Polilaminina
e o fetiche do placebo em pesquisas de alto risco
Assisti
à entrevista da colega Tatiana Sampaio à bancada do programa Roda Viva e fiquei
imensamente incomodado. Confesso que não estava prestando muita atenção ao
debate que insistia em aparecer em meus clippings de notícias. Para mim, era
suficiente saber que um possível tratamento para lesões medulares devastadoras
havia sido descoberto graças à investigação científica responsavelmente
criativa de uma brilhante colega da UFRJ. Mas, ao assistir à entrevista, fui
imediatamente lembrado das redomas cerimoniais que costumam ser impostas à
novidade, mesmo em ambientes que se dizem avessos ao dogmatismo.
Alguns
entrevistadores pareciam mais interessados em denunciar uma suposta
insuficiência técnica dos estudos preliminares pela falta de um grupo de
controle (sem tratamento) selecionado aleatoriamente para uma comparação
estatisticamente “limpa” com o grupo recebedor do tratamento. Como economista
heterodoxo e proponente da Teoria Monetária Moderna (MMT), experimentei mais de
uma vez esse tipo de conservadorismo fantasiado de zelo científico.
O
argumento dos críticos de Tatiana Sampaio é conhecido: a ausência de grupos de
controle randomizados invalidaria qualquer inferência causal robusta. Trata-se
de uma objeção metodologicamente razoável em abstrato, mas eticamente muito
frágil quando examinada no contexto concreto da pesquisa.
Lesões
medulares não constituem um “estado basal neutro”. São eventos catastróficos,
em grande medida irreversíveis, nos quais a janela terapêutica é extremamente
curta. Nesse tipo de situação, o tempo deixa de ser um detalhe técnico e passa
a ser o elemento central da avaliação moral.
A
polilaminina, como qualquer outra abordagem regenerativa, precisa ser
administrada muito cedo após o trauma para que qualquer efeito curativo seja
plausível. Um ensaio clínico clássico com grupo placebo exigiria, portanto,
identificar pacientes recém-lesionados e deliberadamente negar a uma parcela
deles um tratamento potencialmente benéfico, não porque se saiba que ele seja
nocivo, mas porque o ritual metodológico assim o exige.
É nesse
ponto que a justificativa ética começa a ruir.
Defensores
do uso obrigatório de placebos costumam responder que “a maioria dos pacientes
já não recebe esse tipo de tratamento”, e que, portanto, não haveria prejuízo
adicional em criar um grupo de controle. Esse raciocínio confunde injustiça
passiva com uma autorização moral ativa.
Os
milhões de pacientes não tratados ao redor do mundo não estão sob
responsabilidade direta de pesquisadores. Participantes voluntários em um
estudo, sim. A partir do momento em que alguém é incluído em uma pesquisa
clínica, deve se estabelecer uma relação específica de cuidado e
responsabilidade ética, que impede sua instrumentalização puramente em nome da
produção de conhecimento.
A
existência de uma vasta população não tratada, não legitima a reprodução
deliberada dessa privação em condições controladas.
Paradoxalmente,
esse mesmo fato – a existência de uma grande população historicamente não
tratada – enfraquece fortemente o argumento em favor da realização de testes
com placebo (sem o tratamento inovador). Afinal, esses pacientes já constituem
um enorme grupo de comparação: conhecemos a história natural da lesão medular,
seus desfechos típicos e seus limites funcionais. Trata-se de um “grupo
controle” imperfeito do ponto de vista estatístico, mas robustíssimo do ponto
de vista empírico – e incomparavelmente mais defensável do ponto de vista
ético.
O uso
de placebo costuma ser justificado com base no princípio da equipoise clínica,
isto é, na ideia de que existe uma incerteza genuína, dentro da comunidade
médica, sobre se um tratamento é superior à ausência de tratamento. Contudo, a
equipoise não é uma condição binária. Ela se reduz à medida que se acumulam
plausibilidade mecanística, evidências pré-clínicas e sinais iniciais em
humanos, sobretudo quando os riscos esperados da intervenção são pequenos em
comparação com a estimativa de dano associada à não intervenção.
Em
lesões medulares, a assimetria é evidente. O risco marginal de tentar uma
abordagem promissora é mínimo diante da perda funcional permanente que decorre
da inação. Nesses casos, negar o tratamento não é neutralidade: é uma decisão
com consequências irreversíveis.
