Minerais
críticos são ‘uma nova fronteira de tensão’ para geopolítica, afirma Glauber
Carvalho
“Não
basta ter a reserva, tem que ter capacidade técnica, política e econômica para
utilizá-la. Então, é uma nova fronteira de tensão”. É o que analisa o doutor e
especialista em economia política internacional e professor e coordenador de
Relações Internacionais da Universidade Federal de Roraima (UFRR), Glauber
Cardoso Carvalho, sobre as disputas internacionais em torno dos minerais críticos e
terras raras,
recursos fundamentais para transição energética e para tecnologia mundial.
Nesse
cenário, marcado pela disputa crescente
entre Estados Unidos e China pelo controle das cadeias de minerais
críticos, o Brasil ocupa uma posição fundamental: é o segundo país
com a maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China. Na
última semana, o presidente Lula (PT) assinou acordos de
cooperação com a Coreia do Sul e a Índia, na tentativa de articular novas parcerias
comerciais e atrair investimentos para exploração e processamento dos
recursos.
Em
entrevista à InfoAmazonia, Carvalho, doutor pela Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor do livro “A política externa brasileira em
disputa: agentes e mecanismos do processo decisório na era Lula”,
avaliou como Estados Unidos e China disputam influência
sobre países com reservas estratégicas e quais são os limites e possibilidades
do Brasil diante desse novo cenário de competição global.
“Nesse
embate, a capacidade de barganha do Brasil é limitada, ainda que tenha reservas
estratégicas. Se não investir para desenvolver sua própria capacidade
industrial e tecnológica, a gente vai sofrer pressão tanto dos Estados Unidos
quanto da China sobre quem controlará a exploração e o processamento desses
recursos”, disse.
Além da
disputa internacional pelos recursos estratégicos, o professor analisou a invasão dos EUA na
Venezuela e
seus impactos, o interesse
estadunidense no petróleo na Amazônia e a atuação do Brasil nas relações
diplomáticas internacionais. Glauber tem 14 anos de experiência no
terceiro setor, é Editor-chefe da Revista Diálogos Internacionais, membro
do Conselho Editorial da Editora UFRR e do Núcleo Amazônico de Pesquisa em
Relações Internacionais (Napri).
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Eis a entrevista.
·
Há mais de um mês os EUA invadiram a Venezuela. Dá para
fazer alguma avaliação sobre os efeitos na geopolítica na tríplice fronteira
após essa intervenção norte-americana?
Primeiro,
é preciso começar pontuando que naquele momento foi desafiador para análise.
Aliás, ainda é, dado que as coisas e as mudanças acontecem rapidamente em
termos de decisão dos Estados Unidos. Mas, primeiro de tudo, os
Estados Unidos cometem uma infração ao direito
internacional.
É preciso pontuar isso. A infração ao direito internacional é invadir e atacar.
Não só invadir, como atacar estruturas e pessoas de um outro país,
cuja soberania é o princípio que rege as relações internacionais. A
ideia é que os Estados sejam autônomos para a realização das suas ações, ainda
que a gente possa ter todas as críticas contra um Estado em específico ou um
governo de um Estado específico.
Agora,
uma vez que ele entrou na Venezuela, na circunstância em que entrou,
negociou: “ok, vamos extrair uma pessoa [Nicolás Maduro]. Não vou colocar o
opositor agora. Deixa acontecer, vamos ver o que vai acontecer. Garanto minha
posição estratégica com o petróleo, que é o que eu quero naquele lugar”.
Mas não é só petróleo, há outras coisas na Venezuela, inclusive terras raras e
mais ouro. Existem outras circunstâncias, mas o petróleo é o principal.
Então,
por que ele não vai avançar mais alguns quilômetros e entrar
no Brasil ou na Guiana, que têm petróleo, ou descer para
a Colômbia, que seria a primeira parada estratégica
dos Estados Unidos? E por que não o resto do continente, no final?
Veja, não é um jogo de War em que ele vai pegando posições, não é isso. Também
não é um colonialismo original do século XVI. Não é sentar aqui, colocar um
rei, um presidente novo para vocês, esse rei americano, esse presidente. Também
não tem essa característica. É “tomem, se controlem e me sirvam, sirvam aos
meus interesses estrangeiros estratégicos”.
Hoje em
dia, depois de um tempo, a gente entendeu que tudo envolve minerais
estratégicos.
Fazendo uma verificação em termos gerais — baterias, painéis solares, turbinas
eólicas, veículos elétricos, semicondutores, equipamentos médicos, sistemas de
defesa, satélites, infraestrutura digital e toda a evolução da inteligência
artificial — tudo depende desses produtos e desses recursos.
