valor empenhado minguou de R$ 135 milhões em 2023 para pífios R$ 6 milhões em 2025 – isso para atender todas as 21 milhões de pessoas que vivem no segundo estado mais populoso do país.

As 55 mortes contabilizadas até agora em Juiz de Fora e as seis em sua vizinha, Ubá, não ocorreram ao acaso. São o retrato repetido à exaustão, ano a ano, do que ocorre quando governantes não investem na adaptação de suas cidades e seus estados aos efeitos das mudanças climáticas.

“Esse caso é emblemático por mostrar o quanto essas narrativas dos políticos, principalmente das prefeituras, chegaram no limite” diz Thaynah Gutierrez, assessora internacional de Clima e Racismo Ambiental no Geledés – Instituto da Mulher Negra. “As prefeituras geralmente dão a desculpa de que têm se preparado, mas que lidaram com um volume de chuva muito maior do que o esperado. Só que o preparo é geralmente só o sistema de alerta.”

Em Juiz de Fora, a população recebeu repetidos alertas a respeito da chuva nos últimos dias. “O alerta dizia que você precisava sair de casa. Você saía. No dia seguinte voltava e recebia um novo alerta. Então saía de novo. Nesse vai e vem a população vai ficando sem amparo. É urgente que se aprimore esse sistema, para que as pessoas saibam o que é preciso fazer depois do alerta.”

O dado do Cemaden, que colocou Juiz de Fora como a nona cidade entre 1.942 com mais pessoas em situação de risco, é de 2023. Ou seja: não faltou aviso, e nem tempo, para que tanto o governo de Zema quanto a prefeitura, sob o comando de Margarida Salomão (PT), se preparassem. Mas não: a prefeitura só conseguiu liberar 15% de R$ 70 milhões destinados pelo Ministério das Cidades a obras do PAC para encostas em Juiz de Fora. Cerca de R$ 21 milhões estão parados por atraso no envio dos papéis necessários.

“Está na hora de começarmos a responsabilizar esses atores”, prossegue Thaynah Gutierrez, referindo-se de modo amplo aos prefeitos e governadores. “É preciso haver uma ação maior das Defensorias, do Ministério Público e da sociedade civil. Se não há dinheiro suficiente para fazer toda a adaptação necessária, então que se faça uma adaptação mínima, priorizando aqueles que morrem primeiro nesse tipo de desastre. Em Juiz de Fora, boa parte dos corpos são de pessoas negras. No Rio Grande do Sul foi a mesma coisa. No Recife também.” Ela sugere que parte do dinheiro que costuma irrigar o setor da construção civil seja revertido para requalificar as moradias dos que estão mais vulneráveis. “Mas os governos preferem privilegiar quem já é mais privilegiado.”

Em alguns casos, privilegiam a si mesmos. O urbanista e professor Roberto Andrés, estrategista de cidades da rede Nossas, lembra que o corte de 95% feito por Zema no combate aos impactos das chuvas não se repetiu quando ele decidiu aumentar o próprio salário em 300%: “Quem corta recursos para combate a enchentes quer ver mais tragédias como essas que estamos vendo.” (Em uma resposta cretina enviada à imprensa, o governo Zema disse que sua administração “realizou o maior investimento da história em proteção e defesa civil nos últimos anos”, destinando R$ 94 milhões para 494 municípios. Dividindo, chega-se à quantia de 190 mil reais por município, o preço de um jipe Compass.)

“O caso de Minas é muito pior do que a redução de orçamento”, explicou o geógrafo Diosmar Filho, da Associação de Pesquisa Iyaleta. “Minas Gerais tem 853 municípios. Desses, só 38% contavam, em 2021, com um plano diretor”, disse ele, referindo-se ao instrumento de planejamento urbano que tem papel fundamental para a prevenção a desastres.” O dado, extraído do IBGE, consta de um texto publicado por Filho no livro “Federalismo, Cooperativismo e Desastres“, da editora PUC-Rio. O livro também mostra que apenas 28% dos planos diretores no Brasil contam com planejamento para prevenir enchentes ou inundações. “O que está acontecendo é uma tragédia programada pelo próprio Estado pela ausência de política de gestão territorial. A gente convencionou chamar de tragédia, mas o nome mais correto é omissão de planejamento.”

Os eventos extremos, como as chuvas de Juiz de Fora, têm origem climática, sobretudo em um mundo que pelo terceiro ano seguido atingiu temperatura acima ou próxima de 1,5ºC em relação ao período pré-industrial. Mas, como qualquer meteorologista sabe, tragédia = clima + vulnerabilidade. Se não dá mais para evitar o primeiro termo da equação, já que a mitigação da crise climática não foi feita a tempo, é preciso minimizar o segundo.

“Isso tem um impacto social profundo. Olha o quanto de infraestrutura o Estado precisa mobilizar, no que poderia ser um gasto com prevenção”, continuou Diosmar Filho, lembrando que o Brasil conta, agora, com um Plano Clima para políticas de adaptação. “Esse instrumento não pode ficar na gaveta, e uma forma de implementá-lo é através dos planos diretores urbanos, priorizando as áreas com populações mais vulneráveis. Agora, se nada for feito, daqui um ano voltamos à mesma conversa, só mudando o nome da cidade.”