Rigor
ético é incompatível com o fetichismo metodológico. Existem desenhos
alternativos capazes de preservar o rigor científico sem violar
responsabilidades morais básicas: estudos com controles históricos, protocolos
adaptativos, comparações de dose ou de janela temporal, e modelos de acesso
ampliado. Esses métodos podem sacrificar parte da elegância estatística dos
resultados, mas evitam a perversidade ética de desperdiçar uma oportunidade
terapêutica em nome da ortodoxia procedimental.
O risco
maior está em confundir hábito metodológico com necessidade moral. Quando o
método passa a ocupar o lugar da ética, a ciência se protege de
questionamentos, mas se afasta de sua finalidade última: reduzir sofrimento
humano real, aqui e agora.
A
resposta de entidades científicas tradicionais, ao condenar a pesquisa sobre a
polilaminina pela suposta “ausência de grupo de controle randomizado”, não
representa um argumento ético convincente, mas um gesto de cerimonialismo
metodológico que defende a forma em detrimento da urgência humana. Exigir
grupos placebo em pesquisas nas quais o tempo é determinante não é prudência
científica. É evasão moral travestida de rigor.
• As promessas e as polêmicas da
polilaminina
O nome
de um composto biotecnológico se popularizou e dominou discussões na última
semana: a polilaminina. Essa proteína, produzida em um laboratório da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) foi associada à recuperação de
conexões nervosas na medula espinhal, o que pode levar à retomada da função
motora em pacientes paraplégicos ou tetraplégicos.
A
descoberta, considerada promissora, alimentou esperanças. Nas redes sociais,
postagens se referem à polilaminina como uma cura de lesões na medula. Também
foi chamada de "molécula de Deus", por seu formato de cruz. Outros
perfis se declaram fãs da bióloga Tatiana Sampaio, que lidera a pesquisa com a
proteína. Essa comoção fomentou ações judiciais movidas por pacientes para ter
acesso às doses desse medicamento em potencial.
No
entanto, como só foram feitos testes preliminares, não há estudos que comprovem
a eficácia da polilaminina, nem é possível atribuir a ela a recuperação de
pacientes. Por isso, especialistas recomendam cautela em relação aos resultados
divulgados, já que a polilaminina ainda não é um remédio ou tratamento.
Em uma
nota conjunta, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a
Academia Brasileira de Ciência afirmam que "em áreas como a
neurodegeneração, o percurso entre descoberta científica, validação
pré-clínica, ensaios clínicos e eventual incorporação tecnológica é
necessariamente longo, complexo e depende de evidências cumulativas".
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Proteína de regeneração
A
laminina é uma proteína encontrada naturalmente no corpo, em maior abundância
na fase embrionária, e que ajuda a estabelecer conexões entre os neurônios. Ao
longo de anos de estudos, o grupo de pesquisa liderado por Tatiana Sampaio
desenvolveu a forma sintética do composto, extraída da placenta, e verificou
que essa forma melhorada facilitou a comunicação entre os nervos.
Diante
desse dado, os pesquisadores resolveram testar se a polilaminina seria capaz de
levar à regeneração de axônios (parte dos neurônios que carrega informações
entre as células) e servir de ponte para o tráfego de comandos e informações
via impulsos elétricos. Por isso, o passo seguinte foi avaliar a resposta de
animais com lesões medulares ao medicamento experimental.
Em um
artigo de 2010, os autores descrevem que após o uso da polilaminina em ratos
com lesão medular, foram observados a melhora da locomoção e efeitos
anti-inflamatórios do composto. Entre 2016 e 2021, em um estudo piloto, oito
pacientes receberam a injeção de polilaminina até três dias depois de machucar
a coluna. Dois pacientes morreram depois da aplicação, mas por causas que não
estavam relacionadas ao tratamento. Os demais, recuperaram parte dos
movimentos.
Depois,
em 2025, o grupo publicou estudo com seis cães paraplégicos. Apesar de a lesão
ser crônica, quando se forma uma cicatriz que dificulta a regeneração neuronal,
houve melhora na função motora.
Os
resultados do estudo em cães foram publicados em um periódico veterinário. Já
os resultados dos testes em humanos foram descritos em um pré-print, ou seja, o
conteúdo não passou pelo crivo de outros cientistas, que é uma das etapas para
validação do estudo. Os próprios autores reforçam que, por isso, o material não
deve orientar tratamentos.