São recursos
raros, porque de fato não estão disponíveis em todos os lugares. Além disso,
são de difícil extração: nem todos os países têm capacidade técnica para
prospectar, identificar sua existência no território e realizar a exploração.
Esse tema também aparece em outros debates, inclusive no ambiental.
Nesse
contexto, ter reservas e ter capacidade de barganha e de utilização desses
recursos, porque não basta ter a reserva, tem que ter capacidade técnica,
política e econômica para utilizá-la. Então, é uma nova fronteira de tensão.
·
Aqui na Amazônia a gente já sabe que tem minerais
críticos mapeados. Com essa invasão também há um risco para o Brasil já que
existe um interesse dos EUA nesses recursos?
Na
“circunstância Trump”, me parece ser um risco. Ele pode mudar isso de hoje
para amanhã, mas o Trump trabalha com alguns cenários na minha
percepção e na percepção geral. O cenário geral de oposição ou
de dominação hegemônica que bate em pontos específicos do globo que
ele trata, que tratará nessa circunstância, numa nova política de segurança
internacional deles, como fundamentais.
Estou
citando, por exemplo, a Groenlândia aqui. Ele
entende que a Groenlândia está no meio do caminho entre o hemisfério
geopolítico e a massa do que seria a Eurásia, do que seria
o Oriente. Isso é uma circunstância geopolítica, territorial mesmo. Se eu
domino esse ponto, essa terra, eu chego mais perto do meu inimigo e, ao mesmo
tempo, consigo estar mais pronto a um ataque.
A outra
coisa é dominar recursos que vão levar a capacidades posteriores. O que eu
quero dizer? Não é uma coisa que você pega e usa. É um processo. Então, há a
possibilidade de que ele queira garantir [os minerais críticos]. A gente sabe
que o Brasil é a segunda maior reserva de terras raras, de minerais.
A China é a primeira, o Brasil vem depois. Ele [Trump] está do lado,
já chegou do lado, na Venezuela. Então, é possível.
Eu vejo
ele entrando no Brasil? Não vejo ele entrando no Brasil assim “vou pegar um
pedaço”. Até porque não está concentrado aqui na Amazônia. A Amazônia é
uma parte importante, mas tem Minas Gerais, subindo para Goiás, onde
originalmente era território de mineração, e chegando aqui, que tem outras
coisas, tem ouro também. Então, seria um jogo que passaria pela barganha
econômica e financeira, na minha percepção, mais do que uma incursão direta
como na Venezuela.
Não
vejo essa circunstância [de invasão], mas dentro dessa racionalidade complexa
que ele trabalha, acho que o Brasil tem uma distinção nesse cenário, não por
ser uma potência regional ou qualquer coisa do gênero, mas por ser um país
consolidado como um país importante para as relações internacionais de uma
forma geral. Então, o que é possível fazer? Continuar barganhando em torno do
comércio e da tarifa e, no limite, produzir mais efeitos de mercado, ou seja,
mais questões comerciais para que o Brasil ceda cada vez mais.
Por
exemplo, na questão da terra e dos minerais
estratégicos.
Está sendo formulada uma lei, ainda não existe uma lei consolidada. O texto vem
sendo alterado; não acompanhei tudo de perto. Mas a proposta não é uma
nacionalização nem exatamente uma reserva de mercado, mas uma espécie de
exigência de que cerca de 80% da produção, incluindo processamento, seja
realizada no Brasil.
Pensando
em um cenário possível: o que os Estados Unidos poderiam fazer
para garantir seus interesses? Poderiam atuar para que não fosse aprovada uma
regra de 80%, mas algo como 20%. Em vez de assegurar 80% da produção e do
processamento ao Brasil, reduzir essa exigência. Eles ampliariam a capacidade
de atuação no território brasileiro. Evidentemente, sabem que competiriam com
a indústria chinesa de processamento de minerais, que já é forte
nesse setor e entrariam em uma disputa direta.
O Brasil ocupa
uma posição complexa. Uma parcela significativa da polarização interna enxerga
os Estados Unidos como modelo a ser seguido e interpreta qualquer aproximação
com a China como algo negativo, ideologicamente associado ao “comunismo” ou à
esquerda. Nesse embate, a capacidade de barganha do Brasil é limitada, ainda
que tenha reservas estratégicas. Se não investir para desenvolver sua própria
capacidade industrial e tecnológica, a gente vai sofrer pressão tanto dos
Estados Unidos quanto da China sobre quem controlará a exploração e o
processamento desses recursos.