•        Riscos geológicos em Juiz de Fora. Por Heraldo Campos

O risco geológico é uma situação de perigo, perda ou dano ao homem e suas propriedades, em razão da possibilidade de ocorrência de processo geológico induzido ou não. No livro “Geologia de Engenharia , os instrumentos cartográficos que apresentam a distribuição, o tipo, e o grau dos riscos geológicos, visando a definição de medidas de prevenção de acidentes, são conhecidas como cartas de risco geológico”. Estas cartas podem apresentar a distribuição do risco numa determinada área ocupada, auxiliar no planejamento de infraestrutura ou atender os usuários que trabalham com a redução do risco em determinadas áreas.

Ainda, conforme as referências desse livro, as principais características das cartas de risco geológico são: a) a rapidez de execução, devido à dinâmica da ocupação e do risco, as cartas podem ser produzidas em curto prazo e representam o risco presente no momento da sua elaboração; b) o apoio aos planejadores, por meio do registro e da caracterização das áreas que estão sujeitas aos processos geológicos causadores do risco; c) o baixo custo e simplicidade de produção, pois os métodos de preparação derivam ou estão afeitos aos conceitos básicos da geologia e d) a flexibilidade na apresentação das informações consideradas importantes, uma vez que as cartas são produtos sempre voltados para a necessidade do usuário potencial.

Assim, uma carta de risco geológico tem como função básica a transmissão de informações a serem usadas nas mais diferentes situações da engenharia ou do planejamento, como também da fiscalização, gerenciamento e de planos de defesa civil. A etapa de identificação dos riscos geológicos envolve a definição e a caracterização dos condicionantes e dos agentes deflagradores, bem como a sua área de influência, além dos processos geológicos que determinam as situações de risco.

No “Diagnóstico da população em áreas de risco geológico, Juiz de Fora, MG”, elaborado pelo Serviço Geológico do Brasil – CPRM e publicado no ano de 2021, “A interseção entre as 80 áreas de risco geológico mapeadas em Juiz de Fora/MG e a área urbanizada localizada nos 695 setores censitários apresentados pelo Censo Demográfico 2010 resultou em 304 polígonos, a partir dos quais foi possível estimar que cerca de 16.436 domicílios particulares e coletivos estão localizados em áreas de risco geológico alto ou muito alto.”

Segundo esse estudo “Quanto aos processos geológicos relacionados às áreas de risco, registra-se que grande parte dos domicílios se encontram em áreas sujeitas a sofrerem perdas ou danos decorrentes de instabilização de encostas a partir da deflagração de deslizamentos (99,78%). De maneira menos frequente, também foram identificados domicílios em áreas de risco a queda de blocos (0,16%), e inundação (0,05%).”

Recentemente a tragédia que vitimou várias pessoas em Juiz de Fora, por causa das chuvas intensas nesse mês de fevereiro de 2026, para Marcelo Seluchi, coordenador geral de operações e modelagem do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) “a cidade é top 10 em alertas e isso tem relação com sua formação. Ela tem topografia 'equivalente à da região serrana do Rio de Janeiro, onde fica Petrópolis, que também conta muitos alertas', além de ser uma cidade grande e com muita gente morando próximo a encostas.”

Para concluir, ressalta-se a importância técnica das cartas de risco geológico com o objetivo de dotar as prefeituras municipais de instrumentos cartográficos para contribuir com as políticas públicas voltadas à prevenção e a resposta aos desastres “naturais” como os que vem ocorrendo em Juiz de Fora e em outros municípios brasileiros. Em tempo, com tudo isso em mãos, sabe-se que é uma dificuldade a remoção de todas as moradias em áreas de risco.

•        Juiz de Fora é a 9ª cidade brasileira com mais pessoas em áreas de risco

Quase um quarto da população vive em áreas suscetíveis a desastres; 40 pessoas haviam morrido até a tarde de ontem devido às chuvas.

Juiz de Fora (MG) é a 9ª cidade do país com o maior número absoluto de pessoas morando em áreas de risco. Segundo uma nota técnica do Cemaden do ano passado, são quase 130 mil moradores vivendo nessas condições – cerca de um quarto da população total da cidade – o que ajuda a explicar a tragédia dos últimos dias.

Entre 2ª e 3ª feiras (23 e 24/2), Juiz de Fora recebeu quase toda a chuva esperada para fevereiro, cerca de 200 mm. As inundações e os deslizamentos de terra provocados por tanta água em tão pouco tempo criaram um cenário de destruição e morte na cidade da Zona da Mata mineira.

Até às 17h de ontem (25/2), a Defesa Civil da cidade confirmou a morte de 40 pessoas, e 31 ainda estavam desaparecidas – ao todo, 101 pessoas foram vítimas de soterramento. Ubá, a cerca de 100 km da cidade, registrou seis mortes e dois desaparecidos, conta a CNN Brasil.