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Fragilidades das evidências
O
pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq), Leonardo Costa, especialista em fisioterapia, reforça que, embora haja
resultados positivos para a ação da polilaminina em células neuronais em
animais, no corpo humano a reação pode ser diferente por conta da complexidade
dos sistemas do nosso organismo. Por isso, os relatos de melhora são
controversos.
Costa
afirma que o grupo de pacientes avaliados é muito pequeno. "O hype é
desproporcional ao volume de evidência." Ele explica que o avanço na
condição motora é esperado em 30% dos casos de lesão na medula e mesmo
pacientes graves podem recuperar movimentos ao longo do tempo, se o tratamento
considerado como padrão-ouro for seguido (cirurgia para reposicionar a coluna,
medicação e fisioterapia).
Logo,
sem um grupo de controle, não é possível distinguir se a melhora da lesão
completa aconteceu porque o edema ou o choque espinhal (falta de
sensibilidade), por exemplo, retrocedem, e a conexão neuronal é restabelecida,
ou se foi a ação da polilaminina que permitiu a retomada da comunicação entre
neurônios na região lesionada.
Em
ensaios clínicos, há pelo menos dois grupos avaliados: o experimental, que
recebe o tratamento; e o controle. No caso da polilaminina, isso pode
significar que parte dos voluntários sorteados para o primeiro grupo vai
receber a injeção, e os integrantes do segundo vão ser tratados segundo o
protocolo atual, com cirurgia e reabilitação. A comparação entre os resultados
indica se a polilaminina teve efeitos ou não.
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Do laboratório à injeção
A
comparação entre o grupo estudado e o grupo controle só deve acontecer depois
que a polilaminina for aprovada nos testes clínicos de fase 1, que avaliam se o
composto é ou não seguro para o uso em humanos. Em janeiro, a Agência Nacional
de Segurança Sanitária (Anvisa) autorizou os testes.
Ao
todo, cinco voluntários de 18 a 72 anos vão receber uma dose da polilaminina
quando derem entrada em hospitais para cirurgias na medula espinhal por conta
de lesões. Depois, a ação da proteína será analisada em ensaios clínicos de
fase 2 e 3.
Na
segunda etapa, centenas de indivíduos com a lesão recebem as doses para testar
a eficácia. Uma parcela desses participantes é sorteada para o grupo controle.
Na terceira, a população é ampliada para uma amostra mais representativa.
Se os
resultados forem positivos, o Cristália, laboratório que firmou parceria com a
UFRJ para a produção da polilaminina, pode submetê-los à Anvisa para enfim
obter o registro do medicamento. Esse processo costuma levar de cinco a dez
anos para ser concluído. Até lá, o produto não pode ser comercializado.
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Judicialização
Diante
da comoção em torno da polilaminina, e o reforço da ideia de que a proteína
promove a melhora dos quadros de lesão medular, pacientes ingressaram com ações
na justiça de vários estados para o acesso compassivo às doses. Em casos em que
não há alternativas de tratamento, uma norma da Anvisa permite que os pacientes
acessem medicamentos em fase experimental ou sem registro.
De
acordo com a agência reguladora, até essa sexta-feira (27/02), 56 pedidos do
tipo foram submetidos ao Judiciário e 33 pacientes já foram autorizados a
receber as doses. Leonardo Costa afirma que esse cenário pode contribuir para
que os pacientes prefiram recorrer à Justiça a participar de ensaios clínicos,
pois poderiam ser sorteados para o grupo controle (que não recebe a
substância). Isso pode atrasar o desenvolvimento do medicamento, já que leva
mais tempo para recrutar voluntários.
"Isso
prejudica porque recursos da pesquisa são deslocados para pessoas que não são
elegíveis, só porque tem um juiz mandando", diz Costa. "Enquanto
pesquisador, você não tem confiança de que a cirurgia foi feita da mesma forma;
vai ter casos bons e ruins."
A
presidente da SBPC, Francilene Procópio diz que há risco de se repetirem erros
cometidos em relação ao uso de cloroquina para tratar a infecção pelo
coronavírus, por exemplo, ou a da falsa pílula do câncer, a fosfoetanolamina,
quando resultados preliminares positivos levaram ao uso de medicamentos que em
testes mais robustos se mostraram ineficazes.
"É
importante que a gente não se precipite por uma pressão da sociedade sobre algo
que ainda precisa cumprir com muita transparência metodológica",
acrescenta Procópio.
Fonte:
Daniel Negreiros Conceição e Lucien para o Le Monde/DW Brasil

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