·
Ainda nessa discussão de recursos naturais, sabemos que o
Brasil já explora petróleo na Foz do Amazonas e que teremos eleição para
presidente este ano. Nesse cenário, podemos ter um presidenciável com uma
postura mais permissiva com os Estados Unidos. Ficou claro que o Trump entrou
na Venezuela com interesse no petróleo. Como você acha que pode ser essa
relação do Brasil com exploração de petróleo na Amazônia e um presidente mais
alinhado com o interesse dos EUA?
Eu acho
que nessa circunstância que você está perguntando a gente vai ter exploração de
petróleo aqui.
Como ela vai ser feita, método, que é a preocupação que a gente precisa focar.
Eu acredito que os próximos presidentes, mais ou menos permissivos, vão e
precisam encontrar uma saída para fazer a exploração do petróleo, pela falta de
alternativas, inclusive, mas isso não é justificativa. Ultrapassando leis
ambientais? Pode ser. Cooptando a elite local que vota lá na na Câmara, no
Senado?
Para
sistematizar: vai fazer ou não vai fazer? Vai fazer. Como fazer? A gente entra
na questão dos Estados Unidos. O “como fazer” é que certamente impactará na
forma como os processos que vão sair desse fazer vão ser distribuídos para a
sociedade brasileira e sobretudo as locais. Então, quais são as formas que a
gente tem de fazer? Com a exploração nacional ou compartilhando isso com quem
tem expertise, tecnologia, capacidade? Que é o caminho mais óbvio para uma
sociedade que trata o estado nacional como um ente falido.
Nessa
polarização entre Estado forte e Estado fraco, o neoliberalismo, em seu
sentido mais clássico, defende que o Estado deve reduzir sua intervenção na
economia, deixando que o mercado a conduza, em vez de guiá-la diretamente.
Aquele que é contrário ao Estado forte defende a ideia de que se abre para a
concorrência e vence quem tem mais capacidade. Quem tem mais capacidade não
será brasileiro. Será norte-americano, não necessariamente, pode ser chinês,
pode ser europeu. Mas será capital estrangeiro.
·
Mas essa postura de exploração esbarra no próprio
discurso que o Brasil teve durante a COP30, de se mostrar uma liderança para o
fim dos combustíveis fósseis, com a tentativa de um mapa do caminho.
É, mas
a Petrobras deixou bem claro que a transição energética se dará com
base na abertura de novos caminhos, mas o caminho do petróleo vai até onde for
tecnicamente possível. A ideia de transição é válida. A China, com muito
dinheiro, tem feito um investimento em outras fontes de energia muito maior. E
o Brasil ainda está nesse sistema tradicional. Isso é uma questão interessante
em perspectiva comparada.
O
desenvolvimento da Venezuela, por exemplo, foi baseado na indústria do
petróleo. A indústria do petróleo tem uma característica específica, que é
monopolizar a renda do espaço onde se estabelece, monopolizar a atenção e,
portanto, ser o carro principal do desenvolvimento do país em que surge,
sobretudo em um país relativamente menor em comparação a outros, ainda que seja
um país grande. Foi isso que aconteceu no sistema econômico venezuelano, a
“maldição do petróleo”.
A
partir do momento em que o petróleo se valoriza e entra em um processo
constante de crescimento, associado aos processos de revolução industrial, ele
se torna o carro-chefe dos transportes e dos combustíveis de forma geral, não
há estímulo para a criação do que se chama de complexidade econômica. Não se
diversifica e essa sociedade que interage com esse sistema tem opções reduzidas
de onde e do que fazer com essa sociedade.
Ele
[petróleo] acaba gerando um processo de concentração de renda, sobretudo, nas
elites ligadas aos setores que controlam o petróleo, sobretudo ao Estado
Nacional, mas também as empresas, no caso do da Venezuela, que
inicialmente tinha participação realmente dos Estados Unidos.
·
Voltando agora para a atuação do Brasil na política
externa. Desde o começo desse conflito entre os Estados Unidos e a Venezuela, o
Brasil tem adotado uma postura que costuma adotar em outros conflitos, uma
postura mais apaziguadora. Esse comportamento fortalece a posição brasileira
nas disputas de poder ou fragiliza a capacidade do país de influenciar os rumos
políticos e geopolíticos na América do Sul?