Também até a tarde de ontem, a Defesa Civil de Juiz de Fora registrou mais de 800 ocorrências – a maioria delas de escorregamentos de talude, ameaças de escorregamento e alagamentos, detalha o UOL. Cerca de 1.000 pessoas estavam sem energia e há mais de 3.500 desabrigadas e desalojadas.

A cidade tem um relevo acidentado e encostas íngremes ocupadas por pessoas. Segundo Marcelo Seluchi, coordenador geral de operações e modelagem do Cemaden ouvido pelo UOL, é uma geografia que se assemelha à de Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, que também foi fortemente atingida por chuvas extremas em 2022. O que mostra que as autoridades sabem dos riscos, mas só se movimentam quando a tragédia ocorre.

A situação piora com eventos extremos cada vez mais frequentes e intensos provocados pelas mudanças climáticas. O Oceano Atlântico está de 2oC a 3oC mais quente que o habitual, alimentando as chuvas.

Juiz de Fora tem encostas voltadas diretamente para o oceano, o que facilita o recebimento direto de umidade vinda do mar. Com o mar mais quente, o serviço ecossistêmico de evaporação se potencializa, o que torna a região mais sensível a chuvas extremas.

O resultado do negacionismo climático e da inação política se traduz em histórias tristes como a da técnica de enfermagem, Jaqueline Vicente. Ela foi socorrida com vida depois de passar mais de 15 horas soterrada, mas não resistiu aos ferimentos. Seus dois filhos e seu companheiro ainda não foram encontrados. A mãe morreu na tragédia, relata o g1.

Em Ubá, as chuvas tomaram o subsolo do campus da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), destruindo o que encontrou pela frente: livros, mobiliário e equipamentos de alto valor. A diretora da unidade, Kelly Silva, estimou ao g1 um prejuízo de até R$ 10 milhões.

A Defesa Civil e o Inmet mantêm o alerta de “grande perigo” para a região devido à saturação do solo, o que eleva o risco de novos deslizamentos de terra e inundações, mesmo com a diminuição da intensidade das chuvas.

Agência Pública, Estadão e O Tempo também noticiaram os impactos das chuvas extremas na região de Juiz de Fora.

•        Crise climática torna chuvas mais intensas e concentradas no Brasil

A sequência de temporais que provocou mortes na Zona da Mata mineira e causou alagamentos e deslizamentos no litoral de São Paulo e no Rio de Janeiro, também com mortes, reacende uma pergunta, mostra a Folha: até que ponto as mudanças climáticas estão por trás de chuvas cada vez mais intensas e concentradas em um curto período de tempo?

Do ponto de vista científico, especialistas explicam que não é possível atribuir automaticamente um evento isolado à crise do clima. Contudo, é consenso que as mudanças do clima têm aumentado a intensidade e a frequência de eventos climáticos extremos.

“O impacto da mudança climática é que a frequência de acontecimentos extremos aumenta. Com a atmosfera aquecida, aumenta a capacidade dela de reter água. Ela consegue acumular volumes maiores, e isso pode provocar precipitações mais intensas”, detalha Fernando Ramos Martins, professor do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Para Gilvan Sampaio, doutor em meteorologia do INPE, o aumento da temperatura provoca dois efeitos principais nas regiões tropicais. “Nas regiões onde se tem mais disponibilidade de umidade, ou seja, a maior parte do Brasil, a evaporação aumenta e as nuvens ficam mais profundas, gerando chuvas mais intensas”, afirma. “Já nas regiões mais secas, o aumento da temperatura vai aumentar a demanda por evaporação, só que sem ter umidade. O processo de formação de nuvem se torna menos eficiente e a tendência é que aquela região fique mais seca”, completa.

Climatologista e coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do CEMADEN, José Marengo reforça que estudos de atribuição já identificam uma tendência consistente de alta de eventos extremos associada à crise climática. Segundo ele, as regiões Sudeste e Sul são as mais expostas, tanto pela densidade populacional quanto pela infraestrutura. “Desastre depende não só da ameaça, mas também da vulnerabilidade”, afirma (Leia aqui a entrevista de Marengo ao ClimaInfo).

Um sinal das mudanças climáticas é a temperatura do Oceano Atlântico, que está entre 2ºC e 3ºC mais alta que o habitual. Esse aquecimento oceânico tem alterado o regime de chuvas no Brasil e contribuído para a ocorrência de eventos extremos, como os temporais que atingiram São Paulo Minas Gerais e Rio nos últimos dias, informa a Rádio Itatiaia.

Dados de monitoramento, incluindo registros da Administração Atmosférica e Oceânica dos Estados Unidos (NOAA, sigla em Inglês), indicam que o aquecimento dos oceanos se acelerou nas últimas décadas. Um estudo publicado em janeiro na revista Advances in Atmospheric Sciences aponta que, em 2025, o aquecimento global dos oceanos atingiu um novo recorde, impulsionado pelo aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera.

 

Fonte: Observatório do Clima/IHU/ClimaInfo

 

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