Acho
que, para a América do Sul, manter a posição tradicional do Brasil é
importantíssimo. Seria motivo de destaque nesses termos, ou de demonstração do
que o Brasil tenta ser desde sempre: um líder da região, embora já ciente de
que não consegue e não tem instrumentos suficientes para isso, uma liderança
sub-regional. Então, se ele se utilizasse de instrumentos que corroboram com a
perspectiva dos Estados Unidos, estaria saindo da rota da política externa e da
diplomacia tradicional do Brasil, desde o Barão do Rio Branco.
A gente
estuda a política externa a partir, muito fortemente, da descrição da história
da política brasileira, também conforme o país se alinhava ou se desalinhava
aos Estados Unidos. Então, temos essas circunstâncias e vamos percebendo, nas
análises e nas pesquisas, que pode haver mudança e um maior afastamento dos
Estados Unidos, mesmo em momentos democráticos, mesmo em momentos ditatoriais.
Independentemente dessa movimentação, a tradição do Rio Branco sempre foi o
respeito à soberania, à autonomia dos povos e à não utilização da força.
Se eu
sou muito enfático ou contrário, estou dizendo que tenho alguma relação
com Maduro a ponto de sugerir que o que foi feito é mais grave do que
realmente aconteceu. Se eu sou neutro, se não falo nada, também há um problema:
posso estar demonstrando falta de empatia com o povo e com a circunstância
venezuelana, ou demonstrando concordância com o que os Estados Unidos fizeram.
Então,
o que precisava ser feito, acho que foi feito no sentido de condenar o ato. Ele
nem requisitou a integridade física do Maduro, não houve esse aspecto. Mas foi
dito que aquela situação não deveria evoluir, houve algo nesse sentido. Isso já
é um recado. Acho que foi no limite de “vamos deixar para ver o que vai
acontecer na sequência”, mas ainda assim, foi muito pouco.
·
Para finalizar, o que significa a presença dos Estados
Unidos em um país amazônico como a Venezuela?
Quando
ele entrou, havia o receio de que se tornasse o controlador. Tanto que
o Trump disse, como uma das primeiras coisas, que colocaria Marco Rubio para governar.
Depois vimos que a negociação não foi bem essa. Ele está presente agora,
tecnicamente, como um sócio majoritário. O que, por muitos anos, já havia sido
a Colômbia, alguns outros países, como o próprio Peru e a Argentina, já tinham
um alinhamento muito grande com os Estados Unidos.
Não
diria que ele está presente de forma permanente. Ele está extraindo, colocou um
mecanismo para extrair o que houver para extrair dessa sociedade. Inclusive,
palavras do Marco Rubio: “Não estamos fazendo nada pelo povo venezuelano,
estamos fazendo pelos interesses norte-americanos”.
Então,
essa presença massiva dos Estados Unidos dentro da Venezuela
gera tensão nesse espaço. A incerteza é pior do que a presença. Se fosse uma
presença declarada, se ele dissesse: “Eu quero o controle, vou ficar, vou
governar, vamos ter novas embaixadas, vou colonizar ou recolonizar”, isso
geraria uma nova circunstância e teríamos que lidar com isso.
Não é,
a princípio, um jogo de War. Ele não está ganhando a Venezuela para
depois ganhar a Colômbia e depois o Brasil. Mas, como não
sabemos o que ele pode fazer, isso é perigoso para todos. É perigoso e é tenso.
Talvez por isso seja necessária uma ação diplomática maior. A ação diplomática
não evitaria, caso os Estados quisessem agir, mas serviria para ampliar o
diálogo e reduzir danos. Qual é o menor dano possível em caso de guerra, por
exemplo? Não sei nesse nível de análise, mas essa não é a questão central.
O fato
é que é tenso. E existir em um ambiente tensionado, como qualquer pessoa na
vida, não é adequado. Viver tensionado pode levar, em termos de teoria dos
jogos, a não tomar a melhor decisão possível, diferente de um estado de
negociação claro, em que se entende o que a outra parte quer, se colocam as
opções na mesa e se realiza a negociação. Se você não sabe do que a outra parte
é capaz, sua decisão não é baseada na melhor escolha possível, mas apenas no
que é viável naquele momento. Isso é muito ruim para a política internacional.
É
preciso planejamento de longo prazo. É preciso pensar no futuro, nas eleições,
nas próximas movimentações. Tudo isso com um vizinho que pode vir a ser
beligerante [que está em guerra]. Tensão, em nenhuma circunstância, é positiva
para a política internacional. Nesse sentido, é tenso, e ele mantém a tensão.
Fonte:
Entrevista para Samantha Rufino, em InfoAmazônia

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